Peguei a seringa e coloquei o anestésico, ele me observava apreensivo. No fundo ele sabia que estava colocando a vida em risco, não era médico e não poderia saber o que tinha no vidrinho, mas era isso ou morrer sangrando. Me virei para aplicar o anestésico dentro do corte, ele fez uma careta, mas logo voltou a feição normal. Peguei a agulha, a pinça e a linha e costurei. Ia ficar uma cicatriz feia, mas isso não parecia ser um problema, comparado com as que ele tinha nos pulsos e pescoço, no peito tinham cicatrizes pequenas. Quando terminei de costurar, peguei uma gaze na pia banheiro e quando voltei ele estava sentado na cama, fiquei parada olhando a cena, não pude deixar de reparar como ele era bonito, era quase impossível de imaginar, que faria mal a alguém.

“Obrigado!” ele agradeceu, levantando-se da cama e indo em direção a porta, antes que pudesse chegar, ficou tonto, perdendo o equilíbrio, corri para segurá-lo, ele quase caiu em cima de mim, mas consegui me manter firme.

“Desse jeito, você não vai conseguir ir muito longe”. Ele me encarou surpreso, acho que não esperava algo tão nobre da minha parte. Com dificuldade apoiou se apoiou em mim, o guiei até a cama, mas ele se recusou a sentar nela, ficando no chão. O encarei por alguns segundos, imaginando como ele chegou até aqui, quando seus olhos encontraram os meus, senti minhas bochechas queimarem, desviei para o ferimento, limpando o sangue seco em volta, muitas perguntas pairavam na minha mente.

“Terminou? ” — Ele perguntou me fazendo deixar meus pensamentos de lado. O ferimento estava limpo e suturado, coloquei uma faixa em volta do abdômen, assim não correria o risco de infeccionar.

“Sim, terminei. ” — Falei me levantando e indo em direção ao banheiro, tranquei a porta e me sentei no vaso, coloquei as mãos no rosto e comecei a pensar, em tudo que tinha acontecido essa noite. Estava perdida em um turbilhão de pensamentos, ouvi leves batidas na porta. Estava tão cansada, queria só um minuto de paz, depois de algum tempo as batidas silenciaram, o que me deixou satisfeita, abri a porta e sai, me deparei com ele sentado na parede ao lado do banheiro.

“Está me vigiando? Acha mesmo que conseguiria fugir? Por que não sei se percebeu que a única porta de fuga do banheiro e essa aqui e não correria o risco de pular a janela e torcer o tornozelo” – Minha cabeça estava doendo, ele me encarava confuso.

“Espero qualquer coisa vinda da sua raça ” — Como assim espera qualquer coisa da minha raça? Por acaso ele estava em comparando a um animal, meu humor estava péssimo desde cedo e tudo isso estava me enlouquecendo.

“É SÉRIO ISSO MESMO, SOU UMA RAÇA AGORA? PORQUE FOI A MINHA RAÇA QUE CAUSOU A SEGUNDA GUERRA MUNDIAL NÉ, FOI UMA MULHER QUE MATOU MILHARES DE JUDEUS EEEEEE CLARROOOOO, FOI UMA MULHER QUE SOLTOU UMA BOMBA ATÔMICA EM HIROSHIMA E NAGASAKI. FOMOS NOS QUE MATAVAMOS UM DE VOCÊS A CADA 5 MINUTOS” — A essa altura meus nervos estavam fervendo.

