Para Sempre - A Escolha
17 Adeus para sempre!
Notas iniciais
Agosto de 2013
Hannah
Eu o vi, parado em frente ao portão da escola, poucos minutos antes do ônibus chegar. Usava uma camiseta roxa – com a frase I'M SON OF GOD AND WAS BORN TO WIN na frente –, um casaco preto, shorts cinza-claro e um all star branco. Parecia deprimido. Seria por minha causa? Estaria sentindo minha falta? Por um instante, ele levantou a cabeça e, ao me ver parada do outro lado da rua, me encarou intensamente, o que me fez estremecer. "Oh, meu Deus! Aqueles olhos lindos, azuis como o mar! Aquela maneira de me olhar... Eu não quero perder isso. Preciso disso, como o ar que respiro!"
Quando o ônibus chegou e Adrian começou a subir, não pude evitar derramar uma lágrima. Era eu quem deveria estar subindo naquele ônibus com ele, mas havia outra em meu lugar. Depois que todos subiram, o ônibus arrancou, sumindo ao virar a esquina. Enquanto eu corria de volta para casa, jurei a mim mesma que aquelas lágrimas seriam as últimas.
Agora, não há nada que eu deseje mais do que dar o troco em Larissa, fazê-la pagar por ter se metido comigo. Larissa pode ter vencido a primeira batalha, mas a guerra ainda não acabou. Seguirei em frente, pois no fundo sei que um dia – talvez não muito distante – voltaremos a nos encontrar.
Um dia, Larissa. Um dia.
***
— Por que está tão isolada, filha? – a voz rouca do meu pai me tira dos meus pensamentos. – O que faz aí, sozinha?
— Estava pensando em tudo o que aconteceu nos últimos meses – digo, com as mãos à altura da boca. Não há mais como chorar. A questão a partir disso é "chorar o quê"? Já sequei meu corpo de tanto chorar. Estou esgotada, destruída. Não aguento mais sentir sobre mim, no canto escuro de uma sala de velório, os olhares de pena e dor.
— A culpa é toda minha. Eu não deveria... – Meu pai, não conseguindo terminar a frase, me abraça chorando.
Não consigo falar, e retribuo o abraço. Mas fico curiosa em saber o que ele não deveria ter feito, ou dito. Ele me solta, pede desculpas e vai ao banheiro. Olho para o relógio: 09:38 A.M. Restam mais 22 minutos, até que não a verei mais.
***
Os flashes de tudo o que aconteceu comigo nos últimos sete meses passam como estrelas cadentes diante dos meus olhos.
Lembro de ter dito aos meus amigos que minha vida se transformou numa verdadeira bagunça desde que descobri que minha mãe estava com câncer encefálico. Lembro também de ter chorado como nunca quando soube que sua doença já estava num estágio muito avançado e que nada no mundo poderia mudar isso. Segundo os médicos, lhe restavam alguns meses de vida. Três meses, no máximo.
Foi a pior coisa que eu já ouvi. Não queria aceitar que os dias da minha mãe estivessem contados, que cada minuto da sua vida fosse decisivo. Alexandra era uma mulher jovem, determinada, e como eu gostava de dizer para as minhas amigas, inteligente e encantadora. Conseguia sempre me acalmar e evitava, várias vezes, que eu agisse de forma impulsiva e precipitada. Cuidava de mim e da minha irmã caçula de modo espontâneo, como se, apesar das diferenças de aparência, temperamento e circunstâncias imediatas, ambas (Maria Clara e eu) fôssemos uma pessoa só. No entanto, lembrar do quanto Alexandra foi boa para mim faz minha dor aumentar cada vez mais. Ela não merecia morrer desse jeito. Deus não poderia levá-la assim.
Mas foi como se Deus estivesse definitivamente decidido a levá-la e nada pudesse fazê-lo voltar atrás. Apesar do intenso tratamento ao qual Alexandra foi submetida, ela não apresentava sinais de melhora. Fizemos tudo o que estava ao nosso alcance, mas foi inevitável que seu caso viesse a se agravar. Duas semanas antes do mês de Junho, Alexandra entrou em coma.
Antes de ser transferida para a UTI, eu a visitava somente de vez em quando. Mas, após a sua transferência, passei a visitá-la todos os dias, inclusive nos finais de semana. Sem coragem de sair do quarto, ouvia apenas o barulho da máquina apitando, avisando que mamãe ainda estava viva. A pela pálida, os cabelos espalhados pelo travesseiro, o peito que subia e descia lentamente e os olhos fechados me amarguravam. Perguntava-me constantemente por quanto tempo mais aquele sofrimento iria durar.
De repente, ouvi a porta do quarto se abrir.
— Filha! – disse meu pai, ao me ver sentada na poltrona, onde fiquei durante duas horas.
— O que foi, papai?
