Para Sempre - A Escolha
33 A grande noite
Sábado, 18:56 P.M.
Miguel
Só depois que estaciono a moto em frente à casa de Adrian é que eu reflito sobre a possibilidade de não contar com a presença do meu melhor amigo na festa. É a única coisa que pode fazer com que meu melhor plano vá por água abaixo. "Tanto esforço para nada", me imagino dizendo depois que eu tocar a campainha e Adrian me atender dizendo que não irá ao festejo.
Toco a campainha, esperando vê-lo de pijama e havaianas. A porta se abre de imediato, como se Adrian estivesse do outro lado só esperando que alguém tocasse a campainha. Quando o vejo, fico boquiaberto e dou um passo para trás. Adrian está usando uma camisa social de seda azul sob um belo terno bege e ostentando uma gravata verde-limão. Quando me vê, sorri.
— Uau! Para quem disse que estava na pior...
— O que você acha?
— O que eu acho? Está simplesmente demais, brother! Vai arrasar corações!
— Não acho que seja para tanto. Mas obrigado, mesmo assim.
— Nunca te vi bem assim. O que foi? Anda fazendo terapia?
— Não, mas minha mãe esteve falando comigo sobre isso uns dias atrás. "Situações drásticas pedem medidas drásticas", foi o que ela disse. Aí respondi que não era necessário, e prometi que as coisas iriam mudar daqui por diante.
— Mas você já tinha prometido isso antes.
— Eu sei, mas desta vez é sério. Me sinto mais confiante. Embora esta seja a segunda vez que a vida me dá uma rasteira, eu decidi que não vou mais ficar parado esperando que as coisas se resolvam por si mesmas.
— Mas, claro, você precisa de tempo. Eu te conheço.
— Exatamente. Você me conhece. Posso estar aprendendo a lidar com a dor, mas não sou nenhuma máquina. Tenho sentimentos. E quando os sentimentos são magoados, é preciso tempo até que todas as feridas sejam cicatrizadas.
— Me lembro que fui eu quem ligou te você para a festa da Larissa, mas não imaginei que quisesse ir. Quero dizer, você está aqui, pronto para ir, mas... Realmente quer estar presente na hora em que forem trocar as alianças? Realmente se conformou em perder a Larissa?
— Eu não a perdi. Afinal, eu nunca a tive.
— Mas você está mesmo disposto a abrir mão dela? Você disse que ela te ama. Por que não conta para ela que você também a ama? Você nunca sabe o que pode acontecer.
— Eu sei, sim. Já fiz o teste. Comprovei que ela ainda gosta de mim, e que corresponde ao meu amor. Mas ela não está disposta a largar tudo para ficar comigo. Ela prefere o Victor. Não sei porque, mas se é com o filho da mãe do Victor Taylor que ela quer ficar o resto da vida, azar o dela. Não vou mais me meter.
— Tem certeza, Adrian?
— Tenho. E quanto à sua primeira pergunta, até agora eu não sei dizer como foi que me convenceu a ir nessa festa.
— Eu te digo como: eu disse que teria uma surpresa.
— Ah, uma surpresa. Claro, me lembro. Uma roupa cara, um penteado que levou horas para ficar pronto... Tudo para matar a minha curiosidade. Mas quer saber de uma coisa? Depois do que eu vivi, nada mais nesse mundo é capaz de me surpreender.
— Essa é sua resposta. A minha é a seguinte: a noite promete, meu amigo. Confie em mim. Você não vai se arrepender.
— Você disse a mesma coisa por telefone. Por acaso está sabendo de alguma coisa que eu não sei?
— Quem, eu? Não. Por quê?
— Não sei. É que você fala como se soubesse que alguma coisa fosse acontecer. Vem cá, você não está me escondendo nada, está?
— Garanto que não.
— Vou fingir que acredito.
— É sério. Eu...
Adrian começa a rir. Antes que eu possa dizer algo mais, ouço passos atrás de mim.
— Filho, você deixou a televisão ligada. E mal tocou na comida.
— Foi mal, mãe. Não estava com muita fome.
Érica se aproxima, girando as chaves do carro no dedo. Também está muito elegante, num vestido verde-água que realça o tom da sua pele morena. Tem o cabelo apanhado num belo coque, as pálpebras tingidas de violeta, os lábios pintados de carmim e os pés metidos em sandálias de tiras.
— Estamos um pouco atrasados.
— Não acho que o suficiente para nos barrarem na porta — murmura Adrian.
— Se fizerem isso, eu mudo de colégio — complemento com uma risada.
