20 de Dezembro, Domingo.

Início de tarde. Não consegui dormir no restante da madrugada que se seguiu após meu encontro repentino com Leon na praia. Estou do outro lado da cidade, em frente a uma pequena casa. Meu carro estacionado do outro lado da rua.

Subo uma escada de apenas três degraus, localizada ao lado de uma pequena rampa. Hesito um pouco antes de tocar a campainha. Poucos segundos depois, a porta se abre lentamente. Do outro lado está uma garota morena que ao olhar para mim abre um grande sorriso.

– Boa-tarde, você é um amigo da minha irmã, não é?

– Boa-tarde. Iza, não é? Sua irmã está em casa?

– Está sim. Vou chama-la. Venha, pode entrar – adentro a casa e fecho a porta atrás de mim. Sou guiado pela simpática criança até a sala – Fernanda, visita para você.

Uma jovem loira está sentada no sofá distraída com um livro digital em mãos, aparentemente lendo uma história para uma segunda criança, sua outra irmã, que estava sentada ao seu lado. Próximo a ela, bem ao lado do sofá, encontra-se uma cadeira de rodas. Ela se vira para a dupla que acaba de chegar e ajeita os óculos, olhando fixamente para mim em seguida.

– Miguel! Nossa. Quanto tempo!

– Olá, Fê.

– Faz tempo que você não me faz uma visita. Pensei até que tinha se esquecido de mim.

– Não há chances de isso acontecer – digo com um sorriso amistoso no rosto.

“Não há como esquecer”.

–

03 de Junho de 2033, Sexta-feira.

Eu tinha dezesseis anos. Estava no segundo ano do Ensino Médio. Meu grupo de estudos estava reunido na biblioteca da escola para decidir como seria feito um projeto de Biologia. Além de mim e George, o grupo continha mais seis membros.

Arthur era um rapaz simpático. Não aparecia muito nas aulas e reuniões do grupo, mas era sempre sociável e prestativo quando estava presente. Fã de animações e quadrinhos japoneses, estava sempre com um mangá em mãos.

Lúcio era o mais animado de nós, sempre contando piadas quando surgia alguma oportunidade. De pele morena e corte de cabelo sempre bem curto – quase careca – estava sempre usando um boné, boina ou chapéu. Assim como eu, tinha talento para o desenho, mas com um diferencial: Enquanto eu era bom em desenhar objetos e cenários, ele tinha uma grande facilidade em desenhar pessoas.

Marina era a líder de nosso grupo. Estava sempre bem humorada. Tinha um grande talento para a escrita, sendo a responsável por articular nossas falas nas apresentações, além de gostar de criar histórias usando-nos como personagens. Na maioria dos casos, ela nos retratava como casais, tanto como casais “tradicionais”, como homossexuais. Tínhamos certo cuidado ao falarmos com ela, afinal uma única frase mal dita poderia abrir margens para interpretações inusitadas que seriam usadas em suas histórias. Um de seus objetivos de vida era se formar em Química e criar uma bomba de hidrogênio de grande escala. Eu sei, era um objetivo bem incomum.

Gabriel G. era um dos mais estudiosos da classe, estudando inclusive coisas que iam além do necessário apenas para ficar mais informado. Muito interessado em política, estava sempre disposto a debater sobre o assunto. Um de seus defeitos mais notáveis era o fato de ficar mal-humorado ao acordar cedo, o que era bem frequente, já que estudávamos pela manhã. Um de seus hobbies favoritos era provocar a paciência alheia, sendo nós mesmos seus alvos mais comuns, em especial seu companheiro de nome, Gabriel M. Alguns diziam que ele se divertia ao ver o circo pegar fogo.

Gabriel M. era o “pavio curto”. Apesar se ser um grande companheiro e bastante dedicado aos estudos – ouso dizer que ele estudava com mais afinco do que seu irmão de nome — fazendo sempre o máximo possível nas pesquisas para que nós conseguíssemos as notas mais altas, ele perdia a paciência muito facilmente. Na maioria dos casos era devido a provocações vindas de seu xará. Além disso, ele tinha a péssima mania de corrigir o português alheio, mas no fim, era um bom amigo.

