Para Sempre - A Escolha
11 A nova Larissa
Notas iniciais
Larissa
Eu o viu de novo.
Não é possível! Depois de oito longos meses, nossos olhares se cruzaram novamente. Passei tanto tempo tentando evitar isso e agora estou perdida.
Naquele momento eu senti raiva. Muita raiva. Tentei fingir que não o tinha visto. Olhei para baixo, tentando parecer distraída, mas não pude evitar. Foi mais forte do que eu.
É estranho revê-lo. Por um lado, sinto uma raiva profunda por ele ter me desprezado no passado, mas, por outro, não posso deixar de sentir um certo entusiasmo por estar de novo em seu caminho. Meus sentimentos por ele continuam intactos, assim como as feridas causadas por sua frieza. Mas tudo em mim mudou completamente, incluindo a forma de ver o mundo. Nada sobrou daquilo que um dia eu fui.
Também é estranho estar de volta ao lugar que costumava nomear como minha segunda casa, e onde, ironicamente, passei a pior fase da minha vida. Tudo está do mesmo jeito, com exceção do jardim, que agora está mais florido do que nunca. Os quartos continuam iguais: amplos, confortáveis e limpos. E o Salão Principal continua impecável como sempre. Tudo está perfeito.
Pena! Nenhum detalhe deste lugar me traz boas recordações. Só consigo lembrar de ter chorado até secar as lágrimas, de ter sido humilhada e rejeitada por todos, de ter me apaixonado perdidamente por alguém que nunca sequer olhou para mim, e de ter sido idiota o bastante para acreditar que com apenas uma carta de amor os sentimentos dele por mim mudariam. Foi o que eu fiz. Mas nunca obtive resposta. E nada mudou para mim.
***
Eis minha história: eu era uma garota comum, de quinze anos, que tinha se mudado para o Rio de Janeiro com meus pais a procura de uma vida melhor. Morava em Montes Claros, um município no norte de Minas Gerais. Minha casa era pequena e simples, pois meus pais pretendiam guardar dinheiro para comprar uma casa maior em São Paulo. Meu pai – Ângelo – trabalhava como pedreiro em uma construtora, e minha mãe – Bárbara – era babá. Meus dias eram todos mais ou menos parecidos: acordava, ia para o colégio, à tarde ajudava a mamãe com os afazeres domésticos e, à noite, fazia os deveres de casa e assistia à TV.
Sempre fui assim: extremamente tímida, fechada e recatada. Além disso, era desajeitada e não tinha boa aparência. Usava roupas largas para não notarem minha magreza; meus cabelos cor-de-palha viviam presos em um coque no topo da cabeça, com franjas cobrindo grande parte da testa; usava óculos enormes, ovais, com armação transparente. E, para finalizar, usava aparelho desde os 13 anos.
Eu adorava estudar. Sonhava em ser cirurgiã plástica. Mas nunca entendi por que meus pais decidiram me colocar num internato. Imaginava que tivesse a ver com o futuro brilhante que eles tanto almejavam para mim, o qual não tiveram devido às dificuldades financeiras. Eles se preocupavam muito com minha opção profissional. Queriam que eu me formasse em medicina e, do ponto de vista deles, aquela era uma oportunidade irrecusável, mas confessava que não era bem isso que eu tinha em mente.
Tentei falar com eles várias vezes sobre o assunto, porém eles já tinham tomado a decisão. E, por fim, não tive escolha senão concordar. Assim que nos mudamos para São Paulo, meus pais me enviaram para Crossfield, o internato mais bem falado da região. Foi quando meu pesadelo teve início.
Nunca tive muitos amigos. Na minha antiga escola – St. Hubertus –, as pessoas mal olhavam para mim, me achavam esquisita e sem graça e nunca me convidavam para sair. E, como se não bastasse essa situação desconfortável, eu era apaixonada pelo garoto mais bonito e mais popular de St. Hubertus. Ele tinha cabelos loiros iguais aos meus e olhos tão azuis como um lago cristalino. Seu nome era Adrian, e embora ele não tivesse reparado em mim na primeira vez em que nos esbarramos, eu jamais consegui apagar o rosto dele da minha memória. Mas nas diversas vezes em que tentei falar com ele, Adrian me ignorou e me evitou como se eu fosse portadora de um mal terrível. Ironicamente, sua frieza fazia o meu amor por ele crescer cada dia mais.
De certa forma, eu já estava acostumada a ser a 'Garota Estranha que Ninguém Suportava', mas a dor por não ter a atenção do garoto que eu amava estava ficando cada vez mais insuportável. Minha vontade era de agarrá-lo e beijá-lo, mas me preocupava em não parecer uma desesperada. Afinal, por que ele me odiava tanto?
