Para Ter Você (Divergente)
13 Capítulo 12: Melhores amigas
Notas iniciais
De acordo com os exames, eu tinha tudo para ter uma gravidez segura. Na verdade, quase. Minha genética não tinha colaborado muito e eu teria de enfrentar uma pré-eclâmpsia. Ficara dois dias internada, passando por várias avaliações, recebendo recomendações e me alimentando de gelatina e sopa.
Eu teria de me esforçar mais dali pra frente se quisesse trazer o bebê para o mundo. A propósito, ele ainda não tinha dado sinais se era uma menininha ou um menino. Mas aquilo não era a real preocupação, embora não menos importante que mantê-lo vivo.
— Oliver já está em casa — Tobias olhou para mim através do espelho retrovisor.
Emiti um grunhindo afirmativo, encostando a minha cabeça na janela de vidro escuro. Sentia-me cansada; os dias em que estivera á base de calmantes e chás me fizeram dormir como nunca antes e até agora sentia o efeito tranquilizador. Mas não era como se eu estivesse caindo de sono.
— Chegamos.
Tobias saltou do banco da frente e foi até o porta malas. Ah!, não. Cadeira de rodas não, lamentei. Ele abriu a porta ao meu lado e estendeu o braço. Apoiei minha mão em seu ombro e ele me circundou a minha cintura, me tirando do carro e me colocando sentada na cadeira.
— Eu sei que você não gosta — disse, empurrando. — Mas é melhor do que entrar de muletas.
— Pelo menos, as muletas não me deixam tão impotente — resmunguei.
— Relaxa, Daff. Não é todo dia que o magnífico Tobias Eaton tem que empurrar você.
— Como você está engraçadinho hoje — lembrei de Oliver. — Espero que seu irmão seja como você.
— Vai ficar esperando — respondeu, rindo.
Tobias abriu a grande porta da frente e me empurrou. Ele me guiou até a sala. A tevê ligada, o ambiente escuro e uma sombra no sofá.
— Oliver.
Tobias acendeu a luz.
— Hum — um grunhindo.
— Temos visita.
— E?
— Para de ser idiota e levanta.
Ouvi um bufo. Um garoto ergueu-se e sentou, olhando para nós com os seus olhos pretos; os cabelos da mesma cor. Uma expressão cética no rosto.
— Olá — cumprimentei.
— Iaê — respondeu e voltou a se deitar no sofá.
— Você já está grande demais para brincar de malcriação, Oliver. Eu preciso conversar com Amah um instante, já volto. Não assuste a Beatrice.
Tobias lançou um olhar significativo na direção do irmão e arqueou a sobrancelha, como se dissesse: "Você vai ficar bem?" Balancei a cabeça e ele saiu do ambiente. Empurrei um pouco mais a cadeira e parei ao lado do braço do sofá cor creme, fitando curiosamente o caçula dos Eaton. Pigarreei antes de quebrar o silêncio que nos cercava.
— Tobias me falou muito sobre você.
Oliver apanhou o controle e desligou a televisão e sentou-se olhando para mim.
— Então foi por causa dele que Tobias terminou com a Cara?
Franzi o cenho em confusão com a abrupta mudança de assunto. Semicerrei os olhos, tentando compreender aonde ele queria chegar. Quem era "dele" e como assim, Tobias terminara com Cara?
— Espera, do que você está falando... Exatamente?
Ele me encarou como se estivesse frente á frente com uma louca.
— Poderia estar enganado, mas essa blusa está marcando muito a sua barriga. Está grávida do meu irmão, né?
Um sorriso sacana abriu espaço em seu rosto quando assenti. Fechei o casaco grosso que usava e dobrei os braços, atrapalhando sua inspeção.
— Mas não é o que você está pensando, Oli...
— EU SABIA! Tobias não é o santinho que todos pensam. È bom saber que não sou a única ovelha negra da família — ele se vangloriou.
Suspirei.
— Não pense isso do seu irmão, Oliver. A situação é muito mais complicada do que imagina...
— Ah claro, posso imaginar — sorriu malicioso. — Vou comer alguma coisa, quer me fazer companhia, Beatrice?
O som estridente da campainha ecoou no hall de entrada e atravessou a porta da sala de estar. Ele se repetiu por quase dez vezes, como se um desesperado implorasse para entrar. Vi uma empregada correr pelo corredor e seguir até o interfone primeiro, antes de abrir a porta e autorizar a entrada. Oliver deu de ombros e ergueu-se pronto indo para trás da cadeira.
— Eu acho que já posso ficar de pé... — tentei contornar a situação.
— Meu irmão não vai gostar — alertou.
— Eu já estou bem.
— Se está sentada numa cadeira de rodas, com certeza está — ironizou. — Aliás, com que aconteceu para você estar assim?
Uma voz conhecida me fez congelar.
— É Beatrice. O que aconteceu para você não atender as minhas ligações?
Arregalei os olhos, não crente de quem era. Droga. Primeiro virei minha cabeça, em seguida, a cadeira. Era Shaunna em carne e osso e pura indignação.
