Paradise
3 Capítulo 3 - There's a Place for Us
Sem dúvida o túnel era longo. Escuro também, mas nada que me provocasse medo, afinal, já estava acostumada à escuridão dos porões durante os bombardeios a Londres. Caminhei por uns bons três minutos sem realmente ver nada. Até que alguma coisa mudou no ar. Estava ficando mais quente e, sem dúvida, mais claro também. Corri na direção da luz, não por medo, mas sim por curiosidade. A primeira coisa de que tive conhecimento foi a luz. Era meio-dia pelos meus cálculos, o Sol a pino. Meus olhos queimaram em virtude da claridade, e tive que proteger meus olhos acostumados com a escuridão do túnel com as mãos. Quando julguei ser seguro, descobri os olhos e minha respiração falhou.
Ainda estonteada, caminhei alguns metros a frente, saí da caverna baixa para onde dava o final do túnel e, desviando-me de algumas árvores altas, mas que ficavam mais e mais esparsas, alcancei a margem do rio. Olhando o redor, pude ter uma noção total do lugar.
Aquilo não era a parte de fora do internato. De fato, nem se parecia com a Inglaterra. Podia notar pelo ar selvagem, bem diferente da modernidade da Europa. O rio era cristalino e nem tão fundo. Homens em pé passariam facilmente por ali. Montanhas verdes altíssimas espalhavam-se em todas as direções, algumas mais ao longe com picos nevados, cintilando ao Sol fresco daquela manhã.
Fiquei ali, hipnotizada, observando por mais alguns minutos. Até que uma ideia me surgiu. Onde eu estava, afinal? E como, por tudo que é mais sagrado, o túnel do internato podia acabar naquele lugar? Destinada a responder essas perguntas, voltei pela mesma trilha que havia feito, encontrando novamente a entrada da caverna. Não era tão longe da margem do rio, então, apesar de nunca ter feito trilha antes, foi relativamente fácil achar o caminho de volta. Encostei a mão na estrada da caverna, sentindo a pedra negra sob minha palma, checando se havia algo de anormal. Entrando na caverna estreita, caminhei alguns metros, checando se a passagem ou o que quer que fosse aquele túnel havia se fechado. Nada mais que escuridão e metros e metros à frente.
De repente, me ocorreu que eu poderia estar sonhando. Belisquei o braço e bati de leve no rosto inúmeras vezes. Nada aconteceu. Era tudo real. Um sorriso espalhou-se pelos meus lábios. Minhas preces foram ouvidas. Finalmente tinha encontrado um esconderijo, um refúgio, talvez. E, quem sabe, até poderia trazer Liz e Nicholas comigo. Assenti mentalmente. Sim, um lugar só para nós.
Decidi voltar até o rio e explorar o que pudesse, mas o somente indo longe o suficiente para não me perder. Ajoelhei-me junto ao rio, bebendo um pouco da água fria e cristalina. Até que um barulho me chamou a atenção. Folhas balançando bruscamente, galhos quebrando e um galope suave, mas que para mim, uma garota da cidade, pareceu assustador.
O animal era alto, mais ou menos um metro e meio de altura. Uma brilhante e sedosa pelagem branca cobria todo o corpo. Na cabeça, chifres dourados enormes o coroavam. Não entendia muito bem de animais, mas pelo que percebi parecia ser um veado. O animal mais bonito que já tinha visto. Parou a alguns metros de mim. Amedrontada, fiquei ali, imóvel, uma mão ainda na água. Ele me encarou de volta por mínimos segundos, analisando-me. Os grandes olhos castanhos e amedrontados pareciam me enviar uma mensagem. Então, a julgar pelo olhar e pela respiração ofegante e descompassada, a ficha caiu. Ele estava fugindo de algo, estava me pedindo ajuda. Mas fugindo de quê?
A resposta veio quase um segundo depois. Um galope mais forte, urgente veio das árvores, do mesmo trecho de onde o veado tinha saído. Um cavaleiro em trajes quase medievais montado em um cavalo negro surgiu da floresta, o arco e flecha preparados para atirar. Uma onda de pânico e fúria me assaltou. Quem se atreveria a matar um animal daqueles?
