Para Sempre

5 Coincidência


Quase fiquei cega com a claridade da luz que entrava pela janela. Fui abrindo meus olhos vagarosamente para notar que eu não estava no meu quarto. Eu. Não. Estava. No. Meu. Quarto. Entrei em desespero.

Ainda usava a mesma roupa da noite seguinte. O que aconteceu? Onde eu estava? Pulei da cama, meu coração estava acelerado, minha respiração descontrolada.

O quarto tinha a parede pintada de azul, o chão era de carpete claro, tinha um armário grande, escrivaninha de madeira e uma cama muito confortável – isso eu não podia negar. Era um quarto de menino, com certeza. Nem pensei em revirar as coisas para descobrir de quem era, apenas abri a porta do quarto com brutalidade e saí dali. Precisava achar meu celular. Só isso.

Dei de cara com a escada. Desci aquilo desesperadamente, dando de cara com Steve no final dela. Estava sem camisa, apensas com uma calça de moletom preta. Os olhos pareciam mais verdes do que antes e ele estava assustado. Fiquei paralisada. O que aconteceu para eu vir parar aqui na casa dele?

Ah, não.

Várias possibilidades passaram como filme na minha cabeça. Ele só pode ter feito coisas ruins com o meu corpo. Sentei-me na escada e comecei a soluçar de tanto chorar.

Ele se sentou do meu lado, mas eu estava com tanto medo que comecei a me debater, com medo que ele me tocasse.

– Julie – ele tentava me acalmar, mas eu só gritava e xingava. – Julie!

– Seu monstro! – Eu batia nele sem parar. – Eu sabia desde o começo que você queria fazer isso! – E eu chorava como se estivesse sentindo dor.

– Fazer o que?

Funguei.

– Como eu fui parar no seu quarto!? – E me levantei, subindo novamente as escadas indo em direção ao quarto. Precisava procurar meu celular. – COMO?

– Eu te levei pro meu quarto...

Caí no chão, totalmente sem forças. Eu nunca imaginei que um dia fosse passar por isso. Meu corpo...eu tinha sido violentada. Não conseguia falar, pensar, fazer qualquer coisa. Eu estava desesperada, eu estava com muito medo.

– Julie, qual é o seu problema? – Ele ficou parado em frente a porta do quarto. Eu rolava no carpete e chorava muito. Dava até para ver uma mancha de baba que eu deixei ali.

– O meu problema? – Eu tremia. – Você me levou para o seu quarto...como...você...acha...que eu estou? Você...- não conseguia falar. Respirei fundo, engoli o choro e disse: — Você me estuprou!

Dito isso voltei a chorar e tremer. Steve se abaixou do meu lado mas eu me recusava a olha para a cara dele.

– Seu filho da puta ordinário – dei um tapa na cara dele.

Steve me pegou pelos braços e me chacoalhou.

– Garota, o que você acha que eu sou!? – Ele gritava também. A voz ficando mais rouca que o normal. – Não diga uma coisa dessa, menina. Eu nem toquei em você – e me jogou para o lado, voltando a ficar em pé. – Você desmaiou naquela festa, devem ter colocado alguma coisa na sua bebida, sei la. O garoto que estava com você quis te levar lá para cima, mas um outro menino, acho que seu ex namorado, não deixou e eu te levei para a minha casa. Não podia largar você ali.

Parei de chorar na hora. Funguei, coloquei o cabelo atrás da orelha, já ficando calma.

Enguli em seco. Agora eu estava me lembrando de ter bebido alguma coisa que aquele menino me deu e depois ter passado muito mal.

– Desculpa – disse, enfiando a minha cara entre os joelhos. Estava encostada no pé da cama, numa forma quase que fetal. – Desculpa.

– Você acreditou mesmo que eu iria...fazer isso com alguém? Julie...

– EU NÃO TE CONHEÇO – exclamei. – Não te conheço.

Ele trincou a mandíbula – nossa, que mandíbula linda. – E ficou do lado de fora do quarto. Fiquei olhando a forma que a luz refletia nele, sem conseguir dizer nada. Só conseguia reparar agora que ele tinha um abdômen muito definido, sem nenhum pelo.

Suspirei.

– Você sabe que horas são? – perguntei baixinho.

– Nove e trinta e um – ele disse de forma fria. Parecia muito irritado.

– Preciso ir para casa – e fui me levantando com cuidado. – Onde está meu celular?

– Na sala.

Balancei a cabeça.

– Vou lá buscar.

– Não. Vai lavar o rosto. – Ele se virou para descer as escadas, mas antes disse: — Tem uma escova de dente nova lá, pode usar – e desceu.

Fiquei parada por um bom tempo, até me tocar que eu estava bem, que eu tinha que ir para a casa da minha avó, e que eu tinha dormido na casa de um cara. Minha mãe nunca saberia disso. Nunca.

Ele tinha me salvado de ser abusada, e eu aqui fazendo escândalo. Me levantei e procurei pelo banheiro. Abri todas as portas até achar. Me olhei no espelho e, cruzes, eu estava horrível. Minha maquiagem borrada, meu cabelo desarrumado e minha cara estava totalmente inchada. Devia estar com bafo também.

Peguei um papel e molhei. Passei nos olhos para tirar a maquiagem borrada, depois escovei meu dente com uma escova que estava lacrada – não achei outra escova que parecesse mais nova que essa. Não fui no banheiro, apesar de estar com vontade. Fiquei com vergonha.