(...)
Certa vez, enquanto navegava na internet, encontrei um artigo que dizia sobre os tipos de mentiras. A primeira delas é a mentira branca; mais utilizada e com o fim de não agredir verbalmente as pessoas. A segunda, mentira benéfica; Já deve ter assistindo a algum filme em que o doutor conta uma pequena mentirinha ao paciente para que ele não se preocupe. A terceira, mentira enganosa com suas duas variáveis: ocultação e falsificação; Na ocultação o indivíduo não diz, teoricamente, uma mentira — mesmo que seja uma. A segunda, são falsas informações dadas intencionalmente como verdadeiras. O último tipo de mentira era a maliciosa, no caso, as famosas e adoradas dos tabloides, fofocas.
O fato era: Eu, Beatrice Prior estava errada, e não era relevante saber a qual estágio mentiroso minha omissão se encontrava.
— Eu posso explicar.
Falei num fio de voz.
Shaunna sentou no sofá. Suspirei. Queria que a culpa fosse embora de vez porque não a suportava mais. Não queria magoar a minha melhor amiga e no entanto, o tinha feito.
— Sabe de uma coisa? — ela bagunçou os cabelos. — Fiquei realmente preocupada com você. Não imagina a minha surpresa: chegar de viagem, encontrar o apartamento vazio por dois dias e sem ter notícia alguma sua? Liguei para o Eric e ele me explicou que estava no hospital, só não disse o porquê. Agora me diga, hum? Vai, fala.
Mordi o lábio, consciente de que não havia escapatório e me pus a falar:
— Lembra quando Will me ligou avisando que a tia Nick tivera um quadro de piora? — não a esperei responder. — Então, dias antes recebi uma proposta do Tobias. Ele queria que eu fosse sua barriga de aluguel e em troca, eu receberia uma boa comissão. Não aceitei á princípio, mas não era como se eu pudesse recusar depois das notícias. Como eu pagaria as despesas do hospital? E tem a Christina que deve estar enfiada num beco agora por culpa do irresponsável do Caleb. Precisei fazer alguma coisa, Shau.
— Mas não precisa mentir pra mim!
Ela sentou no sofá, atordoada. Cruzou as pernas torneadas e escondeu a cabeça nas mãos.
— Grávida, Beatrice! G-R-Á-V-I-D-A. Você entende o peso dessa palavra? O que vai acontecer depois? Imagino que o idiota do presidente nem tenha dado a opção de usar um óvulo de outra mulher.
Fiquei em silêncio.
— O bebê é SEU! — urrou. — Como vai fazer, isso, hein? E quando precisar ir embora?!
— Eu não sei, Shaunna. Eu não sei, tá bom? A única coisa que importa agora é como eu vou seguir com essa gravidez.
Fitei-a com curiosidade. Minha amiga encarou uma parede de tom pastel. Eu a entendia. È uma droga olhar para quem o magoou. Ela fungou e jurei em pensamento que seus olhos deveriam estar brilhando com as lágrimas contidas. Senti-me uma víbora, um ser humano desprezível por não ter depositado a minha confiança nela depois de tantos anos de amizade juntas, de tanto tempo aturando uma á outra. De tanto tempo compartilhando segredos.
O silêncio estava me torturando.
— Eric disse que seu estado era grave porque era a segunda vez.
— Minha gravidez é de risco. Eu caí duas vezes, ainda sofro de anemia e... Não sei mais do quê.
Shaunna finalmente olhou para mim. As lágrimas despencando dos olhos escuros. Ela levantou, sentou no sofá ao lado da minha cadeira, agarrando meu pescoço num abraço.
— Ai, Tris. — sua voz soou embargada. — Eu sinto tanto... E se acontecer alguma coisa — ela chorava.
— Não vai — a confortei. — Está tudo bem.
— Não, não está! Você está G-R-Á-V-I-D-A — repitiu -, quantas vezes terei de repetir? Minha melhor amiga está carregando um mini ou uma mini Beatrice que muito provavelmente não terá uma...
Claro que eu tinha medo do final daquilo. Claro que eu tinha medo de não chegar até o fim, de que tudo fosse em vão. Porém, jamais diria aquilo em voz alta. Desvencilhei-me do seu abraço e segurei firme suas mãos.
— Olha para mim, Shaunna. Você não tem culpa de nada. Eu quem peço perdão por não ter confiado, por não ter dito antes. Só não queria te magoar, sabia que ficaria assim, mas quis adiar o inevitável. Está tudo bem, não cem porcento, mas irá ficar. Apenas me diga se pode me perdoar.
Ela inspirou profundamente, dando leves batidinhas no rosto para tirar o rastro das lágrimas e não borrar a maquiagem. Ela pigarreou antes de prosseguir, animada:
— E então, está de quantas semanas? Já sabe o sexo? Já comprou o enxoval, as roupinhas? E o quarto, como é que vai ser?
Um sorriso abriu vez em meu rosto. Shaunna, minha melhor amiga, estava de volta.
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