Para Sempre
6 Recomeço
Três dias. Se passaram três dias desde que beijei Steve e, nossa, eu não conseguia tirar aquilo da cabeça. O que me irritava, é que ele não tinha me ligado depois. Nenhuma vez nesses três dias. Fiquei extremamente confusa com isso, pensando que talvez ele não tivesse gostado do meu beijo. Eu poderia ter babado demais, não sei. Eu estava me mordendo por dentro.
Talvez eu devesse ligar.Não.Sim.Droga!Peguei o celular e liguei pra ele. Tocou uma vez, duas, três...caixa postal. Ah, sim. Ele não estava mais querendo falar comigo. Babaca! Todos os meninos são assim? Passou a semana toda correndo atrás de mim e agora que conseguiu me beijar me joga fora. Liguei de novo para ter certeza. Caixa postal.Joguei meu celular de lado e fui fazer alguma coisa. Já tinha voltado da escola, mas eu não conseguia dormir. Eu só queria vê-lo de novo.Certo, eu teria que superar isso. Superei uma traição, então eu posso superar isso. Eu sou capaz. Sou taurina, sou forte.Fiz minha lição, depois fui comer alguma coisa. Minha mãe tem que parar de fazer macarrão para o almoço. Que merda. Comi aquilo mesmo assim, era melhor do que nada. Lavei a louça, arrumei meu armário que estava mais parecendo um ninho do que de fato um armário, depois fui tomar banho. O tempo passou voando, já era quase de noite quando acabei de fazer todas as minhas obrigações. Olhei para o meu celular, com a esperança que tivesse alguma ligação ou uma mensagem. E tinha!Mas não era de Steve, era do Rafael.“Julie, queria conversar com você. Podemos nos encontrar?”Li aquela mensagem várias vezes para ver se era aquilo mesmo. Essas coisas de “queria conversar” nunca é coisa boa.“ Não tenho nada para conversar com você.” Respondi. E eu não tinha mesmo.“ Por favor”Revirei meus olhos. Cacete! Bom, não iria fazer nada agora, conversar com ele não faria mal, até porque eu poderia ser bem grossa e descontar minha raiva nele. Seria ótimo.“ Onde você quer me encontrar?”“ Pode ser na sua casa?”Demorei para responder porque precisava consultar minha mãe. Liguei para ela, dizendo que Rafael queria conversar comigo e que ele queria que fosse aqui em casa. Ela disse que estava tudo certo, e que iria chegar uma hora mais tarde para nos dar um tempo. Minha mãe realmente estava achando que eu iria voltar com ele. Bobinha.“ Venha logo que eu não tenho muito tempo. Sou muito ocupada, Rafael. Você sabe.”O interfone tocou e eu pedi para que Rafael subisse. Não demorou muito para que a campainha tocasse. Abri a porta e fiz aquela cara de “ o que você quer, seu filho ta puta?”– Oi – ele disse.– Oi – eu disse de volta. Me parece que essa conversa vai ser bem rápida. Não vou aguentar ficar conversando com ele por muito tempo.Ele entrou e ficou de pé, me olhando.– O que é?– Não imaginei que você fosse aceitar conversar comigo.– Eu tenho um coração muito bom. Agora fala, eu não tenho muito tempo, Rafael.Ele deu aquela engasgada básica antes de começar a falar.– Eu acho que você ainda não me desculpou.Bela observação, pensei.– Por que acha isso?Me encostei na parede perto da porta, porque caso ele falasse alguma coisa idiota, era só abrir e manda-lo embora.– Você não me olha mais. Na escola você nem...me nota.Fiquei chocada com aquilo. O que ele estava querendo?– Rafael...você terminou comigo. Por que acha que eu ficaria te olhando na escola?– Você não gosta mais de mim? Isso... isso é impossível. Não faz muito tempo que... – ele olhou para baixo. – Bom, você sabe.– Hã. Não faz tempo que você me traiu. E aí?– Eu quero voltar.Meu mundo parou na hora. MAS. QUE. PORRA! Como assim ele me trai, fala toda aquelas coisas de que “não temos química” e depois vem aqui na minha casa dizer que quer voltar comigo?Fiquei olhando para a cara dele, sem dizer nada.– Você quer voltar – fiquei repetindo isso várias vezes. – E por que eu voltaria pra você?– Olha, ninguém sabe do que aconteceu, Julie. Você não vai sair dessa história como se fosse uma babaca. Eu gosto muito de você..– Não foi isso que você disse.– Eu nem sabia o que eu estava fazendo. É a crise dos dezoito anos!- Rafael é repetente, por isso continua na escola. – Fora que você nunca transava comigo quando eu queria. Eu estava louco, pelo amor de Deus. Eu quero muito que você me perdoe e volte comigo.Eu parei de ouvir quando ele disse que eu não transava com ele quando queria. Eu já estava ficando irritada.– Como é?– Eu quero mesmo voltar.– Você disse que eu não transava com você quando...– Julie...– Rafael, o que você acha que eu sou? Eu não sou obrigada a ficar roçando em você só porque quer. Isso não vai mudar. Vai querer voltar mesmo assim?– Estou disposto a aceitar tudo.Meu celular, que estava em cima do sofá, começou a tocar. Fui atender e vi o nome “Srece” na tela. Então agora esse filho da puta quer falar comigo? Não atendi.– Sobre o que estávamos falando? – Me virei para Rafael.
