Parasitas
1 Parasitas
Notas iniciais
Desejo uma boa leitura.
O vento passava entre os pelos do meu corpo, aumentando a sensação de liberdade, enquanto minhas patas fortes e precisas trituravam galhos e cascalhos e abriam caminho pela folhagem densa da pequena reserva ambiental, meus ouvidos aguçados captavam os mínimos ruídos dos animais que fugiam à nossa passagem, ao longe escutava o som de outras patas que corriam no mesmo ritmo que o meu, mas mantinham a distancia ordenada, meu bando estava saindo a caça, e eu como líder tinha que exercer meu poder para que eles executassem minhas ordens. Eles, eu, nós, meu bando, sempre juntos, mesmos com as frequentes disputas pela liderança, estávamos sempre unidos, farejei o rastro do vampiro que seguíamos e logo mudei o rumo do destino para onde íamos, éramos caçadores, éramos uma sombra de outros seres, mas nem por isso éramos fracos, éramos parasitas dos seres que escolhíamos, vivendo á sua sombra. Poderíamos adquirir nossa própria comida, mas porque gastar tempo quando podíamos pegar algo de um jeito mais fácil?
Segui a trilha do vampiro até entrar na área ao redor do parque, era uma área residencial baixa, cheia de prédios e becos fétidos, senti o cheiro de sangue fresco e pude escutar a ânsia dos outros pelo alimento prometido ali, rosnei num aviso para manterem-se onde estavam, avancei cautelosamente, observando-o se esgueirar pela sombra e atacar a pequena mulher, a prendendo em suas garras e afundando os caninos no pescoço macio, rasgando a pele e sugando o sangue, se alimentando, secando a mulher até a ultima gota e depois dobrou o corpo já sem vida fazendo os ossos do tórax se partirem com um ruído alto antes de enfiar a mão pela pele da garota e arrancar-lhe o coração, mordendo-o e retirando as últimas gotas de sangue que sobraram, a deixou no chão antes de se virar para onde eu estava escondido, como se sentisse minha presença, abaixei-me ainda mais esperando que ele fosse embora, segundos depois o vampiro loiro se virou na direção contrária e pulou para o alto de um dos prédios e não pude mais sentir sua presença.
Avanço lentamente até o corpo fresco haveria comida para todos esta noite, puxei com os dentes o cadáver para um canto mais escuro do beco e dei um breve latido avisando aos outros que poderiam vir comer, ataquei o peito macio, a melhor parte era para mim, era o líder, o mais forte entre todos e ninguém era louco o suficiente para questionar sua autoridade, os outros logo seguiram seu exemplo, refastelando-se com o resto do corpo, vi um colega do bando, Sylphd, avançar sobre minha parte e num movimento rápido, avançei sobre ele, arrancando um pedaço de sua orelha, o ouvi ganir e recuar antes de saltar para cima de mim, me agachei e vi ele passar direto, antes de segui-lo e empurra-lo com toda a força para a parede do beco, fazendo ele cair sem ar, senti a excitação do resto do bando, era o fim de Sylphd, já não tinha mais volta para ele, pulou rapidamente para cima dele e arranquei sua garganta com os dentes, me afastando enquanto os outros avançavam sobre o mais novo alimento, voltei para o cadáver da garota comendo ate me fartar, deixando que os outros triturassem os ossos e se livrassem dos restos, era uma limpeza perfeita por isso os vampiros precisavam de nós.
De repente um ruído chamou minha atenção, eu havia me distraído, deitado no beco enquanto os outros se banqueteavam, os passos que eu escutava estavam perto, passos de vampiro, ágeis e silenciosos, não era qualquer vampiro, era o nosso vampiro, o qual acabara de se alimentar, me levantei rapidamente, pronto para avisar aos outros para recuarem, mas era tarde de mais, senti como se uma barra de ferro tivesse me acertado e voei contra a parede, tentei me levantar, mas a dor que ecoou pela minha pata dianteira me dava a certeza que a tinha quebrado com o impacto. Idiota! Porque ele estava atacando? Éramos seus parasitas! Vampiro burro!
"Mande eles se afastarem"
Ouvi a voz dele ecoar na minha cabeça, grave, antiga, poderosa, vendo o meu bando em torno dele, rosnando e se aproximando lentamente, eles não morriam de amores por mim, mas sabiam que quando um líder cai o bando fica enfraquecido, eu era o líder, eu que encontrava a comida para eles.
"Eles vão destroçá-lo"
"Eu os matarei"
"Talvez um ou dois, mas estamos em maior número você não terá chance"
O vampiro se voltou para os outros e continuou em sua voz normal, chutando meu braço quebrado e me fazendo gemer de dor.
- Vão embora, esse daqui já não tem utilidade para vocês, seu braço está quebrado então ele só vai atrasa-los, seu líder já não vale de nada!