Fernanda, ou apenas Fê, era nossa companheira negativa. Não que ela enxergasse o mundo inteiro de forma depressiva, – na verdade não tenho certeza quanto a isso – mas ela simplesmente não conseguia reconhecer o próprio talento. Assim como Marina, era muito boa na escrita – sonhava em ser uma escritora reconhecida mundialmente — sendo inclusive cumplice da mesma em algumas de suas histórias bizarras. Mas, por mais que nós a elogiássemos, ela nunca enxergava o quanto era boa nisso. Não apenas nisso, ela também era ótima em edições de imagens, mas para ela nunca estava bom, sempre estava horrível. De todos os presentes, ela é a que mais se aproximava de ser uma melhor amiga para mim. Talvez por me identificar com sua forma de pensar, por termos gostos pessoais semelhantes, ou simplesmente por ser a única presente com quem divido a turma desde a sétima série.

Lembro-me perfeitamente do dia que a conheci. Era o primeiro dia de aula e o ato mais clássico dos professores é fazer com que nos enturmemos rapidamente com aqueles que conviveríamos dia após dia por, no mínimo, um ano inteiro. Cheguei atrasado naquele dia.

Ao adentrar a sala, notei que todos estavam sentados em duplas. Menos uma jovem loira. Como só restava eu sozinho na classe, fui incumbido de ser o seu par. Ao sentar no seu lado e me apresentar, notei que ela escrevia com a mão esquerda. Neste momento eu fiz uma das perguntas mais clássicas e estúpidas da humanidade:

– Nossa, você é canhota?

– Não. Escrevo com a mão esquerda porque não gosto de seguir a moda. – respondeu em tom irônico.

Conforme avançávamos os anos letivos, sempre caíamos na mesma turma. Alguns de nossos amigos iam para turmas diferentes e outros eram transferidos para outras escolas. Quando se convive com a mesma pessoa durante anos, cria-se um elo forte com a mesma. Foi o meu caso com Fernanda. No primeiro ano do Ensino Médio, conhecemos os outros integrantes do nosso grupo atual.

– E então está decidida nossa apresentação do projeto – disse Marina – Vocês tem alguma coisa para dizer a respeito?

– Para mim está ótimo – disse Arthur.

– Para mim também – concordou Lúcio. Todos concordaram.

– Ótimo! – Marina deu um suspiro de alívio, típico daqueles após um longo dia de trabalho ou, como era o caso, de estudo.

– Miguel, gostaria da sua opinião sobre uma história que estou escrevendo – falou Fernanda – Posso enviar para o seu caderno?

– Claro. – após alguns segundos, recebi o arquivo. Ele tinha uma quantidade considerável de páginas – Sweet Nightmare? – perguntei ao ler o título.

– Sim. Quero opiniões sinceras. Pretendo publicá-la futuramente.

– Espera aí – interrompeu Gabriel G. – Por que você só quer a opinião dele? A nossa não é importante?

– Não é isso, é que...

– Sabe, eu não entendo porque vocês não namoram de uma vez – disse Marina com um sorrisinho.

– Não seja ridícula – disse Fernanda ficando vermelha – Sabe que Miguel tem namorada.

– Então você quer dizer que se ele fosse solteiro, vocês namorariam? – perguntou Gabriel G. – Miguel, ela te deseja.

Naquele momento eu diria que Fernanda desejou enterrar o rosto no chão, de tão envergonhada que ficou. Arthur e Lúcio gargalhavam.

– Pare de perturbá-los – diz Gabriel M. ao seu xará.

– Não. Agora fiquei curioso. Miguel, o que tem a dizer sobre isso?

– Bem... – meu celular tocou. Era minha mãe. – Só um segundo.

– Salvo pelo gongo – disse Lúcio enxugando as lágrimas que brotaram do seu ataque de riso.

– Preciso ir. Minha mãe está me esperando.

– Espere Miguel. Fê, amanhã é seu aniversário, não é? – questionou Marina

– Sim...

– Vai ter festa? – perguntou Arthur

– Sim. Todos vocês estão convidados.

– Aí está sua chance, Miguel – falou Gabriel G. – Que tal presenteá-la amanhã com uma declaração de amor? Aposto que será o melhor presente que ela já recebeu.

– Mas ele tem namorada, cara. Para de ser chato – disse Gabriel M.

– Ah, é mesmo. Mas nada impede que eles terminem. – provocou Gabriel G. — E então Miguel, se você fosse solteiro, se declararia para a Fê?

Eu deveria ter ficado calado, mas...

– Não sei.

– Viram? Ele não confirmou e nem negou! Então a possibilidade existe.

As gargalhadas recomeçaram. Agora nem mesmo Gabriel M. resistiu.