– Julie, eu...eu sei que eu errei feio. Quero muito que você me perdoe. Ou, já que você não vai voltar a ser minha namorada, pelo menos não quero que me odeie.Não sabia o que dizer. Eu não o odiava.Meu celular ficou apitando, dizendo que estava recebendo mensagem. E eram muitas. Dei uma olhada para ver de quem eram as mensagens. Todas de Steve. Não li nenhuma, apenas joguei novamente o celular no sofá.– Pensa sobre o assunto – Rafael disse.– Não preciso pensar em nada. O que você achou? Que vindo aqui fazer essa cara de cachorro abandonado e falando um monte de bobagem, eu iria ficar com pena e perdoar você por tudo o que fez? E ainda está falando em voltar! – Dei uma risada sarcástica. – Mas não, eu não odeio você, Rafael.– Você precisa de um tempo. Eu sei que você sempre foi apaixonada por mim. Esse sentimento não pode ter acabado assim. Você está chateada, mas acho que você realmente deveria pensar sobre isso. Me da mais uma chance. Eu sou humano. Eu erro.O interfone tocou na hora em que eu iria pedir para Rafael ir embora. Fu atender e o porteiro me informou que um cara chamado Steve estava no portão, e que queria entrar. Não podia esconder de mim mesma que eu estava feliz por ele ter vindo até aqui, mas eu estava com raiva por ele não ter me atendido e ficar três dias me ignorando. Não vou ficar correndo atrás dele, se é isso que está achando. Pedi para que ele subisse.– Quem era? – Rafael perguntou. Como se fosse da conta dele.– Rafael, eu vou pensar em tudo, está bem? Agora, se você não for se incomodar, e mesmo que se incomode, vai embora.– Tem certeza que quer isso?– Eu preciso de um tempo.– Quanto tempo?– Não sei!– De qualquer jeito, eu vou estar te esperando.Ele vai em direção a porta, e na hora que abre, da de cara com Steve – fazendo menção de apertar a campainha.Steve olha para mim, que estou atrás de Rafael, empurrando-o para fora, depois olha para ele, e para mim de novo.– Acho que cheguei na hora errada – e ele se vira para ir embora.– Não! – Empurrei Rafael para fora e agarrei o braço de Steve. – Chegou na hora certa.– Quem é ele, Julie? – Rafael perguntou, se aproximando.– Steve – os dois começaram a me ignorar para ficar marcando território. Essas coisas ridículas que os homens fazem quando tem outro na área. – E você deve ser o ex-namorado dela.– Isso mesmo.– Rafael, não é?– Então ela já comentou sobre mim.– Falou muito mal, mas sim, comentou.– Estamos no hall, por favor, falem baixo.– Você está com outro cara, Julie – Rafael olhou para mim. Ele parecia estar bem irritado. – Por isso que não quer voltar pra mim.– Talvez seja isso mesmo – Steve disse. – Ou porque você traiu a Julie com duas prostitutas.– Não eram prostitutas. Eram strippers.– Uau – eu disse baixinho.Os dois eram praticamente da mesma altura, mas eram bem diferentes. Coloquei a mão na cintura, esperando aquele showzinho terminar.– Julie – Rafael continuou olhando para mim.– Rafael, vai embora – pedi. – Depois eu converso com você, apesar de que não há necessidade. Não vamos voltar.– Você está com outro. Entendi.– O que você esperava? – Steve também estava ficando irritado. – Que ela fosse ficar sentada esperando você se desculpar?Ou pior, que ela fosse se arrastar aos seus pés?– Vai se foder, cara! Você não tem nada a ver com esse assunto.– Rafael, eu não vou pedir pra você ir embora de novo. Até porque se eu pedir, eu posso quebrar outro copo na sua cabeça.– Tudo bem. Eu vou, mas eu volto a conversar com você, Julie.Rafael desceu pelas escadas, deixando eu e Steve sozinhos. Olhei para a cara dele, depois dei as costas e entrei no meu apartamento. Ele veio atrás de mim, fechou a porta e disse:– Que cara é essa?– Onde você estava? – Perguntei, cruzando os braços.– Como assim, onde eu estava?– Ah, desculpa. Não temos nada um com o outro, eu não deveria estar perguntando isso. Você não me deve satisfações – eu disse isso muito rápido. – O que está fazendo aqui?Ele suspirou.– Achei que você quisesse...– Julie, eu fui acampar com meu pai, não levei o celular – e abriu um sorriso.- Achou que eu iria te ignorar?– É o que vocês fazem. Achei que talvez eu tivesse beijado mal e você não fosse mais querer me ver.– Então você quer isso – o sorriso dele ficou ainda mais largo e bonito. – Cacete, Julie. Eu fiquei pensando em você todos esses dias.Tinha uma pessoa dentro de mim gritando de felicidade.– Beijado mal – ele repetiu o que eu disse. – Eu estava louco pra te beijar de novo.– Estava?