Paranoid Android
5 Capítulo 5
Notas iniciais
Quando acordei, sentia dores horríveis pelo corpo, a ponto de que quando me levantei, contorci meu rosto em uma careta de dor por causa do ardor entre minhas pernas bambas.Imagens da noite passada vieram à minha mente, reprimi-as.
Liguei o chuveiro, e entrei debaixo d’água, desejando que ela pudesse lavar as impurezas dentro de mim.Algo quente começou a escorrer pelo meu rosto, eram lágrimas.A principio pensei que fossem lágrimas de dor –já que a as gotas do precário chuveiro caiam como milhares de pequenas agulhas em minha pele, devido a sua temperatura extremamente fria-.Mas não, eram lágrimas de lamúria, de repulsa e desgosto.Amargas, pesadas e salgadas.Os soluços que vieram junto com elas lhe faziam jus, eram incontidos e desesperados, fazendo-me tremer violentamente de forma que quase estava sem ar.Água gelada que caia em minhas costas, a água que antes era cristalina, tornava-se de um vermelho tão impuro, grotesco e pecaminoso...Acabei por me encolher no chão frio de azulejo, de forma quase fetal.Encolhendo-me mais ainda quando os soluços chacoalhavam-me bruscamente.
Permaneci ali por tanto tempo, que quando dei por mim, as palmas de minhas mãos haviam tornado-se pálidas e enrugadas de uma forma horrenda.Obriguei-me a sair dali, mesmo que as lágrimas pesadas continuassem a cair, mesmo que sofresse com dores, mesmo que eu me sentisse enojada com as marcas avermelhadas pelo meu corpo...
Voltei para o horrível quarto, a fim de vestir algo logo e cobrir aquelas detestáveis marcas.Inconscientemente olhei para a janela enferrujada por onde tentara fugir, o dia estava cinzento e nublado.
“Ah, pelo incentivo para continuar a viver!Se pelo menos o dia estivesse um pouco mais bonito, eu não pensaria que não tenho vida...”
Meu humor estava ácido, de forma que olhava tudo com desprezo, e com certo ar de deboche.Principalmente quando o tudo fosse eu.
Coloquei peças que cobrissem meu corpo todo, principalmente o pescoço.Olhei ao redor, as memórias estavam ainda tão recentes, a ponto de ficarem incrustadas nas paredes descascadas, a ponto de eu ainda poder ouvir cada som dele.Cada exclamação, cada choro meu, cada urro e palavras dele...Minha cabeça começou a se confundir, a se prender nas memórias da noite passada.Saí dali correndo, antes que ficasse atada às lembranças.
Corri sem rumo, até que parei em meu colégio, sem entender como fui parar ali acabei indo até a entrada.Mas os portões estavam fechados, seria a minha primeira falta do ano.
-Vá para casa menina, está muito atrasada!-Disse-me o porteiro com tom de desprezo em sua voz rouca e extremamente grave.E logo após balançou a cabeça indignado ao lançar o olhar aborrecido pelo meu rosto.
Ignorei-o, não iria voltar para casa.Acabei por parar no shopping, caminhando sem rumo novamente.Eram 10:45 horas, não havia quase ninguém àquela hora na agitada praça de alimentação, as pessoas normais estavam atarefadas com seus compromissos.Sentei-me catatônica, a fitar sem foco algum a cadeira vazia à minha frente.Minha audição resumia-se a zunidos e a minha visão ao borrão prata à minha frente, minha mente estava tentando prender-me novamente as lembranças.A ponto de me fazer toda a ação da noite anterior, repetidas e incansáveis vezes, como se alguém rebobinasse uma fita e me obrigasse a vê-la a fim de jogar algo em minha cara.Como se alguém quisesse piorar o trauma criado naquela noite...Eu balançava meu corpo de forma esquizofrênica- para frente e para trás-, como se quisesse proteger-me da minha própria mente.Apertava-me em meus braços de forma instintiva, como se algo quisesse investir-me.
“Pare, pare, pare...Não quero mais lembrar, não quero...Pare, pare, pare...PARE!”
