Paraíso
2 Capítulo 1: Regras
Notas iniciais
A única coisa de que Anne tinha certeza como regra mais rigorosa em Cinnamon é a sexualidade. Na mansão que ela morava no Sul da cidade as velhas não permitiam que as irmãs dormissem juntas numa mesma cama de jeito nenhum. Anne morava com quinze irmãs, e quatro delas eram perigosamente inclinadas a serem lésbicas, e isso não agradava as velhotas.
Jane, sua melhor amiga, era uma delas. Ela havia confessado que não ia bem nos exames diários.
– Anne, estou preocupada. Acho que estou fracassando nos testes. Toda vez que chega aquela parte de assistir um vídeo de um homem nu se masturbando eu não consigo sentir nada além de nojo.
As duas estavam no quarto que dividiam com Sofia e Rute. Estavam sozinhas naquele momento.
– Talvez seja isso que eles esperam dos resultados, não? E foi sua primeira vez, você acabou de completar 14.
– Eu deveria ficar excitada, Anne, mas eu não fiquei. Estou apavorada!
Anne sabia que ela deveria ter ficado excitada. Lembrou da primeira vez que fez esse teste.
Quando completou 14 anos foi enviada para um prédio no centro da cidade, o único prédio da cidade, onde moram os Pais. Ele tem um design meio futurista. De lá a levaram para um quarto bem confortável em algum andar superior, onde colocaram equipamentos de checagem em todo o seu corpo, da cabeça aos pés. A aconselharam a relaxar enquanto assistia os vídeos no telão à sua frente.
Anne viu imagens bonitas de paisagens e lugares exóticos, coloridos e cheios de vida, viu imagens desconfortáveis de florestas à noite, sótãos, cemitérios e caixões, viu cenas de casamento, primeiro beijo e uma confraternização de natal em família e viu cenas de assassinato, suicídio, estupro e violência, na qual a fez vomitar ali mesmo.
Depois de limpado o vômito, o último vídeo a ser exibido foi de um homem muito bonito. Era moreno e forte, e estava usando uma regata molhada. Anne nunca tinha visto um homem antes além do Pai e das fotos e desenhos dos livros da escola. Ficou fascinada. Aquele era jovem e bonito, e ela sentia algo que não sabia explicar. Ele estava andando tranquilamente pela tela olhando para Anne, fazendo-a suspirar. Ele tirou a camisa e Anne perdeu o fôlego. Depois a calça. Em seguida a cueca. Seu membro estava ereto e ele o massageava fazendo cara de prazer.
Anne sentiu suas partes pulsarem e ficarem molhadas. Ela estava muito desconfortável pois sabia que a estavam observando, mas foi lhe dito para relaxar e ela o fez.
O homem da tela continuou com o movimento de subir e descer a mão no pênis. Aquilo era tortura, ela queria aquele homem dentro dela. Ela estava encharcada! Queria tanto se masturbar mas sabia que não podia ali. Talvez pudesse, mas ela não o faria. Contraia suas mãos com força na calça tentando controlar o desejo.
O vídeo terminou com o homem ejaculando na câmera. Anne estudou anatomia masculina e sabia que eles ejaculavam, mas ver um ejacular era algo novo. A assustou um pouco pois não esperava que fosse tão repentino e violento. Olhou para sua calça e viu que estava visivelmente molhada. Estava tão envergonhada, não queria sair dali nunca mais. Mal sabia ela que isso se repetiria uma vez por semana, e cada dia da semana era um teste diferente. Ao final sempre vinha uma velha com uma prancheta cheia de perguntas para lhe fazer. Se sentia um lixo ao fim de cada exame.
– Tenho certeza de que está tudo bem, Jane. Você se preocupa demais.
Rute entrou no quarto naquele momento, barulhenta como só ela sabia ser.
– Ah como eu odeio domingos! Queria me divertir um pouquinho. Por que não tem homens nessa desgraça?
Anne riu.
– Você faz essa pergunta todo dia. Continue fazendo ela e talvez um dia eu tenha a resposta.
– Claudia está desesperada. Ela me disse que ia fugir para Júpiter e ficar lá pelo resto da vida com todos aqueles homens! – Ambas riram.
Anne olhou para Jane, ela estava vermelha e encabulada. Ah, pobre Jane! Anne já vinha notando isso a algum tempo. A pobre garota estava apaixonada pela Claudia, a garota da mansão Norte. Anne se importava com aquilo, pois Jane era sua melhor amiga.