– Estou.Nossa, eu podia sentir o clima ficando diferente agora.– Então porque está parado aí?Ele deu risada e num piscar de olhos eu estava em seus braços, sendo envolvida pelo calor de seu corpo. Tudo começou muito devagar. O movimento lento da boca, o suave toque das linguás, mas logo nossos corpos começaram a se movimentar num ritmo intenso, quase que involuntário. Ele puxou meu cabelo para trás, beijando meu queixo, descendo para o pescoço. Ainda nos beijando, ele foi me levando em direção ao sofá. Ele me jogou entre as almofadas, e rapidamente estava por cima de mim, me beijando. Meu sexo procurava pelo corpo dele, e o dele buscava pelo meu. O movimento erótico dos nossos corpos me deixaram sedenta por aquilo. Por sexo. Eu conseguia sentir, através da calça, a ereção de Steve. Aquilo estava me deixando louca.– É muito cedo – eu disse, quando a mão dele estava começando a entrar por debaixo da minha blusa.Ele trincou a mandíbula.– Eu sei, eu sei – e encostou a testa na minha. – Me empolguei. Caralho, Julie. Eu estou louco para te tocar.Dei risada.– Eu também.O corpo dele relaxou, ele se ajeitou no sofá e ficou deitado em cima de mim, com a cabeça apoiada na minha barriga.– Minha mãe deve estar chegando – eu disse.– Então é melhor eu ir embora.– Não precisa ir.– É melhor eu me arrumar. Não quero que ela chegue aqui e me veja assim com você. Vai ser constrangedor para ela. – Ele da uma pausa. — O que o seu ex estava fazendo aqui? Entendi que ele estava querendo voltar mas...– Era só isso. Mas eu não vou voltar para ele.– Se fizesse isso, eu te jogaria do prédio.Dei risada.– Fiquei muito brava com você. Nossa, eu estava me mordendo para falar com você e nada de atender o telefone ou mandar uma mensagem.– Daí decidiu fazer birra e não me atendeu ou me respondeu quando voltei.– Exato.– Boba.– Mas que bom que não nos falamos nesses dias. Intensificou o desejo – e fez cócegas na minha barriga. Apertei a mão dele para que parasse.– E por que veio até aqui? – perguntei.– Eu estava aqui. Te liguei para que descesse, mas como não atendeu, eu resolvi subir. Mas eu deveria ter ficado no carro, agora eu estou com muita vontade de transar. Vou para a minha casa, é melhor.Eu não conseguia ficar constrangida com isso. Achava tudo muito engraçado, porque eu estava sentindo a mesma coisa.– Então tudo bem. É melhor que vá mesmo – nos levantamos e na mesma hora minha mãe chegou. Ficou nos olhando, um pouco nervosa. – Oi, mãe. Esse é o Steve, aquele com quem saí daquela vez.Ela demorou um pouco para responder. Eu sabia que na verdade ela estava analisando cada centímetro dele.– Olá, Steve.– Olá Sra Scott.– Ele já está indo embora, não é?– Sim – ele me olhou com um sorriso brincalhão.Acompanhei Steve até o elevador e fiquei esperando o mesmo chegar no meu andar.– Se você me ignorar de novo, eu acabo com você – eu disse.– Eu vou esperar isso acontecer. Estou louco para que acabe comigo.Dei um tapa no seu ombro.– Idiota!– Pode ficar tranquila. Eu seria louco se te ignorasse – ele disse. O elevador chegou e ele entrou. – Quando vamos nos ver?– Amanhã.– Vou te buscar na escola – ele disse. – Me passa o endereço por mensagem.Abri um sorriso enorme.– Esta bem.Ele apertou o botão e o elevador se fechou, me deixando completamente boba no hall. O que esse menino estava fazendo comigo era...empolgante. Eu nem me lembrava de que fora traída, era como se ele fosse um recomeço. E ele seria. Eu estava completamente aberta para isso.Voltei para casa, sorrindo. Minha mãe estava na porta, observando.– O que foi?– Você transou com ele, Julie?– Mãe! – Empurrei ela para dentro e fechei a porta. – Lógico que não.– E o Rafael?– Quis voltar comigo, mas eu não sou idiota.– Ainda bem. Mas quem é ele?– Ah, mãe, aquele dia em que eu fui atrás de Rafael, Steve me atropelou com uma bicicleta, pegou meu numero, desde então estamos conversando – dei de ombros.
– Ele parece mais velho.–Ele tem vinte e um anos.– Muito velho, Julie!– Só quatro anos.Ela me olhou desconfiada.– Gosto dele, mãe.– Só tome cuidado. Mas ele me pareceu ser um bom menino. Aliás, ele é familiar para mim.– Os pais dele estavam no almoço da vovó e ele também foi.– Ah, então são de família boa. Achei que fosse mais um desses “zé ninguém” – ela disse.– Eu vou para o meu quarto, tenho coisas para fazer – menti. Só não queria ficar falando sobre isso com a minha mãe. Nem eu sabia se isso daria certo.Mas não custava nada tentar, não é mesmo?
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