–Não! — o grito desesperado escapou de meus lábios antes que eu pudesse me conter.
E corri, vencendo a distância entre o cavaleiro e o animal, interpondo-me entre os dois, abrindo os braços protetoramente em frente ao veado. O cavaleiro, que parecia só ter me notado agora, comprimiu os lábios e abaixou o arco e flecha rapidamente, irritado.
Agora, bem mais de perto, pude analisá-lo mais precisamente. Na verdade, tratava-se de um jovem, e não um homem como eu anteriormente pensara, talvez um ou dois anos mais velho que eu. A pele branca, estava suavemente corada de vermelho pelo esforço da cavalgada e pelo sol a pino. Os olhos azuis escuro estreitos em desconfiança. Os cabelos dourados e lisos refletiam o sol, assim como a coroa também dourada que ele usava. Então se tratava de um rei, concluí com desespero. Agora certamente iria presa por defender a bela caça de um rei. Contudo, não me movi um centímetro sequer.
Ele trincou os dentes, evidenciando o contorno da mandíbula quadrada, perfeita. Um pensamento depois, descobri que não gostava dele. Não sei o que deixou esse fato mais evidente para mim, se foi sua postura orgulhosa ou sua frase seguinte:
–Saia já da frente. — ele ordenou, lenta e ameaçadoramente.
Estreitei meus olhos em sua direção e levantei o queixo, arrogante. Mesmo ele sendo um rei, não ia acatar suas ordens por três motivos, porque não ia com a cara dele, não aceitava ordens de estranhos e porque eu sabia que ele estava fazendo a coisa errada:
–Não. — repeti teimosamente — Terá que atirar em mim primeiro.
Ele me olhou incrédulo:
–Quem é você para desobedecer minhas ordens? Sabe quem eu sou? — falou grave.
–Não, e agora, ainda menos, não desejo saber. — rebati arrogantemente — Percebi que é um rei, mas mesmo sendo um, não vou deixar que mate o pobre animal.
Ele desceu do cavalo, fuzilando-me com o olhar:
–Sabe quanto tempo levei para encontrá-lo? Semanas. E agora, justo quando consigo encurralá-lo, uma plebeia com maus modos me impede. — ele para a alguns metros de mim, cruzando os braços — Não bato nem atiro em mulheres, mas se preciso for, vou tirá-la do caminho. — ameaçou.
–Bem, então tente, ó Grande Rei. — o sarcasmo em minha voz era evidente nas duas últimas palavras.
–Está debochando de mim? — ele perguntou, parecendo realmente furioso.
Então percebi o quão infantil estávamos agindo. Com um suspiro de desistência, relaxei e aproximei-me dele:
–Olha, desculpe-me. Estamos agindo como crianças. Por que não deixamos o veado em paz e, quem sabe, Sua Alteza pode me dizer onde estou? — sugeri, abrindo um sorriso diplomático.
Ele estreitou os olhos:
–Então, não sabe realmente onde está? — depois ele sorriu, como se estivesse acabado de perceber algo — Mas é claro, deve ser por isso que não reconhece que animal é esse. — disse, apontando com o queixo para o veado, que bebia desconfiado no rio.
Balancei a cabeça negativamente, esperando por respostas:
–Este é o Veado Branco. — ele esclareceu — Reza a lenda que quem conseguir capturá-lo terá a satisfação de todos os desejos. Há alguns anos eu e meus irmãos conseguimos derrotar um grande mal que havia por estas terras. A Feiticeira Branca. Governou Nárnia durante cem anos, trazendo frio e desesperança para os narnianos.
–Nárnia? — repeti, confusa.
–Tudo desde o grande castelo de Cair Paravel, nos mares orientais, — ele apontou para o norte -, até o Dique dos Castores, — ele apontou para o sul — é o reino de Nárnia.
–Mas, se você e seus irmãos já derrotaram essa tal Feiticera, por que precisa capturar o Veado Branco, se o mal já passou?
