Para Sempre - A Escolha
8 Em nome do amor
Notas iniciais
Deitado em minha cama, os olhos voltados para a janela, contemplando o céu da noite, recordo das palavras de Miguel: "Você, Adrian, melhor do que ninguém, deveria saber que não existe fórmula mágica para isso. Anda, engole esse medo. Vai atrás dela. Declare seu amor. Busque a sua felicidade".
Ele está certo. Aliás, não me lembro de nenhuma vez em que Miguel não estivesse cem por cento certo de alguma coisa. Mas o que realmente importa para mim é encontrar as palavras certas para dizer a Hannah o quanto eu a amo, e não permitir que o medo de falhar tome a dianteira e ponha tudo a perder.
Mas quando? Onde? Como?
"Se eu soubesse ao menos onde ela mora..."
Há uma forma de descobrir, diz a vozinha da consciência. E de repente sei perfeitamente como obter essa informação. Será arriscado, claro. Serei expulso imediatamente, caso algo dê errado. Mas já que estou decido a lutar pelo meu amor, não posso hesitar. Irei até as últimas consequências!
Levanto-me da cama e, andando nas pontas dos pés, vou até o roupeiro. Pego a mochila e a abro com cautela, para não acordar meus amigos. Tiro dela uma das lanternas que trouxe de casa e saio. Por que, diabos, você trouxe essas lanternas para a escola? Quem teria essa ideia? – pergunta a voz irritante. Na verdade, não faço ideia do porquê. E nem tenho tempo para me preocupar com essas questões sem respostas. Abro a janela vagarosamente – com gestos que parecem os de uma dança lenta e muda – e olho para baixo. Não é tão alto. Dá para pular. Galgo o parapeito e pouso na grama úmida. Ligo a lanterna e, às apalpadelas, atravesso o quadrângulo, passando por todas as portas e janelas fechadas, indo em direção ao prédio principal.
A noite está fria, e já passa das nove. Por um segundo, me arrependo de não ter trazido um casaco, mas não quero ficar com as mãos ocupadas e acho que posso aguentar o tranco. Há seguranças do lado de fora do prédio, mas para a minha sorte, eles parecem desligados do mundo, como se estivessem sem dormir por dias. Em completo silêncio, com alguma dificuldade para me localizar, vou andando, me esgueirando de sombra em sombra a fim de não ser visto por ninguém. Após mais alguns metros, chego exatamente aonde queria: a sala da Diretoria.
Com o máximo de cuidado possível, forço a janela, que na verdade não é muito resistente pelo fato de o colégio ser bem protegido pelos muros que a rodeiam e por não existirem ladrões aqui. Apoio as mãos no parapeito e subo, não sem antes olhar ao redor. Entro pela janela e, segurando a lanterna com a mão esquerda, sigo rastejando junto à parede. Sem querer, esbarro em algo que está sobre a mesa. Está tudo escuro ao meu redor, mesmo com a lanterna acesa, e por isso não posso ver o que caiu, mas pelo "prec" deve ser alguma coisa de vidro.
De repente, ouço vozes vindo em minha direção e, amaldiçoando minha falta de sorte, me escondo atrás de um vaso com um coqueiro de plástico desbotado e empoeirado no fundo da sala.
A porta se abre e duas figuras negras entram. Com certeza são os seguranças que vi lá fora. Dois homens, que aparentam estar mais tensos do que eu, munidos de lanternas e armas, começam a andar vagarosamente pela sala, em passos que nem mesmo eu consigo escutar, embora esteja muito próximo deles. Observo-os passarem bem perto do vaso e prendo a respiração, tentando não soltar nenhum gemido constrangedor. Que bela ideia eu tive! Aqui, encolhido num canto de parede, sem poder me mexer, sem ter para onde ir, aguardo o momento em que eles me acharão.
Um dos seguranças olha para o chão, a luz da lanterna ressaltando cacos de um objeto de vidro quebrado, e o outro nota que a janela está aberta.
— Algum engraçadinho está querendo arrumar problema... – sussurra um dos guardas. O mais alto.
O guarda se vira na direção do vaso, apontando a lanterna para o coqueiro. Agora sim, estou perdido. Agora sim sou o louco que sempre pensei ser. Quero descobrir o endereço da garota que amo. Preciso, a qualquer custo, descobrir. O Formulário de Matrícula só pode estar aqui. Nele deve conter todos os dados que preciso para chegar até ela. Mas acabei estragando tudo. Acabei me ferrando...
Não, grita uma voz dentro da minha cabeça. A sorte está do seu lado.
