Paraíso Proibido
16 Capítulo 16. Decidida
Notas iniciais
Ísis PDV {Ísis: Ponto de Vista}
Eu poderia afirmar, sem dúvidas, que aquela noite havia sido a melhor de toda a minha vida. Nunca havia sentido nada tão intenso, tão... verdadeiro. E aquilo não era nem um terço do que eu realmente queria com Fernanda. Confesso que não queria que as coisas acontecessem fora do tempo, eu já tinha tudo planejado desde que soube da viagem, era como se minha mente estivesse programada para essas coisas. Mas vê-la tão entregue, tão cheia de desejo tanto quanto eu, não era fácil de suportar. Não pude negar quando ela me pedia daquele jeito, então eu dei aquela "demonstração", como brinquei. E demonstrações como aquela eu poderia dar à ela todos os dias, a todo instante. Ela era simplesmente irresistível, e uma vez que eu já tinha começado aquilo, eu nunca ia conseguir parar, foi realmente um teste de resistência não tomá-la ali do jeito que eu realmente queria. Mas não, as coisas tinham que ser como eu tinha planejado.
Naquela semana no litoral, eu iria oficializar nosso namoro. Tinha montado todo um plano mirabolante, e eu fiquei sorrindo sozinha feito boba na manhã seguinte, quando acordei primeiro que ela e fui para a cozinha preparar o nosso café — eu escolhi preparar um cappuccino, para diferenciar. Como naquele dia não teríamos aula no campus, porque teria a reunião do comitê de educação da faculdade, eu ia me dedicar totalmente à ela. Era a melhor sensação do mundo acordar ao lado dela, ver seu rosto sereno e tranquilo enquanto dormia, sentir seu aroma natural, o cheiro gostoso de seu cabelo... Eu podia facilmente arrumar minhas malas e ficar ali para sempre, e embora fosse loucura isso, realmente já me havia passado pela cabeça. Mas, quanto ao meu plano mirabolante, era até simples: eu iria pedir Fernanda em namoro, oficialmente. Já tinha planejado de mais tarde naquele dia ir comprar as alianças de compromisso, eu queria que fosse o mais formal possível, com todos os clichês que tínhamos direito. Eu diria à ela que ia até meu apartamento fazer a mala para a viagem, e aproveitaria para fazer isso sem que ela soubesse. Achei que ia dar certo.
Pensando em todas essas coisas, eu peguei minha carteira e desci até a padaria ao lado do prédio para comprar pães fresquinhos. Acho que uns quinze minutos depois que eu já havia voltado e estava na cozinha, escutei barulho no quarto. Apurei os ouvidos para tentar ouvir se Fê já tinha levantado, e pouco tempo depois pude ouvir o chuveiro sendo ligado — no banheiro dela; ela havia entrado no banho. Pela milésima vez naquele dia que mal havia começado, eu sorri sozinha, ao imaginá-la. Me concentrei no café da manhã, e o banho dela não durou mais que dez minutos. Depois que eu já tinha colocado a mesa, ela apareceu na cozinha. Estava com o cabelo preso em um coque mal-feito, mas que combinava perfeitamente com ela, com uns fios rebeldes caídos aqui e ali, usando um shorts curto e uma camiseta meio larga; mas a coisa mais linda nela era aquela carinha de sono, combinada ao sorriso que ela abriu ao me ver. Veio até mim e eu a envolvi em meus braços, dando um beijo rápido em seus lábios em seguida.
– Bom dia — ela disse num murmúrio, sorrindo.
– Bom dia, pequena — retribuí o sorriso. — Dormiu bem?
O sorriso dela se tornou meio divertido, travesso.
– E quem não dormiria depois de ontem? — perguntou com divertimento. — Tive a melhor noite de sono da minha vida!
Ri de leve, achando extremamente bonitinha a carinha que ela fazia.
– Mas, amor, isso não foi nada. Sua melhor noite ainda está por vir — falei com um sorriso levemente malicioso.
– É, e eu ainda nem comecei a me preparar! Mas vou me empenhar nisso — respondeu, piscando para mim. Ela alternou o olhar entre a mesa e eu. — Você fez o o café hoje, é? Olha só, foi até na padaria! — deu um sorriso, enlaçando os braços em meu pescoço. — Muito dedicada minha namorada, impressionante.
