Paradoxo de Narciso
1 Um verdadeiro artista
Paradoxo de Narciso
Estúpidas! Completamente estúpidas! Minhas ideias eram infinitamente estúpidas. Que decepção. Logo eu que sempre acreditei ser um poeta, um pensador, um... romântico!
Era madrugada, meu horário preferido do dia, pois era nesse momento que minha inspiração deveria vir me visitar e honrar minha capacidade imaginativa que modéstia a parte, é bem vasta. Mas já estava quase amanhecendo e não conseguia escrever absolutamente nada de relevante, novamente. Após dias de tentativas já estava quase ao ponto de chorar e desistir de tudo. Que desafio! Meus textos beiravam o ridículo. Eu sei usar as palavras e conheço as técnicas literárias. Eu já li Kafka, Saramago, até mesmo Tólstoi. Sou um jovem culto, por que não conseguiria escrever uma mera crônica de três páginas e emocionar as pessoas?
Tenho que contar pra vocês, foram dias sofridos, sério. Minha auto-estima já havia despencado gradualmente desde o momento que inventei esse troço de querer escrever. Confesso que talvez o motivo principal seja o concurso literário de estudantes que aconteceu na minha cidade. O intuito era descobrir novos “talentos” da literatura. Os alunos escreveram um curto texto fictício e os professores mais experientes de lá formaram um juri pra escolher o vencedor.
No começo não dei muita bola pra esse concurso. Eu, como um leitor assíduo de clássicos, imaginei que um concurso literário de escolas locais não deveria ser levado a sério. Pra ser sincero, achei que seria uma grande bobagem concorrer com iniciantes e leitores de auto-ajuda.
Até o momento que li o texto de Caio...
Fiquei sem palavras, era incrível. Nunca imaginei que alguém tão tosco como ele pudesse fazer algo tão... sensível. Eu que sempre escrevi, desde criança, nunca tinha feito uma estória daquela magnitude.
Ele venceu, como o esperado, e nossa admirável diretora resolveu distribuir a grande façanha pra todos os alunos do meu colégio. Algo que achei totalmente desnecessário. Se vocês conhecessem ele, saberiam como me senti. Ele é aquele tipo de sujeito todo despojado, que finge não se importar com nada. Pura encenação! Ele nem comparecia nas aulas direito, aposto que é usuário de drogas, sem brincadeira. Minhas notas sempre foram superiores as dele, e agora tenho que suportar essa besteira. Não que eu tenha inveja dele, não me entendam mal, eu sabia que tinha mais capacidade ele. Então mesmo o concurso tendo acabado eu precisava provar pra mim mesmo que conseguia escrever algo melhor.
Além disso ele é totalmente inconveniente. Lembro de um dia no começo do ano letivo, em que ele teve a cara de pau de me chamar de “intelectual”..
Estava eu sentado sozinho na cantina durante o intervalo, e sempre gosto de ler livros de não-ficção e empreendedorismo quando estou na escola, pois me inspira a focar mais ainda nos estudos e no futuro. Enfim, eu possuía um exemplar O Livro dos Cinco Anéis em minhas mãos, quando ele resolve puxar uma cadeira, sentar do meu lado, e ter a audácia de olhar nos meus olhos e dizer:
— Cara, você é demais, enquanto todo mundo está jogando futebol ou falando sobre futilidades, aqui está você lendo um clássico de Musashi. Admiro isso ai, de verdade, isso é intelecto! — Eu sem saber o que dizer acabei dando um sorriso envergonhado e soltando um “Obrigado”.
Depois dessa cena bizarra, ele simplesmente se levantou e foi embora. Naquele momento me senti um imbecil, deveria ter dito algo mais inteligente e incomum. Detalhe, nunca tinha falado com ele na vida. Na sala nos sentamos bem e não costumo conversar durante a aula. Só depois que parei pra refletir sobre tudo isso e entendi a ironia na voz daquele rapaz. Porque ele diria isso de graça para alguém que ele nem conhece direito? Eu deveria ter xingado aquele filho da mãe!