Sem me atrever a mover um musculo – embora, por dentro, meu coração esteja batendo a todo vapor –, continuo encolhido. O guarda mais alto, certo de que não há ninguém na sala, vira-se para o colega.
— O espertinho não deve ter ido muito longe. Vamos procurar lá fora.
Ambos saem da sala. Espero algum tempo até ter certeza de que eles estão longe e saio de trás do vaso, respirando aliviado. Cada pedaço de mim suplica para que eu me retire daqui, mas, mesmo correndo o risco de ser pego em flagrante, não posso dar para trás. Estou aqui por um motivo. Devo terminar o que comecei.
Não disponho de muito tempo. Os seguranças podem voltar a qualquer momento. Antes de prosseguir, dou uma espiada pela janela. Ninguém à vista. Continuo rastejando junto à parede até chegar a escrivaninha. Vou direto para as gavetas da parte inferior, à direita da cadeira. Temo precisar de chave para abri-las.
Verificando-as, noto que apenas uma delas possui chave e está trancada. Nas demais, não há nada. Resolvo forçá-la com um pouco mais de força para ver se ela abre. Pelo fato de o fecho não ser de tão boa qualidade, a gaveta se abre, mas logo noto que entortei o trinco que fecha a gaveta.
"Os guardas devem estar retornando. Vai rápido com isso."
Inalo e exalo inúmeras vezes tentando me manter num estado normal. Me concentro no conteúdo da gaveta. Há uma série de documentos empilhados, fichas, apostilhas e outros objetos que não têm a menor importância. Tentando fazer o mínimo de barulho possível, começo a examinar cada um deles.
Nada.
"Nada ainda", digo mentalmente, tirando da cabeça a ideia de desistir e voltar para o dormitório.
Indo mais a fundo, encontro um fichário em cuja capa está escrito FICHA INFORMATIVA DO ALUNO. Quase grito de emoção, mas me recomponho, com um pigarro. Abro o fichário e procuro a lista com os nomes dos alunos da sala 18. E lá está ela. Passo os olhos sobre os nomes até encontrar o dela: HANNAH ANDERSON. Leio rapidamente os dados:
NOME: HANNAH ANDERSON
IDADE: 17 ANOS
DATA DE NASCIMENTO: 12/ 10/ 1995
NATURALIDADE: ANGRA DOS REIS
NACIONALIDADE: BRASILEIRA
ENDEREÇO: SEM. RAUL CARDOSO, 207, VILA MARIANA, SÃO PAULO, SP
TELEFONE: (86) 4242 8711
Eu não poderia estar mais feliz. Não só descobri o seu endereço, como também que ela está mais perto do que eu poderia imaginar. Agora que sei como encontrá-la, não vou hesitar em ir atrás dela.
Após guardar toda a papelada, fecho a gaveta forçando o trinco para baixo e caminho lentamente até a porta. Minhas mãos tremem tanto que quase não consigo girar a maçaneta. Ao mesmo tempo em que abro a porta, fico imaginando dar de cara com um daqueles guardas, mas felizmente o caminho está livre. Ao sair, noto que os seguranças estão vasculhando a parte de trás do prédio de ciências, o que deixa o caminho livre para eu voltar ao dormitório. Felizmente, não repararam que a janela do 114 está aberta.
Aproveitando o silêncio e a escuridão, volto para o lugar de onde vim. Usando as trepadeiras que sobem em direção ao teto, chego ao dormitório sem nenhum inconveniente. Os roncos que vêm do interior do quarto indicam que tudo está Ok, que ninguém acordou para nada. Pelo menos era o que eu pensava...
— Você é o cara mais maluco que eu conheço – diz Miguel, num sussurro. – Amanhã cedo vai ter que me contar tudo.
***
— Você invadiu a sala da Diretoria? – pergunta Miguel, fingindo estar surpreso.
— Sim. Mas, por favor, não quero que isso se espalhe. Quase fui pego em flagrante pelos seguranças. Por muito pouco não me meti numa encrenca daquelas.
— Você é mesmo maluco. Fez tudo isso para descobrir o endereço da Hannah?
— Fiz. E, para sua informação, eu faria tudo de novo.
— Se você fosse um pouquinho mais racional, teria me consultado. Eu sei onde ela mora. Aliás, eu soube desde que ela se mudou para cá. E isso faz uns dois meses.
— Olha, agora isso não tem a menor importância. O que eu mais quero agora é encontrá-la. Não posso perder mais um minuto sequer. De qualquer forma, obrigado.
— Oi?
— Eu disse obrigado. Obrigado por me motivar a correr atrás da minha felicidade. Acho que, se isso der certo, ficarei em dívida com você por toda a vida.