Eu sorri e a envolvi seu corpo em meus braços e levei meu nariz até seu pescoço, puxando o ar com força ali. Eu já tinha dito que adorava o cheiro dela? Ela encolheu o ombro, rindo de leve, a pele arrepiando um pouco.
– Isso não pode — disse fazendo bico.
– E por que não?
– Porque me arrepia! Aí é sensível, Izie.
– Ah, sinto muito, mas eu vou cheirar todo o seu cheiro cheiroso e você vai ter que me aturar — respondi divertida.
– Cheiro cheiroso? — disse rindo e sacudindo a cabeça.
– Exato — dei um beijo rápido em seus lábios.
Então, nos sentamos para tomar café. Quando terminamos e deixamos a cozinha limpa, era por volta das dez e meia da manhã e avisei a ela que iria até meu apartamento, usei o pretexto de fazer minha mala para a viagem e já colocaria meu plano em prática. Eu me vesti com roupas leves — o clima naquele dia não estava tão nublado quanto os anteriores — peguei minha carteira e chaves, me despedi de Fernanda com um beijo demorado e com muita relutância, e então desci e fui até meu carro. Dei a partida e segui para o meu apartamento. Uma vez lá, arrumei uma mala grande de viagem, colocando desde roupas leves até algumas mais "pesadas", para caso esfriasse como vinha acontecendo por ali — o que eu realmente esperava que não acontecesse, pois ir ao litoral com chuva ninguém merece, certo? Quando tudo estava devidamente arrumado em meu apartamento e as malas ajeitadas no porta-malas do carro, arranquei dali em direção à casa de alianças que havia dentro do shopping há duas quadras do meu prédio. Minhas mãos tremiam um pouco no volante, eu estava ansiosa com tudo aquilo, era impossível não estar.
Quando cheguei ao shopping e estacionei meu carro no subsolo, ainda respirei fundo antes de descer. Não que eu estivesse pensando em desistir, mas aquele sentimento ainda era um tanto novo para mim. Eu nunca havia me envolvido tanto com alguém a ponto de eu própria tomar a decisão de oficializar um namoro e querer estar com a garota para o resto dos meus dias. Por esse, e muitos outros motivos, eu sabia que Fernanda era o amor da minha vida. Pensar na reação dela ao ver as alianças e ouvir o que eu tinha para dizer, foi o que me encorajou à descer do carro e fazer meu caminho até meu destino — eu sabia que ela abriria aquele sorriso lindo que eu tanto gostava. E sabia que ela me amava tanto quanto eu a amava. Amar. Amor era uma palavra, um sentimento tão forte. Mas eu sabia que amava Fernanda, e podia ver em seus olhos que ela também me amava. Seus olhos verdes refletiam todo o brilho e o amor de sua alma, aquilo era simplesmente impossível de não notar — a intensidade de seu sentimento por mim, de seu amor. Isso me encheu de coragem e confiança.
Desci do carro, dei o alarme e fiz meu caminho até a casa de alianças que ficava no segundo andar da construção. Enquanto subia nas escadas rolantes, eu tinha meu celular em mãos e observava a foto nossa que coloquei no papel de parede. Nós havíamos tirado aquela recentemente, em um dos intervalos curto daquela semana na faculdade. Ela estava com aquele sorriso lindo desenhado em seus lábios, a boca redondinha num biquinho, e eu dava um beijo em seu rosto, enquanto seu braço estava por cima do meu ombro. Me perdi observando suas feições, e como ela ficava ainda mais linda em fotos, que quase não percebo o final da segunda escada rolante — por pouco não ia tomando um belo e desastrado tombo. Segui para a loja e ao entrar e me dirigir à uma das atendentes, meu coração já estava descompassado outra vez.
– Bom dia, moça. Em que posso ajudá-la? — a atendente me saudou, sorrindo.
Devolvi o sorriso, meio sem jeito. Era a primeiríssima vez que eu fazia aquilo, estava muito embaraçada mesmo, nem sabia direito como agir.
– Bom dia — respondi meio distraída. — Er, eu... Eu queria dar uma olhada nas alianças de compromisso, por favor.
