Paralelo
26 Domada
Notas iniciais
É que eu te amo e falo na sua cara
Se tirar você de mim não sobra nada
O teu sorriso me desmonta inteiro
Até num simples estalar de dedos
Talvez você tenha deixado eu ir
Pra ter o gosto de me ver aqui
Fraco demais para continuar
Juntando forças pra poder falar
Que eu volto é só
Você sorrir...
(Luan Santana)
Era véspera da estreia e último dia de ensaio, Bianca acordou depois de uma noite inteira sonhando e relembrando, como retrospectiva todos os momentos com o garoto nerd, agora homem maduro, e que amava. Depois de tomar café com seu pai e Dandara que contou estar bastante incomodada por conta do final da gravidez, desceu para encontrar seus colegas de peça na praça.
O ensaio correu normal, primeiro Edgar ensaiou o pedaço que apresentariam mais tarde na praça, depois passaram duas vezes toda a história em ordem e sem cortes. Bianca não sabia como lidar com João que parecia estar meio sem graça com ela, na verdade ela também estava assim com ele, e com isso, sem acertarem nada antes, se beijaram de forma profissional e técnica. O professor elogiou os dois, porém cobrou mais realismo, como estavam fazendo antes, principalmente nos beijos.
Depois do ensaio o clima meio estranho permaneceu sobre os dois e ambos ficaram com os amigos, ajudando a montar o pequeno palco de madeira que o professor conseguiu, as apresentações do dia já seriam neles e não no chão. No QG, Nat e Duca aproveitam o tempo livre do lutador antes de sua próxima aula na Aquazen, e a lutadora observou o comportamento de Bianca e João. Trocando a atenção do namorado pelo o que vê na rua a menina comenta com ele.
– Que foi Nat? O que tem de interessante ae fora que ta dispersa?
– Hum, o lutador não agüenta ser trocado?
– Tem que ser muito interessante mesmo...
Ela retorna a atenção ao lutador, os dois riem e se beijam mais uma vez.
– Depois eu que sou marrento... Mas é que tenho observado a Bianca, e ela ta estranha, não sei.
– Também já observei isso... Deve ser coisa do esquisito.
Natália olha o namorado com a testa franzida.
– Eu achei que as coisas estivessem bem.
– Também achei Nat, ela ta sozinha, ele ta sozinho, por que não ficaram juntos ainda?
– Talvez eles precisem de ajuda não?
– E a gente que vai ajudar?
– Com a felicidade que eu to nos últimos dias eu acho que Bianca e João merecem assim como todo mundo.
– Awn, minha marrenta melosinha!
– Eu to feliz! E o motivo é você!
Duca termina de se derreter pela amada e os dois se beijam apaixonadamente. Um pouco depois, antes das apresentações do dia começarem e sem Duca, Natália passeava entre os alunos da Ribalta e encontra Bianca já caracterizada com um figurino improvisado.
– Olá!
– Oi Nat! Tudo bem?
– Tudo certo e você?
– Bem! Ansiosa pra estreia.
– Imagino, mas fora a peça ta tudo bem?
Bianca estranha a pergunta da lutadora.
– Ta. Não deveria?
– Não sei. Desculpa, fico ali no QG observando todos de longe, e as vezes te vejo meio pra baixo... Olhando João de longe, antes com a Vicki, agora sozinho.
– É, o João ta magoado comigo, até entendo, a ferida não cicatrizou.
– Eu acho que ele não percebeu que o remédio pra fechar a ferida dele é você.
Bianca olha pensativa a lutadora, a realidade era essa, enquanto não a aceitasse de volta e sentisse o seu amor não ia passar.
As apresentações começaram, e em meio às pessoas que apreciavam tudo, da porta do QG, Natália viu um estranho com casaco e capuz, apesar do calor, o reconheceu, era Lobão. Ela tentou segui-lo, mas como num piscar de olhos o vilão sumiu. Duca vê de longe a aflição da amada e se aproxima.
– Que foi Nat?
– Eu acho... Acho não, tenho certeza, vi o Lobão.
– O Lobão por aqui?
– É, acho bom a gente ficar bem atentos porque se ele ta rondando a área é porque ta planejando alguma coisa.
Quem também apareceu pelo Catete foi Vicki, tinha que ensaiar com a banda e também tinha decretado que sua fase de depressão pós término havia acabado. Chegou cheia de gás e com seu charme ácido. Rominho e Luca se empolgaram com o retorno do jeito de sempre da menina, a princípio ficaram incertos sobre investir na menina, mas com o aval de João, recomeçaram a idolatria e babação que a menina sentia até falta.