Então me ocorreu que ele deveria ser um rei ganancioso, o que não ajudou em nada em minha primeira impressão a seu respeito. Ele apenas comprimiu os lábios novamente, o que, comecei a observar, só acontecia quando ele parecia nervoso.
–Sabe alguma coisa sobre guerras?
–Se eu sei? — um riso triste escapou por meus lábios.
Lembrei-me de todas horas nos porões, escondida, enquanto Londres era bombardeada. De todas a notícias horríveis que ouvíamos pelo rádio. Dos escombros e pessoas mortas. É, eu sabia bastante sobre guerras. Mas talvez, a julgar pelos trajes dele e pelo ar selvagem da paisagem, eu concluí que ele se referia a um tipo de guerra diferente. Aquelas com espadas e catapultas, armaduras e elmos.
–Talvez o nosso conceito de guerra seja um pouco diferente. — respondi simplesmente.
Apesar disso, ele continuou:
–Quando se trava uma guerra, exterminar o líder não é o suficiente para vencer. Cada foco de resistência precisa ser contida. Você não sabe o tipo de criaturas que lutaram ao lado da Feiticeira. Lobisomens, bruxas, espíritos ainda se escondem nos recantos desconhecidos da floresta. Eles fazem emboscadas e matam o nosso povo. Não posso permitir que esse tipo de mal se abata mais sobre os narnianos, que já estiveram tanto tempo sob a influêcia maligna da Feiticeira Branca. Preciso protegê-los. Por isso, caçamos o Veado Branco. — seu olhar se demorou na água, os olhos azuis tristes, quase tão cristalinos quanto o fundo do rio.
Então, percebi o quanto ele se importava com o seu povo. E me envergonhei por pensar que ele caçava o pobre animal por proveito próprio. É, talvez ele não fosse tão mal assim. Procurando animá-lo, adiantei-me um passo:
–Rachel Coleman. — entendi a mão, lançando-lhe um sorriso sincero.
Ele apertou minha mão, um sorriso perfeito espalhando-se lentamente por seus lábios. Por um momento, ele não parecia mais aquele garoto irritante de minutos atrás, toda minha aversão por ele dissipada com aquele único gesto.
–Grande Rei Pedro, o Magnífico. — ele respondeu, grave.
Levantei as sobrancelhas. Ele era um pouco presunçoso e arrogante, sim, mas acho que nele aquilo era quase charmoso:
–Acho que podia ter omitido a última parte. — eu ri.
Ele pareceu um pouco envergonhado, mas concordou.
O Veado aproximou-se de nós e tocou meu braço com o focinho. Olhou-me novamente nos olhos daquele mesmo jeito inteligente, e eu precisei de alguns segundos para entender. Abri um sorriso:
–Tem certeza?
O animal acentiu uma vez:
–Tudo bem, então. — virei-me para Pedro, que ficara quieto, observando-nos — Bem, acho que sua caçada termina aqui. Ele propõe um trato: sem mais caçadas e o desejo lhe é concedido. Ele reconhece a sua determinação e o seu valor como um bom rei. Seu povo será feliz. — concluí.
Pedro adiantou-se e, inclinando levemente a cabeça na direção do animal, prometeu:
–Sem mais caçadas. — e virando-se em minha direção — Obrigado.
E o Veado Branco corria mais uma vez livre pelos vales narnianos, a pele branca e os chifres dourados brilhando ao Sol. Observamos enquanto ele atravessava o rio e desaparecia por entre as árvores na margem oposta.
Pedro virou-se para mim e com um sorriso, entendeu a mão:
–Que tal uma cavalgada? Posso lhe mostrar Nárnia. Será uma honra.
Olhei hesitante para o trecho de árvores que levavam até a caverna. Já haviam se passado muitos minutos desde que eu saíra do internato. Os outros devem estar procurando por mim. Entretanto, prevendo que eu recusaria, Pedro insistiu:
–Rachel, por favor. Considere com uma forma de agradecer pelo que fez. Além do mais, ainda tem que me contar de onde foi que você surgiu. Caiu do céu, não é?
