Para sempre Juntos
1 Juntos para Sempre - One Shot
Notas iniciais
Zelão sentia no fundo de seu coração a angustia por ter perdido sua tão amada professorinha. Não havia mais nada que ele pudesse fazer para voltar a ter paz. Juliana havia roubado seu coração e depois o jogara fora assim, sem mais nem menos. Ele sabia bem que lá no fundo ela sentia medo dele e medo do futuro que eles teriam, afinal de contas o capanga não era nenhum senhor doutor ou engenheiro, não tinha posses nem quem lhe ajudasse.
Mal sabia ele que toda a noite, quando Juliana colocava a cabeça no travesseiro, a frase que ouvira Zelão lhe dizer ecoava em sua mente: “Você tem medo de me amar”. A jovem professora se recusava a aceitar isso, não era verdade que ela tinha medo. Mas negar algo para si mesmo não faz com que isso se torne uma verdade.
Enquanto caminhava em sua ronda pela vila, Zelão podia ouvir o ranger da neve debaixo de suas botas. O clima era frio, mas ele já estava gelado por dentro. O inverno não o incomodava, na verdade até trazia certo alivio para sua alma cansada. Toda aquela brancura, o silencio nas ruas e o calor do fogo o ajudava a seguir em frente. Agora ele precisava se concentrar em cuidar do Coronel Epaminondas e de sua campanha a prefeito que, diga-se de passagem, ia de mal a pior.
O Coronel vinha fazendo muito estardalhaço pela vizinhança, falava coisas que as pessoas não gostavam, estava fazendo promessas que todos sabiam que não poderia cumprir e agora tinha começado a atacar seu rival com várias acusações de má administração da prefeitura. Coronel Epa estava mexendo com muita gente e Zelão tinha certeza que logo algo daria errado. Muito errado.
Passava pela frente da venda do seu Giácomo quando ouviu a voz do patrão ecoar lá dentro.
– Pois o amigo Falcão vai tê que aceitá os meus termo. Ou não vai tê casório ninhum nessa vila!
Dito isso saiu igual ao um tufão e deu de cara com seu capataz.
– Tá fazendo o que parado aí iguar um dois de pau, Zelão?! Trate de chamá o Izidoro com o carro pra mó de me levar pra Antas! Preciso resolver várias coisa e não quero mais perdê tempo coma vida do Ferdinando e dessa maluca da Gina!
Zelão se virou para ir chamar o Izidoro, mas um brilho vindo da escola desviou sua atenção. Primeiro pensou que fosse a professora dando aula, mas era domingo e a escola estava fechada. Foi quando ouviu um clique conhecido e ele, de relance viu o cano de uma espingarda apontada direto para o coronel.
No exato momento do disparo, o jovem se jogou contra o patrão e acabou tomando o tiro no peito. A dor era aguda e de repente tudo ficou escuro.
O coronel levantou-se depressa e ainda conseguiu ver um vulto sair correndo da escola com uma espingarda na mão. Gritou para Viramundo e Izidoro tentarem pegar o bandido. Enquanto isso Milita corria até o posto médico para chamar o doutor Renato.
A neve branca estava tingida de vermelho pelo sangue que Zelão perdia. Ele estava ali, desacordado e sendo amparado pelo coronel, seu Giácomo e Pedro Falcão. Ninguém conseguia entender direito o que havia acontecido. Todos estavam assustados e olhavam ao redor para ver se não havia risco de um novo ataque.
Logo Renato apareceu seguido por Milita e começou a dar os primeiros atendimentos ao capataz do coronel. Por sorte a bala tinha acertado no ombro e longe do coração, mas não havia saído e ainda estava cravada na carne do pobre rapaz. Precisavam leva-lo o mais rápido possível ao posto para cuidar do ferimento.
Enquanto levavam Zelão com cuidado, Viramundo e Izidoro voltaram sem fôlego e com cara de decepção. Não conseguiram alcançar o misterioso atirador. Ele havia entrado em um carro e fugiu a toda velocidade.
Quando chegaram ao posto médico, mãe Benta quase teve um infarto ao ver seu filho baleado. Doutor Renato se apressou em tranquiliza-la dizendo que tudo iria ficar bem, mas ela saiu correndo para casa a fim de fazer suas rezas para que o filho não morresse.
