Notas iniciais
Adrian acredita que sua vida não tem mais sentido e quer desistir de tudo. Conseguirá Érica fazê-lo voltar atrás?

Londrina, Maio de 2012

Levo a noite inteira numa fatigante batalha com meu cérebro de ervilha para tentar entender por que, diabos, minha mãe decidiu fazer isso comigo. Por mais que eu tente, não consigo encontrar motivos suficientemente justificáveis para ela de repente querer me mandar para um internato. Talvez esteja me castigando por algo errado que eu provavelmente tenha feito. Mas, estranhamente, não consigo me lembrar de nada.

Não me lembro de tê-la desobedecido. Pelo contrário. Sempre fui – e ainda sou – um garoto obediente, e na escola sempre tiro notas que variam entre 7 e 8. Nunca repeti o ano e também nunca fiquei depois da aula. Jamais cheguei a lugar nenhum sequer um minuto depois do horário estabelecido e sempre fui um espectador assíduo até mesmo das aulas mais chatas que podem haver.

Passo a noite em claro, e quando finalmente amanhece, percebo que troquei um problema por outro. Estou exausto como nunca estive e alguma coisa parece estar bloqueando minha audição. Ouço alguém gritar, mas o grito parece estar a léguas de distância e eu não consigo entender uma mísera palavra. De repente, a porta do quarto vem abaixo. Quase caio da cama. É quando vejo Érica entrando com seu rosto bonito retorcido pela raiva que me lembro que tranquei a porta por dentro.

— Graças a Deus! Você está vivo! – diz ela, ofegante. – Você não estava me escutando? Eu tive que entrar que qualquer jeito! Quer me explicar por que se trancou?

Fico calado, olhando para o chão.

— Meu filho, você tem que tomar uma decisão. Você não é mais uma criança.

Meneio a cabeça em concordância. Mas o que eu posso fazer? Pode onde posso começar?

— Temos que conversar seriamente. Isso não pode continuar assim. Mas primeiro, vamos tomar café. Sua avó preparou panquecas. Eu sei que você adora.

Em outras ocasiões, eu teria descido correndo e comido panqueca até não aguentar mais. Mas agora, por motivos de força maior, me recuso a sair do quarto. Não quero sair da cama. Não quero fazer nada. Não quero viver.

— Tudo bem. Posso me sentar aí?

Balanço a cabeça outra vez.

— Bom... – Érica está procurando as palavras certas. Minha mãe é o tipo de pessoa que pensa com muita cautela antes de dizer qualquer coisa. – Sei que a situação que você está passando não é fácil. Acredite, não é fácil para mim também. Sou igual à você. Hipersensível. Acho que isso é hereditário. Bem... Acho que o que estou tentando dizer é que você tem todo o direito de ficar triste pela morte do seu pai. A vida dele foi interrompida. Ele era jovem e tinha um futuro à sua frente. Tinha planos. Quando você terminasse o ensino médio, nós três faríamos uma viagem inesquecível para o Havaí. Ele vivia dizendo isso, lembra? Dizia que ia se arriscar a pegar uma onda com Kelly Slater, embora soubesse que não conseguiria ficar de pé numa prancha nem mesmo por dois segundos...

Ela se cala. Olho para ela e percebo uma lágrima escorrendo do seu olho esquerdo.

— Desculpe... Como eu estava dizendo, seu pai era um sonhador. Mas como nunca sabemos o dia de amanhã, aconteceu algo inesperado. Seu pai ficou doente e...

— Mãe, pára!

— Não. Deixe-me falar, ok? Seu pai morreu, é verdade. Não podemos fazer nada. Não por ele. Sua vida acabou, mas a nossa continua. Temos uma vida inteira pela frente. Você tem uma vida inteira pela frente. Acha que ele ficaria feliz em te ver preso neste quarto o dia inteiro, em vez de viver a vida que te espera lá fora?

Suas palavras atingem meu coração como lanças pontiagudas. Sou forçado a admitir, bem lá no fundo, que ela tem razão.