– Certo, só um momento — ela avisou e se abaixou atrás do balcão, pegando em seguida um mostruário, revestido de veludo vermelho, onde havia modelos diferenciados de alianças prateadas e algumas com adornos em dourado, desenhos e até pedras brilhantes encrustadas. — Bom, disponível em estoque nós temos esses modelos aqui, menos essas com adornos em dourado — ela apontou. — Essas só por encomenda, por enquanto. Você prefere o modelo anatômico ou abaulado? — Quando fiz uma cara de quem não entendia muito bem o que ela queria dizer. Ela explicou com um sorriso: — As anatômicas são essas aqui, elas são lisas por fora, com a parte interna arredondada, que se torna mais confortável quando colocada no dedo. No entanto, as mais pedidas aqui para alianças de compromisso são as abauladas, como essa aqui — ela pegou uma aliança prateada na mão, que tinha uma pedrinha brilhante encrustada -, elas tem essa aparência arredondada por fora, já a parte interna é reta. Nos primeiros instantes é um pouco desconfortável, todo mundo reclama um pouco quanto a isso, mas depois de um tempo se tornam bem adeptas ao dedo. Quer provar uma de cada, para ver com qual se sente mais confortável?
– Claro, boa ideia, pode ser. Mas, uma lisa, por favor, sem a pedrinha. — Ela assentiu e se retirou. Estava até meio zonza com tanto informação, me sentia uma criança, e era realmente bobo isso. A atendente perguntou o numeração do meu dedo e eu respondi dezesseis. Ela assentiu e se retirou por um instante. Eu confesso que não sabia exatamente a numeração do dedo de Fernanda, mas a estrutura de sua mão não era muito diferente da minha, então seguindo meu instinto deduzi que usava o mesmo número que eu. Se ficasse apertada ou folgada, nós trocaríamos depois, isso não importava realmente, o importante era que eu a presentearia com aquela surpresa.
Quando a atendente voltou, ela tinha dois pacotinhos na mão, de onde ela desembrulhou as duas alianças.
– Essa aqui é a anatômica. Pegue, pode colocar — ela me ofereceu a aliança e eu a peguei e coloquei em meu dedo.
Senti um leve arrepio ao fazer aquilo, ao ver em meu dedo aquele pedaço tão pequeno de prata que tinha um significado tão grande. Nunca me imaginei usando uma daquelas antes, isso me deixou desconcertada por um instante. Parei de agir como uma criança assustada e analisei a aliança em meu dedo. Ela era realmente bem confortável, mas não sei, alguma coisa no modelo dela não me agradava muito, não combinava bem com o formato da minha mão e de pronto achei que não combinaria com a de Fernanda. Fiquei meio em dúvida. Em seguida, a atendente me ofereceu o outro modelo, a abaulada. Eu retirei a anatômica e coloquei a outra. Quando ergui minha mão para analisá-la, eu soube: era aquela. O modelo arredondado por fora caía perfeitamente em meu dedo e tinha até uma aparência mais "feminina", por assim dizer. A prata parecia até mais reluzente. Sabia que ficaria linda no dedo da minha namorada também. Até me permiti um sorriso ao imaginar.
– Gostou dessa, não foi? — a atendente perguntou com um sorriso.
– Sim, achei ela mais... Feminina, mais bonita, se destaca mais — respondi ainda sorriso.
– Então, quer levar essa? Temos outros modelos da abaulada, se quiser ver.
– Não, eu... Eu vou levar essa sim. É essa — falei convicta.
– Está certo — ela sorriu e assentiu. — Número dezesseis mesmo? Ficou boa?
– Isso. Número dezesseis, e a dela também vai ser dezesseis — falei olhando a aliança em meu dedo, mas enfim tirando-a.
– Dela? – a atendente uniu as sobrancelhas, em dúvida. Reação típica, mas me deixou um pouco sem graça.
– Sim, minha namorada. Ela também usa número dezesseis — tentei soar o mais calma possível.
– Ah, sim! Claro, me perdoe — ela deu um sorriso meio sem jeito. — Então, duas dezesseis? — assenti em resposta, dando um sorriso. Ela me entregou um bloquinho e uma caneta. — Então eu vou buscar outra. Por gentileza, escreva aqui nesse papel os nomes e a data que você vai querer gravar, tudo bem?