Rosnei com as palavras dele, sabia que ele tinha razão, mesmo que me curasse já não servia para muito, um parasita mais novo poderia lutar comigo pela liderança do bando e eu acabaria como Sylphd, vi o primeiro dos meus ex-protegidos recuar, rosnando e logo sendo seguido pelo resto, essa era a primeira lei, um líder caído deve ser abandonado, segundos depois o vampiro laçou meu pescoço e tirou uma focinheira do bolso, a amarrando em meu focinho antes de me jogar num saco de lona. Sem ar, me debati como podia por causa do braço, antes de perder a consciência, acho que morri, eu queria ter morrido.
***
Quando abri os olhos, a primeira coisa que constatei é que havia voltado a minha forma humana, minha limitada, frágil e patética forma humana, eu não era parecido com os contos de lobisomens que existem por ai, eu não tinha crises em noite de lua cheia, parecia como um gigantesco cão sem raça, mau como o inferno, mas não era, definitivamente, um lobo. Acordar na forma de homem era a pior coisa que poderia me acontecer, além de estar nu e preso dentro de uma jaula e no que parecia em algum porão.
"Venha parasita"
Escutei aquela voz ecoar novamente em minha cabeça e virei o rosto para a porta da jaula, encarando o loiro de expressão séria e aristocrática, os cabelos loiros apontavam para todas as direções, as sobrancelhas cheias e juntas davam uma impressão mais masculina e maligna a ele, junto com os olhos dourados. Recuei.
"Obedeça-me"
Rosnou em pensamento e eu me encolhi mais uma vez, gemendo de dor pelo braço quebrado, foi nessa hora que ele entrou e laçou meu pescoço novamente, com um instrumento usado pelos caras da carrocinha, quanto mais me remexia, mais o laço me sufocava.
- Me solta! — Minha própria voz soou estranha aos meus ouvidos pelo desuso, mas eu não me importava, estava sufocando.
"Se me obedecer eu afrouxo a corda"
Parei instantaneamente e obedeci, não me levem a mal sou um especialista em sobrevivência, eu não poderia fazer nada naquelas condições a não ser obedecer, o vendo rir satisfeito e me puxar para fora.
"Sente-se na cadeira"
Obedeci, mas olhei ao redor vendo um homem franzino com a aparência de um sapo, sair das sombras assim que eu me sentei, ele vestia um jaleco branco e trazia nas mãos uma pequena maleta.
- É ele o paciente. — Perguntou o homem com cara de sapo, se aproximando.
- Quebrei o braço dele enquanto o capturava, cuide disso. — Retesei meu corpo automaticamente, não estava gostando daquilo. — Fique quieto, ou o matarei. — Respondeu o vampiro apertando a corda em seu pescoço.
- Vamos precisar de uma anestesia. — Retrucou o outro homem, remexendo na maleta e retirando uma seringa com agulha e a cravando em meu braço antes que eu pudesse fazer algo, senti a dor ceder lugar a dormência que envolveu totalmente meu braço esquerdo. — Agora vamos ver esse braço... — Ele passou as mãos uma na outra e logo começou a trabalhar sobre ele, logo meu braço estava firmemente preso na tipoia, pensei em como seria voltar a minha forma de cão com todo aquele gesso.
"Você não vai voltar a ser um cão"
- Você está lendo meus pensamentos?
"Sempre os lemos" Ele riu. "Mas nunca há nada de interessante, apenas pensamentos primitivos de animais"
- Acabei. — Exclamou o velho.
- Então saia. — Volveu o vampiro e logo foi obedecido.
"Você é uma exceção, o melhor de sua espécie, e líder do melhor bando"
O encarei confuso.
- Meu nome é Radamanthys, mas vai se dirigir a mim como Senhor Radamanthys, e enquanto estivermos apenas nós dois quero que me chame de "mestre", se não me obedecer vai se arrepender amargamente disso.
- O que quer comigo? — Assim que acabei de falar, senti o laço em volta de meu pescoço apertar ainda mais, me sufocando e logo fui jogado ao chão sentindo a bota de Radamanthys em minhas costas.
- Só fale quando eu o mandar. Ouviu? Responda!
- Sim... - Ele pressionou ainda mais. - Mestre...
- Como se chama?
- Tarde.
Nós tínhamos nomes simples em sua maioria, salvos alguns que procuravam se individualizar, como Sylphd.
- Ridículo, seu nome é Valentine.
- Meu nome é Tarde. — Gritei para ele e logo sua bota acertou minhas costelas, roubando o ar dos meus pulmões.
-Valentine!
- Sim... Mestre.
Gemi enquanto ele me arrastava de volta para a jaula e senti o sangue voltar a fluir pelo meu corpo, cada vez mais rápido, primeiro as unhas se transformaram em garras e os pelos do meu corpo se arrepiaram, a adrenalina correndo pelas minhas veias, queria esmigalhar a carne dele, os caninos agora estavam mais proeminentes e eu avancei sobre ele e no mesmo instante fui jogado contra as grades. Uma vara se abateu sobre minha cintura, depois nas costas, no estômago, no braço ferido, tudo o que eu podia ouvir eram meus gritos de desespero, senti o sangue escorrer de vários cortes pelo meu corpo e cabeça, fluindo abundantemente pelo chão imundo. Vi o vampiro se aproximar de mim, eu estava a ponto de desmaiar e vi os olhos, antes dourados, mudarem para o vermelho e me encararem, ávidos por sangue, antes da escuridão se apoderar de mim.
