Paraíso Perdido
26 Como Aconteceu...
Notas iniciais

Sasuke continuava lhe observando com aquela expressão de julgamento:
– Vai se arrepender por isto. –ameaçou.
– Calado. Apenas observe. –Itachi disse referindo-se à pessoa que entrava na casa. – Ninguém poderá nos ver ou ouvir.
Puderam assistir enquanto Obito que era recebido por um dos serviçais.
– Não fique aí parado, foi assim que tudo começou. –disse caminhando para dentro, no estado em que estava, era como se pudesse atravessar as paredes.
Chegando á sala de estar, notou que Sasuke estava logo atrás, provavelmente movido por sua curiosidade.
– Você demorou. –Fugaku estava sentado diante da lareira com um copo de bebidas nas mãos.
– Vim assim que pude. –o recém-chegado respondeu sorrindo como sempre, embora estivesse inseguro. – Mas o que há de tão urgente?
– Já sei de tudo. –levantou-se ficando diante do outro. – Sei que você estava por trás do roubo em minha residência.
– O que? Fugaku escute só o que estás dizendo! Como pode acusar seu próprio irmão! –exclamou fingindo indignação.
– Não se finja de sonso. Você arrumou os capangas e contou atrás de qual moldura o dinheiro ficava guardado. Não adianta negar, um deles me confessou isso pessoalmente. –suas palavras eram duras.
– E prefere acreditar na palavra de um ladrão desconhecido do que na minha?!
– Deixe de ser cínico. –deferiu um soco no rosto do outro. – Nunca mais ponha os pés nessa casa ou se aproxime de minha família. Também esqueça sua parte nas finanças. –estava bem alterado.
– Você não pode fazer isso. –se recuperava com a mão sobre um dos olhos.
– Posso. Sou o mais velho e nosso pai sempre deixou muito claro quem seria o responsável por nosso patrimônio na falta dele. Agora saia daqui! –ordenou.
– Ainda vai pagar muito caro por isso Fugaku! –um sorriso sádico formou-se em seus lábios como promessa do que viria.
Itachi que na época tinha dezesseis anos assistiu á tudo escondido na escada. Desde aquele tempo, sabia o que era errado e assim que viu que seu pai se aproximava, voltou aos seus aposentos sem ser visto.
– E o que essa discussão tem de relevante? –Sasuke voltou-se á ele.
– Talvez não se lembre de Obito nessa época, afinal tinha apenas oito anos. Porém esse foi o dia em que ele determinou-se á prejudicar nosso pai. –esclareceu.
– E... –cobrou para que continuasse.
– Temos que ir para aquele dia. –tocou seu ombro transportando-o para um tempo um pouco mais adiante.
Estavam agora na sala de jantar, a família toda reunida á mesa:
– Mamãe, mamãe! Hoje eu e Ita vamos brincar de piratas! –o caçula disse todo satisfeito em sua pura inocência infantil, já o Sasuke de agora sentiu uma angústia ao rever aquilo e suas expressões caíram na mesma hora.
– Tenham o bom senso de acabar toda a sua refeição primeiro, não devemos desperdiçar enquanto muitos lá fora passam fome. –Fugaku advertiu em seu lugar de chefe da família.
– Isso mesmo meninos. –a morena concordou como a boa e submissa esposa que era.
– Iremos descobrir muitas terras novas não é mesmo Ita? –o menino continuou depois de ter mastigado um pedaço de carne.
– Claro Sasuke. –assentiu em tom de cumplicidade.
Não demorou muito para que o mais novo exclamasse mais uma vez:
– Terminei! Vamos logo Ita.
– Parados onde estão. Será que não estão esquecendo nada? –Mikoto cobrou com seu sorriso radiante.
– Está bem. –Sasuke caminhou até ela ansioso por sua brincadeira com o irmão mais velho. – Amo você mamãe.
– Também amo vocês meus amores. Não demorem. –retribuiu com a mesma graça.
