Paralelas
7 o Protagonista
Não fazemos audições para esse papel
E já começamos a atuar com as cortinas abertas
Com sorte, somos acolhidos por atores experientes
E a plateia são todos aqueles que não somos nós
Impossível não enjoar, pois a peça é a mesma de sempre
O que muda são os colegas de cena
Mas até eles podem se repetir durante o espetáculo
Nunca conhecemos o diretor, e
Mesmo assim ganhamos o papel principal
Descobrimos que o show também leva nosso nome
Mas nem isso fez com que tivéssemos controle sobre o andamento
De vez em quando alguém aparece para aplaudir
E sempre que erramos, podemos esperar pelos tomates
Mas notamos a nossa evolução
Começamos com uma peça muda, dois ou três tipos de cenário
Agora nossas pernas já estão até mais firmes
E a voz mais consistente
Nosso sonho é levar essa peça para todos os cantos do mundo
Queremos conhecer novos colegas e tentar improvisar as cenas
Mas as vezes é difícil acreditar com tanta gente indo embora
Depois de alguns erros em cena, aprendemos a nos virar
Algumas frases já prontas facilitam o trabalho
Afinal de contas, ninguém foge do clichê
Ainda é difícil esconder a satisfação quando nos elogiam
E soltamos um sorriso quando ganhamos ponto de originalidade pela crítica
A crítica é forte
Medimos nosso auge quando as cenas não possuem intervalos
Estão esgotados, mas o espetáculo ainda está rolando
Nessas horas o roteirista não avisa que o preço é caro
Passado os anos, percebemos que os recursos diminuem
A disposição não é a mesma
Os cenários estão encardidos,
Muita gente pedindo uma pontinha em alguma cena
Mas nós mesmos duvidamos se conseguimos desempenhar o papel direito
Estamos cansados, os intervalos estão mais frequentes
Procuramos contracenar sentado o máximo que pudemos
Esquecemos das falas antes mesmo de decorá-las
De repente o diretor nos liga
Informa que quer terminar a peça
Nos deixa a opção de escrever as últimas cenas
Alguns colegas lamentam nossa despedida
Pessoas continuam se retirando
Vemos os ajudantes desamarrando as cortinas
O cenário já está mais cinza
O holofote principal vai amenizando a luz
Podemos acenar, agradeceria
Dizer algumas palavras para aqueles que nos assistiram
As coisas poderiam ter sido diferentes se tivéssemos ensinado um iniciante
Como uma vez já fomos
Nossas últimas linhas estariam em branco para que ele pudesse continuar
Mas estávamos tão envolvidos
Tão tensos e ansiosos para que cada detalhe não fosse perdido
Que os intervalos entre uma cena outra foram desperdiçados
Vemos que a cortina já está na metade do caminho
E que ainda queríamos contar muita história
É tarde agora, ainda que boa parte do espetáculo
Tenha se misturado com os erros de encenação
Mas orgulhamo-nos ao mesmo tempo de termos proporcionado
Um show de comédia, drama, ação, romance, tédio, preguiça, confusão
E até elementos de ficção
Passamos vergonha também,
Mas vimos que muitas vezes quase não tinha plateia
E notamos que se estivéssemos na plateia,
Não deixaríamos de rir
O diretor não falou o que aconteceria depois
Nossos colegas diziam que poderíamos ir para o cinema
Alguns acreditavam arduamente que era para a TV
Mas todos compartilhavam a dúvida
De qualquer maneira não importava
A incerteza sempre vai ser temida
Mas assim como ninguém apresentou antes
O roteiro inteiro da nossa peça
Preferimos deixar a surpresa do que nos espera na saída
As cortinas se fecham, e o espetáculo acaba
Percebemos que os erros de fala
E as mãos tremendo não importam mais
Pois aqueles nossos colegas que ficaram até o fim,
Estão nos aplaudindo
E enquanto aguardamos o destino dos acontecimentos
Nos vemos em pé aplaudindo nós mesmos
Pois ninguém desempenharia esse papel
Tão bem quanto nós.
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