Apesar de as duas serem irmãs, assim como todas na mansão, ela sempre se esquecia disso. Anne via aquelas garotas como amigas ou colegas de quarto. Tinha irmãs demais para ter tempo de processar cada uma como parente, mas Jane é o tipo de irmã que ela nunca amaria apenas por ligação sanguínea. Ela é mais sua irmã do que qualquer outra na mansão, isso era uma verdade absoluta.
– Sabe, é injusto não fazermos sexo com um homem até os 18. E mesmo assim, só depois de casadas. Eu queria provar de muitos, sabe? Transar com vários até decidir qual eu quero comigo pelo resto da vida.
Jane arregalou os olhos e abriu a boca.
– Fale baixo, Rute! Você sabe que as velhotas não gostam que a gente fale essas coisas.
– Ah elas que se danem. Vamos dar uma volta na praça, Sofia está lá.
As três garotas saíram da mansão e caminharam até o parque, que era o lugar mais central da cidade depois do prédio futurista dos testes. Dava para se escutar de longe as risadas e gritos das garotas que estavam lá. É muito comum ver meninas de outras mansões de outros Pais ali, Anne adorava o parque por isso. Ela adorava ver as meninas da mansão do Norte, do Leste, do Oeste...
Ela adorava particularmente a mansão do Norte. Eram todas muito simpáticas e divertidas. Anne e as meninas tem uma grande amiga no grupo, que é Claudia, a garota que Jane está apaixonada. As garotas amam ela e ela ama as garotas.
As do Leste eram chatas e insuportáveis. Elas gostam muito de se exibir e Anne não gosta de exibidas. Tem uma chatinha chamada Karol que adora dizer as crescentes evoluções das pesquisas na sua mansão, e que talvez a mansão delas ganhe um prêmio ou coisa do tipo. Anne conseguia detestá-las ainda mais quando elas diziam a famosa frase delas “nós somos o futuro”. Ah, que bando de retardadas!
As do Oeste eram muito reservadas, porém muito legais e inteligentes. Anne e as meninas adoram passar o tempo com elas porque sempre se sentiam mais inteligentes ao fim de cada conversa.
Por último vem a mansão do Sul, a sua mansão, conhecida como a mansão mais sem graça, mais irritante, e a que ninguém gosta. As irmãs de Anne, com exceção da própria, Rute, Jane e Sofia, eram umas tremendas babacas metidas a patricinhas que adoravam se gabar por seu Pai ser o superior de todos os outros Pais. Anne odiava as suas irmãs e sempre procurava manter distância delas.
Sofia viu as meninas chegando no parque e começou a correr em direção a elas. Parou bem em frente a Anne.
– Anne! Eu vi sua mãe!
– Minha mãe? Mas hoje não é dia de visita...
– Ela entrou lá no prédio futurista. Eu vi quando eu estava lá brincando com Samanta.
Sofia é a mais nova das quatro amigas. Ela tinha apenas doze anos e ainda amava brincar. Samanta é uma menina da mansão do Norte com a mesma idade. Ela e Sofia são melhores amigas.
– E por que ela entraria lá?
– Sei lá. Acho que se você for até lá você encontra ela.
A questão é que as meninas não podiam ver suas mães sem ser na data e horário de visita. É uma regra muito estranha e sem sentido, mas todas obedeciam.
A mãe de Anne mora numa cidade chamada Vila Orquídea, junto com todas as outras mães que casaram com Pais. Um Pai é um homem considerado perfeito geneticamente, que é designado pelo governo da cidade de Santa Maria para reproduzir. Cada Pai tem um número x de esposas, que pode variar entre três e quinze. Cada esposa deve ter ao menos um filho, os meninos são enviados para uma cidade chamada Júpiter e as meninas enviadas para Cinnamon.
Todas as mães vieram de Cinnamon, onde viviam com irmãs até atingirem a idade de 18 anos, idade que se torna obrigatório o casamento. Se a garota tiver sorte e não passar no teste de fertilidade, ela se casa com um cara que não é um Pai e vai viver em Santa Maria, cidade do governo além de Cinnamon, Júpter e Vila Orquídea, onde as pessoas vivem como querem e são livres para fazerem suas escolhas. Mas se a garota for azarada e passar no teste de fertilidade, ela se casa com um Pai e é condenada a viver com ele pelo resto da vida, morando em Vila Orquídea, servindo de máquina de parir. Ao se tornarem velhas demais para engravidar, elas se mudam para Cinnamon e se tornam uma das velhas rabugentas que comandam as mansões. Oficialmente elas se chamam Mestras, mas todos a chamam de velhas ou velhotas.
