Para Sempre

13 Dias comuns


Steve tinha ido embora pela manhã para estudar para uma prova da faculdade. Fiquei o fim de semana todo com minha mãe aproveitei esse tempo para dizer ao meu pai o que aconteceu. Ele me ligou na hora e tive que tranquiliza-lo.

Na escola ninguém parecia saber de nada ainda. Decidi não contar para meus amigos porque eu não sentia a necessidade de falar. Eu não queria fazer draminha e ficar trancada no meu quarto, muito pelo contrário. Aliás, eu nem estava tão mal assim, a única coisa que me abalava era imaginar que Rafael estava preso por ter me sequestrado e ter matado um cara. A realidade era uma coisa estranha e que não entrava na minha cabeça. Pra mim era como se tivesse sido um pesadelo, como se não tivesse sido real.

Mais foi.

Quando voltei para casa Steve me ligou e conversamos durante um tempo, depois eu fui deitar. Acabei acordando quando já era de noite e minha mãe já estava em casa. Fiz meus deveres e tomei um banho. Dormi novamente até o dia seguinte.

Na escola eu fui chamada na diretoria e eu já sabia o motivo. Eles iam querer saber direito o que aconteceu e se meter na vida pessoal dos alunos. A escola amava fazer isso. Expliquei para a diretora o que aconteceu com poucos detalhes, ela não precisava saber exatamente o que tinha acontecido. O que me irritou foi que no dia seguinte muitas pessoas já estavam sabendo e me olhavam de forma estranha. Muitas vieram falar comigo e tentar me confortar, mas outras só ficavam comentando. Decidi ignorar.

O quarto bimestre já havia sido iniciado e eu tinha algumas provas para fazer. Logo eu me formaria e daria adeus para a escola e um olá para a faculdade.

Acabei decidindo contar para minha mãe que eu estava falando com meu pai.

– Mãe, preciso te dizer uma coisa.

– Diga, querida.

– Estou tendo contato com meu pai.

– Seu pai? – ela pareceu surpresa. – George?

– Sim, mãe. George Scott. Estamos conversando sempre por email e telefone. Espero que não fique brava mas é que você nunca me falou dele. Já sei da história que você era uma relação fora do casamento.

– Pensei que você fosse me achar uma pessoa horrível se eu te contasse.

– Então não está brava?

– Não posso impedir de você falar e conhecer seu pai, Julie. Se está feliz, então eu estou também.

No outro dia durante a tarde, Steve veio em casa e ele estava cheio de medo de me tocar, mas garanti que não estava cheia de traumas e que não me faria mal. Só quando ele me tocou que eu vi o quanto estava viciada nele. Pedi para que ele nunca parasse de me tocar e ele me prometeu isso.

Quando completou duas semanas desde o sequestro, eu recebi a noticia de que meu pai estaria vindo para o Brasil e que queria muito me ver. Contei para minha mãe e ela não ficou muito animada com a ideia mas acabou permitindo – e mesmo se ela não permitisse eu iria. Ele estaria aqui em uma semana e ficaria hospedado em um hotel. Ele fez questão de vir para cá só para me conhecer então ficou num hotel próximo.

Liguei para Steve para contar.

– Meu pai vai vir para cá. Eu vou conhecer ele, Steve! – Eu estava explodindo de felicidade.

– Sério?Uau! Isso é demais, Julie.

– Eu sei, eu sei.

– Sua mãe ficou como?

– Ah, ela deu a condição de que ela teria que ir junto, mas até aí tudo bem. Vou precisar de alguém do meu lado.

No colégio eu não parava de pensar nisso. Eu ia conhecer meu pai em uma semana! Estava tão ansiosa que mal conseguia prestar atenção nas aulas.

E como a vida é um inferno, o tempo passou devagar. A semana parecia uma eternidade. Dei uma saída com Steve na quarta- feira e fomos jantar alguma coisa num restaurante legal.

O telefone dele tocou algumas vezes mas nunca atendia. Olhava para o visor e desligava na hora, parecia nervoso.

– Quem é? – perguntei.

– Ninguém.

– Steve.

– O que?

– Quem era?

Ele suspirou.

– Mary – ele respondeu. – Minha ex-namorada.

– O que ela quer com você?

– Não sei e nem quero saber, por isso não atendo.

– Por que vocês terminaram?

– Ela era ridícula, chata...eu nem de fato gostava dela. Terminamos porque foi preciso.

– Ela é bonita?

– Por que você quer saber dela?

– Bom – tentei explicar. – É bom saber de ex. Nunca se sabe.

– Boba – ele deu um sorriso. – O que você vai querer?

Confesso que fiquei incomodada em saber dela mas como ele disse que era ridícula então logo imaginei que ele realmente não gostava dela ainda – ou que guardasse algum tipo de sentimento.

– Um guarana e...o que é isso? Ah, eu quero um salmão.

Steve pediu o prato dele e demorou bastante para chegar. Comemos e depois fomos para casa. Tropecei na calçada do meu prédio e ralei meu joelho.

– Porra, Julie – Steve se abaixou para ver o estrago. – Você não pode andar sem apoio de ninguém.

Até tinha estranhado que nesse tempo eu não tinha me esfolado ainda.

Dei risada e ele também.

– Vamos subir e lavar isso daí – ele me ajudou a levantar.

Fiquei sentada na privada e ele, com um pano e um remédio na mão, limpou com cuidado meu machucado. Ardeu um pouco mas eu nem ligava mais pra isso. Ele se levantou e deu um beijo na minha cabeça e depois na testa.

– Você é demais – ele disse. Abriu a carteira e mostrou a foto que eu tinha cortado. – Vou ter você pra sempre comigo agora, mesmo quando não estiver.

– Não ando com carteira mas enfiei uma foto nossa num porta retrato do lado da minha cama e a outra metade dessa foto está grudada no espelho do meu quarto.

Sorri para ele e ele sorriu de volta.

– Amo quando você sorri.

– Eu é que amo seu sorriso, Steve. Você nem faz ideia. Aliás, eu amo cada pedacinho seu – belisquei o braço dele. – E não quero mais nenhuma ex ligando para você. Steve, você é só meu.

– Ainda ta pensando nisso?

– É claro.

– Eu sou todo seu, Julie. Eu me entreguei completamente para você, saiba disso. Até acho que aquela cartomante acertou.

– Achava que essa história de cartomante era papo furado só pra me conquistar.

– Não, é sério. Ela disse que entraria uma menina na minha vida e que seria algo devastador.

– Uau – eu disse.

Ele deu risada.

– Você realmente tem um poder sobre mim. O que você me pedisse eu faria, se você me deixasse eu nem sei que poderia acontecer comigo.

– Steve, eu não vou te deixar. Nunca.

– Nunca?

– Nunca.