Paradise
2 Capítulo 2 - A aposta
Caminhando em direção ao meu quarto, já anoitecendo, fiquei imaginando como seria o dia seguinte. Acordar cedo, estudar logo depois de tomar café não era bem o tipo de coisa que eu costumava fazer, ou melhor, que eu nunca fazia.
‘Mas pelo menos você fez novos amigos, Rachel.’ – eu falava para mim mesma em pensamento.
Quando cheguei ao meu quarto, um pouco entediada, liguei a televisão e fiquei mudando os canais aleatoriamente. Mas não importava qual eu assistisse, o assunto era sempre o mesmo: A Segunda Guerra Mundial. Telejornais transmitiam sempre as mesmas cenas: bombardeios, exércitos se movendo arrastando tudo pela frente. Senti-me desprotegida, com saudade dos meus pais. Senti-me como se não quisesse mais fazer parte daquele mundo. Queria um mundo novo, sem guerras, e só para mim. Cansada de ver tudo aquilo, desliguei a televisão. Programei o despertador em cima da mesinha de cabeceira e fui dormir.
Acordei com o sol batendo no meu rosto e abri os olhos com muita dificuldade. O despertador tocava freneticamente, e pelos meus cálculos, pela décima vez. Me esticando, peguei o despertador e desliguei o alarme. Assim que o fiz, vi no visor que eram 8 da manhã.
Vagarosamente fui me levantando da cama. Mas depois eu me dei conta: eu estava mais do que atrasada. Lembrei da voz de Liz pronunciar que as aulas começavam às oito. E eu ainda nem tinha tomado banho, nem café. Em pânico, dei um pulo na cama de Liz.
–LIIZ! – gritei no ouvido dela, retirando o edredom que a cobria.
Ela abriu os olhos e me encarou, querendo saber o que havia acontecido.
–O que é Rachel, que horas são?
–SÃO OITO!
Vi os olhos de Liz virarem duas bolas, prestes a saltar das órbitas.
–OITO?! – ela gritou mais alto que eu enquanto corria para o banheiro, já colocando o creme dental na escova de dentes.
Eu corri para o chuveiro. Não tomei banho, me molhei enquanto Liz escovava os dentes. Quando saí do chuveiro, trocamos de lugar. Quando terminamos, corremos de volta para o quarto e começamos a nos vestir de qualquer jeito, tentando entender porque a porcaria do despertador não foi ouvido por nenhuma de nós.
De fato, foi meu recorde. Consegui me aprontar para o colégio em menos de dez minutos. Se eu mantivesse essa meta, brigaria menos com meu pai, porque ele sempre reclamava que eu levava de vinte minutos a meia hora. Descemos as escadas voando e passamos em frente ao refeitório, que estava vazio e já havia encerrado o café da manhã. Quando finalmente chegamos a sala de aula, estávamos ofegantes. Abri a porta e respirando fundo, perguntei ao professor:
–Com licença. Nós perdemos a hora. Será que ainda podemos entrar?
Ele me analisou, pensando no meu caso. Pude ver Nick sentado no fundo da sala, olhando para mim, rindo da nossa cara, mas torcendo para que ele nos deixasse entrar.
–Podem entrar sim. Mas que isso não se repita, hein?
Eu agradeci amigavelmente e entrei com Liz atrás de mim. Nos sentamos longe de Nick e perto de um grupinho de três garotas, uma loira e duas ruivas. Distribuí meu material sobre a mesa e abri meu livro. No quadro estava escrito: ‘Primeira Guerra Mundial’. Logo percebi que era aula de história. Mas o assunto não me interessava muito. Estava acontecendo a Segunda Guerra Mundial lá fora e o que eu menos queria era lembrar dela. Virando-me para Liz, comentei:
–Não aguento mais ouvir falar esse nome: ‘guerra’. O mundo está um caos, as pessoas estão se matando, e a gente aqui, sem poder fazer nada.
–Isso é. O que eu mais queria era me esconder agora. Arranjar um lugar para mim, sabe?
–Eu encontrei uma coisa ontem. – falei a encarando e me lembrando da estranha sala escura que eu havia descoberto – Eu descobri uma porta ontem que dá para uma sala bem escura. Bem, não há nada lá, eu suponho que seja uma sala de aula abandonada.
