Notas iniciais
se ficou bom ficou se ficou ruim ficou é isso ai

Chovia lá fora. Um jovem com um olhar realista e afetuoso observava a janela de sua sala de aula. Coçou um dos olhos por sentir sono. O cheiro de terra e o som granulado das gotas contra o concreto lhe davam vontade de dormir. Era desses de dormir muito e sem nenhum esforço, mas ele precisava se manter acordado.

Zoro estava tendo aulas de reforço por cabular muito enquanto dormia no terraço. Aquelas eram as suas últimas chances para passar no semestre.

Às vezes também era de brigar... Tinha um curativo sobre o nariz e seus cabelos eram tingidos de verde como um punk.

Sua sala era mista. Uma reunião dos alunos mais burros e encrenqueiros num lugar só. Portanto, Sanji estava consigo e não na sua sala de sempre.

Sanji era loiro e tinha o olho esquerdo coberto por uma franja, mas sua sobrancelha exposta incomodava muito Zoro, porque era expantosamente enrolada!

Os dois não se falavam, mas frequentemente matavam aulas no terraço. Ele para dormir e Sanji para fumar.

Havia momentos que trocavam algumas palavras triviais, mas nunca perguntavam pelo nome de um ou de outro. Zoro só ficou sabendo através de um aleatório que um dia chamou pelo sobrancelha enrolada num tom alto. E ele não sabia se Sanji sabia seu nome.

Mas não importava, era só um carinha como os demais...

Odiava aquele ambiente escolar, sentia-se triste por não sentir paixão nenhuma. Tudo era entediante... Parecia que todos só queriam fazer sexo quanto antes. Os professores eram os piores com suas autoridades.

E foi por causa desse desprezo que Zoro começou a montar uma personalidade para Sanji. Às vezes fingia que dormia, mas observava aquele rapaz de cabelos loiros prostrado no parapeito do terraço enquanto fumava.

Zoro achava que seus olhos (ou pelo menos seu olho) eram iguais aos seus. Sempre que o fitava sentia exaustão. Olhar farto... farto de tudo.

Talvez ele lhe compreendesse mesmo tendo uma sobrancelha ridícula. Talvez ele não só pensasse em sexo como os demais e procurasse por uma paixão para seguir.

Um sentido na vida.

Seria uma boa se ele gostasse das mesmas bandas que gostava, dos filmes alternativos, de kendô e de homens...

Nunca o viu com uma garota, mas não era como se o visse sempre, raramente o via fora do terraço. Só que naqueles dias de reforço, encontrava-o quase sempre. Porém, não adiantava muito quando Zoro se lembrava que a sala mista não havia alguém do sexo oposto.

Talvez ele goste de homens... ou não.

Não era como se fosse um deslumbrado, Zoro compreendia que as coisas não são como queremos. Ele sabia que estava fantasiando, que aquela brincadeira de dar uma personalidade ao loiro virara algo platônico.

Suas imaginações sobre como Sanji seria virara sua paixão sem que percebesse a tempo.

Sanji era um dos poucos garotos que tinha o uniforme passado e os sapatos da escola bem lustrados. Deveria ter uma mãe protetora que fazia tudo por ele. O cigarro poderia ser uma forma de querer chamar atenção do pai distante que só pensava em trabalho. Mimado.

Um riquinho filho da puta, daqueles que Zoro gostava de meter porrada ou de roubar o lanche.

Quando que esse idiota poderia lhe compreender?! Estava mesmo fantasiando tudo. Nunca que um ser vindo de uma boa família compreenderia um garoto que já passara fome por falta de dinheiro.

Algumas vezes Zoro acabava odiando Sanji, em alguns momentos fingia que dormia e pensava em jogá-lo do terraço quando estivesse prostrado no parapeito.

Porém, isso é um exagero.

Afinal, ele não o conhecia. De fato.

Até aquele dia chuvoso...

Havia acabado a aula e Zoro estava no térreo observando a chuva que não havia dado uma trégua em nenhum momento. Suspirou ao se lembrar que não trouxera um guarda-chuva e teria que usar seu terno para se proteger. Mas sentiu um vento e olhou ao seu lado.

O vento era da pressão do guarda-chuva de Sanji ao se abrir. Sorria para si e se aproximava para cobri-lo também.

— Venha, marimo.

A íris azul de seu olho nunca estivera tão perto. Zoro pensou que se enganava por achar que seu olhar era farto como o dele. Na verdade, parecia bem vívido, como de uma criança fazendo uma nova amizade.

Talvez Zoro precisasse de uma pessoa totalmente diferente e não uma que lhe compreendesse por completo.

— Quem você está chamando de "marimo"?!

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!