Paradise
1 Capítulo 1 - Chegando no Colégio
Notas iniciais
Primeira parte – Narrada por Rachel Coleman
Sentada no banco do carro que me levava ao último lugar onde queria estar, eu escutava meu pai tentar me convencer de que eu deveria mesmo ir. Eu fingia estar escutando cada palavra que ele dizia, mas não estava. Cansada de ouvi-lo falar, interrompi abruptamente, com a mesma pergunta que repetia há horas:
–Mas por que eu tenho que ir? – ele apertou o volante com força.
–Rach, já disse que não tenho tempo para você. Preciso te manter segura nesse meio tempo. — Ah, é, um empresário que não tem tempo para sua própria filha. Que novidade.
–Então me deixa com a mamãe!
–Ela também não tem tempo para você, além disso eu fiquei com a sua guarda.
Revirei os olhos e cruzei os braços, chateada. Tentando me animar, ele falou:
–Seis meses passam depressa, as férias logo chegarão e poderemos ficar juntos.
Permaneci calada, olhando pela janela. ‘Meus pais deviam ter se separado antes de eu nascer. Tudo seria bem mais fácil’, pensei.
Agora já estávamos chegando ao estacionamento do colégio. Um colégio interno, parecia um pesadelo. Eu tinha saudades dos meus amigos de Londres. É péssimo chegar em um lugar totalmente diferente sem conhecer ninguém. Ainda mais no interior de Londres, o que eu ia fazer fora de Londres? Tudo bem que havia os bombardeios, mas um colégio interno era exagero.
Meu pai estacionou o carro e desceu para pegar as malas. Eu, incrédula e raivosa, pendurei a bolsa no ombro e também desci. Fui até o meu pai, que fechava o porta-malas, e o abracei. Ele retribuiu meu abraço e afagou minha cabeça. Quando me afastei, ele me deu um beijo na testa e indicou com o queixo o grande prédio que havia atrás de mim. De fato, era um lugar bem bonito, havia um jardim lindo com uma fonte. Como eu, outros alunos se despediam dos pais e entravam no colégio puxando suas bagagens.
–Prometa que vai me ligar todos os dias. – pedi a ele, chorosa.
–Eu prometo. – ele me deu mais um beijo na testa – agora é melhor você ir. Está na hora.
Peguei a mala mais leve com uma mão e com a outra saí arrastando a de rodinhas. Um pouco mais distante, virei-me para ver se meu pai já teria entrado no carro. Mas ele estava lá, parado com as mãos enfiadas nos bolsos, me olhando.
–Mande um beijo para a mamãe por mim! – gritei.
Ele confirmou com um gesto e eu continuei a andar.
Depois de ter passado pela portaria do colégio, me identificado, falado com a diretora, passado na secretaria para pegar a chave do meu quarto, eu finalmente pude procurá-lo. Na chave estava escrito ‘quarto num. 132’, mas eu não tinha ideia de onde ficava. Havia corredores longos e estreitos, como um labirinto. Meio confusa, saí lendo os números dos quartos: 144, 145, 146... havia passado. Voltei mais um pouco até encontrar o número 132. Agradeci a Deus, suspirei e encaixei a chave na fechadura. Mas não consegui girá-la. A chave estava errada, só podia ser brincadeira. Bufei, e com raiva, girei a maçaneta mesmo sabendo que a porta não iria milagrosamente abrir. Mas acontece que ela abriu completamente e eu fiquei parecendo uma idiota, segurando a porta aberta, encarando grandes olhos verde-água. Era alto, moreno e parecia que havia acabado de sair do banho, pois usava apenas uma calça de moletom e estava descalço. Os cabelos pretos e lisos pingando água levemente no carpete. Parou de desfazer as malas e levantou as sobrancelhas, me encarando. Senti minha pele corar.
–Me desculpe, mas eu pensei que esse fosse o meu quarto. — desviei os olhos rapidamente, procurando não encará-lo — Desculpa. — sussurrei mais uma vez, fazendo menção de fechar a porta.