– Claro, sem problemas — peguei a caneta e anotei meu nome e o de Fernanda. Quando ia colocar nossa data, eu parei, pensativa. Qual data eu colocaria? Fazia apenas duas semanas que nós estávamos juntas mesmo, depois daquela noite no chalé. Mas, depois de pensar um pouco, eu soube qual data colocar: a data em que eu a conheci, na oitava série. Eu sabia que desde aquele momento ela se tornou especial para mim e eu apenas estava cega para ver o quanto ela significava realmente em minha vida. Ainda me martirizava por ter perdido tanto tempo. Mas, então, anotei a cinco de Maio de dois mil e seis (04.05.2006) — dois dias depois dos meus pais me transferiram para o Hermano Ferreira de Assunção, quando eu a conheci. Aquela seria a nossa data, a partir daquele momento.
Quando a atendente voltou, entreguei o papel a ela.
– Posso fazer uma pergunta? — falei. Ela assentiu e me respondeu com um "claro". — É possível gravar por fora da aliança também? Tem algum valor à parte?
– Sim, claro. E não, a gravura é totalmente grátis. Deseja gravar por fora também?
Expliquei a ela que queria que fosse gravado o simbolo do infinito na parte externa, e ela assentiu com um sorriso e entregou as duas alianças ao rapaz que faria a gravura. Então, alguns instantes depois, voltou com um panfleto e uma nota fiscal em mãos, onde ela anotou meus dados, o valor da aliança e a data da compra. No panfleto, ela colocou os dados da aliança, modelo e etc., e então anexou uma cópia da nota fiscal para garantia, que eu teria que carimbar no balcão de pagamento. Peguei os papéis e, enquanto o rapaz fazia a gravura nas alianças, eu me dirigi até o balcão e efetuei o pagamento. A aliança tinha garantia de cinco anos, e se eu quisesse trocá-la nesses cinco anos eu poderia dar aquela como entrada para diminuir o valor da compra da próxima. Achei legal isso, mas logo pensei que não ia querer me desfazer de nossa primeira aliança, teria um significado muito especial e sentimental para nós duas.
Ainda esperei por mais ou menos quinze minutos até que as alianças estivessem prontas e embaladas. Agradeci e finalmente deixei a loja em direção ao estacionamento. Lá, tratei de abrir o porta-malas e tirar minha mala de viagem, onde guardei em segurança a sacola com a caixinha das duas alianças — não podia arriscar que ela visse aquilo antes da hora. Voltei a guarda a mala e entrei no carro. Olhei em meu celular e já era mais de meio dia. Caramba! Precisava me apressar, não podia acreditar que tinha perdido duas horas entre fazer minhas malas e comprar as alianças. Fernanda poderia começar a desconfiar. E não demorou muito. Assim que coloquei a chave no contato e dei a partida, meu celular começou a tocar e vi sua foto no visor. Mil vezes droga, eu ia ter que inventar alguma desculpa. Peguei o celular, respirei fundo e atendi.
– Oi, amor — disse, soltando o freio de mão e engatando a ré, equilibrando o celular em meu ombro.
– Ísis! Onde é que você está? Já faz quase duas horas que você saiu, poxa– ela reclamou.
Apertei os lábios.
– Desculpa, Fê, estou saindo do meu apartamento agora — menti. Não queria ter mentido para ela, mas dessa vez era necessário ou estragaria toda a surpresa que eu estava planejando.
– Saindo do seu apartamento agora? Ainda?! - estava emburrada, eu sabia.
– Eu tinha que deixar as coisas ajeitadas por lá, amor, eu...
– Ta bom. Só não demora– e estalou a língua.
– Fê... — ela desligou a ligação. Ok, aquilo me deixou um pouco surpresa e fez meu coração se agitar de um modo não tão bom em meu peito. Não pensei que ela fosse ficar tão aborrecida.
Tratei de dirigir o mais apressada possível de volta ao seu apartamento. Quando cheguei, a vaga em que eu estava antes havia sido ocupada por outro carro. Andei um pouco mais para a frente, para ver se havia alguma outra vaga ali, mas estava tudo cheio. Bufando, decidi dar a volta no quarteirão para ver se achava alguma outra vaga próxima, pelo menos. Quando ia fazer a curva para a direita, um animal desceu da calçada sem olhar para os lados e eu precisei frear o carro em cima dele, os pneus cantaram alto com a tração repentina. O cara parou e olhou para mim, fazendo cara feia. Puxei o freio de mão e abri a porta, colocando metade do corpo para fora.
– Qual é o seu problema, idiota?! — perguntei irritada.
– Quem tem problema é você, garota! Não está vendo que estou atravessando? Presta mais atenção! — ele retrucou, jogando as mãos para o alto.
