Paredes Brancas

1 Capítulo único


Começou quando tinha três anos e não podia ter uma pista de carrinhos. Era coisa de menino. Não podia ter o boneco que lutava, afinal, era uma princesinha. Princesinhas brincam de Barbie, de chazinho, não de boneco. Começou a achar sua voz grave demais, suas mãos grandes demais. Princesas não são assim, ora. E foram colorindo seu mundo de rosa, com muito brilho e flores. Coisas de menina. Não podia ser diferente.

Foi crescendo, princesinha. Mas não podia se interessar por meninos ainda, era nova demais, disse-lhe o pai. Não podia descobrir o que era aquilo agora. Não, não, não. Não podia sair sozinha com um garoto, não era coisa de mocinha. Não podia dormir na casa da amiga, não era coisa de menina criada bem. Não podia.

Você tem tudo, lhe disseram. E tinha tudo que quisesse, contanto que eles quisessem também. Que fosse agradável, bonito, comportado. Tudo bem? Não devia reclamar. Por que estava chorando?! Ora, não tinha motivos. Não podia chorar.

Pare de comer tanto, está bem? Seja magra, ser gorda não é coisa de moça, ouviu alguém falar. Não se sentia bem consigo. Se achava feia, gorda, desencaixada. Sendo, ou não. Não importava o que visse no espelho. Devia agradar a eles. E parar de reclamar. Não tinha motivos. Não podia.

Tinha sonhos? Sim. Mas não importava. Precisava ser bem sucedida. Gritavam-lhe: o mundo espera muito de você, mostre a eles. Espere, se vista melhor, antes. Tem que ser bonita. Isso está muito curto, muito largo, muito jeans, muito largado. Não é coisa de mulher. Pare de resmungar! É pro seu bem! É o melhor pra você! Você não pode recusar!

Desistiu do que mais queria.

Desistiu do que era.

Virou mais uma.

Mas agora era uma mulher.

Pra quê? Não sabia. Quais as vantagens? Não fazia ideia. Vai casar em algum sábado de verão. Com algum homem que pensa amar. Os pais estão tão orgulhosos! A sala do apartamento já está decorada. Olhe como sorri agora. A decoração é tão ela... paredes brancas com desenhos em vermelho sangue. Vivo.

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