Para Ter Você (Divergente)
15 Capítulo 14 - Inesperado
Notas iniciais

— Qual a probabilidade de ser uma menina?
— Não faço a mínima ideia — dei de ombros.
Agarrei um punhado de sorvete com a colher e o enfiei na boca. Morango.
Humm, falta alguma coisa.
— Ei, Tris, olha aqui garota! — Shaunna berrou pelo celular, sua imagem se distorcendo um pouco na chamada de vídeo que fazia diretamente de um parque.
Ela estava fazendo algumas fotos para acrescentar em seu book e por isso tinha cancelado uma visita. Claro que eu ficara chateada, mas compreendia porque sua rotina era muito agitada — sobretudo agora que estava tendo uma atenção maior por parte de várias empresas e agências.
— Desculpe.
Sentei com cautela da cama e peguei a taça de sorvete. Minha expressão murchou porque o último pedaço que tinha era pequeno e estava derretendo velozmente. Desejei todos os tipos de caldas possíveis e mais e mais sorvetes de sabores diferentes.
— Tris, eu conheci um cara.
Desviei os olhos da taça e me concentrei em dar atenção á minha amiga, com uma expressão — eu jurava — aborrecida, por eu não estar tão concentrada nela.
— È modelo também?
— Não, mas é tão lindo quanto! Ele é um dos fotógrafos que está comigo e é tão, tão... Sei lá... — suspirou.
Um sorriso abriu-se em meus lábios com a entonação apaixonada e tímida de Shaunna.
— Você sabe que se ele for um cara de caráter, eu aprovo.
Apoiei o celular nas pernas enquanto colocava a taça de volta no criado-mudo. Minha melhor amiga noivando, casando e com uma família montada começaram a se formar na minha cabeça e mordi o lábio, prendendo um sorriso. Era óbvio que quando mais tempo eu passava com ela, mais de sua personalidade eu tinha. Acho que isso era bom.
— Sua felicidade é a minha, Shau. Se for seguro, vá.
— É CLARO que eu VOU! NUNCA que eu o deixaria escapar — riu.
— Eu espero mesmo, hum? Vou pega algo para comer, nos vemos depois.
Shaunna se despediu com um "tchau, grávida" e encerrei a chamada. Alisei o ventre e ergui a camiseta, acariciando e me perguntando a razão dele não ter dado sequer um sinal. Qualquer coisa além das ultrassonografias, das fotos. Eu queria poder senti-lo, reforçar a certeza de que ele estava bem. Automaticamente meu consciente me repreendeu com o alerta do inevitável, que eu teria de entregá-lo. Aquilo me torturava e me deixava pensando por muito tempo em possíveis soluções ou até mesmo sobre o que fazer a respeito, se eu deveria bloqueá-los ou não. Se eu deveria esquecer os recentes acontecimentos ou seguir. Se eu deveria dar uma chance para o que quer que estivesse me atormentando.
Franzi a testa quando a imagem de Tobias próximo a mim, roçando seus lábios nos meus, ocupou meus pensamentos. Seria um erro beijá-lo? Estávamos tão perto... Tão perto! E embora soubesse e memorizasse continuamente, sabia que se tivesse outra oportunidade eu não deixaria escapar. Seguraria seu rosto e iria de encontro aos seus lábios, passaria meus dedos lentamente em seu cabelo ralo por causa do recente corte e suspiraria quando ele pedisse outro beijo.
Arregalei meus olhos e tapei minha boca aberta, descontente com o rumo que meus devaneios estavam levando. Semanas atrás eu sequer cogitaria a hipótese de estar tão próxima a ele, como se fôssemos bons amigos. Tão próxima a ele, como acontecera duas semanas atrás. Minha cabeça dava voltas e voltas e por isso só lembrei do sorvete que queria quando fitei a taça.
Joguei as pernas para fora da cama e levantei devagarinho, algo que eu fazia com constância quando nem Zoe nem as outras moças, estavam por perto para me auxiliar, embora eu pudesse me virar sozinha na maioria das vezes. Segui com lentidão até a cozinha e encontrei Oliver sentado numa das banquetas do balcão, digitando ávido no teclado do celular.
