Fiquei um bom tempo calado, apenas absorvendo aquela informação. De todas as coisas que eu esperava acontecer, o retorno de meu pai era totalmente improvável para mim. Não me lembro de ter questionado minha mãe sobre ele anteriormente. Talvez quando criança. Há anos que eu já havia me convencido de que ele estava morto. Mas estava enganado. Ele está vivo, passou todo este tempo em algum lugar que só ele mesmo sabe, e agora está de volta.

Não sei o que sentir, nem o que pensar. Então, permaneço calado enquanto minha mente viaja.

- Miguel? Miguel? Miguel!

- O quê? – a voz de minha mãe me trás de volta ao mundo real. – Me desculpe.

- Não precisa se desculpar, sei que será difícil de aceitar essa revelação repentina.

- Eu prometi a mim mesmo que nunca iria perguntar sobre isso, mas… Como e quando exatamente aconteceu?

- Você quer saber sobre o dia em que seu pai nos deixou?

- Sim. Conte-me a história. Se preferir, posso aguardar até nos encontrarmos com Antônio novamente.

- O seu irmão já conhece essa história.

- O quê? Então por que nunca me contou?

- Não tenho culpa se você nunca se interessou pelo assunto.

- Tem razão. Me desculpe. Mas agora eu quero saber, por favor.

- Tudo bem… Mas antes de falar sobre o seu pai, falarei sobre o que aconteceu antes de eu conhece-lo.

- Como quiser.

- Pouco antes de eu completar 18 anos, conheci um homem. Seu nome era Nathan. Construímos uma bela amizade, com o passar do tempo nós ficamos ainda mais ligados e no fim me apaixonei por ele. Dois anos se passaram e eu fiquei grávida de seu irmão, mas infelizmente Nathan nunca soube disso.

- Por quê?

- Tínhamos marcado um encontro e eu havia decidido dar a notícia para ele neste dia, lembro-me da data como se fosse hoje: 14 de Fevereiro de 2015, Sábado. Eu cheguei ao local primeiro e o aguardei. Aguardei, mas ele nunca apareceu. Até hoje não sei o que houve com ele. Fragilizada, tudo o que eu mais queria era um amigo. E foi aí que Leon apareceu.

“Cursamos a faculdade juntos e ele sempre deixou claro o que sentia por mim, mas eu não conseguia enxerga-lo da mesma forma. Contei que estava grávida, mas ele não se importou. Por fim, ficamos juntos. Seu irmão nasceu meses depois e Leon o criava como seu próprio filho. Dois anos depois você chegou em nossas vidas.”

- Entendo. O que aconteceu depois?

- O que veio depois você já deve saber. Quando você tinha pouco mais de um ano de idade, Leon desapareceu sem deixar rastros. Chega a ser engraçado, não é? Os dois homens com quem vivi desapareceram repentinamente e agora um deles retorna para me assombrar.

- Como Antônio reagiu ao saber desta história?

- Ele reagiu bem, afinal o que ele poderia fazer? O que está feito, está feito. Não se pode mudar o passado.

- Certo… Obrigado por me contar. Sei que deve ser difícil relembrar essas coisas.

- Tudo bem, eu já superei. – respondeu sorrindo, mas noto que seus olhos estão marejados.

- Se me der licença, vou para o meu quarto dar uma nova revisada na matéria da faculdade.

- Claro querido. Bons estudos.

Adentro o quarto à procura do celular, por algum motivo demoro a notar que ele está bem em cima da escrivaninha. Depois, abro a mochila e derramo tudo o que tem dentro sobre a cama. Não lembro porque carrego a metade dessas coisas.

Finalmente encontro o que eu procuro: um cartão. Sento-me na cama e disco o número que está anexado no verso.

- Alô? George? Sim, sou eu. Ainda está precisando de ajuda com o seu projeto? Ótimo. Por que eu estou perguntando? Eu decidi ajuda-lo.

-

Combinei de me encontrar com George no dia seguinte, no mesmo horário e local onde ele me abordou pela primeira vez.

- Que tipo de ajuda você precisa? – pergunto após dar um gole num copo de refrigerante.

- Já tenho toda a teoria e fórmulas preparadas, a única coisa que falta é a construção do aparelho.

- Certo. E onde eu entro nisso?

- Lembro que você era bom de desenho na época da escola, gostaria que ficasse encarregado do design da máquina.

- É isso? Tudo o que você precisa é de um desenho?

- Não é tão simples quanto parece. Cada centímetro da máquina precisa ser milimetricamente constituído para que não haja erros. Minha habilidade com o desenho é ínfima, então preciso de alguém que seja bom neste quesito. Você já era um bom desenhista na escola e agora está se formando em Design. Não podia escolher alguém melhor.

- Está bem, mas eu esperava que fosse algo mais complexo. Quando daremos início aos procedimentos?

- Imediatamente, se quiser.

- Não dá. Como sabe, eu trabalho e estudo. Só poderei ajuda-lo aos finais de semana.

- Como queira.

- Está combinado, sexta-feira estarei na sua casa. Agora preciso ir, meu horário de almoço termina em 3 minutos.

-

11 de Setembro

Papel, muito papel. Estou dentro do “quarto secreto” de George, depois da porta vermelha, e tudo que consigo enxergar é papel. Inúmeras folhas de blocos destacadas estão nas paredes, cobrindo-as do chão ao teto. Alguns quadros negros repletos de números e equações também possuem folhas grudadas em suas laterais. Não posso deixar de pensar que algumas dessas anotações estão aqui desde o Ensino Médio, ou até mesmo antes disso.

- É aqui que a mágica acontece.

- Sei… E por onde começamos?

