Paraíso secreto
1 01. Recomeço
Notas iniciais
Domingo, 23h30min.
A chuva estava forte lá fora. Estava encolhida no sofá, assistindo um filme qualquer enquanto esperava meus pais chegarem. O telefone tocou e eu corri para atendê-lo.
– Sim?
– Senhorita Holmes?
– Sou eu. Quem fala?
– Sou o policial Winston, é sobre seus pais. – Se havia um sorriso no meu rosto antes, agora ele desaparecera.
– O que aconteceu?
– Eles sofreram um acidente de carro.
– Eles estão bem? — As lágrimas se acumulavam em meus olhos.
– Estão mortos.
Capítulo 1
Já fazia duas semanas desde o acidente, o enterro já havia acontecido e eu estava na casa de uma das minhas primas. No dia seguinte eu estaria indo embora para outra cidade, morar com minha tia. Ela era viúva, tinha um filho que estava na faculdade. Morava sozinha. Era irmã da minha mãe, e foi com quem eu decidi ficar. Arrumei tudo o que era meu, e me deitei. A imagem dos meus pais naquela estrada, seus corpos estirados no chão, molhados por causa da chuva, me assustava. Na primeira semana eu não conseguia dormir, agora já estava melhorando. Eu chorava um pouco, mas pegava no sono. O cansaço vencia.
O despertador tocou, abri os meus olhos e observei que eram oito da manhã. Fui para a cozinha, tomei o meu café da manhã. Minha prima, Melanie, me ajudou com o restante das coisas. Nós sempre fomos unidas, pude contar com ela sempre! Não queria partir e deixa-la, mas era necessário.
– Ligue para mim Leah, quando quiser.
– Pode deixar. – Sorri e ela me abraçou.
Ouvimos uma buzina, era a minha tia, Emma. Coloquei as malas no carro e me despedi de Melanie. Ao entrar, minha tia sorriu para mim. Eu fiz o mesmo. Coloquei meus fones de ouvidos e deixei as músicas tocarem aleatoriamente. Acabei pegando no sono. Dormi a viagem inteira, o que foi bom, pois evitei conversas. Não gostava de falar sobre como eu estava, as pessoas não ligam para isso. Uma hora e meia se passou e nós chegamos, finalmente!
– Aqui está. Bem vinda, querida. – Minha tia me ajudou com as malas. A casa era enorme, cinco quartos, uma sala enorme, fora o jardim que era maravilhoso. Subimos as escadas até um corredor, ela parou em frente á terceira porta do lado direito. – Este é o seu quarto.
Ao abrir a porta, me deparei com uma cama, algumas prateleiras, uma escrivaninha e um guarda-roupa enorme! As paredes eram beges, e os móveis todos marrom claro. Tinha um tapete azul no meio do quarto, uma porta no canto do quarto dava acesso ao banheiro. Tudo tão... Perfeito.
– Obrigada, muito obrigada. – Sorri e ela me abraçou.
– Eu estarei lá em baixo. Fique a vontade, querida. – Ela piscou e saiu.
Passei o resto da manhã arrumando minhas coisas, no dia seguinte iríamos fazer a minha matrícula no colégio que havia ali perto. Quando terminei, era hora do almoço. Desci e encontrei uma mesa enorme com muita comida.
– Somos apenas nós duas, não é?
– Meu filho vem almoçar conosco hoje, e ele irá trazer a namorada.
– Ah... Eu posso almoçar lá no meu quarto, não quero incomodar. – Falei mordendo o lábio inferior.
– Minha querida, você é dá família! Não está incomodando ninguém, sente-se, fique á vontade. Eles já devem estar chegando. – Ao terminar de dizer a frase, a campainha tocou, ela me olhou e sorriu. Levantei-me e fui até o meio da sala cumprimenta-los.
Ao abrir a porta, pude ver o casal. Meu primo, James, e sua namorada, Érica. Ele era alto, forte e bonito. A garota era alta também, tinha cabelos loiros e longos, seus olhos eram castanhos. James sorriu a me ver, e veio me abraçar. Em seguida, Érica fez o mesmo. Ao tocá-la, meu corpo estremeceu. Ela estava gelada, parecia que tinha ficado no ar-condicionado por algumas horas. Ela sorriu para mim, seu sorriso era perfeito. Em sua pele não havia uma imperfeição. Ela era perfeita! Sentamo-nos para comer, conversamos e ao terminar nos sentamos na sala para conversar. James contou sobre a faculdade, como estava sendo uma experiência ótima. Érica também fazia faculdade, estava no primeiro ano de Design. Contei sobre o que eu pretendia fazer, sobre a faculdade de jornalismo e a viagem para outros países que eu sempre desejei. Já eram três da tarde quando James e Érica foram embora. Voltei para o meu quarto e tirei meu computador da bolsa. Trouxe tudo que era meu. Notebook, celular, Playstation, revistas, gibis, livros, bolsas, CD's, cadernos de desenhos, porta-retratos e vários álbuns. Entrei na internet e procurei sobre o tal colégio no qual eu entraria. Tinha dezessete anos e estava no segundo ano. O nome da escola era Charleston, [n\a: foi o primeiro nome que me veio á cabeça, desculpem] não era muito grande nem muito pequena. Horário integral, cantina, sala de música, computação, cursos complementares. Ótimo, escrita estava entre esses cursos. Desliguei o computador e deitei na cama. Adormeci.
