Para Ter Você (Divergente)
7 Capítulo 6 - Espere o melhor, prepare-se para o pior e aceite o que vier
Notas iniciais

Apaguei a luz da minha sala e fechei a porta. O corredor estava pouco iluminado com as lâmpadas torpedo, bem espalhadas e que só eram ligadas á noite pela segurança do prédio. Caminhei na direção do elevador, equilibrando a maleta numa mão para poder procurar minha carteira. Encontrei-a mas não tinha nada mais que umas moedas. Teria de procurar mais ou então chegaria á pé em casa, não daria para pegar um táxi. Tinha o metrô, mas ainda sim...
As portas do elevador se abriram e Tobias estava lá dentro também. Uma exclamação surpresa escapou da minha boca.
— O que fazia aqui até essa hora?
Joguei a bolsa de qualquer jeito no ombro, desconcertada, e me coloquei ao seu lado no cubículo de metal. Apertei o número do térreo e respondi sua pergunta:
— Adiantando algumas coisas de amanhã — respondi.
Silêncio.
— Você deve ter muita coisa para fazer, imagino. Além de passar a noite em claro no escritório.
— Na verdade, não.
— Não tem hobbies?
— Humm... — colocou o indicador no queixo, mas em seguida balançou a cabeça. — Meu melhor entretenimento é trabalhar.
Ri.
— Tome cuidado, carga exagerada de trabalho pode levar á loucura, senhor Eaton.
— Digo o mesmo para você — rebateu com uma sorriso de lado. — Principalmente agora.
Certo. Eu nem podia estar dando uma bronca nele estando na mesma situação, ainda mais grávida.
Eric já sabia, mesmo que eu tivesse negado; eu esperava que ele não desse com a língua com os dentes e dissesse sua suposição.
— Sabe de uma coisa? — Eric esticou as pernas no divã e afrouxou a gravata. — Eu poderia viver assim.
— Comendo chocolate, sucos de caixinha e ficar deitado no meu divã?
—- Exato!
Desembrulhou outro bombom.
— Você é muito folgado.
— Só sei aproveitar as amizades que a vida me traz. Você tem vinho ai?
Revirei os olhos e sentei no sofá.
— Não tenho motivos para comemorar. Por qual razão eu teria bebida aqui?
— Somente os idiotas respondem uma pergunta com outra pergunta.
Joguei uma almofada na cara dele.
— Você derrubou meu chocolate! Víbora! — disse, indignado.
— Odeio quando você e a Nita rompem, é um saco! — dobro os braços.
— Logo ela me liga, ai você estará livre de mim, Prior. Eu só preciso de companhia.
Balancei a cabeça em concordância e roubei um bombom em formato de coelho da caixinha de páscoa.
Engoli um pedaço do doce e meu estômago se revirou. Levantei abruptamente e fui até o banheiro, jogando tudo fora pela segunda vez naquele dia. Lavei meu rosto, respirei fundo e abri a porta, dando de cara com Eric.
— Pode ir me dizendo. Quem é o pai?
Minhas sobrancelhas se ergueram e digitei algumas coisas.
— Pai? Como assim, do que você está falando?
— Eu não sou idiota. A Lynn, talvez. E ela não tem a mesma experiência com grávidas.
— Ah, é. Ok. Como vai a sua filha? Já decidiu o nome?
— A Nita quem vai escolher. Estamos em dúvida, Melissa ou Brianna? Minha avó se chamava Brianna, acho que combina perfeitamente...
— Concordo.
— Mas não fuja do assunto. Eu perguntei e exijo resposta! — dobrou os braços.
— Vai ficar querendo — falei por fim.
Acenei para Tobias ao sair do elevador e ele seguiu para o estacionamento. Apertei a alça da maleta entre os dedos e peguei o caminho mais curto para chegar em casa. Se tivesse sorte, eu não teria bolhas nos pés, causadas pelos saltos, quando chegasse. Anotei mentalmente que precisaria levar sapatilhas na bolsa.
O trajeto até meu apartamento durava meia hora de carro, sem saltos uma hora, talvez. Suspirei, olhei para os lados da avenida e atravessei em seguida. Com os pés na calçada, ponderei se não seria melhor entrar num café 24 horas e comer alguma coisa. Minha barriga estava roncando.
De rabo de olho, percebi estar sendo seguida. Continuei andando e o carro logo me alcançou.
— Quer uma carona?
O automóvel de luxo parou próximo ao meio fio. A janela tinha se aberto e o rosto de Tobias do banco do motorista me fez sentir tranquilidade. Já estava pronta para correr, mesmo prevendo calos depois, segurando uma bolsa no ombro e maleta na mão, cheia de papeis e com a tranca quebrada.
Tobias saiu do carro e abriu a porta do passageiro para mim.
— Obrigada, Tobias — murmurei.
O estofado escuro e confortável me fez viajar ás lembranças familiares. Quando ainda convivíamos, Caleb me arrastava até alguma concessionária, mesmo que não comprasse carro algum no final. O modo como fechava os olhos ao entrar num automóvel apenas para sentir o cheiro "de novo", deslizar os dedos pelo volante, mencionar todos os atributos dele para em seguida ir embora e olhá-lo de longe, lutando de verdade para um dia ter o que queria. Irmãos deveriam ser exemplos.