Como toda agitação em cidade pequena logo é sabida por todos, o ocorrido logo chegou aos ouvidos de Gina. Na verdade Ferdinando soube através de Pedro Falcão que o encontrou a caminho de casa.
– Ocê sabia, minha querida, que o Zelão levou um tiro e foi levado carregado pro posto do Doutô Renato?
– Como assim, Ferdinado? Mai quem foi o loco que resolveu matá o Zelão? Que foi que ele fez?
– Num sei de mais nada. Seu pai que me contô apressado enquanto eu vinha pra cá. Se ocê quiser sabe mais vai tê que pregunta pr’ele.
– Arre, será que eu conto pra Juiana isso?
Gina não tinha visto, mas neste exato momento Juliana entrava na sala e ouviu sua ultima frase.
– O que você precisa me contar, Gina?
– Ara, Juiana! Ieu num vi que ocê tava aí!
– Pois me conte o que aconteceu Gina! Pela cara de vocês dois não deve ser coisa boa!
Gina e Ferdinando se entreolharam e ambos levantaram do sofá e se colocaram ao lado da professora.
– Eu acho que é mió ocê se sentar, Juliana. – disse Ferdinando passando um braço ao redor dos ombros da professora e a guiando até o sofá.
– Mas vocês querem parar de mistério e me falar logo o que está acontecendo! – Juliana sentou-se e encarou os dois.
Gina percebeu que não podia mais enrolar a amiga e então contou sem mais rodeios:
– Meu pai contô pro Ferdinando que o Zelão levô chumbo e agora tá no posto do douto Renato.
–Como assim, Gina?! – perguntou a professora levantando-se do sofá – O Zelão levou um tiro?! Como?! Quando?! Quem fez isso?!
– Nóis num sabe Juiana! Se acarma! O pai só conto isso pro Ferdinando. Acho que nem eles sabe que aconteceu direito.
Por um instante Juliana ficou ali congelada no lugar. Um arrepio lhe percorreu a espinha. E se Zelão morresse? Ela não admitia para si mesma, mas o amor que tinha por ele ainda era forte demais. Na verdade a única coisa que tinha impedido esse amor fora seu medo infundado. Agora ela tinha medo que tudo estivesse perdido para sempre. Que nunca mais haveria outra chance.
– Pois eu vou lá agora mesmo! Preciso ver o Zelão!
E saiu correndo porta a fora com Gina e Ferdinando em seu encalço gritando para que parasse.
Logicamente eles só pararam quando chegaram ao posto médico. Lá estavam Pedro Falcão e o Coronel esperando na porta. Quando viram os três jovens chegando esbaforidos de tanto correr perguntaram o que estavam fazendo lá.
– Vim ver o Zelão, seu Pedro. – implorou a professora. – Me deixe entrar. Preciso vê-lo!
– Descurpa Fessora, mas o dotô Renato mando nóis ficá aqui e num deixa ninguém entra.
– O doutor Renato está tirando a bala que acertou o Zelão, fia, mas fique sossegada que tudo há de ficar bem. – tentou tranquilizar o Coronel.
– Pai, me conte o que foi que houve! Comé que o Zelão levou esse tiro?! – perguntou Ferdinando.
O Coronel e Pedro Falcão relataram o ocorrido e explicaram que ninguém viu quem foi o bandido e que até foram atrás, mas ninguém conseguiu pegar o infeliz.
Juliana mal ouviu o que os dois contavam. Apenas tentava olhar dentro do consultório ou ouvir algum barulho que viesse lá de dentro. A inquietação era grande demais. Ela precisava saber se seu amado estava bem, queria ficar ao lado dele e nunca mais deixa-lo.
Passou um tempo e Gina e Ferdinando resolveram voltar com o Coronel. Juliana ficou lá com seu Pedro até que finalmente Renato saiu enxugando suas mãos em um pano.
– Juliana? O que faz aqui? – perguntou ele supreso ao ver a professora.
– Como ele está Renato? – ela não conseguia esconder sua aflição. – Eu posso vê-lo?
