Paradoxo
1 Capítulo 1
Denise passeava pelo bairro do Limoeiro com seu novo cachorro: Um Border Collie. Ela olhava para um lado e para o outro, tentando encontrar alguém para quem exibir seu novo animal de estimação. Sem sucesso, ela parou e tirou uma foto junto com seu cão, postando imediatamente em todas as redes sociais.
Ainda com seu celular em mãos, ela ligou para Sofia:
— Alôu, amiga! Você já viu a foto que acabei de postar?
— Denise, faz apenas alguns segundos que você postou.
— Viu ou não viu?
— Vi sim. — Sofia suspirou. — E amei seu cachorro! Mas nunca pensei que você fosse do tipo que curtia animais.
— Ai, a louca! Claro que curto animais! Eles são fofos e ótimos companheiros para a vida toda. Além disso, cães estão na moda e sempre saem bem em fotos!
— E isso não tem nada a ver com o fato do Xavecão gostar de cachorros?
— Me poupe, miga! Eu não vivo para agradar macho, né!
— Então você não está perto da casa fora do tempo, onde o Xavecão costuma ficar a essa altura do mês? — Sofia perguntou com um tom desafiador.
— Hã… — Denise hesitou por um instante, já que realmente estava perto daquela casa. — Isso não tem nada a ver, eu ando por onde quero! Agora eu preciso desligar, mas depois a gente se fala, linda.
Denise desligou o telefone antes que Sofia pudesse se pronunciar sobre o assunto. A verdade é que ela queria passar mais tempo com Xavecão e fisgá-lo de vez. Ela sabia do sentimento que ele nutria por ela, mas ele tinha uma história com a Denise do futuro e era difícil superar isso.
Naquele dia, Xavecão estava sentado em frente à casa fora do tempo como era de costume. Há algum tempo, Denise tinha descoberto que Xavecão visitava aquela casa todo mês, no mesmo dia em que chegou no passado, como forma de relembrar tudo que se passou. Como forma de relembrar a Denise.
— Precisa de companhia? — Denise perguntou. Numa situação normal, ela debocharia ao ver alguém sozinho e sem fazer nada, mas sempre com o intuito de motivar a pessoa a fazer algo com a vida. No entanto, dessa vez, ela sentia que aquilo era diferente. Um novo contexto exigia uma nova abordagem ao problema.
— Eu aceito um pouco. — Xavecão sorriu, um pouco sem jeito. Logo depois, ele notou a presença do cão e fez um pouco de carinho nele. — Não sabia que você tinha um cachorro. Qual o nome dele?
— Ainda não decidi para dizer a verdade. — Denise olhou diretamente para os olhos distraídos de Xavecão, encarando o vazio enquanto acariciava calmamente o cachorro. — Mas não é sobre isso que você quer falar, não é?
— Sempre esperta. — Xavecão sorriu mais uma vez. — Ultimamente, tem sido difícil viver por aqui. Minhas lembranças sobre essa época estão mais vívidas do que nunca, mas eu vejo minha versão do passado vivendo coisas que eu não me lembro de ter feito. Ou mesmo esse seu cachorro que nunca ouvi você… Quer dizer, a você do futuro, falar sobre.
— Onde você quer chegar com isso?
— Eu quero dizer que voltei ao passado para mudar o futuro e tudo indica que consegui! Tive sucesso em minha missão, mas como ainda estou aqui? Eu resolvi os problemas do futuro, então por qual motivo eu voltei ao passado mais uma vez? Sinto que não pertenço a este lugar. Parece que sou um paradoxo.
— Amore, não precisa ficar tão para baixo! Para que você vai se preocupar com possibilidades? O que importa é que você está aqui agora e deve aproveitar como qualquer outra pessoa. — Denise falou, elogiando-se mentalmente pela sua sutileza.
— Você tem razão, Denise. De vez em quando, você fala muita besteira, mas também pode ser sábia de vez em quando.
— Você está claramente me avacalhando!
— Estou! — Pela primeira vez naquele dia, Xavecão deu uma gargalhada, o que resultou em alguns tabefes dados pela Denise. — Ei, calma! O que você acha de eu comprar um picolé do KiDelícia para compensar?
— Quer me chantagear com comida? Está pensando que eu sou a Magali, é?
— Então você não quer?
— Claro que quero. Ninguém é louco de recusar um picolé.
— Eu não sou louco! — Uma voz familiar gritou a alguns metros de distância ou, talvez, quilômetros.
— Não vai me perguntar o sabor? — Denise perguntou.
— Eu não preciso. Já sei do que você gosta. — Xavecão disse, rindo. Ele piscou um olho e começou a andar em direção à lanchonete mais próxima. — Fique aí! Volto já!
Enquanto esperava pelo picolé, Denise pensava em como tudo estava correndo bem. Ela realmente era muito boa para ter conseguido animar o Xavecão e ela sabia que eles seriam incríveis juntos. Ainda não acreditava que o Xaveco do presente ia ficar daquele jeito: Ganhar confiança e charme, ficar mais forte e esquecer antigas paranoias de ser apenas um personagem secundário. E, mesmo que ele estivesse no processo para evoluir, Denise não tinha paciência para quem estava começando. O Xavecão já estava perfeitamente pronto para um relacionamento e, ainda por cima, estava comprometido com ela mesma. Ou, teoricamente, com a sua versão do futuro.
No entanto, algo que Xavecão disse deixou Denise pensativa. O que ele ainda estava fazendo no passado? Será que ele não havia conseguido impedir o futuro que tanto temia? Ou ele ainda precisava de tempo para que o futuro se concretizasse após tantas mudanças? Como Denise poderia se relacionar com alguém que poderia desaparecer a qualquer instante?
Com tantos pensamentos, Denise parou de prestar atenção em seu cachorro e, sem querer, afrouxou a mão que segurava a sua coleira. O animal, agitado, libertou-se de sua nova dona e correu atrás de alguns pássaros, latindo a todo momento. Denise levantou-se rápido e correu para tentar recuperá-lo.
— Volta aqui, ô criatura!
O cachorro não a obedeceu e continuou correndo atrás de um pássaro que entrou na casa fora do tempo. Denise congelou por um instante. Ela sabia o quão perigosa era aquela casa, mas não podia perder seu cão no primeiro dia. O que sua mãe iria falar?
Pela porta aberta da casa, ela via o cachorro parado enquanto latia para o pássaro. “Entrar e sair. Vai ser fácil e rápido.”, ela pensou. Respirando fundo, ela correu em direção à casa. Entrou rapidamente e se abaixou para segurar a coleira do cachorro, mas, assim que fez isso, ela ouviu um barulho.
Ela parou assim que escutou. Seu coração estava acelerado. Respirar se tornou uma tarefa difícil. Ela sentiu sua boca seca. Então, ela olhou para trás para confirmar sua suspeita.
A porta havia se fechado. Ela não ia voltar tão cedo para seu encontro com Xavecão.
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