A loira platinada que estava perto de nós se virou para entrar na conversa:
–Vocês estão falando da porta que há por trás do saguão? No jardim de inverno?
Analisei a garota e me perguntei se ela já havia entrado lá:
–Você já entrou lá? – perguntei curiosa.
–Não. Ninguém tem coragem de entrar lá. E não é uma sala. É um túnel.
–Túnel? – perguntou Liz.
–Sim. Todo mundo tem medo de onde vai dar.
Eu e Liz nos entreolhamos. Como assim túnel? Parecia coisa de filmes de aventura e magia. A loira sorriu e disse, atirando um chumaço de notas em cima da mesa.
–Te dou setenta dólares se você entrar e passar até dez minutos lá dentro.
Olhei para a garota a achando um pouco idiota. O que ela iria ganhar com isso? Só iria perder o dinheiro dela caso eu aceitasse a aposta. O que poderia ter de tão fantasmagórico em um túnel? Só havia um jeito de descobrir: seguindo o túnel e vendo onde vai dar. Estiquei a mão para ela e disse:
–Está certo. Hoje, depois da aula, eu entro lá.
Ela apertou minha mão com um sorriso maquiavélico:
–A propósito, sou Rebecca.
–Eu sou Rachel Coleman.
–Se vocês não pararem a conversa agora, vou ter que pedir que se retirem. – escutei o professor falar enquanto eu me virava para o quadro.
‘Vai ser mole ganhar setenta dólares hoje’, pensei.
Depois da aula, Nick veio ao nosso encontro com uma cara de preocupação:
–Oi, meninas. Vocês se atrasaram feio hoje.
–Ah, não escutamos o despertador. – respondeu Liz, pegando os cadernos.
–Pois é, mas pelo menos hoje vou ganhar setenta dólares.
–Como assim, Rach? – Nick perguntou intrigado, coçando a nuca.
–Uma loira que sentou do nosso lado ofereceu dinheiro se ela entrasse num túnel aí... – Liz respondeu, mas Nick ainda não entendia nada.
Fiz um resumo da conversa para ver se ele se situava melhor.
–É que ontem eu descobri uma porta por trás do saguão, e aí uma garota loira chamada Rebecca – olhei para Liz enfatizando o nome da garota enquanto ela revirava os olhos – nos falou que essa porta se abre para um túnel, e ninguém sabe onde vai dar. Então, ela apostou comigo setenta dólares se eu passasse mais de dez minutos lá dentro, mesmo se eu resolver não segui-lo, entendeu?
Ele fez uma cara estranha pra mim, processando as informações. Depois disso ele me perguntou, ainda intrigado:
–E você aceitou?
–Mas é claro! – respondi sem pensar, enquanto Liz já dizia:
–Ela acha que não há nada de mais em um túnel escuro que ninguém nunca entrou e nem sabe onde vai dar.
Dei de ombros.
–É que eu me dei conta de que preciso de um lugar para mim, sabe? Vocês não se sentem... no meio de um tiroteio, literalmente? – falei olhando para ambos, que também se olhavam.
–E você acha que o túnel vai te levar a algum lugar assim? Tipo, uma passagem secreta?
–Aham, e de quebra ainda vão me pagar por isso. E além disso, o que pode haver de tão terrível?
Liz revirou os olhos.
–Bom, eu já vou indo porque estou morrendo de fome. – ela disse – Tchau pra vocês. Ah, e Rachel, boa sorte. – ela piscou pra mim, ao sair da sala mexendo nos seus cabelos negros perfeitos.
–Espera Liz, eu vou com você! – Nick quase gritou, e virando-se para mim se despediu e saiu atrás dela.
Fiquei os vendo sair, e depois fui para o local da aposta. Quando cheguei, Rebecca já estava lá, com os braços cruzados, me esperando. Sorri ao me aproximar dela.
–Então, está pronta? – ela falou, erguendo as sobrancelhas.
–Tá com a grana? – desafiei no mesmo tom que ela.
–Claro. Eu sou uma garota de palavra, Rachel Coleman.
–Certo.
Ficamos nos encarando por algum tempo.
–Então, o que está esperando? Entra aí. — ela disse, indicando a porta com o queixo.
Percebi que tinha retirado a plantinha que a escondia. Me aproximei da porta.
–Mais de dez, hein? Se não, não vale.
Não disse nada. Abri a porta e entrei.
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