Paredes de ar

27 Claro que sabia, mas esqueceu


Um respiro.

Ela sabia.

Sempre soube.

Mas esqueceu.

E o esquecer agora é mastigado e cuspido pelas batidas nos seus ouvidos.

Ela sabia.

E o saber é sempre um tormento.

O esquecer é uma benção disfarçada que adia o inevitável e o confirma como inevitável, já que sem pensar sobre ele não surgem soluções.

Ela sabia.

E agora o saber se torna sentir.

E o sentir se torna matéria.

A matéria tini em seus ouvidos.

O tinir é o tempo.

O tempo é a morte.

E a morte não é o fim. Não para ela.

Ela sabia.

Claro que sabia.

A lágrima caída é a lágrima de quem sempre soube, mas ignorou.

O saber se torna remorso.

O remorso dor.

E a dor, sentida em excesso, anestesia.

E a anestesia se torna esquecimento.

O esquecimento se parece com ignorância.

Exceto quando se lembra.

E ao lembrar tarde demais retorna o remorso.

Ela sabia.

Sempre soube.

Mas não importa.

Porque Ayla está morta.

E ela não.