11 de Outubro, Domingo.

Passou-se quase um mês desde que começamos a trabalhar no galpão, noites e mais noites cheias de cálculos, desenhos e sons de engrenagens. Não avançamos muito. A causa da demora é o fato de eu só poder ajuda-los aos finais de semana. Mesmo que tudo esteja calculado, sem o planejamento milimétrico de cada parte que irá compor a máquina, não podemos finalizá-la. Mas Dezembro está chegando e com o recesso da faculdade poderei me dedicar todos os dias ao nosso projeto.

Hoje eu não fui para o galpão, estou em casa ajudando nos preparativos de uma pequena comemoração que teremos. O aniversário de minha mãe. Apesar de ter acontecido seis dias atrás, ela decidiu comemorar hoje para que os parentes possam se reunir. Parentes. Já estou me preparando psicologicamente para as clássicas perguntas que me farão.

O som da campainha anuncia a chegada de Antônio e Paloma. Minha mãe os recebe dando um forte abraço em Antônio e um beijo no rosto de Paloma.

– Como vai minha gestante favorita? – pergunta, alisando sua barriga.

– Bem. Um pouco ansiosa, mas bem.

– Mas essa ansiedade é normal, aumenta conforme os meses vão passando. E como Antônio está se saindo?

– Bem, ele é bastante atencioso. O único problema é ter que aturar suas curiosidades sobre gestação.

– Curiosidades muito interessantes, por sinal – diz Antônio – Mãe, a senhora sabia que um feto masculino pode ter uma ereção dentro do útero?

– Não tenho palavras para descrever o quanto essa informação é desnecessária – responde minha mãe — Ainda mais para mim, que tive dois filhos homens.

– Agora a senhora sabe um dos motivos de eu querer que seja uma menina – diz Paloma

– Mas as meninas podem... – começa Antônio

– Tudo bem, vamos deixar isso para outra ocasião, está bem? – interrompe-o minha mãe – Vamos, entrem.

– E onde está o meu irmãozinho? – pergunta Antônio

– Olá, Antônio – digo, me aproximando e estendendo a mão para ele – Como vai?

– Que mão é essa? Sou seu irmão, me dá um abraço – ele me agarra e me aperta forte – E então, como anda a vida?

– Normal.

– Ele tem saído quase todas as noites nos finais de semana – diz minha mãe.

– É mesmo? Alguma mulher na área? – pergunta Antônio piscando o olho para mim.

– Não... Estou apenas me encontrando com alguns amigos.

– “Amigos”... Miguel, quero sua opinião sobre uma coisa. Estou querendo nomear o meu filho de Donald, caso seja menino. O que acha?

– Donald? Tipo... Pato Donald?

– Engraçado, Paloma me perguntou a mesma coisa – responde Antônio olhando para ela, que lhe lança um olhar fulminante – Acho que não é uma boa ideia.

– Que tal Lucas? – sugere minha mãe

– Lucas... Gostei do nome – diz Paloma

Os demais convidados começam a chegar aos poucos. Tios, tias, primos, primas, além de George e Félix, que minha mãe insistiu em conhecer. Minha mãe possui três irmãos, um homem e duas mulheres, cada um chegou acompanhado de seus respectivos maridos e esposa, além de filhos e um ou dois netos.

– Você parece cansado, George. – digo

– Claro, ao me dar seu endereço você disse: “É bem perto, dá para ir andando”.

– Sim, eu sei.

– Nós andamos mais de quarenta minutos! Isso não é “dá para ir andando”, certo Félix? – Félix não responde, apenas sorri como a maior parte do tempo – Sabe, estou começando a achar você um pouco estranho, Senhor Sorriso.

– Um pouco? – brinco.

Um fato curioso sobre mim: Perco a noção do tempo quando estou caminhando sozinho. Às vezes ando quilômetros sem perceber até que meu corpo demonstra sinais de cansaço e ao checar no relógio vejo que estou andando por horas, mas para mim só haviam se passado alguns minutos. Então não sou muito confiável para determinar proporções entre tempo e distância.

– Ah, então esses são os seus amigos – diz minha mãe se aproximando.