“ISSO FORAM FEITOS POR HOMENS GANANCIOSOS E EGOÍSTAS, QUE SÓ PENSAM EM PODER. MAS CLARO QUE NÃO TINHAM MULHERES ENVOLVIDAS NÉ, TUDO FORAM DOS HOMENS. PORQUE AS SANTAS IMACULADAS MULHERES ESTAVAM EM CASA SENDO BOAS MOÇAS.´, POR QUE VOCES SÃO SEMPRE AS VITIMAS, ESTAVAM SENDO BOAS MOÇOAS, LUTANDO APENAS POR DIREITOS IGUAIS, ONDE TODOS VIVERIAM FELIZES PARA SEMPRE, TODOS OS SERES VIVOS FELIZES E EM PAZ, MAS NINGUÉM MOSTRA O QUE TEM ATRÁS DAQUELES MUROS, O QUE ACONTECE LA FORA. DESCULPA QUERIDA, MAS SEU MUNDO PERFEITO É UMA MENTIRA.” – Nos dois estávamos exaltados nesse momento, sua explosão de raiva me fez recuar.

Ele estava de pé, pressionando o local ferido, ao perceber que fiquei assusta, ficou em silencio. Olhando-o ali daquele jeito, me senti culpada. Por um breve momento cheguei a acreditar nele, mas não faria isso, ele era um homem e tudo que aprendi sobre ele, é que eram sem escrúpulos, que tudo que faziam era matar e destruir tudo a sua volta. Caminhei até a cama e tirei o lençol sujo de sangue e os travesseiros, ele me olhou indo em minha direção, começou a me ajudar a limpar as coisas, não queria a ajuda dele, ainda estava irritada e ele estava ferido. Mas também estava exausta demais para continuar a briga, o silencio era mais reconfortante.

Caminhei até o closet, peguei um lençol limpo, fronhas para os travesseiros, voltei e estendi o lençol para forrar a cama, ele segurou na outra ponta, pegou uma fronha e colocou em um dos travesseiros. Peguei tudo que estava sujo e coloquei dentro do sexto de roupa do banheiro, peguei meu roupão de banho e caminhei até o banheiro, me tranquei lá dentro, tirei o moletom que ainda estava usando e entrei no chuveiro. A água estava tão quentinha, fiquei ali pensando na minha vida e em tudo que estava acontecendo, pensei naquele homem que estava ali fora, me senti mal por ele, eu aqui no meu conforto e ele lá fora todo sujo de sangue, com roupas velhas e rasgadas e aquelas cicatrizes pelo corpo. Fiquei imaginando o que causou aquelas marcas. Respirei fundo, sai do box, peguei meu roupão. Enrolei uma toalha no cabelo e sai do banheiro. Ele estava sentado nos pês da cama, com a cabeça para trás encostada no colchão, com os olhos fechados, fui caminhando devagar até o closet, para não o acordar. Abri a porta vagarosamente e entrei, coloquei uma calça que não usava a muito tempo e uma blusa de manga longa e voltei para o quarto. Ele estava na mesma posição, mas acordado.

“Você está melhor? ” — Que pergunta mais idiota, claro que não estava, tinha um corte cheio de pontos na barriga, ele apenas balançou em afirmação. — “Você precisa de um banho e roupas limpas”. — Ele me olhou e franziu a testa. — “É que seria bom, para não correr o risco de o ferimento infeccionar e.…” — Ele levantou calmamente sem questionar e veio em minha direção, meu coração acelerou senti um frio na barriga.

“Onde posso pegar uma toalha limpa? ” — Fiquei sem palavras, ele estava tão perto e era tão alto. Seus olhos penetrantes, me lembravam um dia ensolarado de primavera.

“Na segunda porta a direita do armário, só não sei se posso te oferecer roupas limpas, porque como pode ver, você tem o dobro do meu tamanho, acho que não vão servir.” — Dei um sorriso de canto, tentando ser simpática, dada como circunstância mesmo se eu dissesse que ele me fez de refém, provavelmente seria presa.

Ele continuou sério e foi até o closet, me senti uma idiota. Não sabia o que fazer em uma situação assim, pensei em ligar pra Sol, mas não sei qual seria a reação dela. Caminhei até a cama, me sentei e esperei que ele voltasse, estava tão cansada, que mal conseguia ficar com os olhos abertos, cai em um sono profundo.