– Agora está tudo bem, mas ele perdeu muito sangue e está fraco. Está dormindo lá dentro.
– Eu posso entrar e vê-lo?
Renato olhou em dúvida para Pedro Falcão, mas o senhor assentiu para o médico e este permitiu que Juliana entrasse.
Ao ver Zelão adormecido na maca, Juliana temeu acordá-lo. Seu semblante era tranquilo, como há muito tempo a garota não via. Era como nos tempos em que se apaixonaram. O peito subia e descia lentamente com a respiração pesada. Os cabelos pretos caiam sobre o travesseiro. Ela nunca o tinha visto sem chapéu. Aproximou-se lentamente para não fazer barulho e acariciou o cabelo dele que lhe caia levemente na testa.
Renato percebeu que estava sobrando ali e que não faria mal nenhum deixar Juliana um pouco a sós com Zelão.
– Eu preciso ir até a mãe Benta para dizer que está tudo bem. Vou deixar você aqui com ele. Qualquer coisa eu volto rápido, está bem?
– Pode ir, eu não vou sair daqui. – respondeu ela sem desviar o olhar de sua amado.
Ela não conseguia entender como tinha sido tola ao se deixar levar pelo medo. Só conseguia ver claramente agora, quando a possibilidade de perdê-lo para sempre lhe assombrou. Podia entender o quanto fora imatura e infantil ao brincar com os sentimentos dele e com os seus também. Não sabia se Zelão a aceitaria novamente depois de tudo o que tinha feito, mas nunca perdoaria a si mesma se não tentasse mais uma vez.
Renato, como havia prometido, voltou rápido e mãe Benta veio junto com ele. No começo ela achou estranho ver a professora ali cuidando de seu filho, mas ao olhar fundo nos olhos da moça, pode ver o quanto ela estava arrependida e o quanto amava seu garoto.
– Perfessora, a sinhora pode ir descansar que ieu fico aqui cuidando dele. – ofereceu mãe Benta.
– E que tal nós duas ficarmos aqui cuidando dele? Eu sei que a senhora, mãe Benta, não vai sair de perto dele, mas eu preciso confessar que eu também não irei arredar o pé daqui. A menos que ele mesmo acorde e me mande embora. – respondeu a professora.
Mãe Benta sorriu e concordou com a moça. Renato disse que já era hora de fechar o posto médico e que iria dormir na escola, pois já estava muito tarde e seria melhor ele ficar na vila caso surgisse alguma emergência. Ele deixou as duas mulheres tomando conta do paciente. Zelão não poderia ter ficado em melhores mãos. Sua mãe e seu amor.
A noite foi longa. Mãe Benta dormiu em uma cadeira perto da porta enquanto Juliana sentou-se na beirada da maca e velou o sono de seu amado. Ela não cansava de olhar para ele. De comtemplar seu semblante sereno.
Perto do amanhecer, quando Juliana já estava quase dormindo sentada, Zelão se remexeu e abriu os olhos. No principio ele ficou confuso. Onde estava? Não conseguia se lembrar direito do que tinha acontecido. Olhou ao redor e seus olhos se encontraram com os dela. Juliana. O que ela fazia ali?
– Zelão! Você acordou – disse ela sorrindo e acariciando o rosto do rapaz.
– Eu to sonhando? Eu morri? Onde diabos eu to afinar?- perguntou ele confuso sem tirar os olhos dela. Só poderia ser isso. Ele tinha morrido e estava no céu.
– Você não morreu, meu amor. Mas nos deu um susto enorme! – respondeu ela ainda sorrindo.
– O que eu to fazendo aqui? – perguntou ele ainda confuso e tentou se levantar, mas a dor em seu ombro foi forte e ele voltou a deitar. – Porque dói tanto?
– Você não lembra? Levou um tiro na frente da venda do seu Gíacomo. Estamos no posto médico. Você precisa descansar agora. O pior já passou.
Agora ele lembrava lentamente do que tinha acontecido. Lampejos de memória vinham a sua mente. A venda. O Coronel. A escola. O tiro.
– Acho que eu lembro. Mas ainda num intendo o que houve. – ele fechou os olhos e de repente os abriu novamente e encarou a professora.
– Mai o que ocê tá fazendo aqui, Juliana?
