Paredes de ar
28 A vingança é...
A vingança era o formigamento nas pontas dos dedos, o sorriso que tinha de mastigar devagar, o tic-tac do relógio enquanto a contagem dos passos aumentava a cada batida. O ar era repleto de incensos queimados por chama azul, ocultando o odor dos pecados e o perfume que ele propositadamente tinha derramado no carpete em uma atuação de desolação.
A vingança era uma mistura de sabores difícil de definir e, por isso, ante a conclusão não podia apenas dizer estar "satisfeito"; era amargo, apimentado, doce, azedo, macio ao mastigar, mas áspero ao engolir. Era um tudo indefinível e por ser indefinível ele se sabia vivo.
Porque o definido tinha um quê de mentira, como as frases fáceis ditas na primeira infância que tentam resumir o absurdo num consolo que visa fortalecer, ao mesmo tempo que cega e aprisiona.
A vingança era um estado de espírito mais do que um ato. E agora vingado ele era inteiro estado, sem passado nem futuro, construído todo para aquele momento. Momento que, na sua intocabilidade, era eterno e por ser eterno existiria mesmo quando ele morresse.
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