— Conversando com a namoradinha?
Ele se sobressaltou com a minha voz. Caminhei até a geladeira, peguei o pote de sorvete e o pus sobre o mármore da pia.
— Você não deveria estar lá em cima?
Dei de ombros.
— Meu sorvete acabou.
Abri a gaveta e apanhei uma colher, abrindo o pote de sorvete de morango. Oliver se levantou e pegou uma taça para si, estendendo-a para que eu colocasse a sobremesa para ele também.
— O Tobias vai ficar pirado quando souber que trocou mato por isso — ele lambeu a colher ao terminar a primeira colherada.
— Você é meu cúmplice, então cala a boca.
Sentei na sua frente e me pus a comer da minha taça também.
— Aliás, essa é a segunda vez que eu como sorvete faz sei lá quanto tempo. Eu estava com vontade e esse aí é natural.
— Pega a calda.
Ele riu e foi até a geladeira. Ficou alguns segundos parado observando seu interior até virar-se e dar de ombros.
— Não tem nada aqui não, cunhadinha.
Foi como um soco no estômago. Minha expressão fechou e com desânimo empurrei a taça para o lado.
— Ué. O que foi? — Oliver indagou confuso.
— Nada. Só perdi a fome mesmo.
Ele deu de ombros e voltou a comer seu sorvete, então resolvi subir para tomar um banho. Eu vinha tenho desejos com muita frequência agora que entrara no quinto mês de gestação. Podia sentir o peso, uma leve dor nas costas e um incômodo latente dos seios que estavam maiores. Shaunna trouxera duas malas com roupas do meu antigo armário que possivelmente serviriam em mim, mas poucas ainda cabiam então tínhamos marcado um dia próximo para correr no shopping. Se no início sofria de anemia, naquele estágio a fome parecia ser minha única razão para acordar, por isso os cuidados eram redobrados uma vez que meu colesterol poderia aumentar e prejudicar tanto a minha saúde quanto a do bebê. Inegável seria dizer que eu não estava um pouco emotiva com certas-poucas coisas. Era fácil discerni-las, no entanto.
Coloquei os pés na sala de jantar novamente quando a mesa já estava posta e eu de banho tomado, os cabelos molhados pesando no rabo de cavalo. Oliver tinha inventado uma desculpa para comer na sala de jogos e Tobias avisara que chegaria mais tarde, e eu sabia a razão, obviamente. O Eaton estava me evitando desde o quase beijo, exceto o jantar, ele não fazia nenhuma outra refeição em casa e quase nunca esbarrava comigo nos finais de semana. Ele voltava tarde demais para evitar me ver e embora Oliver não tivesse dito com essas palavras, Tobias estava fugindo. E, repito, me evitando. Claro que estava chateada, mas não era como se eu fosse fazer algo para mudar aquilo, apenas se tivesse oportunidade e coragem — coisas que não tinha.
Para não ficar sozinha, peguei meu prato de comida e me sentei na banqueta da cozinha, observando Zoe enquanto ela fazia a lista de compras com outras empregadas. Aérea, terminei o jantar e resolvi caminhar nos corredores da casa, observando os detalhes minuciosos e tentando associá-los ao dono. Havia poucos quadros distribuídos entre a sala e uma parede. Porta retratos de Tobias com o que supus serem amigos, estavam dispostos numa mesinha na esquina de um corredor que não parara — ou tivera tempo — para observar com cautela. A porta que jazia ao lado da mesa aguçou-me então toquei a maçaneta, crente de que ela deveria estar aberta. Mero engano. Ela estava fechada e nem um grampo de um século de idade conseguiria abri-la. Òtimo. Além de ser uma grávida sem sorvete, ainda por cima era uma barriguda com fumacinha de curiosidade pairando sobre a cabeleira loira e desbotada.
Girei a maçaneta mais uma vez e não obtive sucesso.
— O que está fazendo, senhorita Beatrice?