***
Quando abri meus olhos novamente ainda estava no mesmo local, preso por uma corrente em meu pescoço. Corri os olhos pela cela suja e pude ver alguns trapos que pareciam roupas e um catre de madeira e palha. Estava com frio, então comecei a me vestir e sentei em cima da palha velha, esperando, minha garganta ardia de sede, encarei minhas pernas revoltado, ainda estava daquele jeito.
Radamanthys apareceu algum tempo depois, não sabia se foram horas ou dias, não conseguia me situar naquele lugar, vi os olhos dourados me encararem pela abertura da porta e logo ouvi varias correntes caindo, não haveria jeito de fugir dali. Quando ele entrou e se aproximou pude sentir o cheiro dele, era bom, não um cheiro específico, mas uma mistura deles, uísque, chuva, morte... Levantei meus lábios sentindo meus dentes se alongarem, eu queria morde-lo, mas no mesmo segundo senti o punho forte contra minha cabeça. Cai no chão com um corte se abrindo em minha testa, maldito! Eu não estava esperando por aquilo, e pelo visto, ele não estava satisfeito, porque me bateu mais algumas vezes antes de sair.
Encolhi-me no canto e esperei, lambendo meus ferimentos, não sei por quanto tempo, acho que acabei dormindo, pois quando acordei Radamanthys estava lá, do outro lado da cela, sentado confortavelmente e lendo um livro.
"Venha Valentine, hora de aprender"
Sua voz ecoou na minha mente e eu me levantei, vi a chave pendurada na calça dele, tão perto... Se eu pudesse pega-la... De repente mais um soco, cai no chão novamente, dessa vez batendo com a boca e partindo os lábios, sentindo o gosto férreo em minha boca, novamente a bota em minhas costelas, seguidamente. Fiquei ali, encolhido e chorando de dor ate que ele estivesse satisfeito.
"Agora sabe com quem esta lidando... eu não serei piedoso e não hesitarei em disciplina-lo quando me desagradar... Entendeu?"
- Sim mestre.- falei em um fio de voz.
Ele aproximou a mão de mim e deixou que eu sentisse seu cheiro antes de continuar.
"Vai ser fiel a mim e me obedecer cegamente. Entendeu"
- Sim mestre.
Ele levantou a mão e eu recuei, pensando que iria me bater novamente, mas ele tocou meus cabelos ruivos que chegavam à altura dos ombros, e eu recostei minha cabeça contra sua palma, fechando meus olhos. A mesma mão que acabara de me bater, mas eu havia entendido... O líder agora era ele, sem compaixão ou arrependimentos, eu já tinha feito coisas piores para mostrar a minha matilha quem mandava ali.
"Valentine"
- Sim mestre. — O respondi dócil.
Ele sorriu e passou o indicador sobre o sangue em meu rosto.
"Sabe que posso matá-lo"
- Sim mestre. — Um arrepio correu pela minha espinha.
"Mas também, posso ser justo, embora não precise."
- Sim mestre.
Ele levou o dedo aos lábios, o lambendo como se apreciasse um vinho delicioso, e isso fez um medo crescente percorrer meu corpo antes que ele me segurasse pelo pescoço e me puxasse para o seu colo, me sentando ali antes de cravar os caninos em minha jugular, sorvendo o liquido rubro que corria em minhas veias. E eu fiquei ali, com a boca aberta em um grito mudo, igual a mulher de quem ele havia se alimentado à alguns dias.
"Quando eu o chamar o quero aqui, dócil como uma criança, dando seu sangue a mim, espontaneamente... Ouviu?"
Sua voz soou novamente em minha cabeça enquanto sentia a vida se esvaindo rapidamente de mim, todas as minhas lembranças, morrendo em minha mente enquanto minha visão ficava turva. Mestre, porque esta me matando? Eu serei bom, fiel, útil.
"Sim, será"
Eu fique ali, no chão, jogado, enquanto escutava os passos dele se distanciando cada vez mais, fechei os olhos e adormeci. Naquela noite eu sonhei com o bando, correndo pelas florestas, nas noites de lua cheia, apreciando o vento batendo em meu pelo enquanto seus irmãos me seguiam. Agora eu tinha a consciência que jamais voltaria a correr com eles novamente, agora eu tinha um dono, um mestre a quem obedecer e servir, andando sobre duas pernas, inútil ao que eu era antes. A partir deste momento eu começava um novo ciclo em minha vida, porem, os ciclos passam, criaturas como eu evoluem, um dia até os mestres caem. São devorados. Sim. Um dia...
Fale com o autor