***
Enfim, A Megera Domada ia estrear! Todos estavam eufóricos, em especial Edgar, que na noite anterior tinha tido, finalmente, a confirmação de Lucrécia de que Jade era de fato sua filha. Não só ele estava radiante de felicidade como a menina, agora de fato sua filha. Todos estavam ajudando nos últimos detalhes para a apresentação, apesar de improvisado, todos aprovaram o pequeno palco montado, só o professor que lamentou não ter cortinas para serem abertas e fechadas, porém o espetáculo não poderia parar.
Jade foi contar os detalhes da novidade para a cunhada e também queria saber se sua situação com João tinha evoluído no tempo que estava fora.
– Cunhadinha! Que bom te ver!
– Que bom te ver também! Ainda mais agora com essa novidade.
– Pois é, achei que nunca na vida fosse conhecer meu pai, e acaba que o cara que sempre amei e considerei como pai, é mesmo meu pai. PAI, que palavra linda de se dizer!
– Aproveita cunhada! Bom que vocês sempre estiveram juntos!
– Ah nem fala... Mas e ae, como vão as coisas com você?
– Ansiosa pela estreia.
– Não é disso que to falando né Bianca, e o João?
– Ta na mesma, quer dizer, ele confessou que gosta muito de mim ainda, só ta ferido... Mas to com uma ideia aqui que eu acho que vai dar certo.
– Ah, então me conta A-GO-RA né.
– Vem aqui que te conto. O negócio é o seguinte...
A alguns poucos metros de distância das duas João ajudava a montar os últimos detalhes do palco da peça e Duca que também ajudava resolveu chamá-lo para uma conversa.
– Oh João, será que a gente pode conversar?
– O que você quer comigo?
– É só um papo de homem para homem.
– Só se for papo de homem para pela saco...
– Só se o pela saco em questão for você... JOÃO, é sério.
– Ok ok lutador, pode falar.
Eles vão para um canto menos movimentado.
– Então João, tenho visto a Bianca meio quieta, pelos cantos, e ela não é assim.
– E o que eu tenho a ver com isso?
– TUDO. João, a Bianca te ama, ta escrito nos olhos dela, só você não acredita ou não quer acreditar.
– Cara, até você me falando isso...
– Deve ser porque é verdade e só você não quer enxergar. Eu to super feliz com a Nat e quero ver ela feliz também, mas a felicidade dela é você seu esquisito.
– Como você tem tanta certeza disso?
– Porque ela falou.
– Mas ela falou pra você?
– Na verdade com a Nat, até porque você não deixou ela falar tudo que quer. Mas foca João, a Bi quer ficar com você, até quando você vai duvidar do amor dela?
João pensa bem e decide: é hora de viver, finalmente, esse amor! Pra isso tem uma ideia.
– Que cara é essa João?
– Cara de quem pensou em uma coisa aqui... Preciso ir...
– Peraê cara, que coisa?
– Surpresa! Valeu pela saco! Quer dizer... Duca.
– O que você vai fazer?
– Você vai ver, ou melhor, TODOS vão!
O nerd sai apressado, deixando Duca curioso e quase derruba Natália que vinha ao encontro dos dois, se desculpa e corre.
– Qual foi a dele?
– Não sei, ta aprontando alguma.
– Mas coisa boa?
– Imagino que sim, pra Bianca.
– Vamo torcer então pra dar certo.
– Vamos sim!
Os dois que já estavam abraçados, se beijam.
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A MEGERA DOMADA
Edgar entra no palco caracterizado e com uma espécie de bengala ou cajado bate várias vezes no palco chamando atenção de todos que fazem silêncio.
– A Companhia de Teatro da Ribalta tem o orgulho de apresentar A Megera Domada de William Shakespeare.
Todos batem palmas, assobiam e gritam. A praça estava lotada, toda a vizinhança do Catete presente e de fora do Catete também.
– SILÊNCIO. ATENÇÃO. A peça conta a história de duas irmãs: Bianca, doce e amável e a terrível Catarina, a megera do título.
Gael chega com Dandara, que quase não consegue andar direito devido o avanço de sua gestação, precisava de repouso para esperar a hora do nascimento do filho, mas não quis perder a oportunidade de ver o filho atuando.
– Tem certeza que não quer voltar pra casa?
– E perder o João de Petrucchio? Mas nem pensar, de jeito nenhum.
Desconfortável consegue se sentar para assistir o filho.
– E essa é a história de como Petrucchio tenta domar Catarina.
Edgar finaliza, agradece o público e sai do palco sob aplausos, e assim a peça começa. Apesar do pouco espaço e de muito improviso tudo flui bem, os atores de deslocam com facilidade devido às novas proporções e os figurinos de suas caracterizações, Bianca esta linda de catarinas João arranca suspiros discretos de sua amada com seu figurino. Passado algum tempo desde o início, chega a fase da paixão dos protagonistas, João e Bianca sobem ao palco.
– Marido, vamos ver como tudo isso irá acabar.
