Paradoxo Alternativo
10 Capítulo 10
Notas iniciais
27 de Março, Quinta-feira.
Dois dias se passaram desde que fiz a viagem.
Lembro que sai correndo desesperadamente pela cidade após ver a data do jornal, como se isso fosse resolver o meu problema. Fui até onde deveria ser a minha casa, ela estava completamente diferente; estava menor do que eu conseguia me lembrar.
Bati algumas vezes na porta. Ninguém atendeu.
Após um tempo voltei para o bar de Samuel e Jéssica, onde os encontrei totalmente confusos. Inventei uma desculpa qualquer para a minha reação, eles pareceram não acreditar, mas não perguntaram mais nada.
Já tendo comido alguma coisa e esfriado mais a cabeça, tentei colocar os pensamentos em ordem. Com o dinheiro que eu carregava na carteira, consegui alugar um quarto próximo à área dos armazéns.
Aqui estou eu, sentado na areia na praia. É uma manhã de céu parcialmente nublado, e uma refrescante brisa sopra em intervalos constantes. Abro minha carteira e vasculho o que tem dentro. Vejo minha identidade e CPF.
Ambos inúteis. Afinal, para que me servem documentos cuja data de nascimento consta como 2017?
Decido por queimá-los e jogá-los fora quando voltar para o quarto, junto com cartões de crédito e débito.
Agora sou ninguém.
Olhando para o horizonte lembro-me de minha mãe e de Antônio. Como será que eles estão? Se a teoria que George me explicou estiver correta, de que o passado, presente e futuro acontecem ao mesmo tempo, o que será que eles estão fazendo neste momento? Será que estão procurando por mim? E George e Félix? Como será que reagiram ao descobrirem que usei a máquina?
Preciso voltar.
Mas Como?
Antes de pensar nisso preciso me ater ao momento, aos problemas atuais. Preciso conseguir algum dinheiro, pois o pouco que me resta só dará para pagar mais três dias de aluguel. Mas para conseguir dinheiro preciso de um emprego, e para tal preciso de novos documentos temporários. Preciso de novas roupas, pois cheguei aqui apenas com o que estou vestindo.
Isto é como começar uma nova vida do zero.
Continuo olhando o horizonte por um tempo e escuto um som próximo, um som semelhante ao de uma máquina fotográfica. Olho para o lado e vejo uma jovem, a poucos metros de mim, me fotografando. Ao ver que eu a havia notado, ela se assusta e dá uma pequena risada.
Era uma jovem de longos cabelos lisos, numa tonalidade castanho-escuro. Não era muito alta e a primeira vista deveria ter uma idade próxima a minha. Ela carregava uma câmera semi-profissional em mãos. Trajava uma blusa vermelha de botões, calça jeans e um all-star básico. Trajes meio incomuns para se usar na praia, mas não posso julgá-la.
– Me desculpe – disse se aproximando – É que eu não resisto ao fotografar pessoas desta forma.
– Desta forma? O que quer dizer?
– Eu adoro captar os momentos únicos da vida, quando as pessoas estão na sua forma mais natural. Nada de poses e sorrisos forçados. Quero fotografar aquela gargalhada sincera típica de todo bebê; o olhar apaixonado de um casal; o abraço apertado entre duas pessoas que mesmo estando distantes uma da outra, se mantém muito próximas.
– E você me fotografou por quê?
– O seu olhar.
– O meu olhar?
– Sim, é que... – notei um certo constrangimento em sua voz, como se ela não soubesse como dizer – Você estava com um olhar perdido enquanto olhava para o horizonte. Eu diria que por mais que você estivesse olhando naquela direção, você estava enxergando outra coisa. Sua expressão apresentava uma tristeza, um arrependimento talvez... Desculpe, estou dando uma de psicóloga com você – ela dá uma nova risada – Mas eu tinha que captar este momento, era uma expressão que eu nunca tinha visto; uma expressão única. Natural.
– Entendo. Você está certa.
Uma pausa, seguido de um longo e constrangedor silêncio, que logo é quebrado por um grupo de outras jovens chamando por ela.
– Lara! Vamos, estamos atrasadas para a aula!
– Ah, é mesmo! Bem... Já estou indo. Obrigada pela foto e me desculpe qualquer coisa.
– Não há problema. – vejo-a correr na direção de suas amigas e seguirem juntas – Lara...
O céu agora está totalmente nublado e não tarda para que as primeiras gotas de chuva comecem a cair. Olho para o relógio, são 10h00min.
– Está na hora de me tornar alguém novamente – levanto-me, retiro a areia da roupa e sigo em direção ao posto de identificação civil.
Fale com o autor