Paranoid Android
8 Capítulo 8
Notas iniciais
Já era de noite, e somente eu e Stephanie caminhávamos na calçada escura, rumo a sua casa, não havia percebido quanto tempo havia passado com Jess naquele provador.O silêncio, pela primeira vez, me pareceu confortável, era muito mais fácil não ter que escutar as lamúrias de Stephanie a respeito daquilo.Quando me dei conta já estávamos em frente à grande casa dela, adentramos a grande sala onde sua alegre mãe nos esperava –uma caridosa viúva de um empresário rico-, não consegui olhar em seus olhos, só subi as grandes escadas indo para o quarto que fizera para mim.
Deitei exausta na grande cama, com o cansaço realmente me tomando por inteira, mas mesmo com a porta fechada pude escutar fragmentos da conversa no andar debaixo.
“-Céus!Que monstro!Oh Meu Deus!-A voz apavorada de sua mãe era facilmente distinguida.-Pobrezinha...Vou falar com ela.
-Não, mãe!- Gritou Stephanie –Deixa ela sozinha, se você falar com ela agora só vai piorar as coisas, ela precisa de um tempo para pensar...
-Tudo bem...-A voz tornando-se de preocupação. — Oh!Ainda falta tanto para que algum assistente social possa atender o nosso pedido judicial pela guarda dela...”
Revirei-me na cama, o assunto que elas tratavam me perturbava agora.Já havia mais de 6 meses que eu sonhava com a ilusão de finalmente me tornar da família, algo realmente frustrante, já que meu caso nunca fora revisado.Ser órfã de mãe e morar com um pai bêbado não é uma situação muito atraente em meio a milhares de casos de violência sexual, drogas ou pais presidiários.Geralmente os oficiais se importavam em salvar os mais moribundos, deixando os agonizantes em segundo plano.
“É, talvez agora alguma assistente social venha finalmente me ver.”
Abafei o pensamento com um travesseiro em meu rosto, finalmente adormecendo exausta.
***
E durante uma semana minha rotina monótona se repetia: levantar-me pesarosamente e ir para a escola, esperar catatônica até o horário e finalmente voltar para a casa de Stephanie, esperando até a noite, repetindo-se o ciclo vicioso em que meus dias se tornaram.
Não havia ânimo, não havia felicidade, eu não queria que houvesse.Eu não saia de casa, eu não queria ir a lugar nenhum.Não me importava mais se meu pai estava a minha procura, se ele me amaldiçoasse a cada noite por não estar junto a ele.Talvez ele nem me quisesse mais, já que conseguira o que queria de mim.
Eu não falei com Jess, ele certamente deveria me odiar, já que respondera daquela forma a sua declaração.Eu realmente me odiava por aquilo, me odiava ainda mais por não ter coragem de ir vê-lo, tinha medo de sua reação quando o visse.
Em uma madrugada de minha longa e entediante semana acordei sobressaltada, com o barulho de algo arranhando o vidro de minha janela.Havia um vulto humano preto encarando-me enquanto sua mão insistentemente arranhava o vidro, causando aquele ruído infernal.Assustada, agarrei o meu abajur, e levantei-me lentamente andando até o estranho em minha janela, esperando alguma reação.Ele não se mexia, parecia querer que eu o descobrisse, talvez até quebrando-lhe o abajur em sua cabeça.
Vi que minhas mãos tremiam compulsivamente, sendo tomadas pelo tremor e o suor do pânico.Meu coração vacilou enquanto eu respirava fundo em frente a minha janela, minha mão se soltou do abajur e agarrou desesperadamente a fina cortina, revelando o meu intruso.
Soltei um grito sufocado de susto.
-Oi.- Disse ele em tom monótono, de repente pegando o abajur que deixara cair, numa velocidade inimaginável, cheguei até a duvidar de que aquilo não era um sonho.-Ei, o que foi?
-J-jess...!- Disse recuperando-me – Como assim o que foi?Você está na minha janela, a 3 andares do chão no meio da noite e ainda me pergunta o que foi?!-Gritei-lhe, repentinamente calando-me ao lembrar-me de que todos estavam dormindo.
O rosto de Jess transformou-se em decepção, olhando para o abajur em sua mão.
-Já está assustada?-Disse mais para si mesmo, em tom amargurado com a voz saindo roucamente.