Caleb me dava motivos para sonhar. Mas ele estragou tudo.
Apertei a bolsa contra o colo, inquieta por ter pensado nele depois de tanto tempo, exceto quando eu cogitara a infeliz ideia de implorar-lhe ajuda para tia Joh. Mas ele estava diferente, desde a última vez que nos vimos. O Caleb atual esquecera da família.
Uma melodia não tão distante ecoou abafada. E sorri porque reconhecia a harmonia antiga e no entanto, tão bela e sublime.
— Poderia pegar meu celular no porta-luvas, por favor?
Abri o pequeno compartimento e tirei o celular vibrando e o entreguei ao dono. Estávamos no sinal vermelho, agora.
— Não precisava pensar duas vezes — começou dizendo para alguém no celular.
Virei minha cabeça na direção da janela. Uma loja da ReichCandy estava fechada mas imediatamente senti vontade — não desejo — de comer alguma coisa. Fazia quantas horas desde a porção de frutas á tarde?
— U-hum. Tem certeza? — uma pausa. — Entendo.... — outra pausa, mais longa. — Pode vir quando quiser, sabe disso, Zeke. Preciso desligar — olhou para o sinal.
Deu partida no carro e desligou o celular, o estendendo a mim. Peguei e coloquei novamente no lugar. Tomei coragem em meio ao desconforto e disse:
— Air On The G String? — mencionei o toque.
Ele tirou os olhos da estrada por um instante.
— Você gosta?
— È boa. Mas prefiro Eine Kleine Nachtmusik.
Ele arfou.
— Previsível demais, todo mundo gosta de Mozart. È por isso que ouço Johann Bach.
— Exato! Todo mundo com um pingo de cultura ouviria e reconheceria se ouvisse alguma música de Bethoven. Ninguém — exagerei — conhece Johann Bach, senhor Eaton.
— Você é bem estranha. Uma hora me chama de Tobias. Outra de senhor. Decida-se, já não somos tão distantes para manter tanta formalidade — disse ele, concentrado demais na direção para olhar para mim.
— Está certo — assenti. — Mas sabe de uma coisa? — ele murmurou um "hum". — Nenhum compositor supera Mozart;
— Se você acha....
— Eu tenho certeza! — exclamei, indignada. — Quem não gosta dele é um sem noção, careta alienado e ignorante.
— Sinto em lhe informar que então sou tudo isso e um pouco mais.
Meu rosto ficou vermelho. Òtimo, agora eu tinha o tinha xingado! E é assim que você consegue ter uma conversa civilizada.
Pigarreei e tentei concertar o que dissera.
— Mas nem todo mundo é assim, você sabe.
— Ah, eu sei sim — ele mordia o lábio para não rir.
— Porque todos têm seus gostos e etc, etc, etc.
Minhas desculpas estavam se tornando patéticas.
— Você vai fazer alguma coisa agora? — perguntou, porém não esperou resposta — Meu amigo acabou de desmarcar nosso jantar. Ele é piloto e tem um voo inadiável para esta noite.
— Acho que só irei revisar alguns relatórios — ele me encarou, cético. — Mas acho que já fiz isso por bastante tempo hoje.
— Também acho — riu. — Finalmente encontrei alguém que compartilhe o mesmo gosto musical que o meu, então preciso te mostrar uma coisa.
A casa de Tobias era o tipo de lugar que você veria apenas por televisão, nunca colocaria os pés e sonharia acordado, a chama de consumo sempre acessa e vívida. Para alguém como eu, aquela casa gigante estava inalcançável até mesmo se trabalhasse arduamente por dois séculos.
Abri a janela e contemplei a lateral da piscina no canto leste da casa. Pela extensão da fachada, deduzi que ela deveria ser grande por dentro, tivesse muitos cômodos e um belo jardim na parte de trás como tinha na frente, circundando a entrada juntamente com degraus de pedra.
— Eaton — um homem alto e de ombros largos, que rodava um molho de chaves entre os dedos parou na nossa frente.
O senhor tinha uma expressão séria, de respeito. Seus cabelos eram grisalhos, da cabeça aos pés o que se via era que ele era um homem firme e imponente; era nítido que ele estava pronto para tudo.
— Amah, essa é Beatrice Prior. Peça á Zoe que coloque a mesa para dois, por favor.
— Certo. Prazer em finalmente conhecê-la, senhorita Prior.
Mesmo confusa por ele saber de mim, apertei sua mão estendida.
— Ele sabe da criança — Tobias disse, explicando-me.
— Precisamos conversar mais tarde — Amah deu um olhar cúmplice para Tobias. — È sobre sua noiva.
Recusei-me a deixar passar em branco que Cara e Tobias agora eram noivos. Certamente ela já tinha aceitado o bebê. Sem pretexto algum um frio na minha barriga se instalou em meu corpo.
