Para onde foram os homens
7 CAPÍTULO 5
Mais uma noite
Finalmente cheguei em casa, a primeira coisa que fiz foi olhar em volta para ver se não tinha nada suspeito. Estacionei o carro na garagem, entrei pela porta que dá acesso a cozinha, olhei e estava tudo no lugar, mas nenhum sinal dele, procurei na sala e nada, subi até o quarto, procurei no banheiro, no closet nada. Deixei minhas coisas em cima da cama, peguei o celular e desci, procurei no banheiro de visitas também.
“Por alguma razão fiquei desapontada ao imaginar que ele foi embora”,
Ouvi um barulho vindo do porão, peguei um rolo de macarrão na gaveta, sabia que um isso serviria pra alguma coisa. Fui direto para a porta e abri, liguei a luz da tela do celular para iluminar a escada, desci devagar com medo de cair.
“Tem alguém aí? Oooiiii?” – Nenhuma resposta. Será que ele foi embora mesmo? Talvez ficou com medo de denuncia-lo e fugiu. Precisava ignorar esse sentimento de decepção, já fiz muito permitindo que ele ficasse. Pelo menos tudo voltaria ao normal.
Estava muito escuro e não conseguia ver direito apenas com a luz do celular, me virei em direção as escadas, vi uma sombra enorme a minha frente, dei um grito perdendo o equilíbrio, mas antes de chegar ao chão, senti minha cintura sendo envolvida por seus braços. O susto foi tão grande, que tinha certeza que perdi todo sangue que tinha do rosto, meu coração estava quase saltando pela boca, segurei o rolo de macarrão com tanta força contra o peito que senti o sangue sumir dos meus dedos.
“Shiiiinnn! Sou eu”. – Senti Uma sensação de alivio, não sei se era por saber que ele não tinha ido embora ou por não ter me deixado cair. — “Você disse que estaria de volta às 20hs, já são quase 22hs. Não sabia o que fazer então me escondi aqui por precaução, não tinha certeza se tinha ligado para a polícia, mas esperei para ter certeza”. – Ele me soltava devagar enquanto falava, só agora percebi que ele ainda estava me segurando.
“Eu disse que não o entregaria, até porque, mesmo você dizendo que me sequestrou, as autoridades ainda assim ficariam me investigando.” – Lembro-me de uma residente no hospital, que foi suspeita no caso parecido com o meu, ela nunca mais teve paz, até que um dia não apareceu mais no trabalho, para todos a notícia foi que ela mudou de cidade, por questões pessoais, mas Sol me disse a verdade e eu não acreditei. Mas não falaria sobre isso com ele, afinal não somos amigos.
“Não tenho a intenção de te causar nenhum problema, já fez muito por mim, não me deixando morrer”.- Se a luz estivesse ligada, ele veria que fiquei corada, pigarreei limpando a garganta e fui caminhando em direção à escada, com o celular ligado. Ele apenas virou e me seguiu, antes que eu pudesse chegar ao topo, ele passou na minha frente, subindo antes de mim.
“Olhe, troquei sua lâmpada e dei uma limpada aqui, como retribuição pela ajuda, não é muito comparado a salvar minha vida, mas é tudo que posso oferecer no momento”. — Ele disse levantando os ombros, dando um sorriso de canto, pude ver um leve brilho em seus olhos. Ele não parecia ser um monstro e devida a sua aparência física, deveria ter passado uns maus bocados lá fora. E isso me fazia questionar tudo que aprendi até hoje, não só sua aparência, como suas atitudes e a forma como falava comigo. Ele não se encaixava no perfil dos outros.
“Obrigada, não precisava ter feito isso, mas obrigada mesmo assim.” — Estava tentando entende-lo, mas ainda era cedo para isso. — “Agora precisamos decidir sua situação e o que vamos fazer.” — Ele ficou tenso, não queria estragar o momento, mas não poderia deixa-lo ficar, estava colando minha vida inteira em jogo. Mas metade mim queria que ele ficasse, queria saber mais sobre ele.
“Vou embora, assim que todos estiverem dormindo, como disse, não quero causar problemas a você.” — Talvez se ele ficasse mais uma noite, pudesse descobrir mais coisas. Eu me odiaria o resto da minha vida, pela decisão que estava prestes a tomar. Estava em um conflito interno muito grande, mas era tarde. A decisão já estava tomada.
“Talvez ... Você possa ficar só mais essa noite... Não que eu queira que você fique, mas dada as circunstâncias e pela sua aparência, não se alimentou bem nos últimos dias e vai acabar morrendo de fome e anemia. Então acho que pode…sei lá.... Ficar aqui só por hoje. Não quero ficar com a consciência pesada, por deixar uma pessoa morrer de fome e frio por aí”. — Tentei ser o mais convincente possível. Não sei no que estava pensando quando falei aquilo. Estava jogando tudo pelo ralo.
“Não acho que seja uma boa ideia, você já fez muito por mim.” — Fiquei desapontada com a resposta, ele queria ir embora e deveria, mas não era o que eu queria.
“Você ainda não está em condições de sair sozinho. Falo como médica, um corte assim pode estourar os pontos facilmente, deveria ficar. Pode dormir aqui no porão, acho que não vai levantar suspeitas ficando aqui em baixo.”
O Porão estava bem arrumado, confesso que ele fez um ótimo trabalho. Muitas coisas aqui eram da minha mãe, ela não quis se desfazer de seus antigos moveis, odiava essa modernidade toda. A maioria das casas eram todas iguais, sem vida. Ela me fez guardar no porão muita coisa antiga, não sei o que tem em metade das caixas e não abri nenhuma depois que ela faleceu, não tive coragem de mexer em nada, desde então não desço aqui.
Mas agora depois que tudo estava arrumado, consigo ver por que minha mãe não quis se desfazer das coisas, tinha um sofá grande que ela amava, aqueles que cabem umas 4 pessoas sentadas e o tecido não era de couro como o meu, era um tecido macio e marrom. Tinha um tapete grande, com desenhos do que parecia ser pequenos ramos no centro, dentro de um retângulo verde e as bordas marrons, tinha uma mesinha grande encostada na parede de frente para o sofá, atrás da escada estavam caixas lacradas. Senti uma leve tristeza ao olhar para as caixas, aquelas coisas me lembravam muito ela, mas não deixei transparecer. Precisava pensar no que fazer com ele e como deixa-lo escondido, até melhorar. Ele chamou minha atenção.
“Sim, mas só essa noite. Acho que tem razão, você é médica e deve saber do que está falando”. — A resposta afastou a tristeza. Ainda não entendia porque me sentia assim perto dele, talvez por que não queria deixa-lo morrer ou talvez fosse apenas curiosidade, não consigo saber ainda. Minha mãe sempre me dizia que sentimentos não são para serem entendidos e sim vividos. Que nunca deveríamos ignora-los. Eu discordava, na medicina, aprendemos a agir pela razão, mas esse estranho mudava tudo.
“Tudo bem, vou lá em cima pegar algumas coisas e já volto. ”- Sai do porão andando calmamente, assim que passei pela porta, fui correndo pegar alguns lençóis e algumas outras coisas que ele pudesse precisar
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