Para onde foram os homens
8 CAPÍTULO 5.1
Quando voltei, o vi mexendo em algumas caixas, aquilo me deu uma pontada de ciúmes, eram da minha mãe. Quando percebeu minha presença veio me ajudar a carregar as coisas, não pude evitar olhar novamente para as marcas em seu pescoço, aquelas marcas me deixavam intrigada, ele e se afastou rápido virando de costas, ao perceber que o observava.
“Onde coloco essas coisas?”. – Minhas bochechas ficaram quentes, por ter sido pega.
“Pode deixar ali em cima da mesinha. Antes de qualquer coisa vamos aspirar esse sofá, deve estar empoeirado e cheio de ácaros” –
Ele sorriu pela minha expressão de nojo, mas é mais forte que eu, não gosto de sujeira. –
“Depois vamos forrar com esses lençóis. Ah! Trouxe travesseiros, cobertores e roupas limpas para você, não sei se vão servir, mas sempre compro moletons bem maiores que meu tamanho, por que gosto de mesentir confortável em casa”. — Na verdade, peguei aquelas roupas no hospital, mas ele nunca saberia. Quando estava perto dele, disparava a falar. Ele apenas concordava, sem dizer uma palavra. Talvez estivesse entediado, ou me achando chata.
Começamos a arrumar as coisas, primeiro aspirei todo o sofá e passei um pano com álcool, que peguei na dispensa, forramos com lençol e coloquei os travesseiros. Ele pegou as roupas e ficou me olhando sem jeito.
“Por que está me olhando assim?” - Suas bochechas ficaram coradas, o que o deixava fofo.
“Preciso trocar de roupa, se não se importar, poderia virar de costas?” — Agora eu que fiquei corada.
“Ah me desculpa! Mas se você quiser tomar um banho, antes de vestir essas roupas, pode usar meu banheiro lá em cima, seria bom limpar esse corte, espero aqui e depois troco o curativo.” — Ele apenas assentiu e foi até as escadas com as roupas nas mãos, olhei em volta e por fim sentei no sofá para esperar. Já passava das 23hs e meu estômago roncou, só agora percebi que mal comi hoje por causa da ansiedade. Fui até a cozinha, peguei duas lasanhas congelas e coloquei no micro-ondas, estava muito tarde para preparar algo e a lasanha era o mais rápido e pratico que tinha naquele momento. Coloquei as duas para esquentar no micro-ondas e fiquei sentada esperando enquanto ele não voltava. Estava tão cansada, que apoiei a cabeça nos braços em cima do balcão. Fiquei ali apenas ouvindo o silêncio em volta, sem pensar em nada, apenas apreciando aquele momento de paz, o micro-ondas apitou. Peguei as lasanhas, talheres na gaveta e desci de as escadas, coloquei as coisas em cima da mesinha, sentei no sofá e fiquei esperando. O sofá era tão macio e confortável, me afundei nele, encostando a cabeça no encosto, adormeci......
Acordei assustada, sem muita noção de onde estava, passei a mão no rosto, tentando me situar, sentei e o vi deitado no tapete, apenas com os travesseiros que trouxe. Ele ficava engraçado vestido aquele moletom, ficou um pouco pequeno nas pernas, mas deu certo. Fiquei com pena dele, naquele chão duro e frio. Levantei devagar, tentando fazer o mínimo de barulho para não o acordar, olhei em volta e vi que ele tinha comido as duas lasanhas que trouxe. Estava mesmo com fome. Peguei o cobertor para cobri-lo, me ajoelhei do lado onde estava o corte e lentamente levantei o moletom, puxei a faixa devagar e levantei a gaze, então pude ver como estava, parecia melhor hoje, estava um pouco roxo em volta, mas estava seco o que era um bom sinal de que não iria infeccionar, abaixei a blusa e o cobri com o cobertor até o pescoço, fiquei ali parada olhando para aquele rosto, que de alguma forma me transmitia segurança, mesmo ele sendo considerado perigoso.
