1° de Setembro de 2037, Terça-feira.

O despertador toca e não sinto a mínima vontade de me levantar. O por que sentiria? Afinal sei que será a mesma monotonia de sempre. Perderei grande parte do meu dia apenas me locomovendo de casa até o local onde trabalho e depois perderei mais tempo indo para a faculdade, para no final do dia voltar para casa com minhas forças esgotadas e me deitar sabendo que o amanhã me guarda exatamente o mesmo. Então por que devo sentir vontade em sair da cama?

Você alguma vez já desejou voltar no tempo? Para uma época onde suas preocupações eram mínimas se comparadas com as que você precisa conviver atualmente. A época em que você via seus amigos de escola dia após dia e que hoje mantém contato com menos da metade dos mesmos… Eu desejo isso toda às vezes em que acordo.

Como sinto falta da minha adolescência. O que eu não daria para ter dezesseis anos novamente, mesmo tendo se passando apenas quatro anos desde aquela época. Se eu conseguisse voltar no tempo, será que minhas escolhas seriam diferentes? Será que eu seria totalmente o oposto da pessoa que sou hoje em dia? Eu não sei. Talvez sim, talvez não. São tantas possibilidades.

Quem sabe eu virasse um grande inventor e receberia reconhecimento mundial como o mais jovem gênio da história. Talvez eu fundasse uma organização secreta ou me tornasse o jovem mais poderoso do mundo… Talvez eu realmente me torne, afinal ainda sou jovem. Por que, não? Pensarei nisso depois, agora preciso levantar.

Vou até o banheiro e tomo uma ducha rápida. Saio do quarto, cruzo o corredor e desço as escadas em direção à sala. Lá me deparo com uma mulher sentada no sofá com uma xícara de café nas mãos. Seu nome é Ashlley Croft, minha mãe.

— Oi, querido. Acordou cedo.

— Digo o mesmo – olho para um relógio de mesa próximo e vejo que são 06h15min da manhã – A senhora não vai trabalhar só daqui a 2 horas?

— Hoje não – ela dá um último gole no café – Tenho uma matéria muito importante para fazer hoje e quero chegar lá bem cedo. Aliás, já estou atrasada. Você guarda essa xícara para mim? – perguntou, colocando-a sobre o braço do sofá.

— Claro.

— Obrigado – ela se levanta, pega sua bolsa e segue para a porta. Mas antes de sair, dá meia volta e me presenteia com um pequeno beijo no rosto – Tenha um bom dia.

Minha mãe é uma renomada jornalista. Está sempre muito ocupada tirando fotos para o jornal mais lido do país. Eu tenho condições suficientes para me sustentar por conta própria, mas sinto pena em deixa-la vivendo sozinha nesta casa enorme.

Faltam 15 minutos para às 7 da manhã e já estou quase pronto para sair. Ao sentar na cama para amarrar os cadarços, ouço o telefone tocando. Volto para a sala enquanto penteio os cabelos que, apesar de curtos e grossos, insistem em serem rebeldes. Atendo o telefone, é o meu irmão.

— Bom-dia, Miguel. Sabia que ainda te pegaria em casa se ligasse essa hora.

— Bom-dia, Antônio. Como vai?

— Melhor impossível. A nossa mãe está aí?

— Não. Ela saiu mais cedo hoje.

— Entendi. Mas deixa pra lá, eu só queria dar um recado. No Domingo eu e minha esposa faremos uma pequena visita para vocês. Temos uma grande novidade.

— Está bem. Olha, agora preciso ir para o trabalho. Nos falamos depois.

— Tudo bem. Tenha um bom-dia.

— Igualmente.

Antônio é o meu irmão mais velho, nossa diferença de idade é de apenas dois anos. Há oito meses ele se casou com uma mulher que conheceu pela internet chamada Paloma. Eu poderia dizer o seu nome completo, mas por ser um sobrenome russo, nunca soube ao certo como se pronuncia. Então, será apenas Paloma.

Assim como eu, ele é universitário. Cursa Direito. Mas também é um bom músico, sabe tocar violão e piano. Ela é recém-formada em Publicidade. Formam um belo casal, apesar de não combinarem muito entre si. Pelo menos, é o que eu acho.