– E você não está vendo que o sinal está aberto pra mim, imbecil? Você nem está atravessando na faixa e nem sequer olhou para os lados, presta atenção você! — gritei de volta e voltei a entrar no carro, alterada. Que inferno! Tudo para me atrasar. Percebi que a discussão chamou a atenção de alguns olhares curiosos.
– Vai se ferrar!– escutei ele gritar quando arranquei com o carro dali, o retrovisor quando batendo em seu braço.
Bufei novamente, irritada, mas o ignorei. Meu coração estava inquieto, eu queria chegar até Fernanda logo! E as malditas vagas estavam todas cheia, mas só podia ser brincadeira! Todas as vagas livres eram frente de garagem ou guia rebaixada, mil vezes droga. Eu dei a volta no quarteirão todo e nada. Quando voltei para a rua do prédio dela, assim que virei a esquina, uma casal entrava em um carro pouco para trás da sorveteria ao lado da padaria e eu parei o carro na mesma hora e liguei a seta para avisar que ia entrar ali. Eu apertava o volante, trincava os dentes, bufava. Caramba, precisava demorar tanto? Quando eles finalmente saíram eu só faltei enfiar meu carro na traseira deles para colocá-lo na vaga. Fiz a baliza rapidamente, desci pegando meus pertences, retirei a mala do porta-malas e acionei o alarme, andando apressada até a entrada do prédio, quase derrubando a mala. O porteiro me reconheceu e logo abriu o portão elétrico, me acenando com um sorriso. Devolvi o aceno, mas sem sorrir demais, não estava com um bom humor, infelizmente. Segui rapidamente até o elevador — teria subido correndo feito louca pelas escadas se não estivesse com aquela mala enorme.
Esperei impacientemente o elevador chegar, e fiquei ainda mais impaciente porque um casal idoso saía do elevador com duas malas grandes, e eu tive que esperar complacente, e com um sorriso forçado, eles se retirarem e me darem passagem. Entrei no elevador e apertei o número oito. A lerdeza do elevador pareceu se elevar à mil naquele momento. Quando a porta do elevador abriu, eu sai em disparada novamente para o lado direito, até o final do corredor, e quando finalmente minhas mãos tocaram a maçaneta, todo meu mau humor se foi. Ao abrir a porta, Fernanda estava sentada no sofá e ergueu o olhar para mim. Ela estava com o celular na mão, e fechou a cara fazendo um bico emburrado ao me ver, alternando o olhar entre minha mala e eu. Depositou o celular sobre o encosto do sofá e cruzou os braços, desviando o olhar para a televisão. Apertei os lábios e deixei a mala num canto ao lado da porta e fui até o sofá, sentando ao lado dela.
– Ei, Fê, não fica brava comigo, por favor — pedi com minha melhor cara de cãozinho abandonado. Não porque eu queria chantageá-la com isso, simplesmente porque eu não estava gostando de ver ela daquele jeito comigo. Ela só torceu a boca e não disse nada. — Ei... — eu me aproximei mais dela e toquei seu rosto. Ela piscou lentamente com o meu toque, respirando fundo em seguida. — Não fica assim...
– É só que... Eu não gosto de ficar tanto tempo longe de você, já começo a pensar um monte de besteiras — ela disse com um bico.
– Besteiras? Que besteiras, meu amor? Não precisa disso. Você sabia o que eu ia fazer e onde eu estaria — falei gentilmente, acariciando sua pele.
– Eu sei, Ísis, mas... Quem demora duas pra fazer uma mala?! Poxa — apertou os lábios.
– Desculpa, amor, eu estava deixando meu apartamento ajeitado também, guardando as louças que estavam fora, as comidas que poderiam estragar, por isso demorei um pouco mais — expliquei. Isso era verdade, eu realmente tinha ajeitado tudo meu apartamento antes de sair, mas o que eu havia feito em seguida ela não podia saber. Então, não contei uma mentira exatamente, só omiti alguns acontecimentos. — E outra, eu fiquei uns dez minutos para achar uma vaga aqui, e ainda quase atropelei um idiota na esquina! — falei aborrecida.
Ela se inclinou levemente na minha posição.
– Mas está tudo bem? Você está bem? — perguntou preocupada.
– Está sim, não aconteceu nada, eu consegui frear a tempo. Mas ele veio discutir comigo, aí eu já fiquei estressada, tive que dar a volta no quarteirão todo até conseguir uma vaga, isso me irritou. Desculpa mesmo, Fê...