– Eu achei que ia te perder Zelão. Fiquei com medo, precisava te ver. – respondeu ela com lágrimas nos olhos.
– Mas ocê tá assim puque acho que ieu ia morrê, daqui a poco vai passa i ocê vai me dispensá di vorta. Num é? – perguntou ele agitado. – Ieu acho mió ocê vorta pra casa.
Juliana compreendia a desconfiança e a dúvida que Zelão tinha. Ela levantou-se, deu um beijo na testa do rapaz e foi embora.
Mãe Benta acordou com o barulho da porta se fechando.
– Mai onde que tá a perfessora? – perguntou meio perdida.
– Ieu mandei ela de vorta pra casa. E chega desse assunto mãe. Perciso durmi.
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Semanas se passaram, pouco a pouco Zelão foi se recuperando. No fim das contas descobriram que havia sido o prefeito das Antas que tinha tentado matar o Coronel Epaminondas. Com o antigo prefeito preso e fora das eleições, o coronel acabou ganhando por unanimidade.
Todos os dias Juliana ia depois da aula até a clareira em que ela e Zelão haviam se encontrando tantas vezes. Deitava-se na grama e ficava por horas vendo o céu ou lendo algum livro. Por vezes chegava até mesmo a adormecer e só acordava quando Gina vinha atrás dela preocupada com a demora.
Num desses dias, enquanto estava levemente adormecida, achou que ouvia um ruído conhecido, um tilintar metálico. Foi ficando mais próximo... mais próximo. Até que ela se deu conta.
Esporas!
Levantou-se rapidamente e quando olhou para trás viu Zelão parado entre duas árvores. Havia algo diferente nele, mas Juliana não conseguiu identificar na hora o que era. Parecia uma imagem tirada de um sonho, de uma lembrança.
– Zelão. – sua voz saiu apenas num sussurro.
O rapaz se aproximou lentamente dela. Seus olhares se fixaram. Cada um tentando ler o semblante do outro.
– Eu num quiria incomodá ocê, mas será que nóis podia ter dois dedinho de prosa? – perguntou ele.
– Você não me incomoda, Zelão. – respondeu ela se aproximando um pouco mais. – Diga, o que quer de mim?
Ele olhou fundo nos olhos da professora e soube que palavras não seriam suficientes para explicar o que estava sentindo, então a tomou nos braços e a beijou como nunca antes. Com todo o amor que sentia. Com toda a fúria, toda paixão. Derramou seu coração ali naquele beijo.
Quando ambos já estava sem fôlego. Zelão, encostando sua testa na de Juliana respondeu à pergunta que a professora tinha feito antes:
– Eu quero ocê Juliana.... e sei que ocê também me quer.
– E você me tem, meu amor! Não importa mais nada pra mim! O medo foi varrido para longe e não me interessa mais nada a não ser estar junto de você! – respondeu ela sentando-se no chão e o puxando para perto de si.
Ficaram assim, aconchegados um no outro durante um bom tempo, até que o peão quebrou o silêncio.
– Mas ocê num tá preocupada onde nóis vai vivê? – perguntou desconfiado.
– Não. Eu confio em você, Zelão. Seja onde for, na escola, no celeiro, até aqui mesmo nessa clareira, não me importo desde que esteja contigo. – Respondeu ela se aconchegando mais nos braços de seu amado. – Ah! E desde que você não desaloje sua mãe também!
– Pode fica sossegada que nesse erro ieu num caio mais! – disse ele dando risada.
Quando estava quase anoitecendo eles se levantaram para voltar para casa e foi então que Juliana percebeu a diferença.
– Zelão! Sua roupa está vermelha de novo! – disse ela tocando nos detalhes bordados do colete dele.
– E num vai mais mudá. Puque ieu sei que ocê me ama agora de verdade e meu coração tá cheinho de amor. Agora ieu tenho certeza que nunca mais vô vorta a sofrê daquele jeito. – respondeu ele com lágrimas nos olhos.
– Nunca mais vou te fazer sofrer, meu amor! Estamos juntos agora!
– Juntos que nem o lápis e a borracha. – brincou ele.
– Juntos para sempre! – disse ela lhe dando um beijo.
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