Para Sempre Faberry
11 A sua.
Notas iniciais
Os primeiros raios de sol misturavam-se a luz do luar, tornando o céu sem nuvens, laranja amarelado. Uma jovem loira mantinha seus olhos presos no horizonte observando o amanhecer, suas pupilas estavam dilatadas e os cabelos mais bagunçados que o normal. Pessoas que a vissem no passageiro do conversível prata, diria que ela tinha sido resgatada de um campo de batalha. Ou talvez, a opção mais clara, e ela tivesse passado a noite ingerindo substancias suspeitas. De certa forma, havia dois sentimentos opostos em conflito no peito de Quinn: Amor e ódio.
Mercedes sabia muito bem disso, e por conhecer sua amiga bem o suficiente, optou pelo silêncio. Deixou que a loira martelasse suas ideias sozinha como deveria ser, enquanto a levava de volta para casa, pois Quinn estava sem condições de dirigir. Rachel relutou contra a proposta de Mercedes de levar a loira para casa, a pequena queria estar perto de sua ex-esposa...Ou seria namorada? Peguete? What the hell, ela estava oficialmente desistindo de tentar entender o que se passava com seus amigos. Mas ela sabia que seria melhor as duas se encontrarem no outro dia, depois que as duas esfriassem a cabeça e tudo estivesse, em parte, nos eu devido lugar.
Quinn continuava imóvel no banco, podia sentir o efeito do álcool transitando por seu corpo e suas mãos suando sem parar. Se ela se esforçasse um pouco, poderia sentir o cheiro de Rachel impregnado em suas vestes, e se fechasse os olhos, reviveria os beijos trocados a pouco. Esse era o sentimento definido como amor, o que a faria sorrir se a cena seguinte ao beijo não tivesse sido desastrosa, criando assim, toda aquela ira dentro de si.
O carro parou e foi a deixa para Quinn abrir a porta e a bater com força, mesmo que sem querer, antes de cambalear na entrada de casa.
- Não faça nenhuma besteira, Fabray. — ela ouviu Mercedes dizer calma, mais como um pedido mascarado.
Ela olhou para a amiga e balançou a cabeça atrapalhada, difícil de entender se tinha sido um sinal positivo ou negativo. Mercedes esperou até que a jovem abrisse a porta, depois de insistir em usar a chave do carro, para acelerar seu conversível e desaparecer na primeira esquina. O sol já tinha tomado conta do céu azul, a luz invadia as janelas da sala iluminando boa parte da casa. Quinn ficou parada alguns segundos analisando o lugar em que estava, era preciso se apoiar na poltrona para ter o controle de seu corpo. O primeiro sentimento que lhe veio a mente foi nojo, e depois, raiva. Ela derrubou o abajur que estilhaçou no chão, fazendo um som estridente. Passou a mão pelas teclas do piano e finalmente chegou a uma mesa de canto, onde haviam fotos de família. Ela pegou o porta retrato onde estava com seu pai e o lançou contra a parede oposta usando toda a sua força, com o barulho, luzes foram acesas nos corredores e uma voz grossa ecoou de lá:
- Quem está ai? — segundos depois, um Russell Fabray apareceu em seu roupão azul e uma espingarda em mãos. — Lucy? — surpreendeu-se ao dar de frente com a filha mais nova parada no centro da sala com uma expressão de poucos amigos. — Qual o seu problema?
Judy apareceu logo em seguida com as mãos no coração e Frannie desceu correndo as escadas parando ao lado da irmã.
- Quinn? — chamou preocupada como se falasse com uma louca. — Você está bêbada?
Russell abaixou a arma e uma carranca se formou em seu rosto. Judy agarrou seu braço impedindo-o de fazer uma besteira com a filha.
- Eu estou esperando uma explicação para essa atitude, Lucy! — exclamou autoritário.
Quinn não pareceu abalada com o tom de voz do pai, pelo contrário, ela apenas conseguia sentir mais raiva e nojo daquele homem a sua frente.
