Notas iniciais
Feito com muito carinho para o fandom lutávio, em homenagem ao melhor casal que 2018 poderia ter trazido. A ideia surgiu através de um spoiler sobre uma possível porta secreta para ligar dois apaixonados em um amor secreto. Espero que gostem!

PARADISO PRIVATO

Depois de conversarem a respeito do convite de Otávio sobre alugarem dois quartos em uma pensão, o major e o mecânico não perderam tempo após o terror que vivenciaram por causa de Xavier. Assim como ambos, seus amigos também ficaram mobilizados diante do ocorrido no trem que partia em um rumo que os próprios passageiros não sabiam até serem alertados por Brandão, que fora alertado por Luccino e Otávio. Semanas depois, o Vale do Café voltava a sua normalidade habitual, ainda que se falasse aos cantos sobre as mortes recentes, inclusive a de Lady Margareth.

No início da manhã de uma quinta feira, começava-se Novembro, o sol ainda surgia no horizonte, trazendo na mente ansiosa de um Major, a possibilidade de começar um novo ciclo com um certo italiano que já o esperava em frente as portas ainda fechadas da oficina mecânica. Ao aparecer no campo de visão de Luccino, o mesmo não conteve o sorriso, parecendo igualmente tão animado quanto ele próprio:

— Buongiorno, Major! Como dormiu esta noite? – O sorriso crescia ao ver Otávio caminhando em sua direção e parando em frente a si. – Acho que, com o brilho dos seus olhos, teve uma noite fantástica.

— E tive. Realmente tive. – Otávio riu balançando a cabeça ao pensar nos dois aos beijos no tardar da noite no quarto de Luccino na casa de Brandão. Foi um tanto complicado sair dos toques ansiosos que compartilhavam, cheios de saudades, apesar de se verem todos os dias. Otávio ainda não conseguia acreditar em tudo que ele e Luccino viveram nos últimos meses, e quanto estava feliz.

Luccino pareceu entender sobre a expressão de felicidade de Otávio ter se tornado pensativa e roubou um beijo breve dos lábios do Major.

Seu Major. Ora, estava orgulhoso mesmo, e não escondia a afeição no olhar toda vez que o chamava pela patente conquistada.

— Luccino! E se alguém aparece de repente? Você sabe que as pessoas do Vale aparecem sem hora marcada na sua oficina – Otávio arregalou os olhos, olhando rapidamente ao redor, ficando mais tranquilo ao não ver ninguém por perto.

Luccino revirou os olhos, ainda com o sorriso no rosto.

—Vamos Major, temos um compromisso inadiável a ser tratado. – Apertou o ombro de Otávio rapidamente e caminharam juntos até o centro da pequena cidade. Algumas lojas ainda abriam suas portas para receber novos clientes e começar mais um dia, preparando-se para a freguesia. Mas, consideravelmente a cidade ainda amanhecia adormecida.

Depois de procurarem em duas pensões que conheciam, Luccino começara a ficar preocupado. Uma delas estava totalmente lotada, quanto a outra ofereciam quartos bem distantes em corredores diferentes, e o preço não era compatível ao limite que poderiam pagar no momento.

—Otávio, não sei se temos alguma outra opção. Talvez, se procurarmos daqui uma semana, quem sabe nós...

—Não, não. Nós vamos achar uma solução, não podemos desistir agora, e... – Otávio parecia determinado olhando para Luccino, e então de súbito pareceu ter a melhor das ideias, com uma expressão ansiosa. – Lembrei de algo! Randolfo me contara a alguns meses, sobre uma pensão que fica próximo à saída do Vale e próxima à floresta que rodeia a ferrovia... Será apenas alguns minutos de caminhada, mas acredito que valerá a pena. O que acha?

Luccino sorriu concordando.

—Então, é melhor nos apressarmos. Pode ser que tenhamos sorte!