Então, num belo dia do mês de abril, recebi a pior das notícias: Adrian e sua família iriam se mudar. Fiquei extremamente abismada. Trancada em meu quarto, chorei como nunca antes havia chorado. Me debati, esperneei. Naquela noite, tomei um longo banho, como se pudesse levar junto com a água toda a amargura cravada em mim, mas não foi suficiente. Então, uma ideia me veio à cabeça. Eu não poderia evitar que ele fosse embora, mas ele não iria para lugar nenhum sem antes saber tudo o que a garota que ele tanto odiava sentia por ele.
Sem me importar se faria alguma diferença ou não, escrevi uma carta, onde expus meus sentimentos da forma mais clara possível. Passei a noite em claro, imaginando o momento em que aquela carta chegaria às mãos dele. Perguntava-me o que iria acontecer depois que ele lesse. Embora fosse bastante provável que ele nem sequer abrisse o envelope, eu não queria pensar nisso. Ele tinha que ler. Tinha que saber da verdade.
Passei a semana seguinte esperando por uma resposta que nunca veio. Quando soube que Adrian já tinha ido embora, tive a certeza de que minha última tentativa fora um fracasso, assim como as demais. Mas, com o passar do tempo, a dúvida se ele leu a carta ou se simplesmente a rasgou ficou rondando a minha cabeça. Nunca soube de fato o que aconteceu, e nunca mais ouvi falar dele.
Quando as férias de julho chegaram, eu já estava pronta para embarcar na nova fase da minha pacata vida. Coisas boas aconteceram nos dois meses anteriores. Ganhei um diploma de mérito como uma das melhores alunas na disciplina de Física, o que arrancou lágrimas dos olhos dos meus pais. Meu avô, que sofria de tuberculose pulmonar, concluiu o tratamento e ficou completamente curado.
Também aconteceram coisas ruins. Meu pai sofreu um acidente e teve que ser afastado do trabalho. Por sorte, não foi nada muito grave. Minha mãe perdeu a irmã, vítima de um assalto a banco. Passaram-se várias semanas até um sorriso brotar de novo em seu rosto amargurado.
Mas, apesar de termos superado grande parte dos nossos problemas, eu não conseguia me livrar do maior deles. A lembrança daquele garoto continuava nítida em minha memória, importunando-me dia após dia. No fundo, eu ainda tinha esperanças de reencontrá-lo, mesmo sabendo que tais esperanças eram inúteis, que dificilmente voltaria a vê-lo, e que o certo a fazer era tentar esquecê-lo de vez. Assim o fiz.
A mudança para São Paulo com certeza foi uma das coisas mais difíceis que tive que fazer. Tive que deixar para trás os meus avós, as únicas pessoas que me amavam e me aceitavam como eu era. Também tive que lidar com a ideia de que ficaria os próximos cento e quarenta e cinco dias longe de casa e dos meus pais. Enfim... tive que me conformar com um mundo de coisas. Tudo para cumprir a vontade dos meus pais.
Embora algo dentro de mim me dissesse que em Crossfield as coisas não seriam diferentes, eu ainda tinha esperanças de que minha intuição estivesse errada, e que, sim, as coisas se tornariam melhores.
Mas não.
Ao cruzar o portão que dava acesso ao jardim, fui metralhada por olhares preconceituosos. As pessoas de lá, por razões que nunca pude entender, não toleravam gente do meu tipo. E as duas semanas seguintes foram suficientes para comprovar isso.
Para todos, eu era a estranha. Principalmente para as meninas, pois, diferente delas, eu não queria o que todas elas queriam (caras bonitos, saradaços e com os bolsos cheios de verdinhas), não gostava do que todas elas gostavam (maquiagem, bolsinha, espelhinho, brincos, etc.), e faziam questão de esfregar na minha cara que meus costumes e hábitos eram estranhos demais para elas me aceitarem no grupo delas. Como se eu tivesse o mínimo interesse em me misturar com um bando de patricinhas fúteis! Os uniformes eram todos iguais, mas por causa da minha maneira espalhafatosa de me vestir, eu tinha que aturar aqueles olhares maliciosos todo santo dia.
Eu pensava que, se soubesse desde o começo que o destino seria tão cruel a ponto de me levar direto para esse inferno, nunca teria dado ouvidos aos meus pais. Escolheria mil vezes continuar morando e estudando em Angra dos Reis, sendo a 'Garota Estranha que Ninguém Suportava' e tocando a vida sem ninguém para me dizer o que fazer. Ou, se dependesse de mim, nunca teria nascido.
Sem meus pais por perto e sem amigos, eu não tinha a quem recorrer. E depois de duas semanas vivendo um pesadelo que parecia não ter fim, decidi que não iria mais suportar viver naquelas condições. Não iria ficar parada esperando o ano letivo acabar para me livrar daquele tormento. Eu iria embora.