Ele aproximou-se e segurou a porta:
–Ei, espera, calma. — ele sorriu para mim timidamente — Aqui é a ala masculina. Você devia procurar à direita da escada principal. Lá é a ala femenina. — ele orientou gentilmente — À propósito, meu nome é Nicholas Owen, mas pode me chamar de Nick. — ele entendeu a mão, a qual apertei acanhada.
–Rachel Coleman.
Me senti uma imbecil. Só queria sair dali o mais rápido possível.
–Tudo bem, então, obrigada. Desculpe, novamente. – falei ao fechar a porta, lançando-lhe um sorriso amarelo.
Finalmente, depois de seguir as orientações de Nicholas, indo em direção à ala feminina, encontrei o quarto 132. Respirei fundo, desejando não ver um garoto sem camisa quando abrisse a porta. Mas no fundo, eu queria ver um sim, a visão tinha sido um tanto interessante. Abri a porta e entrei. Era um quarto relativamente grande, continha um guarda-roupa enorme, um criado mudo entre duas camas e uma mesa de estudo. Joguei as malas em uma das camas e comecei a desfazê-las. Comecei a cantarolar, escutando o barulho que os alunos faziam no corredor. Estava tudo calmo, até que alguém abriu, ou melhor, quase derrubou a porta. Olhei para a garota que eu supus ser minha colega de quarto. Era uma garota de pele clara, olhos azuis, com cabelos negros grandes e lisos. Ela vestia um vestido preto, estava de salto, e tinha óculos escuros no alto da cabeça. Vendo-a assim, me senti até desconfortável, já que estava de jeans, camiseta pólo e meus cabelos enrolados, cor de mel, presos em um rabo de cavalo. Dando um passo a frente, me apresentei:
–Oi, você deve ser minha colega de quarto. Eu sou Rachel. – eu sorri para ela e acenei com o queixo.
–Oi, Rachel. Eu sou a Elizabeth White, mas pode me chamar de Liz. – ela falou, entrando no quarto com suas duas malas enormes de rodinhas. Fiquei imaginando como ela conseguira subir todos aqueles degraus com toda aquela bagagem.
–Você é novata aqui? – ela perguntou.
–Sim. Sou de Londres mesmo.
–Eu também sou novata. Sou daqui também. Mas fui transferida de outro internato.
Curiosa, eu acabei perguntando o que eu queria saber a horas:
–E é bom estudar em um internato?
–Se é bom? – ela respondeu à minha pergunta com muito mais entusiasmo do que eu esperava, os olhos azuis brilhando – É ótimo. Ao contrário do que muita gente pensa, o internato não é tão ruim assim. Eu não sei aqui, mas no colégio onde eu estudava era o paraíso antes. A gente podia fazer o que quisesse.
Tentei me convencer de que aquilo era mesmo verdade. Virei-me e continuei a arrumar minhas coisas enquanto Liz fazia o mesmo.
Como eu tinha trazido muito menos coisas do que ela, fui a primeira a terminar de desfazer as malas. Depois disso, peguei a toalha e fui um tomar um banho bem demorado, porque era disso que eu precisava, depois de um percurso Londres até aquele fim de mundo. Quando saí do banho, Liz ainda estava terminando de desfazer a primeira mala.
–Vou descer até o jardim. – avisei antes de sair do quarto.
É, pensando bem, talvez eu tenha exagerado no começo. O internato não era muito ruim. Pelo menos era bonito, grande e confortável. Havia um saguão principal também, com algumas poltronas e umas mesas. Andei pelo meu corredor, peguei o corredor principal, desci a enorme escada e atravessei o saguão em direção ao jardim. Havia uma boa quantidade de alunos conversando e se entrosando. Por um momento me senti só, até que vi o mesmo garoto que vira a menos de duas horas. O que estava desfazendo as malas com o cabelo molhado e sem camisa. Passei por ele, torcendo para ele não me reconhecer, porque corava só de lembrar a cena. Para o meu azar, ele me notou sim. E parou bem na minha frente dizendo:
–Ei! Rach, não é? Está conhecendo o lugar? É novata ou veterana? – ele me encheu de perguntas, entusiasmado. Parecia ser um garoto bem legal.