Dez minutos depois, encontravam-se frente à pensão, na qual Otávio falara. Realmente, ficava a poucos metros da ferrovia e próxima a floresta. E sua arquitetura diferenciava-se das demais das quais procuravam. Parecia ser mais modesta, mas dentro do padrão dos modelos das pensões que existiam no Vale do Café e até mesmo na capital, em São Paulo. Uma senhora trazia uma vassoura de palha em mão, junto a um balde com esfregão em outra, parecendo determinada a fazer a limpeza da calçada até que reparou nos dois jovens próximos a entrada, cochichando algo que não conseguia escutar.

—Posso ajuda-los, cavalheiros?

— Olá! Meu nome é Luccino, e esse aqui é... um amigo, Major Otávio. – Luccino hesitou brevemente olhando para Otávio que sorriu acenando, compreendendo. – Estamos aqui, pois estamos procurando dois quartos para alugar, então pensamos na sua pensão como uma opção.

— A senhora é a dona do local, certo? – Otávio aproximou-se da senhora que deveria estar em torno dos 50 anos. – Um amigo me indicou a sua pensão e resolvemos vir pessoalmente para vê-la.

— Por quanto tempo os senhores pretendem alugar, se me perdoem a pergunta. – Ela parecia atenta e totalmente alheia aos afazeres em que estava determinada a começar.

—Na verdade, nós não sabemos se há um limite de tempo, agora...? – Otávio olhou para Luccino, brevemente apreensivo. – No momento, gostaríamos de alugar dois quartos, já que Luccino ainda não tem um lugar definido para morar, e eu passo a maior parte do tempo no quartel.

Luccino levantou a sobrancelha, pensando que de fato, Otávio passava bastante tempo no quartel, mas não tanto quanto passava na oficina.

Sorriu, aquietando-se com os pensamentos dos últimos dias em seu local de trabalho.

Os primeiros raios do nascer do sol reluziram contra as lentes dos óculos da dona da pensão, que parecia atenta olhando para ambos os rapazes que esperavam a sua resposta. Segundos se passaram para ela, que parecia compenetrada pensando, mas para Luccino e Otávio, passavam-se horas. Até que a mulher sorriu, compreendendo.

—Muito bem, cavalheiros. Sinto desapontá-los, mas acredito que os melhores quartos já estão sendo hospedados. Eu sinto muito.

Ambas as expressões dos rapazes à sua frente foram de esperança à desapontamento em instantes. Mas, a mulher até então, misteriosa pareceu ponderar, observando-os agradecer e começarem a se distanciar.

—Esperem um momento! Acho que... Bem, não sei se importam-se com algo muito elegante e cheio de finuras, acredito que não andaram à toa até aqui. Podem me acompanhar? Oh, esqueci de apresentar-me! Sou Teresa, atualmente dona da pensão, já que meu irmão passou-a para meu nome, e ele apenas a administra, cansou das atenções e das pessoas o rodeando.

Luccino e Otávio riram, e Teresa sorriu arrumando os óculos, os direcionando para dentro da pensão. Conversavam sobre o antigo edifício de dois andares, atravessando os corredores e então, subindo os degraus de madeira polida da escada que os levavam ao outro andar. O mecânico e o Major estancaram em frente às duas últimas estreitas portas amadeiradas que ficavam no fim do corredor.

—Aviso de prontidão, que talvez não seja do gosto inicial de ambos, mas quem sabe não o agradem em algo. – Teresa limpou as mãos no avental de sua saia, tirando o cordão do molho de chaves em sua cintura e abriu uma das portas. Então, entraram.

Os olhos de Luccino e Otávio ficaram abismados com o que viram.

Aos olhos de outros, parecia ser um singelo quarto pequeno de apenas dois cômodos, uma sala pequena com uma cama de casal, um como de madeira envelhecido e uma passagem que levava a uma sala bem menor, que suspeitavam ser a do banheiro.

