Uma das coisas boas de não ter a luz do sol é não precisar lidar com horários. Nem com escolas, empregos ou coisas banais do dia a dia. Não ver os defeitos físicos dos outros, assim não julgando ou depreciando ninguém. Não haver regras é realmente uma coisa gratificante.

Deixei de descansar e parti a procurar Ellie. Ellie era uma parasita um tanto diferente dos demais. Sua voz era doce e calma, e nunca matava ninguém para se alimentar. Ela devorava sua mão direita para se saciar, e claro, ela sempre cresce de volta, lenta e dolorosamente. Seus olhos; A única parte além da voz que podíamos nos diferenciar; eram coloridos em um tom opaco de rosa. Ela nunca se irritava, e considerava todos nós “amigos”. Coisa que sempre acaba mal, mas ninguém se importa. Avistei-a de longe, e logo nadei para mais perto. Percebi de cara que ela estava “confraternizando” com outro parasita. Nome? Quem liga. Só sei que era alguém que valia a pena matar. A temporada de caça era daqui a duas luas, eu poderia esperar. Aproximei-me mais e dei um simples comprimento. Sem resposta. Falei mais alto. Nada. Ou eles estavam me ignorando, ou estavam mortos. Quando morremos, nossos corpos permanecem idênticos por ao mínimo três anos, até enfim se dissolverem em completo sal. Nunca pensou por quê o mar é salgado? Você, que está lendo isto, deveria me agradecer. Nunca saberia disso por outro meio. Voltando aos acontecimentos. Depois de checar devidamente, sim eles estavam mortos. Os dois, agora apenas cadáveres flutuantes.

Virei-me e me pus á procurar algo decente para fazer. Como tudo era completamente escuro, eram poucas as opções além de socializar. E matar. Mas como sou pacífico, sempre ignoro a última opção. Ah, esqueci completamente de falar sobre nossa língua. É algo parecido com chiados e sussurros, que é completamente complexa para qualquer outra raça tentar falar além de nós. Bando de ignorantes. Enquanto nadava vagamente, um súbito pensamento me ocorreu. E se tentássemos nos comunicar com a superfície? E se juntássemos um grande número que apoiasse a causa, para logo depois, dominar o planeta? Ri com meus devaneios, sem ligar, mas não imaginava que mais tarde isto se tornaria algo grande.

Perdido em meus inúmeros pensamentos, logo me vi esbarrando com muitos outros parasitas e até mesmo peixes de diferentes espécies. Eu estava deixando nossa área. Estava tudo ficando mais claro. Apertei os olhos e dei meia volta. Ainda não era o momento, pensou meu subconsciente. Meu corpo obedeceu lentamente, voltando á nossa área de território. Senti um cutucão no meu ombro direito. Virei para o lado abruptamente e me deparei com dois olhos verdes-lima me encarando de cima. Seria um parasita normal, se não tivesse um terceiro olho; como um peixe abissal, da mesma cor dos outros dois. Tive que virar bastante o pescoço para encara-lo. Se ele era alto ou estava nadando mais para cima, eu não sabia.

“.....Vo-você.... Nã-nã.....não” Disse ele, inseguro. Sua voz era profunda e grossa diferente da minha.

“Não o quê?” Respondi na mesma rapidez com que cortaria sua garganta. Ele inspirou antes de começar uma nova sentença.

“...É.... perigoso ir para fora do território. A luz irá te matar” Ele continuava hesitando a cada palavra dita.

“Tch. Sei cuidar de mim mesmo” Me vi respondendo.

“Não tenha tanta certeza....” Ele se afastou lentamente, sem deixar de fazer o terceiro olho me encarar.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.