–Sou de Londres. – falei rindo. – E você?
–Sou também daqui de Londres mesmo, mas sou novato aqui no colégio. Então Rachel, eu estava indo até o refeitório comer alguma coisa. Você também está com fome?
–Claro, vamos lá. – respondi.
Ele parecia ser verdadeiramente legal, e eu tive a impressão de que já nos conhecíamos há anos. Contei a ele meu drama de estar chegando a um lugar bem distante da minha cidade, porque meus pais não tinham tempo para mim. Ele falou que os pais dele o colocaram num internato porque achavam que ele era hiperativo demais. Também disse que pretendia seguir a carreira de jornalismo e que escrevia uma coluna no jornal do pai. Nada mais que eu devesse saber.
–Nossa, Rachel, finalmente te encontrei! – escutei alguém falando ofegante por trás de mim.
Virei-me e vi que era a Liz, que finalmente havia colocado todas as suas roupas no lugar. Ela sentou-se junto a nós.
–Nick, essa é minha colega de quarto, Liz. Liz, esse é o Nick. Acabei de conhecê-lo no jardim. — e olhei-o sugestivamente, para que ele não falasse nada do incidente de mais cedo.
–Oi, Liz. Você também é novata? – Nick falou, fingindo que nada tinha acontecido, estendendo a mão para ela.
–Eu sou. E você? – ela apertou a mão dele.
–Sim. O colégio é bem grande né? Quase não encontrei meu quarto.
–Eu também. – concordei, tentando não lembrar do ocorrido. — Ei, e a que horas começa as aulas?
–Começam às oito e duram o dia todo. – Liz respondeu – Só temos pausa para almoço, e uns intervalos de manhã e a tarde.
Meu pesadelo. Acordar cedo todos os dias. Entretanto, fingi não ter estranhado nada.
–Meninas, tenho que ir, vou arrumar umas coisas que estão faltando – Nick disse, se levantando – Afinal, amanhã tem aula, né? — ele piscou para nós.
–Tudo bem, até mais tarde. – Falei.
Quando ele se afastou, Liz me encarou e perguntou, sendo direta, visivelmente interessada:
–Onde você encontrou ele?
Revirei os olhos. Só a conhecia a algumas horas e Liz agia como se fôssemos amigas de infância.
–Já disse que foi no jardim. — insisti — Ah, acho que também já vou subir. Você vai ficar aí?
–Vou comer alguma coisa. – ela respondeu.
–A gente se vê mais tarde então. – falei antes de me afastar.
Aquele colégio era realmente imenso. Me deslocando do jardim até o saguão principal, percebi que tinha muito mais coisas que eu não reparara antes. Curiosa, caminhei mais um pouco antes de subir. Basicamente, a decoração era feita de plantas. Havia muitas, e algumas com flores. Percebi que havia um pequeno jardim de inverno cheio delas.
Continuei andando pelo corredor de plantas que eu descobri por trás do saguão. Me senti em outro lugar, como se fosse um tipo de magia. Fechei os olhos e respirei o aroma das flores. Quando os abri, algo chamou minha atenção. Por trás de uma das plantas, enxerguei algo brilhoso. Algo redondo e brilhoso. Com uma mão, afastei a planta que estava na frente e com a outra, peguei na tal coisa. Quando a senti, percebi que era uma maçaneta. Tirei a mão e fiquei pensando o que aquela porta escondia. Dei uma olhada para o saguão e vi que estava ficando vazio. Novamente, afastei a planta e peguei na maçaneta, girando-a. A tal porta se abriu. Mas não havia nada lá. Só uma escuridão imensa. Fechei a porta novamente e saí pensando: ‘deve ser alguma sala de aula abandonada’.
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