–Não, absolutamente não. — ele riu do meu olhar horrorizado com a possibilidade.
Peguei sua mão que ainda estava estendida e ele subiu no cavalo, ajudando-me com cuidado em seguida.
Cavalgamos durante toda a tarde. Ele me mostrou as colinas de Nárnia, sempre me falando sobre suas aventuras e a dos irmãos. Acima do topo de uma delas, podíamos ver todo o acampamento dele. Tendas vermelho sangue com detalhes em dourado dispostas regularmente sobre a grama verde. Badeirolas com um leão gravado fincadas na terra. Via-se de tudo. Desde minotauros, a centauros, felinos enormes, harpias. Então me deu conta de que Nárnia era um lugar mais curioso do que havia imaginado.
Deitamos ao pé de um enorme carvalho negro próximo ao acampamento, e contei a ele sobre o túnel e a caverna, seu rosto se enevoou, tornando-se confuso, como se tentasse lembrar de algo esquecido há muito tempo. Perguntei a ele o que estava em sua mente, mas ele apenas balançou a cabeça, e pediu que deixasse aquele assunto para lá. Pediu que eu contasse como era a Inglaterra e as guerras que tínhamos. Durante todo o tempo em que eu relatava para ele sobre a Segunda Guerra, seu rosto ainda mantinha aquela mesma expressão confusa, preocupado que estivesse deixando algo importante passar.
–Esses relatos, tudo o que você diz não me é estranho. É como lembrar de um sonho. — ele disse por fim, num tom misterioso.
Também me falou sobre o encontro que tivemos com o Veado Branco. Disse que qualquer pessoa que pudesse fazer o que fiz, aproximar-me dele e comunicar-me até, era dotado de grande poder. Eu, particularmente, não achava nada demais, tudo o que fiz foi interpretar o que o animal me dizia e agir como uma espécie de diplomata, apaziguando o conflito. Contudo, pude notar que ele me olhava preocupado, como se tivesse medo que eu virasse uma Feiticeira Branca a qualquer momento.
Ao fim da tarde, pouco antes do pôr-do-sol, ele me levou de volta ao rio, mostrando- me o lugar onde estávamos mais cedo, e só assim, pude encontrar o caminho de volta.
O caminho pelo túnel passou como um borrão para mim, que estava perdida em pensamentos sobre o que tinha visto e ouvido sobre o meu mais novo refúgio. Quando saí do túnel, esperava ver a claridade laranja do sol poente, pessoas correndo para lá e para cá me procurando. Entretanto, não foi isso que vi. Apenas a cara de tédio de Rebecca, que ainda me esperava, iluminada pela claridade do Sol de meio dia. Mas como?
–Mas já? — ela debochou, sorrindo vitoriosa — Você não passou nem dez segundos aí. — ela esclareceu.
–O quê? — perguntei confusa — Não, deve ser um engano, passei o dia todo aí, o sol estava se pondo quando saí de lá.
Ela me olhou como se eu fosse doida:
–O sol estava se pondo. Está bem, sei. — e me mostrou o relógio de prata que usava. Faltava pouco para uma hora da tarde.
Por fim, replicou impaciente:
– Ô garota, deixa de inventar desculpa e me paga logo. Se ficou com medo não é problema nenhum admitir.
Dei o dinheiro a contragosto. Mas como aquilo podia ser?
Caminhei a esmo pelos corredores do internato, tentando entender. Quando dei por mim, estava no refeitório, e ao longe, podia ver Liz e Nick conversando alegremente. Um sorriso espalhou-se por meus lábios. Quem se importava se o tempo havia passado de forma diferente em Nárnia e aqui? Eu tinha encontrado um lugar especial. Cruzei os dedos e orei mentalmente, pedindo que o túnel estivesse aberto amanhã, e eu pudesse voltar à Nárnia, mostrá-la a Liz e Nick. Fazer dela um lugar só para nós, pensei enquanto corria ao encontro deles.
Fale com o autor