Cheguei mais perto e observei cada detalhe, as sardas, as sobrancelhas, a linha fina que formava os lábios. O rosto dele parecia ter sido desenhado, cada detalhe o deixava harmônico, nunca vi um homem assim em nenhuma das fotos que foram mostradas na escola. Eram sempre homens feios, grosseiros, barbudos, sem dentes, muitas vezes gordos e sujos. Mas nunca um assim, tão belo e diferente, apesar de estar magro, seu corpo era definido e sua pele clara, alto e forte.
Aproximei minha mão para tocar seu rosto, hesitei um pouco, mas a vontade de toca-lo era maior, meu coração estava acelerado, parecia errado, mas ao mesmo tempo certo. Antes que pudesse toca-lo, senti uma mão segurar meu pulso, ele abriu os olhos, aqueles olhos castanhos esverdeados, agora estavam verdes escuros e sua testa franzida. Apenas segurando meu pulso, me puxou pela cintura e de repente estava em cima de mim, com os olhos ferozes e famintos, segurando meus pulsos contra o chão. Senti o sangue do meu rosto sumir e minhas forças irem embora, agora sim, estaria morta.
“O que está fazendo?” — Acho que o deixei irritado. Mas mesmo estando com medo, aquela aproximação me fez sentir um frio na barriga, um frio ruim e ao mesmo tempo bom, sentia sua respiração quente batendo no meu rosto, ele estava tão perto, senti meu corpo esquentar.
“Na...da.... Só estava checando o corte, para me certificar que estava melhor.”- Virei o rosto para cortar o contato direto com seus olhos, eram hipnotizantes, tão penetrantes que me davam medo. Aos poucos consegui controlar a respiração, ele percebeu o quanto estava próximo, mas mesmo assim parecia não se importar. O corpo dele era pesado e me cobria por completo, se quisesse me fazer mal, não teria nenhuma chance de me defender. — “Me desculpe, não quis assustar você, só achei que não deveria acorda-lo.”
“Tudo bem!” — Ele disse saindo de cima de mim. — “Me desculpa por isso, não quis machuca-la, mas passei por muitas situações, que me fazem estar sempre alerta. Da próxima vez me acorde antes de tentar me tocar. Não tive boas experiências, por isso não me toque sem minha permissão.”
Ele deitou ao meu lado no tapete, respirei aliviada, o peso dele era esmagador e sua força fora do comum, ainda sentia suas mãos nos meus pulsos. Passei a mão pelos cabelos e sentei. Olhei para ele que ainda estava deitado na mesma posição com os olhos fechados.
“Isso não vai acontecer de novo. Mas porque não me acordou, quando desceu? Disse a você que trocaria o curativo.” – Ele abriu os olhos para me encarar.
“Imaginei que estivesse cansada, então não quis acorda-la.” — Porque ele se importava comigo?
“Vou para o meu quarto esta tarde, você pode dormir no sofá, acho que só esse moletom não é suficiente para te aquecer do frio. Se precisar de alguma coisa é só me chamar lá em cima. Amanhã antes do trabalho dou mais uma olhada em você, para ver como está à cicatrização e aí a noite decidimos o que fazer.” – Mais uma noite e isso tudo acabaria.
“Está bem! E novamente obrigado por tudo, ninguém nunca fez o que está fazendo por mim, acho que você não é como as outras. ” — Fiquei feliz com o comentário, pelo menos acho que não sou má pessoa. Mas estava curiosa para saber algo e não queria esperar amanhecer.
“Posso te fazer uma pergunta?” — Ele concordou com a cabeça e fui direto ao ponto. — “Onde conseguiu essas marcas no pescoço e no peito?”. — Ele levantou rapidamente, ficando sentado ao meu lado, colocando as pernas em posição borboleta. Pareceu desconfortável com a pergunta.
“Não quero falar sobre isso e mesmo que falasse você não acreditaria.” — Fiquei frustrada com a resposta, queria saber tudo sobre ele. De onde veio. Como conseguiu chegar até aqui. Se tem outros iguais a ele por aí. Queria respostas e as teria de uma forma ou de outra.
“Acho que mereço saber alguma coisa, estou colocando tudo em risco por você. Pode ao menos me dizer de onde você veio e como chegou até minha casa?” — Pela reação dele, acho que o convenci.
“Está bem, mas não fique pensando que vai conseguir saber tudo. Ainda não confio em você.”
Apenas concorde
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