De qualquer modo, agora eu tinha uma missão pra completar; criar algo maravilhoso de se ler. Ressalto que normalmente atinjo meus objetivos com mais facilidade, mas esse parecia tão difícil de se alcançar. O problema não era finalizar uma crônica, e sim fazer algo incrível, afinal eu já tinha terminado três histórias.
Uma delas era sobre um escritor existencialista que buscava o sentido da vida nas pessoas. Ou seja, uma infinidade de clichês que só percebi quando reli mais de uma vez. Isso me deu ânsia.
A segunda que escrevi era sobre um homem de idade pescando em alto mar e contando aos peixes sobre as aventuras de sua juventude. Me senti um tapado quando percebi que Ernest Hemingway já tinha escrito praticamente o mesmo há mais de sessenta anos atrás.
A terceira era minha favorita, parecia algo tão íntimo. Além de ser um boa crítica social. Os pseudo-politizados se deliciariam. A real é que era uma história muito triste, cheguei a me emocionar enquanto estava digitando. Mas tive que descartar. Mostrei a alguns amigos e todos disseram que criei um personagem sem defeitos, inverossímil e incrível demais pra se acreditar. Eu não me abalaria com a opinião de iletrados, mas depois que a emoção pós obra passou, acabei notando que infelizmente era verdade. Era um conto sobre um jovem com capacidades intelectuais extraordinárias, mas duramente incompreendido pela sociedade. Não posso dizer que era ruim, mas também não era inesquecível. Ser apenas “bom”, é ser comum. Meses atrás tive um experiência que me fez entender isso.
Me recordo que depois de uma entediante visita à casa de minha avó tive que jantar com toda a família em um restaurante árabe. Pelas memórias aquecidas no reencontro, o assunto predominante na mesa era a respeito de meu avô que tinha falecido a pouco tempo. Fui obrigado a ouvir aqueles velhos chavões; “Ele era um homem honesto”, “Todos gostavam dele”, “Um ótimo pai”... Aquilo me irritava de uma forma inexplicável. Por um momento refleti e me dei conta de algo extremamente assustador. Num futuro indeterminado o mesmo aconteceria comigo! Uma angústia repentina me invadiu e me impossibilitou de terminar a refeição. Apenas isso que eu serei? Um homem “bom”? Um ótimo pai? Descobri que precisava conquistar algo realmente importante nessa vida. Eu tinha de ser importante. Alguém memorável, e não lembrado exclusivamente por familiares em datas comemorativas. A ideia de morrer sendo insignificante me aterrorizou, e quase que num surto repentino eu entendi que não precisaria ser assim. Em uma obra eu poderia viver para sempre. Em páginas eu seria imortal. Meu nome eternizado. Mas como chegar nesse nível se agora eu não conseguia nem superar meu colega de classe?
Quando o sol já havia nascido e eu estava pronto pra engolir meu orgulho, esquecer tudo aquilo e ir dormir, tive uma iluminação divina. Encontrei o tema perfeito! Porque não escrever sobre o processo escrever? Me pareceu fantástico. Pensei em fundir todas as minhas outras ideias num compilado só. Um escritor existencialista com uma crise de criatividade a procura de um tema perfeito. Um esboço detalhado sobre a confusão na mente de um autor, aquele que só precisa se expressar verdadeiramente. Além de tudo isso, ele é incompreendido por uma sociedade individualista e narcisista que não compreende o real significado da arte, que vê o mundo como uma competição e precisa se sentir maior pra alcançar a felicidade.
Um sorriso se abriu no meu rosto e durou alguns minutos. Sério, aquilo era genial! Eu precisava dormir, então deixei pra concretizar o projeto no dia seguinte. Depois de dias de sufoco, pressão e esforço mental, me sentia exausto. Que alívio fora. Naquele momento eu já tinha certeza da minha competência. Poderia encostar minha cabeça no travesseiro, me sentir leve novamente e descansar de verdade. Pois agora eu já entendia. Eu sabia que tinha o talento que sempre imaginei ter! Eu sabia que era um verdadeiro artista!
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