Pulei de susto e levei a mão ao peito. Virei para Zoe e respondi:
— Só queria saber o que é aqui — acenei na direção da porta.
— È a sala de música do senhor Tobias.
— Hummm — mordi o interior da bochecha. — Eu posso entrar?
— Imagino que esteja fechada — ela ergueu uma sobrancelha insinuativa.
— Está.
— Então terá de pedir as chaves a ele.
Ela tirou o molho de chaves de dentro do cardigã azul e o estendeu.
— Apenas o Tobias tem a chave, quer testar?
— Não, não. Eu acredito em você.
Zoe deu de ombros.
— Está certo. Ele com certeza não vai se importar de te mostrar a sala, mas ele vai chegar muito tarde e não vai fazer bem á você ficar acordada. Converse com ele amanhã de manhã...
— Ele não está mais tomando café aqui, lembra? — engoli o nó que se formou em minha garganta.
— Você vai arranjar algum meio, agora vá para cama.
A contra gosto segui suas ordens, mas isso não me impediu de olhar fixamente para a porta antes de seguir caminho.
(...)
Quando o som forte do coração dele se manifestou e invadiu a sala, respirei fundo, afastei qualquer sentimento e engoli a vontade de chorar. Tobias estava inquieto, as mãos nos bolsos da calça social, olhando fixamente para o monitor onde o borrão que era o bebê podia ser visto.
Ele não era meu.
— Vou deixá-los á sós.
O doutor David tirou as luvas e colocou-as num suporte e acenou ao sair e fechar a porta. O palpitar fora de ritmo continuou sendo o único som ouvido, misturando-se á minha respiração pesada. Aquele silêncio perturbador era consequência do mesmo que tivera nos acompanhado até o consultório do meu novo obstetra. Tobias não me encarou uma única vez e me tocou apenas na hora de sair do carro.
Eu tinha certeza que ele sentia alguma coisa. Na mesma ou mais proporção do que eu. Quando tínhamos ido ao consultório fazer o primeiro ultrassom, instintivamente um bolo se formou em minha garganta. Por vezes eu me pegava com a mão na barriga sem ao menos perceber. Deveria ser coisa de mãe. Coisa, que a propósito, eu deveria evitar fazer ou sentir. Meu único dever era carregá-lo por nove meses, ganhar peso para controlar minha iminente anemia e entregá-lo depois. Agora faltavam apenas 4 e Tobias não se importava mais, como se depois da turbulência tivesse sido melhor voltar ao que éramos antes.
Não que tivesse mudado muita coisa, engoli em seco.
— Você quer saber o sexo? — inquiriu ele.
— Você quer?
Ele bufou e inspirou fundo.
— Tanto faz.
Confesso que aquilo me machucou. Mordi o lábio e prendi meu olhar onde podia ver que o bebê estava bem. O doutor entrou e pediu para que eu trocasse a roupa médica pelas minhas e depois o encontrasse em seu consultório. Quando entrei, Tobias já estava sentado á mesa e conversava com David, um senhor de cabelos brancos que insistia que o chamássemos pelo primeiro nome.
— Perdoe-me a indiscrição, Tobias, mas não sabia que tinha se casado — ele disse, concentrado nuns papeis.
— Mas eu não me casei.
Sentei-me na cadeira ao lado.
— Hummm — David me fitou discretamente sobre o óculos. — Então, senhorita...?
— Prior — respondi. — Beatrice Prior.
Um vinco formou-se entre as sobrancelhas do médico. Ele sorriu me entregando uma folha com uma lista de recomendações.
— Que coincidência! — exclamou. — Meu auxiliar também se chama Prior. Ele está de licença por conta de alguns problemas pessoais com a esposa, mas estará de volta em breve.
Não dei importância e segui lendo o que deveria fazer para manter a gravidez segura. Já tinha me restringido de fazer várias coisas e estava sendo um martírio.
— A anemia está melhorando e o bebê segue perfeitamente bem. Têm certeza que não querem saber o sexo?