— O horário de visitas acabou. Temos que ir.
— Eu não quero ir.
Papai soltou um suspiro exausto. Não bastando o problema da mamãe, eu também o estava deixando preocupado. Meus olhos estavam vermelhos, o cabelo bagunçado, a roupa toda desajeitada, as olheiras evidentes e a barriga pregada às costas, a típica imagem de alguém que sofre, ou melhor, a típica imagem de alguém que acha que sua vida acabou.
— Você precisa se alimentar e descansar um pouco. Por favor, venha comigo.
— Já disse que não quero ir!
Voltou a suspirar profundamente. Por mais cansado que estivesse, ele não descansaria enquanto não me convencesse a ir com ele. Aproximando-se mais de mim, disse serenamente:
— Sei que quer ficar perto dela. Sei o quanto dói vê-la nesse estado. Dói em mim também. Mas você precisa descansar. Precisa de forças para encarar tudo o que está acontecendo. Não é fácil, eu sei. Mas é preciso que faça isso. Por favor, venha comigo.
Algo me dizia que não fazia muito sentido continuar ali sentada, à espera de um milagre, porque iria esperar em vão. Decidi dar ouvidos ao meu pai e ir para casa com ele.
E foi então que aconteceu. No único momento em que me atrevi a sair do quarto, a máquina avisou que os batimentos dela estavam fracos. Tentei entrar no quarto, mas ninguém deixou. Fiquei parada do lado de fora, desesperada. Vários minutos se passaram em silêncio. Cinco longos e torturantes minutos. Quando o médico enfim saiu, apenas confirmei o que já suspeitava.
— Lamento. Não há nada que possamos fazer.
Escorreguei até o chão. Já não tinha mais o controle de minhas ações. As lágrimas escorriam como as de uma criança que caiu de bicicleta. Tomei coragem e fui até a sala de espera onde todos já tinham recebido a notícia.
— A culpa é minha, vovó! Me perdoa!
— A culpa não é sua, querida. Se ela se foi, é porque... — ela não conseguiu continuar e chorou. Eu não conseguia falar mais nada, apenas chorava...
***
— Hannah, temos que ir. — Diz minha avó, pondo a mão em meu ombro.
— Sra. Wallace — Papai a chama. — Dê-me dois minutos com ela. Eu preciso.
— Tudo bem. Vamos esperar lá fora.
Eles saem e eu vou até o caixão. Tiro o véu que a cobre, e quando toco seu rosto, desabo outra vez. Não posso acreditar. Minha mãe, que eu tanto amo, está morta.
— Me perdoa, filha. Desde que descobrimos que sua mãe estava doente, eu deveria ter cuidado de você. Não devia ter deixado você tão sozinha, cuidando da casa e da sua irmã caçula, encarando tudo sozinha... Olha, se eu não fui o que você esperava, se eu não consegui ser o pai que você sempre sonhou, me perdoa. Mas, acima de tudo, quero que saiba que eu te amo, do jeito mais verdadeiro que alguém pode amar uma pessoa. Queria que tivéssemos uma vida perfeita. Não queria estar aqui. A culpa é minha. Por tudo o que passamos, por tudo o que sentimos, eu apenas quero te pedir perdão. Eu te amo, e vou continuar te amando até depois da morte.
Olho para ele, depois o abraço calorosamente. Em seguida, ele me dá a mão e vamos.
Todos andam à minha frente, os familiares carregando o caixão. Chegamos ao cemitério, onde o padre pronuncia algumas palavras. Fico à frente do caixão, e quando o padre pergunta se alguém quer dizer alguma coisa, meneio a cabeça em concordância.
— Mamãe era uma boa pessoa. Tão boa que não acreditava na maldade dos homens. Tão boa que chegava a ser inocente. Era uma ótima amiga, daquelas que entram em uma briga por você.
Sorrio levemente e olho para baixo, enquanto uma lágrima desce pelas bochechas.
— Nunca tive dúvidas de que minha mãe fosse um anjo. Para ser sincera, eu nunca vi suas asas. Mas nem por isso duvidei que elas existissem. Lembro que nos meus instantes febris ela não largava de mim, e sempre dava um jeito de preparar algo para que eu ficasse bem. Isso é coisa de anjo. E se antes eu não tinha dúvidas, hoje tenho certeza absoluta de que ela sempre foi um anjo. Ela continua me guardando. A diferença é que agora ela pode me acompanhar para todos os lugares.
"Tudo aquilo que sou, ou pretendo ser, devo a este anjo chamado mãe. Nunca me considerei uma boa filha, principalmente porque a perdi de vista por alguns segundos e a morte a levou. Bem... – Faço uma pausa, depois continuo, agora chorando. – Eu só tenho a agradecer. Obrigada por me dar a vida. Obrigada por ouvir minhas bobagens. Obrigada por ser a única e melhor amiga que já tive. Nós amamos você, mamãe. Eu amo você. Descanse em paz.
