A forte luz incomoda meus olhos, que demoram alguns minutos para se acostumarem. Olho fixamente para a máquina, para a luz tremulante em seu centro. Inicialmente penso estar sonhando, mas não estou. A máquina enfim está pronta. As palavras somem de minha boca, não sei o que dizer. O sono que eu estava sentindo antes simplesmente desapareceu.

– Já podemos usá-la? – pergunta Félix.

– Mas é claro! – responde George animado – Vamos testá-la imediatamente — Ele puxa uma cadeira aleatória e se senta em frente ao painel de controle, começando a digitar diversos comandos. – Que tal começarmos com um retorno de 2 minutos? – ele pega uma pequena bola de borracha azul e entrega para Félix – Segure isto, por favor – Alguns comandos depois, ele pressiona um grande botão vermelho – É agora!

O entusiasmo toma conta de meu corpo, os meses que levamos para aprontar esta máquina de repente parecem anos. Eu e Félix estamos olhando para o arco, suponho que o meu sorriso esteja parecido com o dele.

Nada.

Não acontece absolutamente nada. Eu e Félix trocamos olhares confusos. Imagino que estejamos pensando a mesma coisa. Será que foi uma perda de tempo? Será que essa máquina realmente funciona? Será que era realmente possível viajar no tempo?

– É, George... – antes que eu termine minha frase, uma pequena esfera azulada, idêntica a que Félix segura em suas mãos, cai bem diante de meus olhos.

– Ela funciona! – exclama George erguendo os braços e inclinando o corpo para trás, a ponto de cair com a cadeira. Seus olhos estão cheios de lágrimas – Pai! Eu consegui! Realizei o seu sonho!

– Não acredito... – digo

Félix está boquiaberto olhando para a bola de borracha no chão. Num instante, ele arremessa a outra bola que estava segurando sem desviar o olhar do objeto que caiu “do nada”. Sem perceber, ele a arremessa em direção ao centro do arco, ao tocar a luz, a esfera desaparece. Ao olhar para o relógio, noto que se passaram exatos dois minutos desde a queda da bola.

Voltamos nossos olhares para George, que ainda está no chão. Emocionado, ele se levanta e ajeita a cadeira. Ele puxa um lenço do bolso e enxuga as lágrimas. Estou esperando para que ele diga alguma coisa, consigo imaginar ele dizendo: “Miguel, escolha o ano que deseja retornar e faça a viagem agora mesmo”.

– Estou com fome – diz ele – Será que existe alguma lanchonete aberta numa hora dessas?

– O quê? -pergunto

– Eu também estou com fome – diz Félix.

– Mas... Mas... – respiro fundo – Eu conheço uma que fica aberta 24 horas. Vamos no meu carro. Mas antes, devemos ao menos lavar nossos rostos. — respiro fundo novamente – Ou quem sabe, um banho – ambos concordam, apenas afirmando com a cabeça.

–

São 03h45min e estamos numa lanchonete a poucos quarteirões de distancia do galpão. Dividindo a mesma mesa, cada um está com um hambúrguer, um copo grande de refrigerante e uma porção de batata-frita. Só há mais dois clientes no local além de nós.

A lanchonete não é muito grande, possui apenas quatro mesas, com quatro cadeiras cada, e cinco bancos fixados em frente ao balcão. O cardápio também não é muito variado, o máximo que podemos fazer é escolher se queremos ou não queijo ou salada nos hambúrgueres.

– Pois é o Natal está chegando – diz George antes de dar uma mordida no hambúrguer – Já sabe o que vai comprar para seus parentes, Félix?

– Não tenho parentes próximos, todos moram em outro Estado. E você, Miguel? Como vai ser o seu Natal?

– Provavelmente o mesmo de sempre, seremos apenas eu, minha mãe e meu irmão. Não sei se Paloma ficará conosco ou visitará algum familiar.

– Entendo – responde Félix após dar um gole no refrigerante – George?

– Assim como você, eu não tenho parentes próximos. Talvez eu visite meu pai na cadeia – ele dá uma risada – Olha, bem que podíamos passar o Natal juntos, Félix. Que tal?

– Ótima ideia! Visitarei seu pai com você. Qual será a reação dele ao saber que você conseguiu terminar o projeto?

– Não sei...

– Sobre o projeto – começo a dizer enquanto brinco com o canudo do copo entre os dedos – Fizemos um pequeno teste hoje, quando nós poderemos usá-la?

– E o Ano Novo? – pergunta George a Félix, me ignorando – Vai visitar algum desses parentes que moram longe?