E quando dei por mim novamente, estava encolhida de forma estranha e grotesca em minha cadeira, segurando punhados de meu cabelo pela raiz, com tanta força que minha cabeça já estava latejando de dor.Com os olhos arregalados, olhei para os lados, havia um garotinho com um balão de algum desenho animado que apontava para mim assustado, enquanto sua mãe tentava tirá-lo da minha frente.Quase tive certeza de que ela falara a ele que “Vamos filho, essa moça é muito má, vamos embora”.
“Estou tão paranóica assim?”
Ajeitei-me na cadeira, arrumando o cabelo e desfazendo os nós que deixara ao segurá-los com tanta força.Sequei algumas das lágrimas que deixara cair, e lentamente tentava recuperar o fôlego e parar de tremer.E logo eu já estava recuperada superficialmente!
“Pelo menos, nisso você não mudou, não é?”-Disse-me sorrindo amargamente.
-Que faz você sorrir desse jeito?-Perguntou-me a voz familiar.
-Uh!- Ele pegara-me de surpresa, não sabia se estava tão bem assim para conseguir falar com alguém...-Nada, é só uma piada interna, você não iria entender...-Bom, se certa forma era mesmo.
Jess me abraçou, surpreendendo-me.
Involuntariamente, acabei me lembrando de quando ele me obrigara a abraçá-lo, da mão que subia e descia pelas minhas costas, logo tomando conhecimento de outras partes de meu corpo.Repeli-o violentamente, afastando-me assustada escondendo minha face entre as mãos.
-Ah!-Ofeguei ainda provando da memória desagradável.-Me desculpa Jess...É que eu não estou me sentindo muito bem hoje.É, acho que comer aquele lanche engordurado todo dia não é uma boa idéia...-Emendei tentando voltar ao normal tirando graça daquilo, mas a “piada” saiu mais como um resmungo graças ao meu temperamento.
-Entendi...-Disse acalentando minhas costas, ele rapidamente tirou a mão dela quando arqueei meu corpo novamente assustada.-Pelo menos, posso?-Perguntou-me segurando minha mão.
Assenti em quanto secava outras lágrimas que escaparam de meus olhos.Lembrei-me o que pretendia fazer com Jess, comprar-lhe roupas novas.Sem pensar e sem falar nada com ele, empurrei-lhe uma grande quantidade de peças de uma loja que nunca vira antes, mas pelo menos tinha conhecimento que as roupas que pegara eram masculinas.Totalmente apática, empurrei-lhe para os provadores.E quando fiquei novamente sozinha, deixei-me escorregar encostada na parede próxima ao provador em que ele estava.Enterrei meu rosto em um dos braços, tentando me acalmar.
“Vamos lá, ele é seu amigo.Ele não vai abaixar suas calças e nem nada!”-Disse-me num ofego.
-Hm...Mari, me ajuda aqui?-Perguntou-me a voz envergonhada de Jess.-Não consigo tirar essa camiseta...
-‘Tá vestido?- Perguntei por impulso.
Ouvi um murmúrio de afirmação e entrei no provador, a cena era engraçada: Jess estava com a camiseta presa acima de sua cabeça, de forma que somente seu tronco estava exposto.Com uma risada ácida e debochante, retirei-lhe a peça, libertando-o.Mas mal o livrei da vestimenta e logo ele me puxou, de forma que eu sentasse em seu colo no pequeno banco que havia ali.Tentei me livrar desesperadamente do braço em minha cintura, temendo pelo pior, sentia meus olhos lacrimejarem devido ao medo e os gritos começarem a se formar em minha garganta.
-Calma, calma...-Disse-me prendendo delicadamente meu rosto na grande mão livre.-Você está tão estranha, o que aconteceu?O que lhe fizeram para estar desse jeito?-Perguntou-me perdendo a casualidade devido ao nervosismo.
Chacoalhei-me violentamente em seus braços, quando vi que não adiantava de nada escondi meu rosto em seu ombro, de forma que deixei as lágrimas saírem sem nenhum esforço para dete-las.
-Jess...-Disse soluçando num fio de voz.-Eu fui estrupada.-Com minha voz sumindo em meio aos soluços e aos gemidos de choro.
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