— Pode parecer irônico, mas no dia em que seu pai morreu, por um segundo pensei em desistir de tudo. Desistir do meu emprego. Desistir da vida. Desistir de mim. Mas aí eu lembrei que havia um motivo pelo qual eu deveria continuar vivendo.

Ela olha no fundo dos meus olhos. A resposta é óbvia. O motivo sou eu. Aquilo desperta o meu lado infantil, e começo a chorar como uma criança que deixa o sorvete derreter.

— Naquele momento eu soube que não podia desistir. Eu ainda tinha você. Tinha o Spike... – esse é o nome do nosso cachorro. E, como se tivesse adivinhado que falávamos dele, ele entra no quarto, ganindo e olhando para nós com aqueles olhos pidões. – E também a herança do seu pai. Por isso não pensei duas vezes em tentar nos dar uma vida nova. Me desculpe se falhei.

Sabe aqueles momentos em que um sentimento de culpa nos dá uma pontada? Bem, este é um desses momentos. Ainda não tinha percebido como estava sendo egoísta. Nem sequer parei para pensar em como minha mãe deveria estar se sentindo. Perdi o meu pai. Mas não era só o meu pai. Era o grande amor da vida dela. Os dois eram como unha e carne. Viviam grudados um no outro como adolescentes apaixonados. Eu adorava vê-los juntos. Era a parte boa de voltar para casa. Vê-los sentados no sofá, abraçados, assistindo ao Telejornal ou simplesmente fazendo companhia um ao outro, demonstrando o quanto se amavam.

— Me desculpe, mãe. – Não sei o que dizer. Mas acho que lhe devo desculpas. – Eu... Veja bem...

— Não precisa dizer nada. Eu entendo. Mas não se esqueça do que eu falei. A vida continua. Estamos nessa juntos, ok? Lembre-se que pode contar comigo sempre. Afinal, é para isso que servem as mamães, não é verdade? – Depois de duas semanas tentando, ela finalmente consegue arrancar um sorriso do meu rosto pálido e cansado. – Mas agora, falando sério, você precisa tomar uma decisão. Há um futuro à sua frente e o mundo só está esperando que você dê o primeiro passo. E o primeiro passo é... se levantar dessa cama, tomar uma ducha e sair um pouco.

— Quer dizer, andar por aí?

— Sim. Vamos dar um passeio pela cidade. Vou te levar para conhecer alguns lugares. Tenho certeza de que vai adorar descobrir lugares novos, gente nova e, claro, uma culinária totalmente nova.

— Fala sério?

— Claro que falo sério.

— Quer dizer que não vamos embora?

Ela fica me encarando em silêncio.

— Bem, depois falamos disso. Agora vá se aprontar. Te espero lá embaixo. E não demore.

Faço o que ela manda. Meia hora depois, estamos a caminho do Cafeterix.

Aproveitando que a temperatura está agradável, vamos caminhar pela avenida. Há um gostoso perfume de flores no ar e as pessoas na rua sorriem ao passar por nós. Tento sorrir a fim de retribuir a simpatia, mas não consigo. As preocupações são tantas que sorrir parece ser a última coisa que eu conseguiria fazer neste momento. Apenas faço um gesto positivo com a cabeça.

À esquerda, podemos avistar o Bristol Residence Hotel, localizado a pouco mais de dez minutos do Aeroporto de Londrina, e também do Terminal Rodoviário José Garcia Villar. O complexo em si é um conjunto de apartamentos compostos por uma cozinha equipada, TV a cabo e guarda-volumes. Neste local os hóspedes podem desfrutar de uma piscina no terraço que proporciona uma vista panorâmica da cidade.

Além da piscina, as instalações deste hotel de 4 estrelas incluem uma academia, salões de jogos e uma sauna. Próximo ao hotel há também muitas opções de bares e restaurantes, bem como a Praça Marechal Rondon, que possui uma vasta área verde, ideal para a prática de caminhadas e corridas.

