Para o chá com uma rainha
1 Para o chá com uma rainha
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Para o chá com uma rainha
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Nos meus sonhos existe uma mesa colocada para o chá. Há momentos em que ela se encontra em uma sala redonda de janelas altas, com cortinas vermelhas bordadas em dourado, tapetes macios, do tipo que você sente a necessidade de passar o pé, e teto que se abre para o firmamento, de onde pende um lustre de cristais que só não é mais brilhante do que a lua. Há momentos, no entanto, em que a mesa fica sobre um gramado e sob uma caneleira, no campo ao redor há lírios-do-vale, lavanda, rosas e flores sem nome que só existem quando se sonha.
Nos meus sonhos é sempre hora do chá, mesmo que não sejam cinco horas, então está tudo bem ainda que o sol esteja a pino ou que a constelação de canis major lata para você.
A mesa é posta com suspiros feitos de nuvem, pães deliciosamente quentes, chás de orvalho e água do mar, biscoitos de pétalas de violeta, torradas embebidas em mel, bolos cobertos de chocolate e salpicados com pó de fada, leite quente e espesso, capaz de fazer um velho recordar do seio da mãe. Se você não sentir fome diante dela significa que o sonho deixou de ser sonho e você morreu.
Há uma moça sentada à mesa. Ela se mantém com a espinha muito reta e possui modos delicados. Existe uma leveza de sombra na forma como ela estende a mão para os biscoitos amanteigados, assados sob o bafo de um dragão cego. Ela é uma rainha. Às vezes ela sabe disso, outras vezes ela se esquece. Eu sei sempre.
O reino dela é feito de natureza, arte e poesia, e é tão vasto quanto as profundezas do seu olhar. A moça calça sapatilhas, seu vestido é tecido com a primeira chuva do outono, e seu cabelo e as trevas da noite são feitos da mesma matéria. Uma espada, longa e afiada, pende em sua cintura.
Ela me concede sua companhia e conta, com toda a graça de sua realeza, sobre como é navegar em xícaras de café e sobre todas as outras aventuras que vive lá fora. O ar rescende à magia enquanto ela fala, e suas palavras são mais doces do que o chá adoçado com poeira de estrela cadente.
Há poemas entre os nós dos seus dedos. Ohh, ela sabe que poemas também servem para endurecer a alma. Quando, sem querer, a rainha resvala na minha pele, a pele dela delicada e quente, sinto meu coração derreter-se e pulsar sob a forma de um às de espadas.
Naquelas madrugadas em que as lembranças pesam como socos no estômago ela me faz companhia, sentada à mesa, me mostra pitadas de magia perdidas pelo mundo e me convida a sorver o céu com canudinho.
Encanta-me sua majestade e eu suspiro diante do universo que ela guarda dentro de si, bonito e doce.
Bendigo meus sonhos, onde é sempre hora do chá.
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