Não tenho condições de dizer mais nada. O vazio em meu coração é gigantesco.
O caixão está começando a ser baixado quando coloco a mão no bolso do sobretudo e de dentro dele tiro uma rosa de plástico. Meu pai e minhas tias estão jogando rosas e eu sou a última.
— Só mais uma coisa, mamãe. Trouxe algo que queria que ficasse com você.
Enquanto o caixão desce, eu me ajoelho na frente da cova, dou um beijo na flor e sussurro:
— Te amarei até a última rosa murchar.
Coloco a flor sobre o caixão de madeira escura e vejo uma gota de chuva cair sobre uma das pétalas. Ao mesmo tempo, todos atrás de mim abrem seus enormes guarda-chuvas pretos. Permaneço ajoelha, na chuva, mantendo os olhos fixos na rosa. Quando começam a jogar terra sobre o caixão, a chuva aumenta, me encharcando ainda mais. As pessoas começam a ir embora. Me levanto, secando os olhos.
— Vamos, papai. Vamos, vovó. Quero ir para casa.
— Como quiser, meu amor.
Deixamos o cemitério, o céu acima repleto de nuvens escuras, despejando uma cortina de chuva grossa e ininterrupta. É assim que eu imagino o resto da minha vida daqui para frente.
***
Tento me libertar destas lembranças de quase dois meses atrás, refletindo sobre a razão de terem ressurgido com tanta clareza. Ultimamente parece que tudo está fadado a dar errado, como se fosse castigo de Deus por algum erro cometido.
Sem ânimo nem coragem para encarar os problemas, me alojo em meu quarto. Quero desaparecer e esquecer tudo, mas o tempo está passando e tudo permanece igual. Não passo uma noite sem que, antes de dormir, eu chore agarrada ao travesseiro. Olho para o espelho e me vejo mais magra, com um aspecto depressivo e horrível.
Há meses tento unir forças para dar a volta por cima. Uso toda a minha determinação para conter as lágrimas, mas parece que nenhum esforço é suficiente. Além da dor que percorre minhas veias como um veneno, sinto uma raiva latente da ideia de não ser dona do meu próprio destino. Os dias passam, minha cabeça ainda fervilha com pensamentos e tudo continua na mesma. Às vezes, me sento na cama, procurando no escuro por algo ou alguém que tenha vindo infligir meu castigo.
Há um momento em que eu acordo e ouço o barulho da porta se abrindo. É a minha irmã caçula, agarrada ao seu urso de pelúcia e arrastando o cobertor pelo chão.
— Hannah?
— Maria Clara? O que faz fora da cama? Vem cá.
Em silêncio, Maria sobe na cama e engatinha até mim.
— O que foi? Teve outro pesadelo? Está com sede? Ou quer ir ao banheiro?
— Não. Não é nada disso.
— Então o quê?
— Não consigo dormir. Estou muito triste.
— Por quê? O que aconteceu?
— Papai não te contou?
— Não. O que ele deveria me contar?
Ela fica cabisbaixa.
— Anda, não fica assim. O que é? Pode falar para sua mana.
— Nós vamos embora amanhã.
Minha boca se abre involuntariamente.
— Como é? O que está dizendo? De onde tirou isso?
— Foi o papai mesmo quem disse.
— Eu não acredito.
— É verdade. Não estou mentindo.
— Tá bom. Me explique isso direito.
— Eu ouvi ele conversando com o vizinho do andar de baixo. Ele disse que vamos ser obrigados a ir morar em outro lugar porque não podemos mais morar aqui.
— E por que não vamos mais poder morar aqui?
— Porque o dono do apartamento, o Sr. Walter, quer que meu pai pague o aluguel, mas ele está sem dinheiro e não tem como... você sabe... pagar.
Levo alguns segundos para processar tudo.
— Isso quer dizer...
— Sim, Hannah. Como diria nossa mãe, estamos fritos.
***
Quando o encontro na sala de estar, ele está tomando café, com o jornal aberto na SEÇÃO DE EMPREGO. Interrompo sua leitura, começando por perguntar por que ele não me contou desde o começo que está devendo ao dono do apartamento e que corremos o risco de sermos despejados caso essa dívida não seja devidamente quitada. Ele fecha o jornal e, após um suspiro, me convida para sentar.
— Peço desculpas...
— Típico...
— Eu sinto muito por ter escondido isso de você. Não queria preocupá-la ainda mais. Já bastava ver você dando tudo de si para cuidar da casa e da sua mãe, que descansa em paz. Sinto vergonha em admitir que não fui capaz de dar a minha família uma vida ao mínimo digna. Se eu pudesse voltar no tempo, faria tudo diferente. Lutaria mais por vocês. Moveria céus e terra para salvar a vida da sua mãe. Escreveria uma nova história. Traçaria um novo destino. Quem sabe assim as coisas seriam diferentes...