Continuamos o passeio. Em cada edifício, em cada esquina, paramos para admirar a riqueza do lugar. Percebo que estamos rodeando as paredes da Catedral Metropolitana de Londrina, um templo em forma de chalé que pertence à Igreja Católica, o qual pode ser visto de diversas partes da cidade.

Ainda tenho muitas perguntas para fazer, mas, para meu espanto, este passeio agradável está me fazendo esquecer dos porquês da vida. Vendo minha mãe sorrindo, falando tudo a respeito dos lugares por onde passamos, digo a mim mesmo que de forma alguma irei estragar este momento com minhas perguntas frequentes.

E finalmente vamos ao muito falado Cafeterix, nosso destino para o almoço. O local está lotado, um bom sinal. Há garçons servindo pratos caseiros e fazendo propaganda de seus sabores localmente inspirados que certamente irão seduzir todo e qualquer paladar.

Érica pede um Estrogonofe de Frango para ela e, para mim, um Yakisoba de Lombo. O cheiro está tentador. Não resisto. Comemos e, depois, ficamos algum tempo admirando a beleza do lugar.

— Está gostando do passeio? – pergunta Érica, um pouco nervosa.

— Está ótimo. Obrigado por me trazer.

— Não me agradeça. Para ser honesta, fazia muito tempo que não saíamos juntos, não é mesmo?

— É – concordo. Quando criança, livre das tarefas escolares e domésticas, eu me preocupava somente em encontrar um amigo para brincar. Mas conforme fui crescendo, a preocupação nos rostos dos meus pais em relação às dificuldades pelas quais passávamos e as consequências que elas trariam para o meu futuro se tornou cada vez mais visível. Nossas condições financeiras nos permitiam ter de tudo um pouco, e sobre isso não havia muito o que discutir. Mas quando o assunto era "férias", "passeio" e "entretenimento", eles se entreolhavam sem saber o que dizer nem que decisão tomar.

— Nesses últimos dias a nossa vida têm sido uma verdadeira correria. Eu me preocupei em te dar uma vida... hã... diferente da qual estávamos acostumados. Sabe, naquela época as coisas eram bastante difíceis. Não tínhamos tantas oportunidades como temos hoje. Na verdade, estava preocupada se hoje ia correr tudo bem. Mas ainda bem que deu tudo certo. Fico feliz por você estar feliz. E quer saber mais? Prometo que, a partir de hoje, faremos passeios com mais frequência. Ainda há muitos lugares para conhecer e teremos bastante tempo para isso.

Percebo que ela está tentando evitar que falemos sobre a tal mudança para São Paulo e o tal internato onde ela pretende me deixar. Prefiro pensar que o surto de raiva que ela teve a fez dizer coisas sem pensar, o que geralmente não acontece. Mas ela está estranha. Parece tensa. Algo a preocupa.

— Mãe, você está bem?

— Hein?

— Perguntei se você está bem.

— Sim. Claro que estou bem.

Eu sempre digo para os meus amigos que minha mãe tem a cara da atriz americana Kristen Stewart. E, talvez, se ela tivesse nascido em outra época, o destino a conduzisse ao estrelato. Mas, olhando bem no fundos dos olhos dela, concluo, definitivamente, que dissimular não é o seu forte.

— Mãe, você é péssima em contar mentiras.

Ela suspira.

— Me desculpe.

— Desculpar o quê?

— Por não ter sido sincera. Por não ter contado a verdade desde o início.

— Que verdade? Do que está falando?

— A sua avó...

— O que ela tem?

— Lembra do que aconteceu com ela na semana passada?

— Lembro. Ela teve um desmaio.

— E lembra que naquele dia eu disse que tinha uma coisa para fazer no centro da cidade e que não sabia a que horas iria voltar?

— Lembro, mas e daí?

— Eu tinha ido verificar os resultados dos exames dela e...

— E?

Ela espera alguns segundos antes de falar.

— Ela foi diagnosticada com um tumor no cérebro.

Notas finais
Mais um golpe do destino! O que acontecerá com a avó de Adrian? Descubram no próximo capítulo!