Amah despediu-se e caminhou até o portão da propriedade, sacando um celular do bolso.
Tobias me levou para dentro da casa, apresentou-me rapidamente o primeiro andar e me deixou aos cuidados de Zoe, a doce governanta e cozinheira, enquanto ele tomava um banho.
— Confesso que estava curiosa para lhe conhecer — disse ela, servindo-me um copo de suco roxo e virando-se em seguida para pegar outra jarra cheia de outro suco sobre a mesa. — Tobias as vezes fala a seu respeito.
— Ah, é?
Antes de prosseguir pigarreou e deu de ombros.
— Na verdade, eu o ouço dizendo.
Inclinei o torso para frente, curiosa, e indaguei:
— Seria antiético se você me dissesse o que ele fala de mim?
Ela riu e limpou as mãos num pano de prato.
— Decerto eu seria mandada embora assim que abrisse a boca — murchei — Entretanto, se é do seu interesse, digo que seu nome sempre está envolvido numa das ligações da senhora Cara. Agora não me encha de mais perguntas e termine seu suco.
Tomei um gole do meu suco de mirtilo e fiquei observando Zoe terminar o jantar: bolo de carne, batatas assadas e uma variedade de vegetais cozidos.
— Perdoe-me o atrevimento, senhorita, Prior, mas minha curiosidade não permite que eu me cale — ela estava de costas para mim.
— Não se preocupe, Zoe. Pode dizer ou perguntar o que quiser.
Ela inspirou profundamente.
— Pois bem. Você está mesmo grávida de Tobias, não é? — abri a boca para intervir sobre sua dedução mas ela foi rápida em concertar. — Eu sei que foi inseminada. Tobias é discreto mas não é segredo para ninguém que ele... — balançou a cabeça. — Esqueça. Não é da minha conta. Aqui nesta casa os empregados não veem, não ouvem e não falam.
— Pelo modo que Tobias a tratou você não parece ser apenas a governanta, Zoe. — Recordei de vê-lo abraçar e sorrir discretamente para ela.
Levantei-me e peguei a colher de pau de sua mão e mexi no molho de tomate.
— Mas todos têm limites. Desculpe-me por aguçar sua curiosidade. Certas coisas não devem ser ditas.
Fiquei frustrada, mas não a forçaria a falar. Ela estava correta, afinal. E seu conselho servia para mim.
Pela saudade que eu sentia de ter o comando de uma panela, cortei os últimos legumes contra a vontade de Zoe. Preparei o resto das batatas que fariam acompanhamento ao bolo de carne e decorei o prato. Estávamos perto do final, quando Tobias apareceu na cozinha, os cabelos castanho-claros molhados pelo recente banho.
— Beatrice?
— Ah!, oi. — Sorri e coloquei a faca dentro da pia. — Espero que não se importe de eu ter invadido sua cozinha.
Seus dentes brancos abriram espaço no rosto quase sempre apreensivo.
— Não tem problema algum, fique a vontade. Mas, quero te mostrar uma coisa, podemos ir?
— Claro! Você se importa se eu for? — fitei Zoe.
— Nem um pouco. Pode vazar da minha cozinha, senhorita — abanou a mão com um sorriso brincalhão.
— Ok.
Enganchei meu braço ao de Tobias e ele guiou-me pelo corredor.
— È impressão minha ou você não está muito confortável nesses sapatos? — apontou para os meus pés.
Dei de ombros e fiz careta.
— Estou tão acostumada com eles que as vezes nem sinto dor. Mas esse é o "par carrasco" da minha sapateira.
— Então tire-os. Vou pedir para Zoe um par de chinelos, ou sapatilhas se preferir. Vai sentir-se mais confortável.
Desci do primeiro salto e depois do outro. Naquele segundo, uma pontada forte veio e me curvei, levando a mão á barriga.
— O que... — Tobias gentilmente colocou a mão em meu ombro. — Você está bem? — ele deve ter percebido onde minha mão se encontrava. — È o bebê! Como está se...
Outra fisgada surgiu mais forte e um grito esganiçado escapou da minha garganta. Tinha algo errado. A dor se resumia á pregos sendo apertados no colo do ventre, procurando algum meio de sair. Não!
Queria poder sentar, no entanto, quando inutilmente agachei para apartar a dor, ela sobreveio com mais força do que conforto e ofeguei.
— Tobias — balbuciei. — Está... Doendo... muito.
Ele berrou pelos empregados e correu para o início do corredor, repetindo os chamados urgentes.
A dor atingiu seu ápice e então senti algo escorrer pelas minhas pernas. A cor avermelhada sujou o tailleur cor creme e minhas pernas falharam. Meus olhos arderam e o desespero aumentou, eu não podia perdê-lo.
Spoiler
O cheiro de éter me trouxe á realidade instantaneamente. Meus olhos estavam semicerrados por causa da claridade, mas eu tinha compreendido que estava num quarto hospitalar. Apenas a razão não era muito nítida.
Porque eu gosto de hospitais e odeio a razão de pôr os pés neles. Daquela vez, não era diferente.
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