Anoto o recado de meu irmão em um papel e o deixo pregado na geladeira. Saio de casa e caminho uns 10 minutos até o ponto de ônibus. Não demora muito para que o veículo público dobre a esquina, lotado. Não é uma surpresa. Subo no mesmo, me esforçando para atravessar a roleta.

Só de pensar que terei que aturar isso por pelo menos mais uns três meses até que o meu carro possa sair da oficina me desanima. Finalmente encontro um lugar onde me encaixar entre uma moça idosa – que deveria estar sentada, mas um homem “dormindo” encontra-se no assento preferencial – e um homem dois palmos mais alto que eu, que deve estar usando um desodorante fora do prazo de validade.

Meia hora se passa e o veículo chega até a rodovia principal, engarrafada. Também não é uma surpresa. Nestes momentos você se pega com a atenção voltada para o nada enquanto sua mente te lembra de coisas aleatórias que você pensava ter esquecido, como uma vez em que viu uma garotinha cair e ralar os joelhos quando você tinha nove anos de idade ou aquela pergunta que você deixou em branco na prova final da oitava série. De repente, sinto que estou sendo observado, mas logo ignoro. Afinal, naquele lugar onde a lei da impenetrabilidade não se aplica, pelo menos uma pessoa estaria olhando para mim.

Uma hora e meia depois, finalmente chego ao trabalho. É uma concessionária. Foi o meu primeiro emprego aos 18 anos e estou aqui desde então. É um bom lugar para se trabalhar. Estou na minha mesa arrumando alguns documentos de clientes quando novamente sinto a sensação de estar sendo observado. Olho ao redor e não vejo ninguém que já não conhecesse.

Horas da boa e velha rotina se passam e agora me encontro em um restaurante próximo, desfrutando do meu intervalo para o almoço. Gosto de me sentar ao lado da janela, assim posso ver o movimento do lado de fora. Olhando para o outro lado da rua, percebo que um homem está olhando fixamente para mim. Encaro-o por um instante, mas logo volto minha atenção para o frango grelhado que estou comendo.

Sou pego de surpresa no instante em que alguém se senta na cadeira em minha frente. Em meio ao susto, demoro a perceber que se trata do homem que me encarava alguns segundos atrás.

— Oi – me cumprimentou o homem, com um sorriso simpático no rosto – Você é o Miguel, não é? Miguel Croft?

— Sim, sou eu. E você é?

— Não se lembra de mim? Sou George. George Luz. Fizemos o Ensino Médio juntos.

— Ah, sim. Agora me lembro de você. Já faz algum tempo.

— Pois é. O que tem feito da vida?

— Nada de mais. Trabalho e estudos. O de sempre.

— Entendo… Olha, estou marcando um pequeno evento na minha casa neste final de semana. Um reencontro com todo o pessoal que fez parte do Terceiro Ano do Ensino Médio de 2034. Estou aqui para te convidar.

— Olha, eu adoraria, mas…

— Ah, que ótimo. Aqui está o meu cartão com o meu endereço. Te vejo lá.

— Espera… — antes que eu pudesse dizer alguma coisa, ele se levanta e vai embora. Continuo sentado sem entender ao certo o que aconteceu.

O resto da tarde vai passando e só consigo pensar no meu encontro inusitado. Já são 17h30min, o expediente chega ao fim. Hora de ir para a faculdade. Novamente fico a mercê do transporte público, pelo menos dessa vez não está tão lotado. Chego 10 minutos atrasado, mas a aula ainda não começou.

Estou cursando Design, segundo período. Sem dúvida é o melhor momento do meu dia, pois estou fazendo algo que realmente gosto. O tempo passa voando e antes que eu pudesse perceber, a aula chega ao fim. Sem engarrafamentos, levo apenas uma hora para chegar em casa.

São onze da noite, minha mãe já está dormindo. Vou até a geladeira e tomo um gole de suco direto na garrafa junto com uma fatia de bolo. O telefone toca, mas não vou atender, apenas espero para ouvir a voz através da secretária eletrônica.

— Alô… Bem, me desculpe por ligar tão tarde. Você já deve estar dormindo… É… talvez você não se lembre mais de mim, se passaram tantos anos. Mas enfim, outro dia eu ligo mais cedo, talvez consiga falar com você. Sou eu, Leon.

