Notas iniciais
É mais uma pequena declaração de amor do que algo a ser lido pelos outros, mas eu quis expôr ♡

Enquanto todas as manhãs de quinta-feira começam quente-frias naquele frescor de fim de semana e no dissabor de ser ainda um dia antes de sexta, as tardes de quinta se entulham de afazeres, pra não ocupar a sexta de festa e de descanso.

Foi numa dessas tardes que eu fui ser adulta, sabe? Aquelas coisas de adulto, ir ao médico, pagar contas pra mãe e talvez comprar cocada no caminho, pra’quela caminhada que nunca acabava e era cheia de “boa tarde” e “seu cpf por favor, senhora” parecer menos enfadonha. Senti-me tão adulta talvez por encontra-me no auge dos dezessete anos e estar andando pela cidade sozinha, ser chamada de senhora e entregar documentos pra recepcionistas aumenta muito o meu ego.

E naquela ânsia em fazer tudo rápido, em correr, fazer, fazer, fazer, ninguém faz nada. Pois o que se faz de verdade, o que permanece mesmo são os laços e nessa pressa ninguém faz, só desfaz. Eu também, não nego, sou das que tem pressa, nesse corre-corre lucrador todos nos aligeiramos. Mas as vezes sinto-me pausada. Meu pai me chama de “distraída”, o resto do mundo gostou e me chama também. Desatenta, absorta, aérea, desligada.

E se meu cérebro me desliga é pra me livrar da correria.

Eu sempre gostei de ônibus, trem, bonde e essas outras coisas que andam na rua com muita gente dentro. Tudo bem, é realmente muita gente, e andar todo dia como eu fazia nem sempre é de todo agradável. Mas naquela quinta foi, foi tão agradável quanto ganhar na loteria, ganhei.

Quinta-feira né?

Eu entrei no ônibus, não lembro bem o ônibus. Não lembro bem de nada. Só lembro da figura que me apareceu a porta.

Ele era alto. Não tão alto quanto um prédio talvez, mas era maior que eu, era grande o bastante pra parecer maior ainda estando eu sentada virada pra entrada. A primeira coisa que eu vi foram os olhos. Eu sou metida a poeta demais. De sorrisos e olhos, mas ele não sorria, não com os dentes de fora. Ele sorria com os olhos, talvez fosse o encanto desenfreado do amor ou foi um reflexo ao meu sorriso que se abriu de imediato quando o vi, mas ele me notou, ô se notou.

Ele andou até o meio do ônibus, estava acompanhado de um outro garoto. Talvez um casal? Pensei em desespero, mas não era. Ufa.

Até hoje não entendi o que aconteceu, foi tudo muito rápido, três paradas de ônibus pra ser exato.

Mas eu não parava de sorrir ao notar cada detalhe dele, era um riso sem mostrar os dentes também, talvez fosse a vergonha, o receio ou a sensação estranha de sorrir prum desconhecido num ônibus lotado.

Me lembrei de novo dos olhos, eram verdes. E esse tipo de capricho nunca tinha me encantado, mas ele sim, me encantava.

O rosto incerto pra mim, não me encantei pela beleza, também mas não só, o que me deixou inquieta foi a energia, a força que passou por mim quando ele me atravessou com os olhos, quando ele cruzou minha frente e foi pra longe, mais pra dentro do ônibus. Foi aquilo que me sugou, e me fez enfim notar suas belezas.

E a barba, a boca, o corpo, o cabelo... O cabelo! Estava preso, eu vi e parecia bem grande. Ele tinha toda uma figura de homem feito, e os olhos de criança toda.

Cada sorriso que eu dava era uma espreitada diferente dele por trás do amigo, ele parecia não me entender, mas entendia. Eu lia ele, tímido e inquieto. Minha parada chegou e toda calma que me fazia contempla-lo se fez pressa.

Pressa pra descer, pressa pra olhar mais um pouco, pressa pra sorrir mais.

Parei em frente a porta e botei os dentes pro sol ver. E o sol viu, e o menino também. E me olhava, olhava, olhava. Desci.

Desci pra cumprir meus afazeres e esquecer sorrindo do dono dos meus olhos compridos que não se cansariam de olhar mais.

E ele fez corre-corre, igual quem tem pressa. Mas correu me encontrar. E tiveram as conversas, as ligações, as saídas, mãos dadas em livrarias, e a engorda de uns quilos de ambas as partes.

E depois, todos os dias de “ser adulta” e os desocupados também eram só dele, do meu lado ou na minha cabeça. E toda vez que sento sozinha no ônibus vendo as casas passarem, com pressa, eu paro pra esperar ele entrar de volta. E ele entra, me beija a testa e a boca, me chama “meu amor” e somos, juntos.

Notas finais
É só(l) ♡
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!