— Como podem ver, o quarto não é o mais agradável possível, mas pelo menos há uma boa banheira para os asseios. – Teresa sorriu e pareceu se dar conta do que disse ao ver os olhos dos homens à sua frente se arregalarem – Oh! Asseio de quem for ficar neste quarto, claro, obviamente apenas um frequentará este quarto não é mesmo?

Teresa riu apressando-se para o centro da sala, apontando para as janelas que estavam fechadas. Tirou mais uma das chaves do molho e destrancou a fechadura, abrindo-a e sorriu ao ver a expressão de espanto dos dois ao seu lado.

—Dona Teresa! Que vista incrível! – Otávio sorriu deliciado com a floresta à sua frente, as copas frondosas das arvores balançavam com a leve brisa do amanhecer, e a luz alaranjada refletindo-se entre as folhas. Virou-se para olhar para Luccino e o mesmo observava encantado, assim como ele.

Teresa escondeu o sorriso, distanciando-se para o outro cômodo distraindo-se em trocar a roupa de cama enquanto deixava-os em uma frágil privacidade na varanda do quarto.

— Se já me encontro embasbacado com esse pequeno quarto, mal posso esperar para ver o outro. Se bem, que acho que já fiz a minha escolha! Ficarei com este. – Luccino decidiu, com as mãos no corrimão de ferro forjado, começando a rir ao olhar de lado para a expressão indignada de Otávio.

—E quanto à mim? Não tenho direito de escolher? Luccino! – Otávio deu um empurrão no ombro do italiano que ria dele. – Ora, que despautério!

— Não se preocupe Major, acho que vamos chegar a um acordo. Creio que posso convence-lo, afinal, uma pessoa muito especial me disse há algum tempo atrás que eu sou bom em persuadi-lo. – O mecânico sorriu malicioso, puxando o Major pela mão, com o rosto próximo ao outro.

A expressão levemente emburrada de Otávio derreteu-se aos poucos, dando margem a um sorriso contido.

—E quem seria essa pessoa especial?

—Acho que você sabe. Ela é a pessoa mais importante da minha vida. – Luccino sussurrou confidente, entrelaçando os dedos com os do homem ao seu lado, recostados na grade da varanda. A brisa bagunçava levemente os fios despenteados do italiano, e Otávio se viu compenetrado, esquecendo-se do real objetivo de estarem ali. Contudo, um ruído em outro cômodo os tirou da pequena bolha em que sempre se encontravam quando estavam juntos, em um momento de paz.

Ao terminar de arrumar os travesseiros, Teresa arrumou os óculos sob o nariz, sorrindo ao ver ambos os rapazes entrando novamente no quarto.

—Então, o que acharam da varanda? Acho que compensa esse humilde quarto.

—Estamos encantados, Dona Teresa. E estamos preparados para ver o outro, afinal precisamos decidir se iremos realmente ficar com ambos e escolher nossos futuros aposentos, se bem que... – Luccino parou de falar ao notar pela primeira vez que entraram no pequeno cômodo, uma porta mediana de cor azulada, praticamente desbotada. Era menor do que as outras portas da entrada e dos corredores, mas assim que o mais novo dos Pricelli a notou, Otávio não acanhou-se e aproximou-se da mesma, a tocando com a ponta dos dedos.

— Acredito que talvez seja um dos problemas no qual pensava antes de traze-los até aqui. – Teresa cruzou os braços, passando a mão pelo rosto, enquanto andava pelo quarto. – Ambos os quartos são ligados um ao outro, história antiga, confesso-lhes, meu irmão e eu sabemos que nossos tios quando os criaram, acabaram por fazer esse pequeno atalho, um diferencial em minha opinião, até discutimos sobre...

Otávio e Luccino, estavam totalmente alheios a explicação da dona da pensão, encarando a porta desbotada como se tivessem encarando a melhor coisa do mundo. Entreolharam-se, os rostos abrindo-se em um largo sorriso. Ambos conectados pelo mesmo pensamento e rápidas deduções do futuro deles ali.