— Leon? Quem pode ser?

Vou até meu quarto e jogo a mochila sobre uma cadeira, tomo um banho e me deito na cama. Foi um bom dia; um dia comum. E amanhã acontecerá exatamente o mesmo.

—

4 de Setembro, Sexta-feira.

Sexta é o dia mais chato para mim, não tenho aula na faculdade neste dia. Estou em casa assistindo televisão com minha mãe. O tal Leon não ligou novamente, pelo menos não enquanto eu estava em casa. Não questionei minha mãe sobre ele, respeito sua privacidade. Mas ela vem andando um pouco diferente desde aquela primeira ligação. Meu celular toca, ao pegá-lo vejo que se trata de um número desconhecido.

— Alô?

— Oi, Miguel. Sou eu, George. Então, está tudo certo para hoje à noite?

— George? – como ele conseguiu meu número? – Ah, é mesmo. A festa que você marcou hoje à noite, eu havia esquecido. Infelizmente não vai dar para ir

— Me dá isso aqui – diz minha mãe ao tomar o celular da minha mão –Alô? Ah, claro… Aham... Sei. Ele vai sim.

— O quê? – antes que eu pudesse protestar, ela desliga.

— Sim, você vai. Não há nada melhor do que reencontrar velhos conhecidos. Você estuda e trabalha a semana toda, tem que se divertir um pouco.

— Às vezes você me trata como uma criança.

— Eu não trataria, se você não agisse como uma às vezes. — Olho para ela em um protesto mudo, me levanto e vou para o quarto. – Também te amo querido.

Vasculho minha mochila a procura do cartão me dado por George, o encontro todo amassado no bolso lateral. Não conheço o endereço. Dou uma olhada num mapa digital próximo ao computador. Não é muito longe, dá para ir andando.

— Vejo que se decidiu – diz minha mãe ao me ver descendo as escadas alguns minutos depois.

— Não me espere, talvez eu volte tarde – me aproximo e lhe dou um beijo na testa.

— Divirta-se.

A noite está um pouco fria. Estou vestindo uma calça jeans simples e uma camisa clara sob a jaqueta preta. Não sei que tipo de evento será então me vesti de uma forma bem simples. Quarenta e cinco minutos depois chego ao local do evento. É uma casa escura, se não fosse pelas luzes na entrada, dificilmente seria perceptível à noite.

Toco a campainha, ela emite um apito estranho que eu não sei identificar do que se trata. Alguns segundos depois, a grande porta dupla se abre. Entre elas está George.

— Miguel! Você veio. Vamos, entre, entre. Fique a vontade.

— Com licença.

O interior é maior do que aparenta ser, está bem iluminado por luzes de cores variadas, vermelhas, azuis, verdes e amarelas. De início não reconheço ninguém, mas logo consigo identificar cada um deles. Alguns foram meus grandes amigos, outros eu nem dirigia a palavra, mas ali todos eram amigáveis. Alguns não conseguiam disfarçar a falsidade. Algumas horas se passam e os poucos convidados que faltavam finalmente adentram o local.

— Muito bem, agora que estão todos aqui. Sigam-me, favor – diz George, antes de começar a nos guiar por um grande corredor. Paramos em frente a uma porta vermelha. – Bem, aqui está o motivo deste evento.

Pessoas entreolharam-se, outros sussurraram entre si: “Afinal o que é isso?”; “Pensei que fosse uma festa”, entre outras coisas. Eu permaneci distraído conversando com uma jovem que no passado foi minha namorada.

— E então, pessoal. Vocês já pensaram em voltar no tempo? – Minha atenção foi direcionada para George ao ouvir suas palavras.

— Eu já – respondeu alguém no meio das outras pessoas.

— Eu também – Outro alguém concordou.

— Mas é impossível, não é? – fizeram a pergunta que eu estava prestes a fazer.

Todos voltaram suas atenções para George. Ninguém conversava, nem olhavam em seus celulares ou relógios. Todos nós estávamos esperando uma resposta que já sabíamos. É impossível viajar no tempo.

— E se eu disser á vocês que sei como fazê-lo?