- Pouco antes de ir embora do casamento, — começou sentindo a voz rouca. — entrei na cozinha para buscar água, e coincidentemente, esbarrei em uma das empregadas que deixou uma sacola cair. Eu me desculpei e quando levantei os olhos para encará-la, vejo Helena.
As palavras foram lançadas como num deboche. Frannie deu dois passos para trás olhando diretamente nos olhos da irmã com compreensão no olhar. Judy ficou estática em seu lugar e Russell pareceu ter levado um soco na face.
Flashback:
Os convidados se retiravam um a um pela porta dos fundos do salão, depois do ataque de paparazzis na rua principal da festa. Santana tinha uma expressão livida no rosto enquanto despedia-se de seus convidados envergonhada, e Brittany parecia tão animada pelos acontecimentos daquela noite, que as pessoas realmente tinham se divertido com toda a situação.
Rachel e Quinn estavam sentadas num canto afastado das pessoas, elas precisavam de privacidade naquele momento, tudo parecia como uma bomba relógio. A pequena diva chorava muito nos braços da ex mulher, pedia perdão por tanta dor causada ao longo do tempo, não só depois do acidente, Quinn decidiu buscar um pouco de água para acalmá-la um pouco. Levantou-se rapidamente e atravessou a porta com um pouco de desespero, estava eufórica. Ela procurou com os olhos por qualquer sinal de garrafinhas de água que eram servidas na festa, mas não encontrou nada, caminhou por entre os cozinheiros preparando-se para pedir informação, quando sentiu um encontrão e o choque de suas costas contra a parede.
- Perdão senhorita. Perdão! — pediu a moça levantando-se e recolhendo uma sacola que tinha caído no chão com o impacto.
- Olhe por onde anda, por favor. — disse nervosa massageando o ombro.
Quando levantou os olhos para a moça, sentiu uma imensa surpresa ao constatar que era Helena, sua babá até os 15 anos, e uma das melhores amigas que já teve. Ficou feliz por conseguir lembrar-se de Helena, então um sorriso iluminou-se em seus lábios.
- Oh, Deus! Helena? — perguntou puxando o braço da moça que fazia de tudo para não olhá-la nos olhos. — Você está bem? O que houve? Por que está trabalhando aqui?
A mulher morena pareceu finalmente ceder as perguntas de Quinn, para olhá-la nos olhos com o medo estampado. A loira percebeu que havia algo errado antes mesmo de Helena abrir a boca.
- Olhe Quinn, eu sei que você já é uma mulher e pode entender a situação. — explicou com os olhos marejados. Quinn não entendeu. -
Espero que porra me perdoar pelo que aconteceu, era uma época muito difícil e seu pai estava lá por mim. Eu nunca vou parar de me arrepender do que houve...Mas ele terminou tudo assim que Judy descobriu, só queria que não me odiasse.
O sorriso de Quinn se desfez e o mundo pareceu ceder.
Fim do flashback.
Os três tinham olhos arregalados para Quinn naquele momento, sua fúria contida em cada palavra passou o ódio que estava guardado dentro daquele coração Fabray. Judy tremia demais e Russell nunca esteve tão envergonhado em sua vida. Frannie estava com medo do que a irmã mais nova faria.
- É verdade? — perguntou a loira com as lágrimas descendo descontroladamente e o rosto vermelho. Judy adiantou-se para a filha:
- Lucy, minha filha...
- É verdade? — berrou fazendo todos saltarem com a atitude.
Judy recuou no mesmo instante e apenas balançou a cabeça positivamente. Ter verdade confirmada bem a sua frente, mesmo ja sabendo dela, fez sua cabeça rodar e o estômago doer como se a perfurassem por dentro. Ela lançou um olhar magoado para a irmã:
- Você sabia?