Ela respirou fundo e me abraçou apertado. Meu mundo ficou em paz.
– Eu que tenho que pedir desculpa, amor, não sei o que me deu, eu... Eu só não gosto de ficar longe de você, é ruim — disse meio chorosa. Eu a apertei forte em meus braços. Se ela soubesse como me fazia bem ouvi-la dizer essas palavras. Isso só mostrava que eu não estava enganada em meu pensamento: ela me amava, como eu a amava. Meu coração se acalmou. — Desculpa...
– Está tudo bem, meu amor, não se preocupa. Já passou, tá bom? — eu me afastei um pouco e tomei seus lábios num beijo calmo, cheio de sentimentos. Relutei um pouco para afastar e dizer: — Está com fome? Podemos ir almoçar fora, se você quiser. O que acha?
– Sério? — seus olhinhos brilharam e seus lábios se ergueram em um sorriso.
– Sim — respondi, retribuindo seu sorriso.
Ela sorriu grande e me deu outro beijo.
– Vou tomar um banho e me arrumar! — disse saltitante. Mas seu celular tocou e ao olhar o visor, ela bufou e revirou os olhos. — Parece que adivinha! — ela me mostrou o visor e vi a foto de Claire.
– Atende ela — disse com uma leve risada.
Ela atendeu.
– Fala, criatura. — Quanta meiguice. Claire respondeu alguma coisa que a fez rir. — Estou brincando, amiga linda da minha vida. Pode falar. — Ela fez silêncio e assentia conforme Claire ia dizendo o motivo de ter ligado. — Domingo de manhã? Não, sem problemas, tudo bem. — Ela parou de falar novamente, ouvindo. Riu em seguida. — Até parece, né? Deixo isso pra você. Mas perfeito, Claire, pode ser. Às nove. Tudo bem, então você me avisa quando estiver saindo do seu apartamento e a gente marca um lugar para se encontrar. — Claire respondeu do outro lado. — Está bem. — Ela cobriu o celular com a mão e disse: — Ela está te mandando um beijo. — Disse a ela que mandasse outro. — Ela mandou outro. Ta ok então, Claire. Até mais.
– E aí? Era sobre a viagem? — perguntei, olhando-a.
– Era sim. Ela disse que nós vamos domingo de manhã, para poder "aproveitar mais e ver muitos gatinhos de sunga" — feliz aspas com os dedos.
– Ah, claro, até porque eu só estou indo para ver os gatinhos de sunga — disse, fingindo animação. Ela deu um empurrão em meu ombro, e nós rimos.
Ela segurou meu queixo e deu um beijo rápido em meus lábios.
– Nem pensar você ficar olhando pros gatinhos de sunga — disse fingindo cara de brava.
– Com você lá, usando um biquíni... Humm– mordi os lábios, imaginando. Ela sorriu. — Pode ter certeza que eu vou é matar os gatinhos de sunga, porque você vai chamar atenção demais!
Ela deu uma risada gostosa.
– Não vai ter que se importar com isso, amor, eu não quero saber de nenhum gatinho de sunga.
– Acho bom mesmo! — dessa vez eu fingi cara de brava.
– Coisa linda — ela sorriu e me deu outro beijo. — Vou pro banho, amor.
Eu assenti, e ela saiu. Eu tentei me distrair um pouco vendo televisão, mas não tinha nada muito interessante passando nos canais, então desliguei e peguei meu celular e pluguei os fones. Deixei tocando uma playlist enquanto Fernanda tomava banho. Fiquei pensando em nós, em todos os momentos que tivemos até então, nos beijos e abraços que ela me dava, nas carinhas fofas e emburradas — mas ainda assim, fofas — que ela fazia, no modo como gostava de ficar comigo e sempre fazia questão de deixar isso bem claro. Eu sabia que estava fazendo a coisa certa ao assumir aquele compromisso com ela, porque eu não me imaginava mais com outra garota que não fosse ela. Aquelas carinhas fofas simplesmente não ficariam boas sendo feitas por outro rosto, aqueles beijos não teriam o mesmo gosto vindo de outros lábios, e o calor de seu abraço nunca seria igual à nenhum outro. Eu não podia mais viver sem ela, e eu sabia disso.