Logo ele adentrou meu quarto, soltando-se da moldura metálica de minha janela, um ruído metálico logo me perfurou os ouvidos, olhei para a moldura.O lugar onde estava a mão dele, agora se encontrava distorcido de forma grotesca.
Levei as mãos à boca.
E tão rápido quanto esse reflexo de medo, foi a ação dele de me jogar na cama, agarrando-me pelos pulsos, arrancando minhas mãos de meu rosto, olhando-o intensamente.Ele meneou a cabeça, com o semblante tomado pela amargura, retomando a atenção em mim.Eu estava angustiada, em minha cabeça os questionamentos eram quase previsíveis a ele.
-Estou aqui para te mostrar a verdade.
As palavras dele ecoaram pelo quarto, preenchendo o vazio de suas ações, deixando-me ainda mais confusa.
“Não...Quem é ele?Não é o meu Jess...O que está acontecendo?Ele não costuma ser assim...”
Virei o rosto, desfazendo o contato visual com ele.Foi então que meus olhos encontraram os vestígios. As marcas horrendas em seu braço direito.Pareciam arranhões, mas eram tão profundos!
“São cortes?Não!Como não sangram?Como?”
Sua mão prendeu meu rosto, trazendo-o até o domínio de seus profundos olhos, obrigando-me a entrar na amargura e tortura da imensidão azul quase hipnótica.Não havia gentileza em seus atos, os olhos atormentados estavam injetados, raiva talvez?Ele não parecia estar presente em espírito, seus olhos demonstravam tantas sensações que não proviam de meu quarto, era como se ele estivesse preso em outro lugar...
-Você já os olhou,hm...- Disse para si novamente –Eles são a prova de que eu não posso estar aqui.- Disse-me com a voz tornando-se apática, mesmo que ainda soasse de forma encantadora.-Eu sou um monstro.- Disse com um sorriso ácido.
As mãos se estreitaram ainda mais em meus pulsos, fazendo-os protestar de dor, remexi-me tentando livrar-me dele, inutilmente.
-Não!- Deixei escapar sufocadamente enquanto tentava me livrar dele.-Pare!Jess pare com essa brincadeira!Se isso é por causa do que aconteceu no provador...
-Isso não tem nada a ver com aquilo.-Disse ele me interrompendo.- Eu não estou brincando.
Sua mão apertou ainda mais meus pulsos com uma força descomunal, pude escutar o barulho de algo estalando mesmo depois de exclamar pela a dor que aquele brutal ato causara .
Jess instintivamente diminuiu a pressão sob eles, os olhos de repente desfazendo toda a nuvem de acidez e raiva neles presente, retomando o seu estado normal.Olhei para o outro extremo de minha cama, tentando entender como ele fora para ali, naquela posição tão deplorável, encolhendo-se grotescamente olhando fixamente para os cortes em seu tão alvo braço.Seus olhos então pararam em mim, que observava aquilo surpresa e até assustada, seu rosto estava contorcido novamente na careta de dor, murmurando algo inaudível para mim.
-Me desculpe...Me desculpe...-Dizia-me incontidamente, com a voz instável- Eu fugi, eu vim até aqui para te contar toda a verdade...E agora...-Ele olhou para meus pulsos que eu acalentava de forma cuidadosa –Eu te machuquei...Eu não consigo me conter mais...Ele me disse isso, ele previu que isso não seria bom para você...
-Jess, Jess, Jess!-Disse enquanto tentava tomar-lhe a atenção, chacoalhando seu corpo com cuidado, sentindo a dor pulsante de meus pulsos.- O que você tem?Para com essa paranóia!Fala logo o que você tem!-Terminei por gritar com ele.
Seus dedos cravaram em seu braço danificado, repuxando a pele do local sem a menor sombra de dor por parte dele, a pele parecia ser resistente demais, mas não o suficiente para suportar a força descomunal que ele aplicava em seus dedos.
Desesperada e com muito custo -graças à dor-, tomei-lhe a mão, fazendo-o parar com o ato masoquista.Jess olhou para mim, sorrindo debochadamente, pousando os olhos repulsamente no seu braço destroçado.
Não havia sangue, não havia reação de seu corpo.A grossa pele jazia levantada, depreendida brutalmente de seu membro.
-Eu não sou humano, Marina.
Notas finais
Sim, o Jess não é lá muito delicado...
Fale com o autor