***
— Você é Larissa Oliveira, certo? – perguntou a garota de cabelos ondulados, segurando um envelope.
Estava no dormitório, sozinha, como sempre. Aproveitava o silêncio para pensar na melhor maneira de fugir daquele lugar, mas nada parecia ser bom o bastante para ser posto em prática.
De repente, ouvi a maçaneta ranger e, então, a porta se abriu. Levantei-me num salto. Eu dividia o quarto com outras duas garotas. Uma delas se chamava Elisa. A outra, Viviane. Ambas eram irmãs, mas uma não tinha absolutamente nada a ver com a outra. Elisa era uma menina rebelde, bastante problemática e que não sabia a diferença entre sensualidade e vulgaridade. Não ligava para nada do que as pessoas falavam e vivia colada com uma garota ruiva que, por sua vez, tinha fama de fofoqueira.
Viviane era o oposto total da irmã. Elisa odiava a cor rosa e Viviane, amava; odiava maquiagem e Viviane, idolatrava; tinha repulsa por homens e Viviane... bem, os adorava. Além de extrovertida, era humilde e tratava todo mundo com respeito e carinho. Assim como eu, gostava de estudar e pensava em se formar em Medicina. Mas, mesmo sendo a única pessoa naquele colégio por quem eu sentia alguma admiração, nunca considerei a ideia de que um dia nos tornaríamos grandes amigas.
— Sou – respondi.
— Acabaram de me entregar esta carta. Acho que cometeram um pequenino engano. Aqui está escrito "Para Larissa". Imagino que seja para você.
Dei um salto e peguei a carta. Era dos meus pais. Pela primeira vez em duas semanas, um sorriso se formou em meu rosto.
— Achei que nunca mais fossem me escrever.
— Quem? Seus pais?
— Sim.
— Eles moram longe daqui?
— Não. Moram aqui mesmo, em São Paulo.
— Numa casa amarela, de dois andares, com arbustos cheios de flores brancas, uma caixa de correio na entrada e um chafariz no meio do jardim?
A encarei boquiaberta. Como ela sabia de tudo isso?
— Como eu sei de tudo isso? Por mera casualidade, somos vizinhas. E, por mera casualidade, aquela casa onde vocês estão morando já foi minha.
— Espera um pouco. Somos vizinhas?
— É. Você mora em Moema, não é? Eu também moro lá. Ah, que falta de educação a minha. Prazer. Me chamo Viviane.
— Eu já sabia. Nós duas dividimos o mesmo quarto.
— Mas nunca nos apresentamos formalmente. De modo que, agora, é você quem tem que me dizer o seu nome.
— Você sabe quem eu sou.
— Sim, eu sei – disse ela, sem nunca perder a calma. –Mas duas pessoas civilizadas, como eu acredito que somos, antes de se tornarem amigas, se cumprimentam e dizem o nome uma para a outra. É o costume.
— Você disse... amigas?
— Disse. Por quê? Não quer ser minha amiga?
— Não é isso. É que... bem... eu nunca tive amigas. Isso está bem longe da minha realidade.
Baixei a cabeça, pronta para fazer o que eu fazia de melhor. Viviane se aproximou e segurou meu queixo.
— Não chore. Olhe para mim. Eu sei tudo o que você tem passado desde que chegou aqui. Saiba que não há nada que eu considere mais repugnante do que o preconceito. Não concordo com o que as pessoas falam e pensam de você. Elas não têm nenhum direito de ofendê-la. Nem a conhecem suficientemente bem para julgá-la. Eu também não a conheço, mas sei que você é uma boa pessoa. Os alunos desta escola se deixam levar unicamente pelas aparências. Não conhecem o significado das palavras humildade, respeito e tolerância. Odeio dizer isso, mas por aqui as pessoas chamam este lugar de 'ninho de cobras'. Felizmente, sabemos como lidar com elas. Mas, pelo visto, você não.
— Você está certa. Eu não sei.
— Mas eu sei o que você pode fazer. Não leve para o lado pessoal, mas meu conselho é que, se você quiser que as pessoas daqui tratem você com respeito, primeiro você tem que passar por uma transformação.
— Do que está falando? Que transformação?
— Vou ser bem sincera com você. Você precisa mudar um pouco o seu visual.
— Eu não preciso disso!
— Você se sente bem assim?
— Eu...
— Viu só? Seu olhar não mente. Você não se sente bem consigo mesma. É isso que falta para que as pessoas olhem para você com outros olhos. Você tem que se renovar. Não só fisicamente, mas também psicologicamente. – Fez uma pausa para pensar. – Já sei. Vamos fazer uma lista.
— Lista? Que lista?
— Uma lista de coisas que você precisa para mudar o seu visual. Depois vamos passar para a lista de coisas que você precisa para melhorar a sua autoestima. Mas, primeiro, vamos cuidar da sua aparência. Vejamos...