– Vamos Catarina! Mas primeiro dá-me um beijo.
– Como? No meio da rua?
– Estas com vergonha de mim?
– De ti por Deus que não... Mas de beijar-te
– Então voltamos pra casa.
– NÃO. Dou-te o beijo... Dou!
Bianca estava de costas para João, ela se vira e o encara, mas ao invés de beijá-lo continua. Para surpresa do ator.
– Mas antes quero dizer-lhe algo...
Ed pira na plateia com a interferência de Bianca, não sabe o que esperar, e todos estão atentos.
– O que deu na Bianca? O texto não é esse...
– Calma Ed, quer dizer, Pai! Confia que todo mundo vai amar!
Jade defende a cunhada e torce por ela. João também não sabe o que esperar, e tenta atualizar a parceira de cena.
– Agora é a hora que você me beija...
– Eu sei. Eu antes so quero te dizer, e na frente de todos os presentes, que eu posso ser do tipo romântica, que sonha com um príncipe, um galã, um Romeo... Sou sonhadora sim, mas meu sonho é com um certo Petrucchio, e ele pode ser Romeo, príncipe ou galã se ele quiser desde que seja MEU. Porque na verdade ele é um ator e o nome dele é João Spinelli, e é só ele que eu quero! MEU João. EU TE AMO!
João assim como toda a plateia escuta a declaração de Bianca e fica sem palavras e sem fôlego. O rapaz tem o coração disparado, as pernas iguais a gelatinas, um certo enjoo no estômago, porém a melhor sensação do mundo! O silêncio reina na praça, todos ansiosos pela reação do garoto.
– Ehhh... Humm, aham...
– Respira João, e fala alguma coisa...
Tirando forças das mãos de Bianca que juntaram as dele, fecha os olhos e os abre em seguida a encarando profundamente, aqueles lindos olhos amendoados, ansiosos na sua frente.
– EU TE AMO BIANCA! Tanto que nem sei...
Bianca pula para o seu lado envolvendo os braços no pescoço do amado e eles dão um longo e apaixonado beijo levando a plateia a loucura com palmas, assobios, gritos, fora o encantamento da cena. Dandara chora emocionada, Pedro, Karina, Edgar, Lucrécia, Jade, Nat, Duca, até mesmo o bronco do Gael e a chatinha da Dona Dalva ficam com os olhos marejados.
– É isso ae cunhadinha, arrasa!
– Que cena!
– Tenho certeza que Shakespeare ia a-do-rar!
– Desde que tivesse aplausos como estes.
O casal cessa o beijo, se olham apaixonados, depois olham a plateia e agradecem. Se olham de novo.
– Te amo!
– Te amo muito!
Edgar se levanta e pede a atenção de todo para a peça terminar, João e Bianca voltam a seus personagens e continuam sua cena, vez ou outra se beijavam fazendo a galera ir ao delírio. João ainda aproveitou sua veia de comédia e improvisou algumas falas, deu seu toque ao personagem alegrando o público e deixando Ed e Lucrécia em êxtase.
– Na época de Shakespeare era assim ou pior.
– Pois é. Gritavam, aplaudiam e quando não gostavam jogavam tomates.
– PRÓXIMO ATO, pretendentes em cima do palco. Bora bora bora...
João e Bianca saíram do palco dando espaço aos outros da cena seguinte. Na lateral do palco enquanto aguardavam não conseguiam se desgrudar, se beijando e se acarinhando o tempo todo. Viram da plateia Duca sentado numa mureta com Nat entre suas pernas, os dois riam para o casal e fazia sinais positivos com as mãos.
– É isso ae!
Outra que também estava na plateia e assistiu toda a cena foi Vicki. Sentada entre Rominho e Luca, a morena olhou os dois e sorrir.
– Sejam felizes!
A peça chegou ao fim, e todos os atores voltaram ao palco em fila para agradecer. Edgar subiu ao palco para dizer algumas palavras em agradecimento, todavia antes que pudesse começar...
– AI AI GAEL...
– Que foi Dandara?
– Ai amor, acho que agora não tem jeito, nosso filho vai nascer.
O mestre fica sem fala e sem ação, Lucrécia o atualiza e o agiliza para irem para o hospital.
– Minha bolsa estourou. Vamos logo...
– Karina, Capiroto, Bianca e João, vão abrindo caminho que eu vou buscar o carro.
– Posso pegar meu carro também mestre, pra ajudar.
– Vai lá Duca que é muita gente...
Gael corre pra pegar seu carro enquanto Duca corre com Natália pra pegar o seu. Pedro e Karina vão no carro de Duca, e João e Bianca que tinham subido correndo em casa para pegar as malas e cadeirinha do neném entram no carro de Gael com Dandara em trabalho de parto a caminho para o hospital.
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