Soltei a folha no colo e encarei Tobias.
— Vamos deixar para a próxima consulta.
— Como quiser. Faça com que sua amiga siga tudo o que está aí, certo? Não sou um dos melhores na minha área por acaso, Eaton, então faça valer o que eu digo.
Levantei e cumprimentei David. No caminho para casa, recostei minha cabeça na janela e fechei os olhos, ignorando ao máximo minha outra companhia. Uma freada brusca me jogou levemente para frente, que fui segurada pelo cinto de segurança.
— Você está bem? Tris? Você está bem?
Não percebi que estava com as mãos sobre a barriga até perceber que ele as tocou, os olhos arregalados.
— O que... — ainda estava confusa -, aconteceu?
— Precisamos voltar para o consultório — Tobias não me deu ouvidos e começou a discar algo no telefone. — Você não pode correr nenhum risco e...
— Tobias, não aconteceu nada comigo ou com o bebê. Estou com o cinto.
Apertei seu ombro e ele se virou novamente, suspirando. Do vidro, encontrei um carro já todo destruído. Um amontoado de gente já cercava o local. Tobias me deu um último olhar preocupado e saiu de encontro ao policial que estava perto. Mais tarde, fiquei sabendo o que houvera acontecido. O motorista do outro veículo estava embriagado e já tinha causado um outro acidente e fugia da polícia quando passou em alta velocidade na frente do nosso carro. Por muito pouco, corremos o risco de perder a vida.
Abri um pouco do vidro e ouvi Tobias dizendo ao policial:
— Não posso prestar depoimento agora, senhor. Minha namorada está grávida e não vai poder esperar a burocracia.
Namorada?
— Ela estava de cinto e diz estar bem, qualquer coisa, temos um médico a disposição. Muito obrigado de qualquer forma.
Minutos depois Tobias tomou o controle do carro.
Franzi a testa com o calor que estava embora o ar-condicionado estivesse ligado.
— Quer sentar aqui? Bate mais ar — disse Tobias, olhando-me através do espelho.
Concordei com a cabeça e soltei o cinto, sai do carro e sentei ao seu lado. Prendi o cinto sob seu olhar atento e ele nos levou para casa. Em minha cabeça inda rondava algumas indagações, que escondi no fundo do coração. Não desejava remoer mais nada. O portão de ferro se abriu e Tobias estacionou na garagem. Fui tirar o cinto, mas ele não saia. Puxei-o novamente, sem sucesso.
— Meu cinto... — murmurei.
Então Tobias se inclinou e desconectou o gancho. Ao erguer a cabeça, esta se esbarrou na minha. Eu estava tão concentrada em ver onde estava o problema que não percebi que poderia atrapalhar. Tobias não se afastou e o espaço ficou menor.
Oportunidade.
Ignorando os alertas de perigo, toquei a lateral do rosto de Tobias, fechei os olhos e o beijei. Surpreso, a primeira reação dele foi ficar parado. Preparei-me para me afastar quando ele segurou meu pulso e entrelaçou sua mão na minha, juntando nossos lábios urgentemente. Não ouvi quando ele destravou seu cinto, porém estávamos mais perto quanto possível. Inclinei minha cabeça, ouvindo nossas respirações descompassadas, sentindo o acúmulo de sentimentos se esvaírem e darem lugar a algo novo, ainda melhor. Levei minha outra mão á sua nuca e não neguei que ele começasse outro beijo quando o outro terminou. Arfei. Tobias então colocou sua mão sobre a minha barriga e encostou nossas testas, ofegando. Ele contornou minha boca gravando cada detalhe do meu rosto enquanto fazia uma inspeção minuciosa. Fixei minha atenção em seus olhos e beijei-o uma última vez, ao passo que ele acariciava o meu abdome.
Inesperadamente, senti algo ainda mais diferente. Tobias também percebeu já que me encarava preocupado. Fitei minha barriga e o senti de novo. E de novo e de novo.
Levei a mão á boca, surpresa demais para controlar uma lágrima.
O bebê, o bebê tinha se mexido.
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