Fiquei quieta por alguns segundos enquanto tentava processar tudo o que Viviane estava dizendo. Não podia acreditar que aquilo estivesse de fato acontecendo comigo. Era a primeira vez, em muito tempo, que alguém me dirigia o olhar ou a palavra desde que havia entrado no internato. E fazer uma amiga assim tão rápido era a última coisa que eu poderia esperar.
— Você sempre usa roupas largas?
— Sim. Algum problema?
— Nenhum. Afinal de contas, gosto não se discute. Mas você nunca pensou em experimentar uma roupa mais... digamos... coladinha?
— Não gosto de roupas curtas ou coladas.
— Não gosta ou se preocupa com o que as pessoas vão pensar?
Viviane abriu um sorriso quando admiti que ela estava certa. Eu era magra demais e realmente me preocupava com o que as pessoas iriam dizer ou pensar caso me vissem usando essas roupas extravagantes, como minissaias ou vestidos justos.
— A partir de hoje, você vai eliminar definitivamente esse fantasma da sua vida. E, com isso, cumprimos o primeiro item da nossa lista. Agora... – Pigarreou. – Seu cabelo. Ele é lindo, mas precisa urgentemente de cuidados. – Andou ao meu redor, examinando meu cabelo. – Temos que aparar as pontas quebradiças e... hum... diminuir o tamanho dessas franjas. Muito bem... item dois, confere.
— O que vem em seguida? – perguntei, curiosa.
— O que toda mulher ama. Maquiagem.
— Eu sou mulher e não amo maquiagem.
— Você pode não gostar de maquiagem, mas esteja certa de que é uma coisa essencial na vida de qualquer garota ou mulher que se preze, seja para disfarçar imperfeições ou para dar o toque final a um visual glamoroso. Base e corretivo, por exemplo, são indispensáveis para garantir uma pele bonita e livre de imperfeições. Batom ou gloss... você precisa ter um desses dois para proteger os lábios e dar um pouco de cor à sua boca. Enfim... você precisa trazer um pouco de cor para a sua vida. Experimente um desses e você vai notar a diferença.
— E o quê mais? – perguntei, ansiosa para saber qual seria o próximo item da lista.
— Acho que você faria bem em trocar esses sapatos. Estão muito velhinhos. Não combinam com roupa nenhuma.
Quem disse que não combinam?, tive vontade de perguntar. Eles eram basicamente a minha peça-chave para combinar com tudo. Tudo bem que eu não entendia absolutamente nada de moda, mas para mim era assim e ponto final.
— Quem me garante que uma simples mudança de visual vai fazer alguma diferença?
— Você não vai apenas mudar a sua imagem. Vai melhorar a sua autoestima. Vai mudar a sua maneira de pensar e de enxergar o mundo. Vou fazer com que você passe a se sentir bem consigo mesma. Quando isso acontecer, você vai se sentir mais feliz e mais segura, o que, consequentemente, vai chamar a atenção das pessoas que estão à sua volta.
"Mas lembre-se que isso não é o mais importante. Acima de tudo, você tem que cuidar do seu interior. O que está do lado de fora muda a cada dia, a cada desejo e a cada nova necessidade. O interno pode até mudar por uma necessidade externa, mas esteja certa de que entrará numa tristeza profunda, pois a essência da alma nunca muda.
Ainda havia um detalhe que me incomodava.
— Isso tudo é muito bom na teoria, mas a verdade é que eu não sei se estou pronta para isso.
— Eu estava esperando que você dissesse isso, e por isso quero te dar um outro conselho. Mas esta é uma decisão que você tem que tomar por conta própria, e só vou poder ajudá-la se estiver disposta a seguir minhas instruções passo a passo.
Pensei por alguns segundos, depois assenti em concordância.
— Tudo bem. É natural que, depois de tudo que você passou, você não se sinta preparada para encarar toda essa gente de frente. Por isso, eu te aconselho a deixar o internato e concluir o Ensino Fundamental em uma outra escola. Dê um tempo para você se recuperar. Converse com seus pais. Escreva para eles falando da sua situação e eu tenho certeza de que eles não vão se opor.
— Mas e você? Nunca mais vou vê-la?
— Não é comigo que tem que se preocupar. É com você. Faça o que estou dizendo. Prometo que sempre manterei contato com você. Nunca vou te abandonar.
— Promessa de mindinho? – perguntei, estendendo o dedo mindinho.
— Promessa de mindinho! – disse Viviane, entrelaçando seu dedo mindinho no meu, exibindo um largo sorriso de quem conseguiu um grande prêmio.
— Obrigada.
— Não me agradeça, querida. Apenas se cuide. Isso é o suficiente.
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