—A arquitetura do lugar não é uma das mais recentes, mas...

—Nós aceitamos! – Otávio a cortou, dando-se conta do que fez, mas mal se conteve de euforia assim como Luccino – Peço-lhe perdão por interrompe-la, mas acredito que por agora, temporariamente este quarto nos agrada muito.

—Os dois quartos! – Luccino sorriu, corrigindo Otávio que mexia os dedos entre as mãos, nervoso e animado ao mesmo tempo.

—Ora, mas ainda não viram mesmo o outro quarto! – Teresa olhou para ambos, surpresa pela decisão já adiantada dos rapazes. – Posso entender se realmente não quiserem, posso conseguir a chave reserva desta porta e trancá-la para que tenham suas respectivas privacidades senhores.

—Acho que não será necessário, Dona Teresa. – Otávio respondeu olhando rapidamente para a porta que ligava a ambos os quartos. – Na verdade, penso que não precisará trancá-la.

A senhora de cabelos acobreados assentiu, começando a entender mais sobre a decisão de ambos, e disfarçou satisfeita, dando de ombros.

—Bem, se os senhores estão de acordo, então os quartos serão dos senhores. Mas, vamos conhecer o outro quarto sim? – A mulher caminhou até a porta da entrada, satisfeita pelos possíveis dois inquilinos de sua humilde pensão.

Meia hora depois, e o sol subindo no céu do primeiro dia de Outubro, Luccino e Otávio estavam no outro quarto, tão parecido quanto o outro em que conheceram primeiramente, satisfeitos com ambos os quartos.

—Talvez nem seja preciso ser convencido sobre em qual quarto ficar. Ambos são simples, mas... Bonitos em seus detalhes. E especiais, de alguma forma. – Otávio apontou com os olhos para a porta azulada, agora entreaberta. Teresa fora falar com o irmão para que resolvessem alguns detalhes sobre a hospedagem dos dois.

— Acha que desconfiarão? Sobre nós? Afinal, temos muitos vizinhos... – Luccino encostou-se sobre Otávio, sendo abraçado pelos braços do Major, dividindo a atenção entre a porta secreta que conectava ambos os quartos, a paisagem em frente em ambas as varandas dos quartos e aos olhos do homem que amava, tanto, que seu coração apertava-se apenas em pensar em como seria feliz com Otávio, mesmo se morassem em piores condições.

—Neste exato momento, eu me importo apenas com um vizinho. Aquele que passará por aquela porta ali – o Major apontou novamente para a divisão dos quartos, apertando Luccino em seus braços. – Assim como eu. Eu não poderia estar mais feliz, do que começar isso com você, Luccino. Ao mesmo tempo que tenho medo, eu confesso, eu quero que isso seja real. Nós.

Luccino encarou o outro, sorrindo, como o bobo apaixonado que sentia-se pelo homem que há quase um ano atrás, era apenas um homem sem identidade para ele, que passou a se tornar um colega devido aos laços de amizade com Brandão, depois tornando-se amigo, no qual escutara todos os seus anseios e angustias devido às pressões que sentia perante aos outros, e agora, ao olhar para Otávio, nada mais enxergava como alguém que era como a representação de Lar. De Morada.

—Nós somos reais. O nosso amor é real, e é tudo o que importa pra mim. — Sorriram, enquanto um dos raios do sol reluzia contra a aliança que estava pendurada no cordão envolto ao pescoço de Luccino.

As mãos do italiano seguraram o rosto de Otávio, tão firmemente e seguras de que segurava ali o seu passado imprevisível, seu presente cheio de (in) certezas, e o seu futuro, que Pricelli sentia em seu coração ser o único em que gostaria de ter.

Apenas um dos tantos beijos apaixonados entre os namorados selou então, ali, em uma distante varanda, a esperança de construir a melhor Morada que poderiam dar um ao outro, sendo eles mesmos, juntos.

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