Eu sei o quanto é difícil acreditar, mas tudo o que eu digo, tudo o que eu sinto, é verdadeiro. Eu só preciso de uma oportunidade. Só uma oportunidade...

Soluço profundamente, lutando para segurar uma verdadeira inundação de dor, enquanto as lembranças do passado invadem minha mente como se fossem granizos, passando rapidamente uma depois da outra, numa tempestade tão rápida e tão violenta que nem me sobra tempo para me refugiar. Aperto um lábio contra o outro, olhando as fotografias do meu álbum de noivado, perguntando-me pela milésima vez o que fiz de errado.

Levanto-me da cama e caminho lentamente até o criado-mudo, onde há um pequeno vaso de vidro com uma única rosa dentro, metade dela submersa. Pego a rosa e cheiro-a, lembrando-me das incontáveis vezes em que Adrian me presenteou com uma igual. De imediato, começo a chorar, lágrimas escorrendo livres e desimpedidas. Mais um soluço, uma ultima olhada no álbum de fotografias e então tudo recomeça. As palavras ditas por Adrian invadem minha mente como uma maldição inquebrável:

Estou aqui. Sou todo seu. Meu corpo e minha alma lhe pertencem. E assim será até meu ultimo suspiro...

— Mentiroso! – Esbravejo, socando com força o espelho de corpo inteiro, fazendo uma rachadura enorme se espalhar pela vidraça. Olho para o punho da mão direita banhado em sangue, não me importando nem um pouco com a dor, pois neste momento nada me dói mais do que a dor de ter sido traída pela pessoa que eu mais amava.

Amava?, questiono-me. Meu coração ainda pulsa fervorosamente ao lembrar-me dele, como na primeira vez em que o conheci. Acredito que meus sentimentos por ele não mudaram, mesmo depois de comprovar com os próprios olhos que Adrian não é fiel como ele próprio julgava ser. Deveria odiá-lo, arrancá-lo do meu coração, dos meus pensamentos, mandá-lo para o inferno, mas alguma coisa me impede. Meu inabalável amor por ele. A maldita ilusão de que aquele beijo não significou nada, de que a qualquer momento ele voltará pedindo perdão, dizendo de joelhos que sou a única que ele ama, como inúmeras vezes já fez.

Eu te amo, linda. Te amo tanto que, mesmo que eu lhe falasse isso todos os dias, não seria capaz de decifrar o tamanho do amor que sinto por você.

— Como pôde me enganar assim? – digo entre dentes, com uma foto de Adrian em mãos. – Por que você me traiu, Adrian? Por quê?

***

Batidas na porta. Só pode ser um sonho. Meus olhos estão fechados, me vejo envolta em um breu profundo, e não consigo sentir meu corpo. Mas o barulho continua.

Batidas.

Uma voz.

Um assobio familiar.

De repente, meus olhos se abrem. Tudo ao meu redor está coberto de penumbra. Mas não pode ser. Não faz muito tempo que me deitei para descansar. Ou faz?

Estou literalmente pedida. Não me reconheço mais. Não sei mais quem sou, nem o que vai ser de mim.

— Larissa? Você está aí?

Não pode ser! Essa voz...

Me levanto tão depressa da cama que quase desabo ao chão. Sinto uma onda de felicidade me inundar. A menos que tenha sido um truque de mau gosto da minha imaginação, posso jurar que a voz que escutei pertence à Adrian. Abro depressa a porta que está trancada à chave e me deparo com ele do outro lado. Justo com ele. Fico paralisada. A reação mais óbvia seria perguntar o que ele faz aqui, mas quando o vejo na minha frente, meus olhos se enchem subitamente de água e, quando me dou conta, o estou abraçando com toda força, deixando o choro rolar solto.

— Meu amor! Eu sabia que você iria voltar para mim! – Digo, beijando cada canto do seu rosto, afundando-me nele. – Eu te amo! Eu te amo! Eu te amo!

— Mas eu não te amo, Larissa.

Arregalo os olhos e me afasto no mesmo instante, encarando-o estupefata.

— O que foi que você disse?

— O que foi? Não me escutou? Eu não amo você, sua tolinha. Nem mesmo gosto de você. Nunca gostei. Continuo te odiando, como antes.

Por um momento penso que vou desmaiar. Tento falar algo, mas meus lábios não param de tremer. Tudo isso me deixa nauseada.

— Como assim você me odeia? Do que está falando?

— Larissa, Larissa... – começa ele, abrindo um sorriso escabroso, encarando-me como se sentisse nojo de mim. – Você não mudou nada. Continua sendo aquela garota insuportável, ingênua e tolinha com quem tive o desprazer de me envolver. Chegou a hora de tirar as máscaras. Eu nunca estive interessado em você, sua patricinha estupida. Só fiquei com você para esquecer a Hannah.

— Mentira! – Grito o mais alto que posso. – Você está mentindo! Vamos, diga! Diga que está mentindo! Diga!

— Tem razão! Tudo foi uma tremenda mentira! Nossa história não passou de uma ilusão. Um jogo. Mas agora eu me cansei. Não quero mais saber de você. Te desprezo. Você me dá asco!

Dou-lhe um tapa no rosto com tanta força que o faço perder o equilíbrio e cair no chão, e ele não faz qualquer tentativa de se proteger. Me ajoelho sobre ele e dou-lhe mais tapas no rosto até ele ficar com as bochechas vermelhas.

— Você só me usou, seu maldito? Você disse que me amava! Me fez acreditar nos seus sentimentos, e agora me trata feito lixo?