Érica, sem dar atenção ao que estamos dizendo, se dirige à garagem, abre a porta e liga o carro. Enquanto entramos, penso em tudo que Adrian me disse, imaginando se foram palavras sinceras ou se foi tudo da boca para fora.
De qualquer maneira, estou contente. Sem querer deixo escapar um sorriso indiscreto, e Adrian olha para mim como se pensasse que não ando bem da cabeça. Mal sabe ele que o motivo para eu estar sorrindo é a surpresa que Roberta e eu preparamos para esta noite. Mal posso esperar para a hora do noivado chegar, para testemunhar o espanto brotando no rosto dos convidados diante dos meus olhos.
***
Crossfield está muito mais vivo e iluminado do que de costume. Não evito ficar surpreso ao ver a fachada do colégio totalmente tomada por luzes de néon. Há também muitos carros estacionados em frente ao jardim, de modo que não está sendo muito fácil encontrar uma vaga para deixar o carro. Observo os carros enquanto Érica procura espaço em meio ao mar de automóveis. Respiro aliviado. Não há nenhum ONIX LTZ PRETO entre os demais. O plano não falhou.
Depois de cinco minutos, Érica finalmente encontra uma vaga e estaciona. Sai, ligando o alarme.
— Pelo visto vai ser um festão.
— A senhora não faz ideia — diz Adrian.
Seguimos todos para o interior do colégio. Faz alguns minutos que Roberta me enviou uma mensagem, dizendo que tudo está maravilhoso, perfeito.
E realmente está. Assim como o exterior, o interior do internato está bem decorado e iluminado. As paredes do corredor que liga a entrada ao Salão Principal estão preenchidas com as fotografias da aniversariante, desde o nascimento até os dias atuais. Adrian as observa atentamente, acompanhando a fantástica evolução da garota que ele ama, percebendo a óbvia diferença que há entre as fotos que foram batidas antes e depois da sua incrível transformação.
O salão também está impecável. O teto abobalhado brilha onde foi colocado um globo de cristal com luzes coloridas em seu interior. Há três enormes filas de mesas de vidro — cobertas com toalhas de cetim vermelho, sobre as quais repousam vasos finos de vidro com rosas vermelhas e velas acesas —, com cadeiras de madeira branca perfeitamente organizadas e espalhadas pelo recinto. Os arranjos florais são amarelos e púrpuras. As paredes estão cobertas por cortinas de seda branca; nas colunas, buquês de jasmins estão amarrados com fitas roxas, e um tapete vermelho se estende pelo salão até a escadaria, decorada com flores brancas; no canto esquerdo do salão, um palanque, sobre o qual há um microfone e duas caixas de som, uma de cada lado; e, ao fundo, a mesa principal, coberta por um tecido vermelho — provavelmente seda ou cetim.
Uma sinfonia suave sai dos alto-falantes que estão dispersos pelo salão. Convidados riem e bebem champanhe. Garçons andam de um lado para o outro servindo aperitivos. Todos estão muito bem vestidos. Enquanto as mulheres usam vestidos longos, alguns de seda, outros com tiras de veludo e renda delicada, os homens ostentam ternos de várias cores.
— Caramba. Olha só para isso. Que máximo!
— Isso sim é o que eu chamo de aproveitar bem os espaços.
Continuamos a adentrar o salão, boquiabertos. Tudo está perfeito, como Roberta garantiu. Isso me leva a questionar quanto dinheiro foi investido para tornar realidade o sonho de Larissa. Dinheiro para ela não é problema, isso se nota. Mas o quão valeu a pena ter investido tanto, pondo em questão o fato de que Larissa não está tão feliz como deveria estar? Adoraria estar diante dela para lhe perguntar isso.
— Mas que cabeça a minha — diz Érica, batendo com a palma da mão na testa. — Esqueci o presente da garota no carro. Esperem um segundo. Volto já.
— Claro, mãe.
Érica se afasta.
— Que horas são agora? — pergunta Adrian.
— São sete e cinco. Por quê?
— Que horas você acha que termina?
— Lá pelas nove, eu acho.
Adrian suspira. Está claro que não se sente à vontade aqui. Imagino o porquê. Está tudo tão belo, tão bem organizado, mas nada disso é para ele. Não é ele o escolhido. É apenas um convidado, um alguém a mais na multidão, uma testemunha. Tudo isso — a iluminação, os arranjos, a comida —, sem dúvida, foi preparado com amor e bastante cuidado. Mas nem mesmo esse amor lhe pertence.
Olho ao redor, procurando Larissa na multidão. Mas nenhum sinal da garota.
Até então.
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