— Ah, por favor, sem essa. Você sabe que pode contar comigo sempre. Eu não ajudo meus amigos para que eles fiquem em dívida comigo. Se bem que... – Ele faz uma pausa. – Eu gostaria que me fizesse um favor.
— Qual?
— Da próxima vez que for sair numa missão maluca no meio da noite, não se esqueça de me chamar. Sabe que eu adoro aventuras.
Dou uma risada alta. Em seguida, encaro-o.
— Pode deixar – digo, dando uma piscadela. – Na próxima vez, vamos hackear a máquina de Coca-Cola.
***
Depois de uma semana longa e exaustiva, os alunos são liberados para passarem o fim de semana ao lado de suas famílias e longe da rotina do internato. Na verdade, não temos todo o final de semana livre, pois o fim da primeira semana de internato se deu no sábado às 16h30, de modo que, para aqueles que gastaram toda sua energia em tarefas escolares e outras coisas desgastantes, esse "tempo livre" passa muito rápido. Mas para mim está ótimo. É melhor do que nada. Achava que nem contaria com isso...
O domingo chega depressa. Minha mente não pára quieta. No café da manhã, me sinto intensamente ansioso. Não consigo controlar o ar e, consequentemente, não consigo raciocinar direito. Os pensamentos negativos ainda atravessam minha mente como se fossem um disco quebrado, sempre voltando ao mesmo ponto. Mas, felizmente, já sei como lidar com isso. Uma coisa é pensar; outra é se deixar levar. E por nada no mundo vou permitir que esses pensamentos ruins estraguem minhas chances de ser feliz.
Com o endereço em mãos, vou até a casa de Hannah. Ela mora em um condomínio mediano, com aparência de antigo, mas bem localizado numa área bastante arborizada. De acordo com o porteiro – um senhor de 60 anos, cabelos grisalhos, gorducho –, Hannah ocupa o décimo terceiro andar com os pais e uma criança de seis anos e meio. Antes de subir, aproveito para perguntar se ele sabe de alguma coisa sobre a doença da mãe dela, mas ele diz que não sabe de nada. Talvez, pelo fato de eu ser um desconhecido, o porteiro não queira entrar em detalhes. Não me incomodo nem um pouco. Ao contrário, acho a sua atitude respeitável. Cumprimento-o e subo.
O elevador pára no último andar. O fato de eu continuar subindo um lance de escadas significa que o apartamento de Hannah fica no sótão do prédio. Até recentemente, os edifícios tinham no sótão a casa de máquinas dos elevadores e pequenos alojamentos para cada apartamento, onde os proprietários guardavam suas bugigangas. Foi quando os condomínios descobriram que poderiam ganhar uma fortuna vendendo esse espaço relativamente inútil para quem quisesse construir um apartamento.
O número 193 feito de latão incrustrado na porta indica que eu cheguei ao meu destino. Penso em bater, mas isso é antes de ver a campainha. Toco-a. Ouço uma voz dizer "já vai" e, involuntariamente, minhas pernas ficam bambas. Segundos depois, a porta se abre, e o suspiro que Hannah solta ao me ver me deixa um tanto surpreso. É como se ela jamais tivesse imaginado que eu a visitaria um dia.
— Oi, Hannah – digo, tentando não aparentar meu nervosismo.
— Adrian? Há quanto tempo não nos vemos? Que bom falar com você.
— É muito bom falar com você também. – Faço uma pausa, esperando que ela me convide para entrar. Como ela não faz isso, eu mesmo tomo a iniciativa. – Queria muito conversar com você. Será que eu posso entrar?
— Claro que pode. Entre, por favor.
Entro, olhando em volta. A entrada do cômodo principal é alegre e permite uma visão ampla de todo o apartamento. Bem em frente fica a área reservada para a cozinha. Atrás dela fica o banheiro. Á direita, uma mesa de vidro com cadeiras de madeira e, sobre ela, um vaso polonês cheio de flores artificiais. Na parede mais distante da porta principal, perto do banheiro, é a área de descanso, que ela separa da cama com uma estante de livros. O cômodo, embora simples, é aconchegante e confortável.
Hannah indica o sofá e me pede para esperar um pouco enquanto ela prepara um refresco. É quando noto que ela está usando um avental, e que suas mãos estão enrugadas. Certamente é ela quem cuida dos afazeres de casa enquanto o pai trabalha.
— Parece que você anda ocupada. Não queria atrapalhar.
— De jeito nenhum – responde ela, a voz tranquila e doce como sempre. – Já varri a casa, fiz o almoço e agora estou terminando de lavar a louça. Tenho que aproveitar enquanto a Maria Clara está dormindo.