Ambos envolveram-na em um abraço e cada um plantou um beijo em uma de suas bochechas, em seguida beijaram a mão de Fugaku que mesmo com seu jeito sério, tinha orgulho e amor por seus dois filhos.
– Duvido que me alcança. –desafiou saindo correndo.
– Volte aqui seu pestinha. –o mais velho disparou atrás dele.
O casal ainda terminou sua refeição, os empregados tiraram a mesa e quando estavam á sós, iniciaram um diálogo:
– O que está lhe preocupando tanto? –Mikoto abordou tocando a mão do marido que estava sobre a mesa.
– Por que está dizendo isso? –Fugaku pareceu desconfortável com o interesse dela.
– Porque quando amamos as pessoas, aprendamos á distinguir cada gesto dela e a interpretá-los. –respondeu com sua doçura e o marido levou a mão que antes lhe apoiava á boca, beijando-a.
– Ninguém tem notícias de Obito, mas não há de ser nada. –disse querendo convencer tanto a esposa, quanto á si mesmo.
– Não mesmo. Agora venha, quero lhe mostrar como as camélias que plantei outro dia estão belas. –a morena ergueu-se e trouxe-o junto de braços dados.
O que os irmãos sentiam agora era indescritível. Para Itachi uma nostalgia, como queria mais uma vez dizer á mãe que a amava e abraçar sua família toda para nunca mais se soltar deles.
Já para Sasuke era algo ainda mais insuportável: o sorriso da mãe, a presença do pai e a parceria que sempre teve com o irmão, que mesmo sendo considerado um adulto por muitos e ajudar o pai nos negócios, sempre mostrava seu lado criança quando se tratava de brincar com o irmãozinho caçula.
– Já chega leve-nos de volta! –ordenou sabendo o que viria á seguir.
– Não Sasuke, você tem que encarar a verdade! –segurou-o pelos ombros.
A tensão foi interrompida entre eles quando ouviram passos:
– Vai á algum lugar irmão? –era Obito quem mais uma vez dava as caras por ali. – Pensei que seria uma ótima noite para uma reunião em família. Parece-me que os meninos não estão em casa. –falava naturalmente.
– O que Obito tem haver com isso? –Sasuke indagou confuso.
– Tudo. –Itachi respondeu.
– O que está fazendo aqui? Mandei ficar longe da casa e de minha família! –Fugaku esbravejou.
– Sabe que não suporto a saudade. –ria falsamente.
– Obito, por favor, saia antes que tenhamos mais problemas. –a mulher pediu educadamente, embora estivesse com certo receio.
– Mikoto? Minha cunhada... Está ainda mais bela do que o normal hoje.
– Ora seu! Já mandei ir embora. –insistiu o mais velho.
– Não irei ainda, primeiro tratarei de resolver nossas pendências. Sabe, fiquei realmente muito magoado com suas grosserias Fugaku, mas resolvi relevar, na verdade irei lhe fazer um favor. –fez uma pausa ainda falando com seu bom humor. – Irei lhe mandar para um lugar melhor, onde poderá descansar em paz... Eternamente claro. –desembainhou a espada, Fugaku sabia que não tinha muitas chances, ele sempre fora o homem dos negócios enquanto Obito vadiava e treinava sua esgrima.
– Não faça nenhuma bobagem. –tentou controlá-lo.
– A única bobagem aqui é deixá-lo vivo. –partiu para cima do outro que ia lutar, mesmo que não estivesse armado, porém ela foi mais rápida.
– Nããão! –Sasuke indo ao encontro deles, mas Itachi o puxou de volta sabendo que nada adiantaria.
Mikoto havia entrado na frente e ferida bem no ponto mais importante.
– Não... O que você fez seu tolo?! –Fugaku segurou-a entre seus braços enquanto ela perdia a força e vivacidade que até poucos minutos atrás tinha.
– Eu... T-Te... Amo... –conseguiu pronunciar.
– Que pena, eu gostava mesmo dela isso não devia ter acontecido. Tudo isso é culpa sua Fugaku, agora levante e aja como um homem. –Obito jogou aquelas palavras.