Sinto falta daqueles tempos. Sem dúvida os últimos anos da escola formaram a melhor época da minha vida, sem grandes preocupações. Uma época onde eu sentia que tinha amigos de verdade.

Anos se passaram. Seguimos caminhos diferentes. Perdi o contato com quase todos eles.

–

20 de Dezembro de 2037, 13h15min.

– E então, Miguel. O que tem feito da vida?

– Nada de mais. Apenas estudando e trabalhando. O de sempre – Incrível como esta é a minha resposta automática para essa questão. Minha vida não é muito interessante, devo admitir.

– Entendo. Gostaria de comer ou beber alguma coisa?

– Não, obrigado. Estou bem.

– O que você está cursando?

– Design.

– Ah! Lembro que você era muito bom com desenhos na época da escola. Se eu não me engano, Lúcio está cursando o mesmo.

– Você mantém contato com nossos antigos amigos?

– Claro, falo com eles sempre que possível. – ela sorri – Você não?

– Não. Do nosso antigo grupo, só mantive contato com você... Ah, é mesmo. Com George, também.

– George? George... George... Ah, lembrei. O caladinho que vivia andando pra cima e pra baixo com aquele bloco de anotações. Não faz muito tempo, recebi um convite no nome dele para um reencontro dos alunos da nossa última turma. Mas não pude ir.

– Ele mesmo. – agora que ela mencionou não me lembro de ter visto os outros integrantes do grupo naquela noite na casa de George — Como estão os outros?

– Basicamente não mudaram muita coisa desde aquela época. Lúcio, como já falei, estuda Design. Gabriel G. está cursando Engenharia. Gabriel M. está fazendo Direito. E a Marina realizou o desejo de cursar Química.

– Ela ainda tem aquela ideia maluca de criar uma bomba?

– Não sei. Acho que não, mas não duvido. Ela também publicou alguns livros.

– É mesmo? Você já leu algum?

– Sim... E sabe, são bem familiares...

Ela olha para mim com um olhar estranho e com um sorrisinho tenso no canto da boca. Neste momento lembro-me das histórias que Marina inventava com nossos nomes. Começamos a rir descontroladamente.

–

04 de Junho de 2033, Sábado.

Aniversário de Fernanda. Eu estava no meu quarto terminando de me arrumar para a sua festa quando meu celular toca. Era ela.

– Alô?

– Miguel? – seu tom de voz demonstrava que tinha chorado.

– O que houve?

– Sabe, minha festa teve que ser cancelada.

– Por quê?

– Problemas familiares. Você pode avisar aos outros?

– Claro.

– Obrigada. Até segunda.

Dei o recado aos outros, que ficaram um pouco decepcionados. Os motivos que levaram os pais de Fê a cancelarem a festa era um mistério, mas eu queria que ela comemorasse mesmo assim. Então uma ideia me surgiu.

Ao completar 18 anos, meu irmão ganhou de minha mãe uma eco-motocicleta, um modelo recente bastante silencioso que não utilizava combustíveis fosseis. Era alimentada por eletricidade ou água e, além disso, tinha a opção de se tornar um modelo não motorizado. Neste caso, dois pedais eram acoplados em suas laterais e ela podia ser usada como uma bicicleta. O movimento giratório dos pedais criava energia que era acumulada em uma bateria interna que depois, caso o usuário cansasse de pedalar, poderia ser utilizada para movimentar o veículo.

Era noite. Minha mãe não estava em casa, havia sido chamada as pressas para cobrir uma notícia de ultima hora sobre um escândalo político. Meu irmão estava concentrado nos livros da faculdade que tinha começado há pouco tempo. Era o momento perfeito.

Segui sorrateiramente até a garagem em direção ao alvo. Como muitos dos novos modelos de veículos, ela não era ligada por uma chave, mas sim por uma senha pessoal do usuário. Por sorte, meu irmão me mostrou a senha quando estava me ensinando a pilotá-la. “Quando você fizer 18, eu darei essa moto para você, então é bom você começar a aprender a pilotar agora”, era o que ele dizia.

Subi na moto e digitei a senha de oito dígitos. Ela ligou instantaneamente. Abri o portão da garagem e saí de encontro com a rua. Minutos depois eu já estava em frente a casa de Fernanda. Liguei para ela.

– Alô?

– Oi, Fê. Vai até a janela e olha pra rua.

– O quê?

– Anda logo. – ela o fez.

– De quem é essa eco-moto? – perguntou pelo celular.

– É do meu irmão. Quer dar uma volta?