– Provavelmente não.

– Não me ignorem – digo colocando o canudo novamente no copo – Sabe, sobre a máquina. Quando poderemos...

– Quais são os planos para o ano que vem? – interrompe-me George.

– Não sei, são tantos...

– Por que estão mudando de assunto?! – pergunto, elevando um pouco a voz, o que faz um dos outros clientes e a atendente olharem para nós.

– Certo, desculpe-me – diz George dando em seguida um último gole no copo – É que não sei como dizer isso.

– Isso o quê?

– Sabe... – ele olha para Félix, que está com uma expressão desanimada – Acho que nunca poderemos usar a máquina.

– O quê? Como assim?

– Eu estive todo este tempo preocupado em projetar e construir a máquina, que acabei esquecendo uma questão muito importante. Questão essa que foi levantada por Félix alguns dias atrás.

– Se utilizarmos a máquina para viajar no tempo – diz Félix – Como faremos para retornar?

– Quando ele me disse isso, fiquei me sentido a pessoa mais estúpida do mundo por não ter pensado nesta questão antes – admite George – Viajar para o futuro não seria um problema, afinal poderíamos usar a própria máquina para retornarmos para os dias de hoje. O problema em questão é o passado, se viajarmos para uma época em que a máquina não exista como poderemos retornar?

– Isso quer dizer que o máximo que podemos voltar atualmente é pouco mais de uma hora? — pergunto

– Com certeza de retorno, sim.

– Por que vocês não me disseram isso antes?

– Você estava tão entusiasmado com a ideia de viajar no tempo que o George não queria acabar com suas expectativas – diz Félix. É uma das poucas vezes que eu não o vejo sorrindo — Não queríamos que você abandonasse o projeto.

– Ah, claro. Então decidiram esperar até que a máquina ficasse pronta e meu entusiasmo aumentasse ainda mais, para jogarem um balde de água fria sobre mim. Mas agora que a máquina está pronta e eu não sou mais necessário, vocês me contam a verdade.

– Não é nada disso que você está pensando.

– Nem tente explicar, George. Já entendi muito bem – digo ao me levantar.

– Me diga Miguel, por que você quer tanto viajar para o passado? – pergunta George – Espera... Acho que eu sei o porquê. É por causa dela não, é?

– “Dela”? – pergunta Félix, confuso.

– Não sei do que você está falando – digo e começo a me dirigir até a porta.

– Miguel, espere – diz Félix se levantando – Nos desculpe por termos escondido isso de você.

Saio da lanchonete sem olhar para trás e deixo a porta bater atrás de mim. Vou até o meu carro e começo a dirigir sem um trajeto definido. Sem perceber, estou próximo à praia. Estaciono de uma forma qualquer e vou caminhando até a areia, onde me sento e fico observando o céu noturno.

Alguns minutos se passam, escuto uma voz atrás de mim chamando o meu nome. É uma voz que conheço há pouco tempo, mas que já me é familiar. De todas as pessoas do mundo que eu poderia encontrar aqui, tinha que ser justo ele?

– Por acaso está me seguindo, Leon?

– Miguel, eu realmente preciso conversar com você.

– Sabe, eu sei que eu deveria ficar feliz em rever o meu pai desaparecido depois de todos esses anos, mas não estou. – levanto-me e começo a retirar a areia da roupa — Eu só lhe peço uma coisa – viro-me para ele e olho diretamente em seus olhos – Deixe-nos em paz.

– Você pode ao menos escutar o que eu tenho para lhe dizer?

– Vai se desculpar por ter abandonado sua esposa e seus filhos durante tanto tempo?

– Sobre isso...

– Nem se dê ao trabalho. – dou-lhe as costas e começo a caminhar de volta para o carro.

– Não foi para isso que vim até aqui, quero alertá-lo sobre algo!

– E o que é?

– Você não deve viajar no tempo!

– O que? Mas como você...

– Eu sei que tudo está muito confuso para você agora, mas deixe-me explicar.

– Não se preocupe – entro no carro – Aparentemente isto nunca acontecerá.

– Isto é verdade?

– Não tenho motivos para mentir para você, não é? Na verdade, tenho, mas não é o caso.

Ligo o carro e começo a dirigir de volta para casa, olhando pelo retrovisor vejo Leon parado na calçada, se afastando conforme o carro avança pela rua. Como muitas vezes, meus pensamentos estão embaralhados. Acho que apenas no dia seguinte, me questionarei sobre este encontro.