Seu semblante muda de súbito e algo sombrio relampeja em seus olhos. Ele segura meus braços com força e me joga para trás. Ouço um forte baque quando a parte de trás da minha cabeça bate contra a cama.

— Maldito!

Adrian começa a gargalhar.

— Não quero voltar a ver a sua cara nunca mais! Anda, some daqui! Vai embora! Vai!

— Ir embora? Mas eu nem mesmo estou aqui.

— O que?

Ele se aproxima.

— Isso é só um delírio da sua cabeça! – Estala os dedos. – Acorde!

Num piscar de olhos, tudo à minha volta se transforma num borrão. O frio me calcina os ossos, depois queima ainda mais fundo. Tenho a impressão de me mover, de voar, e depois de desabar.

Abro os olhos. No mesmo instante, sinto uma dor aguda na parte de trás da cabeça. Só agora percebo que estou no chão, e não na minha cama, estirada como um boneco velho que foi largado aqui, sem dó. Levanto-me com dificuldade, minha cabeça latejando a cada movimento.

— Eu não acredito. Sonhei que ele estava aqui. Meu Deus, acho que agora sim estou ficando louca de verdade. – Cubro o rosto com as mãos, sentindo uma vontade imensa de me atirar de um abismo. – Não, não, não. Isso não pode continuar assim.

Viro-me na direção da porta, considerando a ideia de sair um pouco do quarto para tomar um pouco de ar. Dou um passo à frente, mas recuo no mesmo instante.

— É mais fácil falar do que fazer. – Sento-me na cama e respiro fundo, tentando reorganizar meus pensamentos. – Cada dia sem ele é como se eu morresse aos poucos. Sozinha acho que não vou conseguir suportar. Mas eu tenho que tentar. Eu preciso me reerguer. E acho que sei como.

***

— Amiga, fale para mim que você não está falando sério.

Roberta me encara com os olhos arregalados e a testa franzida enquanto segura uma vasilha de pipoca com uma mão e dois DVDs de comédia romântica (“Beijei Uma Garota” e “Dormindo Com As Outras”) com a outra.

— É aqui que você acha que vai encontrar apoio para essa sua “deprê”?

— Bem, eu preciso começar por algum lugar, certo? Foi o que você me disse.

— É, mas eu não me lembro de ter mencionado... isso. “Dormindo Com As Outras”? Tem como isso piorar?

— Por favor, amiga. Assiste comigo. Estou muito precisada.

Roberta larga os DVDs sobre o raque e senta-se ao meu lado no sofá.

— Olha só. Sei que eu não sou a pessoa mais indicada para te dar conselhos, mas... Por que em vez de você ficar aí sofrendo, calada, você não desabafa comigo?

Viro-me para o outro lado, sem coragem para encará-la nos olhos.

— Eu não quero tocar nesse assunto. Nem agora, nem nunca.

— Ok, e você acha que isso vai te ajudar? Pelo o amor de Deus, criatura...

— Por favor, não discuta comigo. O que eu menos quero no momento é brigar com você.

— Escuta, eu...

— Por favor, Roberta. Assiste comigo. Estou te pedindo...

Faço beicinho para ela, do mesmo modo como costumo fazer com Viviane quando quero lhe pedir um favor. Sinceramente, não creio que isso vá funcionar com Roberta, mas no momento seguinte a vejo relaxar os ombros e soltar um suspiro, o que me leva a sorrir e a bater palmas como uma criança.

— Tudo bem. Eu assisto à essa “coisa” com você. Mas apenas se você me garantir que não me chamou só porque a Viviane, ou outra de suas BFFs, estava ocupada.

— Não, eu juro. Você foi a minha primeira opção.

— Menos mal – diz ela, pegando o controle remoto e sentando-se no sofá.

— Com exceção da Viviane, todas as outras meninas têm namorado, e o que eu preciso no momento é de alguém que seja solteirona e solitária, como você.

Roberta se levanta de sobressalto.

— Como é que é? Ah, eu não vim aqui para ser ofendida. – Começa a ir em direção à saída. – Fui! Se vira aí!

Me sinto tentada a dar um tapa na minha boca como castigo por não conseguir controlar essa minha língua de trapo, mas o pouco tempo que tenho para impedir que Roberta me deixe aqui sozinha não me permite. Vou atrás dela.

— Roberta, espere! Não me deixe, por favor! Me escute!

Roberta para, mas permanece de costas para mim.

— É que as outras meninas não iriam entender o que eu estou passando. Elas só iriam ficar falando dos seus namorados e de como são superfelizes e companheiros. E, no momento, estou meio que alérgica a casais felizes. Só ia me deprimir mais.

Roberta solta um suspiro profundo e, por fim, se vira para mim.

— Quer saber de uma coisa? Nós vamos pôr um fim nisso agora mesmo. De uma vez por todas.

— O que você vai fazer?

— Não, amore, o que você vai fazer. Você vai já tomar uma ducha, arrumar esse cabelo e dar uma corzinha a esse seu rosto. E o mais importante: vai esquecer o Adrian. Manda esse cretino pastar e segue com a sua vida.

— Acho que isso eu não vou poder fazer. Porque, mesmo depois de tudo o que ele me fez... eu ainda o amo.

Roberta solta um suspiro de impaciência.

— Quer saber? Já deu. Chega!

Ela se vira, pega a bolsa e vai até a porta.

— Onde você vai?

— Se você não vai fazer nada para resolver essa situação, eu vou fazer.