– Não posso sair, meus pais estão em casa.

– Saia pela janela. Vamos, é o seu aniversário. Vamos chamar os outros e comemorar.

– Não sei... – ela pensou por um longo tempo – Está bem, me espere só um segundo. Vou trocar de roupa.

Parei a moto na outra esquina para que não ficasse a vista. Pouco tempo depois, vi Fê do lado de fora de sua casa. Pisquei as lanternas rapidamente para que ela me localizasse.

– Para onde vamos agora? – perguntou Fê enquanto avançávamos pela cidade. Estávamos nos falando através dos comunicadores internos presentes em nossos capacetes.

– Você decide. Você é a aniversariante, afinal.

– Que tal a praia? Gosto de ir a praia a noite, o clima tranquilo me faz esquecer os problemas.

– À praia, então.

E então aconteceu.

Um cruzamento. O semáforo estava aberto para nós, tenho certeza. Na nossa direita, um caminhão em alta velocidade vinha em nossa direção. Não tive tempo para pensar, nem para agir apropriadamente. Por reflexo, viro os controles para o sentido contrário, a fim de tentar desviar. Não funcionou.

O caminhão nos atingiu na parte traseira, onde Fernanda estava sentada, e a moto foi suspendida. Meu peito se chocou fortemente aos controles e fomos arremessados ao chão. O motorista seguiu seu caminho.

Caído no chão e sentindo uma forte dor no peito, através do visor quebrado do capacete olhei para a moto de meu irmão destruída. Caída próximo a ela, estava Fê. Uma poça de sangue circundava seu corpo. Tentei chamar por seu nome, mas minha voz foi abafada pelo capacete e uma golfada de sangue que surgiu em seguida. Minha visão estava embaçando e a escuridão me acolheu em seguida.

Acordei no hospital. Ao lado de minha cama estava minha mãe e meu irmão, ela estava chorando. Minha mente estava confusa e eu não me lembrava completamente do ocorrido.

– O que houve? — perguntei

– Você se envolveu num grave acidente com a minha moto – respondeu Antônio, as lembranças começaram a florescer – Quebrou a perna direita e três costelas, além de alguns outros ferimentos. Mas felizmente, não corre risco de morte.

– Entendi... Como está a Fê?

– Bem, ela... – Antônio e minha mãe trocaram olhares preocupados – Ela...

– O quê? Não me digam que ela...

– Não, ela não morreu – continuou Antônio – Mas seu atual estado é grave.

– Ela corre risco de morte?

– Não. Mas infelizmente houve algumas complicações. Ela perdeu os movimentos da perna e do braço esquerdo.

Um sentimento começou a surgir dentro de mim, um sentimento que eu não conseguia definir. Uma profunda agonia. Mas então, minha mãe me deu uma luz.

– Filho... Não foi culpa sua. O motorista do caminhão avançou o sinal vermelho. Quando foi localizado, detectou-se que ele estava embriagado...

Culpa, era esse o sentimento que surgia dentro de mim. Culpa por minha amiga ter se acidentado, culpa por ela nunca mais poder andar normalmente de novo. Culpa por ela não poder mais escrever. A culpa era minha, por mais que tentassem me convencer do contrário, esse sentimento nunca iria desaparecer.

–

De volta ao presente, 15h00min.

Estou do lado de fora da casa de Fê. Ela esta na porta sentada em sua cadeira de rodas, com suas irmãs ao seu lado.

– Muito obrigada pela visita, apareça mais vezes.

– Pode deixar.

– Na próxima vez eu chamarei os outros para relembrarmos os velhos tempos.

– Seria ótimo. – sigo até o meu carro. Abro a porta e antes de entrar, olho para trás e vejo Fê e suas irmãs acenando para mim. Retribuo o aceno. Olho para seu braço esquerdo inerte sobre o braço da cadeira e percebo que aquele sentimento ainda existe.

Notas finais
Detalhe curioso: Este capítulo surgiu a partir de um erro. Eu já tinha imaginado esta cena do acidente antes mesmo de começar o primeiro capítulo, nele ao invés de uma moto, seria em um carro. Por causa disso, Miguel teria um trauma que o impediria de dirigir novamente. Mas um bug no cérebro me fez esquecer disto quando escrevi e publiquei o primeiro capítulo, daí acabei fazendo Miguel ter um carro e ainda lamentar pelo mesmo estar na oficina. Não ficou exatamente da forma que imaginei inicialmente, mas acho que ficou bom mesmo assim.