— Mas já que não podemos fazer isso... o que vamos fazer, afinal?
— Não temos escolha. O Sr. Walter nos deu uma semana para deixarmos o apartamento. Só o que nos resta fazer é arrumar as malas e ir embora.
— Mas o que vai ser da gente? Para onde vamos?
— Vamos para o Canadá.
— O quê? Canadá?
— Sim. Há alguns dias entrei em contato com seu tio, o Travis, e contei para ele que sua mãe havia falecido. Ele ficou muito triste com a notícia. Aliás, foi a primeira vez em vinte anos que o ouvi chorar. Alexandra e ele eram grandes amigos desde a infância. Também contei a ele sobre nossa situação financeira e, sem hesitar, prometeu nos ajudar. Mas como ele é um homem muito ocupado e passa a maior parte da semana em reuniões de negócios e pendurado no telefone, ele não pode vir até nós. Portanto, temos que ir até ele.
— Meu Deus... Não pode ser. Isso não pode estar acontecendo.
— Hannah...
Começo a chorar desmedidamente. É como eu pensei. Tudo está fadado a dar errado, desde a descoberta da doença da mamãe até a sua morte e, agora, o despejo. Apesar de agora as chances de mudar de vida estarem batendo na nossa porta, elas estão cobrando um preço muito alto por um pouquinho de felicidade.
— Por que a vida é tão injusta comigo, papai? Por que vejo tudo dando errado para mim? O que eu fiz de errado?
— Meu amor, você não fez nada de errado. Por favor, não pense nisso. Não chore.
— Como não quer que eu chore? A vida me tirou as duas pessoas que eu mais amava. Primeiro o Adrian, depois a mamãe. Por que ela tinha que morrer? Por que Deus teve que levá-la?
— Não somos ninguém para questionar a vontade de Deus, filha. Sua mãe estava doente e até os próprios médicos a desenganavam. Só eu tinha um restinho de esperança... – Alberto faz uma pausa para se recompor. – Mas se Deus achou melhor levá-la embora, ele sabe por quê.
— Às vezes penso que Deus nos abandonou, que ele não se importa com a gente.
— Nunca mais repita isso. Deus jamais abandona seus filhos. Ele sempre está presente. E ele há de nos ajudar. – Ele faz outra pausa e segura minha mão. – Você vai ver, filha. A gente vai dar a volta por cima. Nossas vidas vão mudar a partir de agora.
Eu quero acreditar, voltar a confiar. Mas o peso dos últimos acontecimentos me leva a crer que minha vida não tem mais concerto. Isto é, minha situação financeira vai melhorar. Vamos poder comprar um imóvel em qualquer parte do mundo e viver confortavelmente pelo resto de nossas vidas, mas nada voltará a ser como antes. Teremos uma vida melhor, mas a que preço? Não basta ter perdido a minha mãe para o câncer, ter sido obrigada a abrir mão do meu grande amor para garantir a própria sobrevivência?
— Temos mesmo que ir?
— Eu sinto muito, meu amor, mas aqui não podemos mais ficar. Também não há como viver nesta cidade. Além do seu tio, não temos a quem recorrer. Lamento, mas não nos resta outra saída.
— Certo, mas e a minha vida? Minha escola? Meus amigos? O Adrian? Por que tenho que abrir mão de tudo isso? Me diz por quê?
— Olha, filha. Sei que não é fácil deixar quem a gente ama para trás. Mas são nossas vidas que estão em jogo. Em primeiro lugar, vem você e sua irmã. Não quero que nada lhes falte. Não quero que vocês sofram. Você tem que enfrentar isso. Tem que abrir mão desse amor para que sua vida possa mudar.
Suspiro profundamente, processando o que acabei de ouvir. O que mais posso esperar do meu destino?
— Escute. Por mais difícil que seja, te peço para ser forte e ter paciência. Vamos, enxugue essas lágrimas. Nossas vidas vão mudar. Confie em mim. Eu prometo que, um dia, nós vamos voltar.
Arregalo os olhos para ele, surpresa.
— Você promete?
— Te dou a minha palavra. Um dia voltaremos.
Me empertigo na cadeira e, com o dorso da mão, enxugo as lágrimas. Tento abrir algum sorriso, dando créditos às palavras dele.
Enquanto arrumo as malas, penso na promessa que meu pai fez. Não preciso dizer que isso me deixou muito feliz. Isso é um sinal de que tudo não está definitivamente acabado entre mim e Adrian, de que ainda há uma esperança luzente e motivos para acreditar que, apesar de tudo, temos chances de ficarmos juntos.
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