Maria Clara. Esse deve ser o nome da irmã caçula.
Hannah percebe o meu silêncio e me encara.
— Eu posso imaginar o que você está pensando. Eu, tão jovem, em vez de sair para me divertir como todos da minha idade, fico o dia inteiro trancada neste apartamento fazendo trabalho doméstico, quase sem tempo para cuidar de mim mesma. Se é o que está pensando, saiba que não foi escolha minha. Desde que minha mãe ficou doente, minha vida virou uma verdadeira bagunça. Não que não fosse antes, mas a atuação dos meus pais era boa o bastante para enganar os que estavam ao nosso redor. Não para mim que, infelizmente, ouvia as brigas constantes que se prolongavam até a madrugada. Esta casa foi a única que despertou um interesse bom o bastante para fazer com que meus pais a alugassem.
— Na verdade, eu não estava pensando em nada. E, sim, sei que as coisas não estão nada fáceis para você. Sinto muito, acredite.
— Você sente pena de mim, não sente?
— Não, Hannah. Realmente acha que é isso o que eu sinto por você? Pena?
— Desculpe. Acho que estou sendo inconveniente.
— Eu não diria isso. Diria que entendo perfeitamente o seu desabafo. Não é fácil levar uma vida dessas. Também não é fácil encarar uma doença. Principalmente quando o doente é aquele que mais amamos.
Cerca de um minuto depois, Hannah volta à sala de estar trazendo uma bandeja com uma jarra de refresco, dois copos altos e biscoitos. Em seguida, ela se senta no sofá colorido e começa a se servir. É nessa hora que ergo o rosto para observá-la. Embora esteja vestindo uma camisa amarrotada e suja, e seus cabelos estejam despenteados, o rosto dela parece ser de porcelana e seu olhar o mais penetrante que já vi. Ela continua calada, olhando fixamente para mim, esperando que eu inicie a conversa. Já é hora de expressar meus sentimentos, trazer tudo à tona. Seguro delicadamente as mãos dela.
— Hannah... Talvez esse não seja o momento, nem o lugar adequado, mas tenho algo para te dizer. Não posso esperar mais.
Hannah franze o cenho, surpresa. Posso sentir suas mãos geladas começando a tremer. Não imaginei que ela fosse ficar tão nervosa.
— O que é?
Espero alguns segundos antes de responder.
— Hannah, eu estou apaixonado. E gostaria que você entendesse que a garota de quem estou falando... é você.
Um suspiro profundo escapa dos lábios de Hannah enquanto seus olhos, arregalados de surpresa, se erguem ao encontro dos meus.
— O que disse?
— Isso mesmo que você ouviu. Estou perdidamente apaixonado por você. – Chego mais perto e prossigo: – Desde a primeira vez que eu te vi, eu só consigo pensar em você. Quando você foi embora, senti como se uma parte de mim tivesse ido com você. Talvez eu esteja sendo muito direto, mas não vejo melhor forma de dizer isso. Eu te amo, Hannah. Eu não me imagino envelhecer sem você. Você desperta o melhor de mim. Quero você comigo.
Hannah permanece em silêncio, os olhos fixos em mim, como se não pudesse acreditar ou não tivesse entendido direito. Então, de repente, percebo uma lágrima escorrendo do seu olho direito, o que me leva a acreditar que a deixei constrangida.
— Hannah, me perdoa. Eu não tinha a intenção de fazer isso... – digo, começando a me arrepender de ter aparecido. – Eu não devia... Eu não...
Ela toca os lábios suavemente no canto da minha boca e eu fecho os olhos com a sensação mais incrível do mundo.
— Não me dê explicações. Agora quero que me escute. Até hoje ninguém nunca disse isso para mim. Para dizer a verdade, eu sempre sonhei com esse momento. Desde pequena, você está cravado aqui, no meu coração. Eu nunca disse isso porque tinha medo que você me rejeitasse.
Encaro-a boquiaberto, sem poder acreditar que aquilo realmente está acontecendo.
— Agora eu vejo que foi bobagem minha. Eu devia ter me arriscado.
— Isso significa que...
— ... que eu amo você, seu bobo. Desde o primeiro segundo que te vi. Você é tudo que eu mais quero. É tudo o que eu sonhei para mim.
— Hannah... Você quer ser minha namorada?
— Achei que nunca fosse perguntar.
Antes que eu possa dizer algo mais, Hannah fisga minha boca com os dentes e eu me deixo levar. Ela encaixa a mão na minha nuca, puxando-me mais para perto dela. Sua língua pede passagem e eu a concedo de bom grado.
— Eu esperava ansiosa por isso desde muito tempo.
— Eu também.
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