Para os garotos não é tão diferente, mas as chances de se tornar Pai são muito, mas muito menores do que as de se tornar uma máquina de parir. Aos 18 anos eles se submetem a testes e mais testes para ter uma conclusão de seu estado genético e fértil. Se passar, já era. Se não passar, está salvo.
Para os que se tornam Pai, eles se mudam para o prédio futurista de Cinnamon, e saem de vez em quando em viagem a Vila Orquídea para fazer sexo com suas esposas. Quando uma bebezinha nasce, dependendo de qual é o seu Pai, ela vai para um berçário na sua determinada mansão. Se a mansão do seu Pai for a do Leste, por exemplo, ela vai para a mansão o Leste. As garotas sempre ficam loucas de amores quando uma recém-nascida chega.
Porém as mães não têm direito nem de amamenta-las, quanto mais de viver com elas. Anne acha isso injusto. Ela só vê sua mãe três vezes por semana, e obviamente não é suficiente para ela. Apesar disso, aquele domingo não era dia de visita, mas sua mãe estava lá. Sua mãe só deveria vir nas segundas, quartas e sextas, nunca em um domingo. Isso a intrigou.
– Eu vou lá ver se a vejo. Você tem certeza do que viu, Sofia?
– Tenho sim!
Jane se pôs ao seu lado.
– Eu vou com você.
– Não é necessário, Jane. Vou indo.
Anne tentou muito não correr. Ah, ela veria sua mãe mais um dia, mesmo que talvez seja por um breve momento! Um abraço bastaria, pois amanhã ela a veria de novo. Anne amava domingos.
Estava chegando, conseguia ver alguém na entrada do prédio futurista. Ao notar que era um homem ela parou de repente. Homens! Por que ela os temia tanto?! Ela sempre os imaginou como selvagens e pervertidos sexuais que não podiam ver uma moça que já se masturbavam na sua frente. Decidiu ser corajosa e continuou a andar. Queria ver sua mãe e um homem não a impediria.
Ao chegar bem mais perto ela viu o homem melhor. Ele olhava para o horizonte do Oeste. As roupas dele eram estranhas e meio rasgadas. Talvez fosse estilo ou talvez ele fosse pobre demais para comprar roupas decentes.
O moço finalmente a viu, o coração de Anne bateu forte. Ele deu um sorriso educado.
– Olá.
E virou o rosto novamente para o horizonte.
Ela não esperava aquilo. Por que ele não tirou as roupas e tentou agarrá-la? Ou não sensualizou a visão de uma garota? Ah não, talvez ela fosse feia.
Foco, Anne!
– Ah... Hum. Moço?
Ele olhou para ela com um olhar passivo. Ele não parecia assustador, então por que estava tão nervosa?
– Pois não?
– Bem... ah, você viu minha mãe?
Ele franziu as sobrancelhas, confuso.
– O nome dela é Melanie, mas a chamam de Mel. Ela é bem bonita e morena, na casa dos 40. Talvez o senhor a tenha visto entrar aí.
O homem arregalou os olhos a menção do nome da sua mãe. Estava surpreso. Por que?
– Pelos sete infernos!
– Ah! Seu grosso!
Ofendida, Anne deu meia volta com intensão de ir embora. Por que alguém diria algo tão grosseiro com ela? Malditos homens!
– Não, espera! Não quis ofender, senhorita. Me desculpe!
Anne virou para ele, furiosa.
– Viu minha mãe ou não?
– Exatamente! Eu sei quem é sua mãe, e ela está lá dentro sim.
– Como você sabe quem é ela?
– É uma longa história. Você é a Anne, não é?
Ela não estava gostando daquilo. Estava se sentindo desprotegida e vulnerável. Mas ele conhecia a mãe dela, então ele poderia leva-la até ela.
– Sou sim. E você, quem é?
Ele estava preocupado e meio consternado. Parecia ansioso e apressado.
– Meu nome é Caleb. Ah, Anne... Vou te pedir algo muito estranho agora. É importante que você me escute e me obedeça.
Ela estava fodida. Onde foi se meter? Talvez se corresse bastante conseguisse escapar daquele homem.
– Sua mãe veio aqui para lhe tirar deste lugar. Preciso que você venha comigo imediatamente. Não é humano continuar a viver aqui.
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