Ela me avisou assim que desocupou o banheiro, depois de secar seu cabelo, para que eu tomasse um banho enquanto se arrumava. Enquanto tomava banho, decidi que iria levá-la à um restaurante italiano que tinha há duas quadras dali — sabia que ela adorava a culinária italiana e que não trocava nada por um bom cappelletti de carne gratinado com molho branco. E aquele restaurante fazia o melhor cappelletti que já havia provado na vida, fosse qual fosse o sabor. Ela ia gostar, e eu sorri com esse pensamento. Terminei meu banho sem delongas e, quando saí enrolada na toalha, Fernanda já estava vestida e balançava seus cabelos loiros na frente do espelho. Meu coração falhou uma batida, como sempre falhava quando a via deslumbrante em minha frente. Ela vestia uma saia rodada vermelha e uma blusinha branca; nos pés usava uma botinha de plataforma preta com um adorno dourado, e era lindo como o salto mudava sua postura, fazia ela parecer ainda mais mulher, eu adorava; ela usava também um relógio branco e dourado no pulso esquerdo e, depois de ajeitar os cabelos de um jeito meio bagunçado que deixavam seus cachos desalinhados, mas bonitos, ela colocou um dos fedora hat que ela gostava — eu também tinha alguns, mas de fato eles pareciam ficar ainda mais lindos nela, em contraste com seu cabelo claro — para fechar o look (n/a: look Fernanda). Ela era sempre linda, não importava como se vestia. Ela me notou através do espelho, enquanto eu a observava. Se virou para mim com um sorriso. A maquiagem que ela usava era leve, sempre era, até porque assim ela ficava linda e ainda aparentava naturalidade — um pouco de pó no rosto, os lápis pretos que destacavam o verde de seus olhos, e um batom bem claro nos lábios, que apenas avivava a cor deles.
– Provavelmente está me achando uma doida porque fico gesticulando na frente do espelho, já sei — disse divertida.
Ri de leve.
– Nem reparei nisso. Sua beleza ofusca qualquer tipo de coisa — disse com um sorriso, analisando-a.
Ela corou, como sempre acontecia quando eu a elogiava. Achava aquilo simplesmente lindo.
– Acha que essa roupa está boa? — me perguntou com uma carinha inocente.
– Está perfeita. Você fica linda com qualquer roupa, Fê. — E acrescentei com um sorriso malicioso, não pude evitar: — E até sem roupa nenhuma. Assim principalmente.
Ela abaixou o olhar, ainda corada, e riu.
– Pare, Izie. Se troque logo, sua tarada — ela disse com certo divertimento. Veio até mim e me deu um beijo. — Vou te esperar na sala.
Eu ri do "tarada". Eu não era assim o tempo todo. Eu acho. Enfim, ela deixou o quarto e eu fui até o lado do guarda-roupa onde ela tinha colocado as minhas coisas, para que não ficassem amarrotadas na mochila onde eu as trouxera. Escolhi uma roupa um pouco mais neutra: um shorts preto de crochê e rendas, uma camiseta sem mangas azul clara com alguns detalhes em preto, uma peep toe preta de veludo e zíper, e de acessórios coloquei apenas um relógio e uma pulseirinha dourada no pulso esquerdo (n/a: look Ísis). Achei que estava bom, e meu cabelo ruivo sempre se contrastava contra roupas claras, por isso cores neutras me caíam melhor.
Alguns minutos depois nós saímos do prédio e fomos com o carro dela — ela argumentou que não queria me ver brava de novo porque não achava uma vaga para o meu carro ali, então não íamos tirá-lo do lugar até domingo. O ruim é que a garagem do prédio era exclusiva apenas para os moradores, como de praxe, é regra de todo prédio e condomínio, então eu tinha que deixá-lo na rua mesmo durante aquele tempo. Não reclamei, afinal.
Nosso almoço foi ótimo. Quando o garçom chegou, fiz uma graça, pedindo para ela um cappelletti de carne gratinado no molho branco, e ela me olhou surpresa — era exatamente o que ela ia pedir. Mas eu já sabia, foi o que eu respondi com um sorriso convencido. Para a janta eu já estava pensando no que faria para ela.
E o resto daquele nosso dia se passou assim, entre carícias, beijos e brincadeiras.
Eu me sentia cada vez mais apaixonada por ela, e mal podia esperar pelo momento de finalmente oficializar nosso namoro.
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