- Primeiro, deixe-me explicar o conceito. – ele se aproxima de um dos quadros negros – Sente-se.

Olho ao redor a procura de algum local para sentar, um banco ou uma cadeira. Como não encontro nenhum dos dois, sento-me no chão. Ao me ver no chão e não fazer nenhum comentário, concluo que era exatamente isso o que ele queria que eu fizesse.

- Pois bem. – ele vira um dos quadros para mim, que está dividido em três partes por duas colunas verticais feitas a giz amarelo. Cada parte contém uma palavra escrita: “Passado”, “Presente” e “Futuro” – O que nós chamados de “presente”, “passado” e “futuro” são uma ilusão. Tudo o que já aconteceu, está acontecendo e irá acontecer ocorre ao mesmo tempo. O problema é que não temos consciência disso. O que separa esses três estágios do tempo são “barreiras invisíveis”, desculpe, mas não sei como definir isso melhor.

“Essa teoria iniciada por meu pai há mais de trinta anos propõe a criação de uma máquina capaz de transpor essas barreiras – neste momento George apaga uma pequena parte da barra lateral que divide o “passado” do “presente” – e assim nos dar a capacidade de viajar no tempo”.

- E o seu pai, onde está?

- Está preso – respondeu como a maior naturalidade do mundo.

- O quê? Como assim?

- Ele foi preso alguns anos antes de eu nascer. Acontece que além de fazer pesquisas sobre viagens temporais, meu pai tentava desvendar o máximo da capacidade humana. Ele queria criar uma fórmula que aumentaria nossas habilidades físicas e mentais, nos dando assim capacidades inimagináveis.

- Você quer dizer, “superpoderes”?

- Exato. Mas para tal pesquisa ele usou cobaias humanas secretamente e quando descobriram, o jogaram na cadeia. Eu descobri sua pesquisa sobre viagem no tempo quando eu tinha 15 anos e decidi dar continuidade a ela, mas a outra pesquisa se perdeu.

- Espera aí. Se ele foi preso anos antes de você nascer, como você…

- Fui gerado? Em uma das visitas íntimas.

- Entendo… Onde vamos construir essa máquina?

- Não temos espaço suficiente aqui, então aluguei um galpão aqui perto.

- E seremos apenas eu e você? E os equipamentos necessários?

- Já está tudo certo. Teremos a ajuda de mais uma pessoa, que alias está atrasada.

- Alguém que eu conheça?

- Acho que não. Agora vamos sair daqui, preciso tomar um café. Fiquei acordado a noite toda e estou me segurando para ficar em pé.

Estamos na sala aguardando o terceiro integrante de nosso grupo, cada um com uma xícara de café nas mãos. George não possui televisão, ao ser questionado sobre isso ele apenas responde: “Não tenho tempo para assistir TV, estou sempre ocupado com minha pesquisa. Então por que comprar uma?”.

- Enquanto nosso amigo não chega, gostaria de mostrar um pequeno esboço que eu fiz da máquina – pego minha mochila e de dentro retiro meu caderno digital, que produz um pequeno holograma do desenho em três dimensões – O que acha?

- Muito bom, mas eu estava pensando em algo mais circular…

- Circular? Tipo, um arco?

- Sim, um arco!

- Ah… Está bem.

- Sabe, sem querer me aproveitar de sua boa vontade, mas poderia passar esse esboço para um papel?

- Por quê?

- Esses cadernos digitais vivem dando defeito e os arquivos se perdem. O papel além de ser mais confiável dura mais tempo.

Isso explica muita coisa. Ouvimos a campainha e George se levanta rapidamente, quase derramando o café sobre si mesmo. Alguns segundos depois ele volta para a sala acompanhado de um jovem negro que esbanja um enorme sorriso.

- Miguel, esse é Félix. Félix, Miguel.

- Prazer em conhece-lo – repondo ao me levantar.

- Igualmente.

- Agora que estamos todos aqui, podemos começar. – diz George — Aceita um café, Félix?

Horas se passam. Antes de começarmos de fato, George faz questão de explicar a Félix exatamente o que me explicou momentos atrás. No fim, avançamos muito pouco. Já passam da meia-noite e meu celular já recebeu mais de 36 mensagens de minha mãe. Por mais que eu já tenha 20 anos, sua preocupação é a mesma de quando eu era criança. Coisa de mãe.

- Já está tarde, preciso ir para casa.

- Eu também – diz Félix dando uma espreguiçada

- Tudo bem pessoal. Amanhã os levarei até o galpão.

Estou caminhando de volta para casa, a noite está bastante fria e um vento incessante sopra na minha direção, me arrependo amargamente de não ouvir o conselho de minha mãe ao me dizer para carregar um casaco. Ao virar a esquina já consigo ver minha casa e em sua frente, uma pessoa está sentada na calçada.

- Com licença, posso ajuda-lo?

- Ah, me desculpe – a pessoa se levanta e limpa a poeira da roupa. É um homem na faixa dos 40 anos de idade, está trajando uma calça jeans e uma jaqueta escura, cuja cor eu não consigo identificar – Não precisa se preocupar, estou bem. Eu só… — ele desvia o olhar para minha casa – Queria visitar alguém.

- Alguém que mora nesta casa?

- Sim. Você conhece os moradores daqui?

- Conheço.

- Saberia me dizer se dois rapazes moram nesta casa? Seus nomes são Antônio e Miguel, são filhos de uma mulher chamada Ashlley.

Como ele sabe o meu nome e o de meu irmão? Quem é este homem?

- Me desculpe, mas não posso dizer nada a menos que eu saiba quem é o senhor.

- Entendo perfeitamente. Sou Leon, pai dos rapazes.