– Mãe, esses são George e Félix. Rapazes, essa é minha mãe, Ashlley Croft. Aquele logo ali atrás com um bigode esquisito é o meu irmão, Antônio. Ao lado dele está sua esposa, Paloma.

– Prazer em conhecê-la, senhora Croft – diz George.

– Digo o mesmo – afirma Félix. Por algum motivo, minha mãe começa a sorrir.

– O sorriso dele é contagiante – diz ela.

A noite passa tranquila e animada. Conversas aleatórias, perguntas desnecessárias sobre minha vida amorosa, um “parabéns para você” seguido do clássico “... fulano vou comer o seu bolo”... Tudo normal, com exceção dessa minha preocupação de recebermos uma visita inesperada de Leon. Felizmente ela não acontece. Amanhã voltarei a minha rotina, estudo e trabalho, apenas aguardando o final de semana que irá se resumir em basicamente a mesma coisa.

E assim passaram-se mais dois meses, ao menos uma novidade: Meu carro saiu da oficina.

–

15 de Dezembro, Terça-feira.

Estamos no galpão, vim direto do trabalho para cá. Estou em frente a uma mesa abarrotada de papéis fazendo diferentes desenhos geométricos de acordo com os cálculos me passados por George, e Félix está produzindo as peças e colocando-as em seu devido lugar. Como eu pensei, avançamos bastante desde que meu curso entrou em recesso. Estou muito animado, a máquina está quase pronta.

– Falta pouco! Falta pouco! Falta pouco! – dizia George repetidamente. Obviamente, ele está muito mais animado que eu. – Ouso dizer que terminaremos em menos de uma semana.

– Assim espero – digo.

– Eu também! – diz Félix, mas quase não ouvimos sua voz devido ao barulho dos maquinários.

– Sabe, eu tenho uma ideia – diz George

– E qual é? – respondo enquanto me levanto da cadeira e dou uma espreguiçada no corpo.

– Só um segundo. Félix! Venha aqui, por favor!

– Certo – Félix desliga as máquinas e se junta a nós – O que foi?

– Acredito que todos nós estamos ansiosos para terminar nosso projeto, não é mesmo? E que tal se neste próximo final de semana virássemos a madrugada aqui no galpão? Poderíamos fazer isso a partir de hoje, mas ter que trabalhar no dia seguinte pela manhã impossibilita isso. Por isso o fim de semana é perfeito.

– Ficarmos 24 horas acordados e trabalhando? – questiona Félix – Será que conseguiremos?

– Talvez por 48 horas. – responde George – O que acha Miguel?

– Estou dentro.

– Félix?

– Também estou. Vamos acabar logo com isso!

–

20 de Dezembro, madrugada de Sábado para Domingo.

Sinto uma mão me chacoalhando e meu nome sendo repetido diversas vezes. Abro os olhos devagar e minha visão embaçada demora a reconhecer o rosto de George. Estou debruçado sobre a mesa com várias folhas de papel ao meu redor, além de latas de energético jogadas no chão. Endireito-me na cadeira e levo a mão até a cabeça; ela está latejando. Olho para o relógio que está marcando 02h30min.

– George? O que foi?

A aparência de George está bizarra. Seus cabelos estão bagunçados, seus olhos arregalados e vermelhos. Ele está segurando uma xícara de café com uma mão que tremula compulsivamente.

– Você dormiu. Na verdade, vocês dois dormiram – ele aponta para Félix que está debruçado desconfortavelmente sobre algumas alavancas. Impressionante que mesmo dormindo, ele continua a sorrir, talvez esteja sonhando. – Venha, vamos acordá-lo.

Demora alguns minutos até que Félix acorde, ele está na mesma situação que eu.

– Ai, minha cabeça – diz ele – O que vocês querem? Que horas são? Que dia é hoje?

– Responderei isso depois. Agora tenho algo mais importante para dizer.

– Que seria? – pergunto

George se aproxima de um painel eletrônico e pressiona um botão. Ao lado do mesmo, um grande arco é acionado e em seu centro surge um clarão que ilumina todo o local.

– A nossa máquina está pronta.