Minha tia veio até meu quarto para avisar que o café da manhã estava pronto. Fui até o banheiro e quando olhei no espelho eu estava horrível. Joguei água no meu rosto, prendi o cabelo. Desci as escadas e me deparei com uma mesa incrível! Frutas, suco, leite, cereal, pão... Lembrei-me das manhãs com os meus pais, respirei fundo e continuei a descer as escadas. Após comer, tomei um banho e fomos até a escola fazer a matrícula. Era quarta-feira, havia alguns alunos no pátio, a maioria estava indo em direção as salas. Emma ficou cuidando de toda a papelada, enquanto eu aproveitei para andar pelo colégio. Seus corredores, agora vazios, eram enormes. Ao chegar ao final do corredor, percebi o enorme jardim que havia ali, e que após a cerca havia uma floresta. Tentei ignorar, porém a minha curiosidade falou mais alto. Andei pelo jardim enquanto uma suave brisa batia no meu corpo, me fazendo arrepiar ás vezes. Parei de andar ao escutar alguns sussurros. Eram duas pessoas conversando. Andei devagar, tentando não fazer barulho, até que pude avistar as duas pessoas: Érica e outro garoto.
– Como assim? Eu falei pra você tomar cuidado, não entendeu que eu não posso ficar cobrindo seus rastros para sempre?
– Não vai acontecer de novo... – O garoto parou de falar e me olhou, tentei me esconder, mas era tarde demais. Ele tinha me visto. Corri para a entrada do colégio, fechei a porta e soltei um suspiro. Andei até a secretaria, entrei e me sentei. Alguns minutos depois o tal garoto entrou também. Ele me encarou por alguns segundos e eu desviei o olhar, evitando contato visual. Ótimo, Leah ele está te encarando! Os olhares deles começaram a me incomodar, levantei-me e fui até Emma.
– Falta muito? – A pergunta pareceu mais uma súplica. Algo do tipo “vamos embora, agora! Por favor...”, mas ela não entendeu.
– Não querida, vou só assinar esses papéis. – Perfeito. Ela assinou e eu não esperei. Virei-me para sair daquela sala, de preferência sem olhar para o tal garoto, mas acabei esbarrando com ele e quase caindo. Ele foi rápido e me segurou. Senti seus olhares sobre mim mais uma vez.
– Eu... Desculpa. – Olhei para ele, seu rosto era perfeito, seus olhos amarelos, quase laranja. Seus cabelos eram pretos. Suas mãos geladas seguravam os meus braços, ele tinha a mesma temperatura que Érica. Levantei-me e saí, fui até o carro sem dizer nada.
– Vamos comprar seu material, estou com a lista aqui. – Emma falou erguendo um papel.
– Não precisa gastar com isso, eu posso comprar com o meu dinheiro...
– Leah, minha querida, você é responsabilidade minha, deixe-me aproveitar! Sabe vir aqui hoje me lembrou de James e de quando ele ainda morava comigo. Ter você aqui me faz bem, eu gosto de sua companhia.
– Tudo bem. – Ela abriu um sorriso enorme!
Fomos até o centro e compramos bolsa, tênis, caderno, livros... Minha tia havia se tornado um poço de felicidade! Eu não a via assim desde... Nunca. Eu nunca a vi assim. Talvez ela se sentisse “mãe” novamente. Talvez seja isso. Chegamos em casa e eu joguei tudo em cima da cama, Emma pediu á empregada que preparasse uma torta para mim, e pediu que eu escolhesse o sabor que quisesse. Escolhi morango, me dava água na boca apenas pensar naquilo. Voltei para o meu quarto e arrumei toda a bagunça que eu deixei quando joguei as sacolas em cima da cama. Lembrei-me de Melanie e resolvi ligar para contar á ela tudo o que havia acontecido, não demorou muito e ela atendeu.
– Alô?
– Oi Melanie.
– Leah! Como você está? – Ela estava feliz com a minha ligação.
– Eu estou bem, e você? – Ouvi um suspiro.
– Estou trabalhando muito, houve um probleminha por aqui... Irei viajar para Paris em algumas semanas. – Escutei uma risada.
– Paris? Melanie, isso é fabuloso! — Um sorriso se formou em meu rosto.
– Eu sei! – Ela riu – Daqui a duas semanas estarei embarcando, vai ter um evento de moda e eles me escolheram. Estou tão feliz...
– Não se esqueça de tirar muitas fotos, me mande todas depois!
– Claro, não vou esquecer. E a tia Emma, como está?
– Um poço de felicidade! Estou me sentindo uma princesa... – rimos – Ela me matriculou na escola hoje, fez questão de comprar tudo novo! Já mandou a cozinheira preparar uma torta do sabor que eu quisesse. Acredita?
– Oh, Deus! – Melanie gargalhou — Ela está radiante com a sua presença. Preciso ir agora, me ligue quando quiser! Se eu não atender é porque estou ocupada, mas retorno quando puder.
– Ligarei sim, se cuide!
Entre nós duas eram cinco anos de diferença, éramos próximas demais. Melanie não tinha irmãs, nem eu, o que nos tornava mais próximas ainda. Acima de tudo, ela era minha melhor amiga, a pessoa a qual eu contava tudo! Não fiquei morando com ela por causa do seu emprego, que exigia muito tempo da sua agenda. E agora com as viagens... Eu não poderia ir com ela e nem perder as aulas.
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