Frannie também balançou a cabeça, incapaz de dizer algo. Quinn levantou a cabeça para o alto perguntando-se o porque daquilo estar acontecendo com ela, tanta dor dentro de si, a cada momento, traída pelos seus pais. Ela abaixou a cabeça a lançou um olhar direto ao pai, não um olhar magoado ou questionador, mas sim de ódio. De certeza. Ela não conhecia aquele homem na sua frente, ele costumava ser seu pai, mas agora não passava de um desconhecido. O olhar pareceu afetar o homem, aquela fortaleza inabalável, Russell estremeceu! Ele mal podia sustentar o olhar da filha. Com dificuldade, ele olhou para a mulher e para Frannie, e assim, deu as costas ao que estava acontecendo e entrou em seu escritório, o som da chave sendo girada pode ser ouvido, Quinn permaneceu no mesmo lugar, observando a madeira envernizada.
Braços acolhedores tocaram o ombro de Quinn, que se esquivou, com raiva demais para deixar-se ser tocada por qualquer pessoa. Era Frannie, que postou-se ao lado da mãe, ela chorava em silencio agora, triste pelo que a irmã estava passando, infeliz por ter falhado em protege-la de toda essas dor.
- Foi por isso que eu fui embora, não é? — a voz da loira mais nova saiu embargada, porém, controlada. — Foi por isso que eu não falava mais com vocês.
- Eu não poderia vê-la ir embora outra vez. — disse Judy encarando o chão com os olhos mais triste que vira em sua vida.
Quinn suspirou forte e levou a mãos aos cabelos outra vez.
- Eu não sei quem eu sou, e tudo o que eu precisava eram de pessoas que fossem sinceras comigo e me dissessem a verdade. Eu sou uma boneca na mão de vocês, posso ser manipulada, como fui depois que sai do hospital! Vocês me usaram para criar uma fantasia, uma família perfeita que nunca existiu! — gritou alto, queria ter certeza de que seu pai a estava ouvindo. Queria ter certeza de que sua alma estaria limpa assim que terminasse.
Caminhou de um lado para o outro abraçando a si mesma. Ouviu um soluço alto de Judy, e ela gaguejar nas palavras, sem saber o que dizer.
- Como você pode perdoá-lo? Depois de tudo o que ele fez, todo o dinheiro que tirou de nossa família para sustentar outra mulher. Por que, mamãe? — virou-se e deu de topo com sua mãe agarrando seus braços, pedindo suplicante para que a ouvisse.
- Eu ia embora, Quinn. Eu juro que tentei. — seus olhos ficaram vagos, como se lembrasse daquele dia. — Tudo estava pronto, eu nunca mais voltaria. Mas então eu comecei a observar você e Frannie, a forma como se davam, suas discussões, Deus, a casa ficava tão cheia, como uma família de verdade. — olhou de volta para a filha, ela já não tremia mais, mas chorava. — Eu não pude. Tem noção de como é para uma mãe perder sua família? Eu não... Não consegui.
Alguns segundos em silencio, apenas mãe e filha observando uma os olhos da outra, como eram idênticos, mas com significados tão diferentes.
- Você decidiu ignorar o que ele fez. — acusou Quinn.
Judy negou, relaxando a força nos braços da filha.
- Eu decidi ficar com ele por...Por todas as coisas boas que ele fez. — enxugou a própria lágrima e deu um pequeno sorriso para Quinn. — E não partir por um erro. Eu decidi perdoá-lo.
I’ve been out on that open road
(Tenho encarado a estrada aberta)
You can be my full time, daddy
(Você pode ser meu em tempo integral, papai)
White and gold
(Branco e dourado)
Quinn negou com a cabeça chorando mais ainda, afastou os braços da mãe de si e recusou alguns passos sem tirar os olhos dela. Ela sabia por dentro que Judy sempre fora uma pessoa boa, que quase nunca concordava com as coisas que ele fazia. Ela só não entendia porque sua mãe suportava tudo calada.
Singing blues has been getting old
(Cantar blues está ficando fora de moda)
You can be my full time, baby
(Você pode ser meu em tempo integral, meu bem)
Hot or cold
(Frio ou quente)
A ultima coisa que Frannie e Judy puderam ouvir, foi a porta sendo fechada com violência. Quinn saiu para fora descontrolada, o ódio já não a dominava como antes, agora era apenas a tristeza, um coração partido. Estraçalhado. Enxugou as lágrimas para que ninguém a visse naquele estado e pegou o primeiro táxi que apareceu.