O mais velho o olhou com todo o rancor, deitou a esposa que ainda respirava no chão com cuidado e ergueu-se empurrando o outro. A espada caiu e eles começaram a trocar golpes com os punhos.
Num desses, Obito conseguiu acertá-lo e recuperar a arma a tempo. Antes que Fugaku avançasse novamente, este lhe atravessou o peito.
Vitorioso sorriu, largou a espada ali mesmo e saiu pela porta dos fundos tranquilamente.
Sasuke fervia por dentro, quer dizer o verdadeiro assassino era aquele que sempre esteve tão próximo? Não podia acreditar, era surreal até para ele. Mas ainda havia algo á ser esclarecido: se os pais haviam sido assassinados assim, o que tinha visto aquela noite?
Itachi que tinha deixado Sasuke o procurando lá fora enquanto entrava pela porta da frente, logo deparou-se com aquela cena chocante: seus pais caídos no chão envoltos por duas poças de sangue.
– Mãe, Pai! –exclamou correndo até eles. – O que aconteceu aqui? Quem fez isso á vocês?! –as lágrimas não saiam devido ao impacto traumatizante do momento.
– O...bi...to. –pôde ouvir um fio de voz vindo de sua mãe.
– Ele? Mas... Chamarei um médico, vocês ficarão bem. –quando ia correr, sentiu Fugaku impedir-lhe com a mão sobre seu pulso.
Com esforço ele apontou para a espada no chão. O filho pegou-a, então ouviu o patriarca dizer ainda enquanto gesticulava, correndo um dedo pelo próprio pescoço:
– Faça...
– O que? Não eu não posso fazer isso, vocês são meus pais! –exclamou em protesto.
Rever aquilo era difícil e as mesmas dúvidas rondavam sua mente agora: eles estavam agonizando, sentindo cada milímetro de seu sangue se esvair, já haviam perdido muito e continuariam assim até que os corações parassem de bater. Não daria tempo da ajuda chegar e eles teriam aguentado aquela dor e sofrimento...
Era injusto. O próprio filho tirar a vida dos pais? Mas sabia o que o pai quis dizer, ele queria que acabasse com seu sofrimento e que deixasse esse mundo não pelas mãos de um irmão traidor, mas sim pelo filho que sempre amou e que continuaria seu legado. Não só parecia como era de fato, extremamente irreal e fora do correto, mas era parte de seu orgulho... Do orgulho de um Uchiha.
Ergueu-se chorando, segurou a arma entre as mãos. Ambos lhe olhavam compreensivos e apoiavam sua escolha. Foi quando o pequeno entrou correndo ali:
– Irmão! Pa- –não conseguiu terminar sua fala ao ver a cena que mesmo em anos de existência não iria esquecer e agora estava presenciando-a novamente.
Itachi decidido e mais abalado ainda empurrou o irmão que caiu mais afastado. Hoje sabia que não devia ter feito o que faria á seguir, mas naquele momento não conseguiu evitar, só queria por fim ao sofrimento deles.
A lâmina deslizou pelo pescoço de Fugaku assim como ele havia demonstrado com o dedo mais cedo... Estava feito. Ouviu o grito do menino, porém todo o resto parecia distante agora. Uma última lágrima pingou e caiu sobre o rosto de sua mãe antes que lhe fizesse o mesmo.
Soltou a arma com repulsa dela e de si mesmo, caminhou até Sasuke que tinha os olhos arregalados e apreensivos. Deu-lhe um golpe na altura da nuca, o suficiente para fazê-lo desmaiar e pegou-o nos braços.
Já sabiam aonde ele iria agora: deixá-lo desacordado sobre as raízes da grande árvore onde os dois sempre brincavam não muito longe dali.
E a partir daquele momento, Sasuke era um órfão sofrido e com um ódio imenso em seu coração, já Itachi era um foragido, que jamais tiraria aquele peso das próprias costas.
...
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