Mais um dia no trabalho. Todos os dias estavam sendo iguais. Havia casos que eram mais difíceis, mas nada que eu não conseguisse superar. Um dia não pode ser pior do que os outros, certo?


Chego na cena do crime e tenho um mau pressentimento maior do que o normal. Estou entrando na casa quando vejo algo que me choca. Uma mulher sendo levada pelos paramédicos ao hospital. Tento não pensar nisso e entro na casa.


Lá dentro já está o Grissom. Assim que entro, ele olha nos meus olhos, como se, por um momento, realmente fosse me proteger. Ou melhor, quisesse me proteger.


Então ele diz, quebrando o silêncio:


— Linley Parker, 32 anos, foi estuprada e quase morta. Conseguiu ser resgatada. Foi levada pro hospital pra fazer exames e aguardar pra dar depoimento pra polícia. Você fica com a parte externa da casa e depois vai pro hospital pra tirar o depoimento.


Nos casos de violência, eu sempre quero pegar o depoimento da vítima e ficar o mais focada possível na investigação, mas nesse eu não consigo.


Mais tarde...


Estou observando, do lado de fora pelo vidro, a vítima de estupro descrever o suspeito para o retrato-falado, quando Grissom se aproxima de mim. Já sabia que ele ia dizer algo, então me antecipo:


SS(EU) -O que foi?


GRISSOM — Quantos dias de férias você tem pra tirar?


SS(EU) - (pensando) Por volta de... (olho pra ele) dez semanas, eu acho. Por quê?


GRISSOM - Eu acho que você devia tirar uma semana ou duas...


SS(EU) — Eu ainda estou no caso... Eu só não recolhi um depoimento, pela primeira vez na vida...


(Desviamos os olhares.)


Fico chateada com essa conversa e resolvo alfinetar:


SS(EU) — Qual foi a última vez que você tirou férias? (olho pra ele) -Nunca, certo?


GRISSOM — (dá de ombros) OK!


Logo após isso, Grissom sai da sala. Não sei se fico feliz, triste ou com raiva dessa tentativa de proteção. É como se ele ficasse triste não por mim, e sim por não poder (ou conseguir) fazer nada.


Somado a tudo isso, descobri há algum tempo que a promoção que eu estava querendo foi cancelada. Mas eu não estou triste por isso. Estou triste pois, mesmo que tivesse a promoção, não seria eu a promovida, e sim Nick. Nick é como um irmão pra mim e, em qualquer outra situação, estaria feliz por ele.


Mas não estava. Um lado de mim, como se fosse um anjinho de desenho animado, não achava certo o ciúme e a inveja, e dizia pra mim mesma que eu estava sendo uma má pessoa.


Mas o outro lado era o mais perigoso. Esse dizia pra mim a verdade: que eu ganharia a promoção, se não fosse pela minha relação conflitante com Grissom.


Um dia, disse para Grissom que esperava que a nossa relação (embora não existisse nenhuma concreta no atual presente) não afetasse seu julgamento pessoal sobre a promoção. E o que acontece? Justamente isso.


Por pensar que estaria me beneficiando se me desse a promoção, ele preferiu escolher o Nick. Embora todo mundo do laboratório achasse que eu ia conseguir um aumento de cargo e salário.


Assim que acabo minha ajuda no caso, faço uma das coisas mais imprudentes da minha vida: pego o meu carro e vou pro bar mais próximo. Estaciono meu carro e entro no bar. Em outra ocasião, a música ambiente, as luzes e as pessoas seriam meu refúgio. Mas dessa vez, me escondo atrás da bebida.


Peço uma tequila. O garçom me dá e eu bebo tudo de uma só vez. O líquido escorre quente pela minha garganta e eu peço mais uma dose.


Depois de quatro doses de bebida, já um pouco alterada e com certeza com bafo de tequila, eu pago a conta e vou até meu carro. Sem pensar duas vezes, entro no banco do motorista e ligo o carro. Boto minha rádio preferida e dou a partida.


Assim que saio do estacionamento, percebo que está tocando Drivers License, da Olivia Rodrigo.


As memórias surgem como um flash. A primeira vez que superei meu medo de dirigir e tirei a carteira de motorista. Quando estava em São Francisco. Quando Grissom apareceu em minha vida. Quando estávamos juntos, mesmo que por pouco tempo. Quando eu era feliz.


Quando fui pra Vegas a convite dele, pensei que seria incrível. Que iríamos nos aproximar e ficar juntos ainda mais do que antes. Mas, em segundos, essa ideia sumiu e a realidade virou um inferno.


Tive ciúmes bobos e outros nem tanto. Primeiro por Katherine, assistente de supervisão de Grissom, ex-stripper e minha parceira de trabalho. Esse era um ciúme bobo, dava pra ver que eles eram como irmãos. Mas ela era mais velha que eu, mais madura que eu, mais experiente que eu, e mais bonita que eu. Então minha insegurança vinha à tona.


Depois veio a Lady Heather, uma tal de dominatrix amiga do Grissom que tenho antipatia mesmo sem ter conhecido. Ter que ouvir que há boatos de que eles dormiram juntos foi difícil.


Depois veio Tery Miller. Essa era uma antropóloga "amiga" de Grissom. Ela era uma versão Katherine, só que uma preocupante, embora menos bonita que ela.


E por fim, Sofia Curtis, a pessoa que mais detesto ultimamente. Essa é um pouco mais nova que eu e entrou a mando de Ecklie, a pior pessoa do departamento e chefe do Diurno. A bonita só entrou porque sua mamaezinha é capitã da polícia de Las Vegas, e não porque precisou ralar muito. Enfim, a meritocracia não existe.


A cada semáforo, as memórias do meu breve romance com Grissom em ,São Francisco,surgiam. Cada olhar trocado durante as palestras, cada conversa no carro. Cada beijo roubado quando eu estava dirigindo. A nossa única e primeira vez.


E agora eu estou em frangalhos. Imaginando como ele consegue estar tão bem depois que nos separamos. Como ele consegue dar atenção para essas mulheres que dão em cima dele sem pensar que isso me machuca.


A música começa a chegar ao fim e eu choro silenciosa e copiosamente. Com raiva e tristeza, começo a dirigir mais rápido que a via permite. E com isso arranjo um problema.


Logo atrás de mim, a polícia aparece e dá sinal. Então eu paro o carro perto da calçada. Por causa de amor, estou próxima de perder tudo. A cada dia perco um pouco da felicidade e da esperança. E agora, eu posso perder também algo muito importante pra mim.A carteira de motorista

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.