Don’t break me down
(Não me deixe mal)
I’ve been travelin’ too long
(Tenho viajado por muito tempo)
I’ve been trying too hard
(Tenho me esforçado demais)
With one pretty song
(Com uma bela canção)
Lembra-se de observar o pai quando era pequena. Ela adorava passar horas sentada no chão do escritório olhando a forma como ele atendia o telefona, tratava as pessoas, era tão determinado, como um Fabray. A garotinha loirinha sonhava em um dia poder ser como ele, e agora ela desejava nunca ter tido aquele sangue em suas veias.
I hear the birds on the summer breeze, I drive fast
(Ouço os pássaros na brisa de verão, dirijo rápido)
I am alone at midnight
(Estou sozinha à meia noite)
Been trying hard not to get into trouble, but I
(Estou tentando não me meter em confusão, mas eu)
I’ve got a war in my mind
(Tenho uma guerra em minha mente)
So, I just ride 4x
(Então, eu apenas dirijo)
Rachel abre a porta do quarto e seu coração para no mesmo instante. A imagem surreal que ve faz sua alma chorar antes de abraçar a loira de olhos tristes. Ela tinha uma Quinn derrotada a sua frente, ombros caídos, respiração alterada, olhos vermelhos de tanto chorar.
- Q, o que houve? — perguntou já sabendo a resposta.
Ela encarou Rachel profundamente, mas ao contrário das outras três pessoas, ela tinha apenas curiosidade.
- Você sabia?
A pequena mordeu a lángua, sabia que poderia ser esbofetada ali se dissesse a verdade, mas ela não mentiria para Quinn, ela precisava das mais puras verdades, e as teria, não importa o quanto aquilo fosse doloroso.
- Sim.
Dying young and I’m playing hard
(Morrer jovem e aproveitar muito)
That’s the way my father made his life an art
(Foi assim que meu pai fez de sua vida uma arte)
Drink all day and we talk ‘til dark
(Bebemos o dia inteiro, e conversamos até anoitecer)
That’s the way the Road Dogs do it, light ‘til dark
(É assim que os viajantes fazem, dirigem até escurecer)
Rachel abriu caminho para que Quinn entrasse em seu quarto em passos lentos, absorvendo a verdade.
- Você deveria ter me contado. — reclamou, sem raiva, apenas pidona.
As duas sentaram-se na cama e Rachel segurou sua mão.
- Eu quis tantas, mas tantas vezes contar, Quinn. — disse verdadeira. — Mas eu não podia afastar você deles...Não seria justo eu usar isso ao meu favor. Eu queria o seu amor...Mas acima disso, eu queria merece-lo.
Oh, lágrimas. Coração que se refaz lentamente, aquele súbito frio na barriga que faz o corpo inteiro arrepia. Quinn sentiu tudo isso, ao lado de Rachel, qualquer dor caía no esquecimento.
Don’t leave me now
(Não me deixe agora)
Don’t say goodbye
(Não diga adeus)
Don’t turn around
(Não me dê as costas)
Leave me high and dry
(Não me deixe na mão)
- Será que eu posso dormir aqui com você? — aquilo saiu tão infantil de Quinn, que Rachel teve vontade de chorar.
Se ela podia? Era tudo o que a pequena mais queria, tudo o que ela mais precisava, era isso, Quinn era dela e ela era de Quinn, era assim que as coisas funcionavam. Ela cuidava de sua loira frágil, sempre soube como fazer isso, aprendeu a conhecer os maiores medos da loira, e as formas de afrontá-los dela.
As duas garotas deitaram-se frente a frente, ainda de mãos dadas. Quinn não tinha parado de chorar, mas ela sabia que isso aconteceria em algum momento da noite. Ela só precisava sentir que Rachel estava perto para saber que estava protegida, que os problemas não eram nada se ela estivesse com a sua pequena.
Ela só precisava...De Rachel.
A sua Rachel.
Fale com o autor