Desci as escadas e ele estava me esperando na porta. Tinha colocado uma blusa e um chinelo.

– Vou te levar para casa.

Tentei protestar mas imaginei que ficaria muito feio para mim, então deixei ele saber o meu endereço. Entramos no carro sem dizer uma palavra. Ele deu partida e eu sem ter nenhuma coragem de olhar para a cara dele.

Olhei de esguelha e dava para notar o quanto estava irritado.

– Olha... – comecei. – Você precisa entender o meu lado.

Steve não disse nada, nem olhou para mim. Continuou prestando atenção no trânsito.

– Eu tinha sido dopada, acordei num quarto nada a ver com o meu, e dei de cara com você. Eu não...não lembrava de nada. É compreensível. Steve, eu estou falando com você!

Ele suspirou pesadamente.

– Você é muito escandalosa – é só o que ele disse.

– Eu estava num conflito interno, está bem? – E olhei para o lado da janela, fazendo um bico.

Tinha dado o endereço para ele, mas mesmo assim não soube achar de primeira. Mostrei o caminho até chegar em casa. Steve parou o carro bem na frente do meu apartamento.

– É, parece que é isso – abri a porta. – Me perdoa – e saí do carro.

Fui em direção a portaria, ouvi o barulho de outra porta se fechando. Me virei para ver se era o que eu suspeitava. Ele também tinha saído do carro. Parou na minha frente, e me olhou seriamente.

– Eu deveria ter deixado um bilhete para quando acordasse. Nem tinha pensado que você ficaria assustada. Sua mãe vai brigar, não é?

– Ela imagina que eu fui dormir na casa da Jessy. Você me salvou.

– Não fiz nada.

– Steve...- mordi o lábio. – Desculpa, de novo. Eu estava muito assustada mesmo, não sabia como reagir de modo diferente.

– Tudo bem, está perdoada – e abriu um leve sorriso, mostrando as duas fileiras de dentes brancos e perfeitos.

– Até convidaria você para subir, mas tenho que me arrumar para ir almoçar na casa da minha avó.

– Também tenho um almoço importante hoje. Estava até com medo que você não acordasse. Logo meu pai chega de viagem – e sorriu.

Ele balançou a cabeça, e eu entrei no condomínio.

Quando cheguei em casa, minha mãe só me perguntou como foi a festa e eu respondi que foi muito legal. Fui direto tomar banho para ela não me fazer mais perguntas. Fiquei pensando em Steve, em como ele foi legal comigo. Como conseguimos gostar de alguém tão rápido? Eu sentia meu corpo tremer quando olhava para ele, mas não de medo, eu queria toca-lo.

Arrumei meu cabelo, fazendo cachos nas pontas. Meu cabelo era muito comprido para fazer desde a raiz – fora que eu ia parecer a Emília se eu fizesse isso. – Passei uma maquiagem leve e um batom rosinha. Coloquei um vestido cor de nada – um rosa bem claro — todo rendado. Meu sapato era da cor da minha pele e eu tive certeza, quando me olhei no espelho, que eu estava pronta para encarar o exército de velhas ricas e fofoqueiras, inclusive Agnes, minha avó.

***

A casa nova em que minha avó morava com o novo marido dela era um pouco longe, cerca de quase uma hora de casa. Fui escutando música e já avisando para minha mãe que eu não comeria camarão. Da última vez fiquei com dor de barriga, mas tive que disfarçar. Era um condomínio de mansões, onde minha avó arranjou as amigas dela.

Não pensem que minha avó era uma chata, mas eu achava que ela estava vivendo uma vida que não combinava com ela – ou talvez combinasse, mas aquela Agnes não era a mesma de antes.

Quando chegamos, parecia aquelas cenas de filme de família perfeita. Minha avó vestida com uma roupa cor pêssego em chapéu enorme da mesma cor. Parecia uma caixinha de sucos da Ades. O marido dela era muito legal, mas era um pouco mais jovem que ela. Cerca de oito anos. Estava na faixa dos 52 e minha avó acabara de completar sessenta anos.

Várias crianças vestidas como bonequinhas corriam pelo jardim. O almoço era do lado de fora, com várias mesas de vidro e cadeiras mais bonitas que as da minha casa.

Era uma mansão enorme e clássica. Apesar de tudo, até que gostava do lugar.

– Querida – minha avó passou a mão pela minha bochecha. – Está linda, como sempre. – Olhou para a minha mãe. – Filha, vocês demoraram para chegar. Já te falei que pontualidade é muito importante?

Minha mãe revirou os olhos.

Cumprimentamos as pessoas com um enorme e cansativo sorriso no estampado no rosto. Várias senhoras com mais maquiagem do que muitas adolescentes e muitos senhores usando suspensório.

–...é um almoço de negócios – ouvi o marido da minha avó dizer para um cara que ao olhar para mim, senti um arrepio. Era muito familiar para mim. O cabelo grisalio, os olhos verdes e era bem alto – muito elegante também. – Estava acompanhado de uma mulher loira de olhos castanhos, mas não era muito alta, só que tinha uma postura invejável. Parecia ser bem jovem.

Me sentei numa mesa junto com minha mãe e fomos servidos imediatamente com vinho branco e alguns aperitivos muito bem decorados, mas era tudo enganação. Essas coisinhas não tinham gosto de nada.

Minha mãe estava de olho em um cara moreno que estava em pé ao lado de uma enorme mesa que seria colocado o almoço. Nem notei mas estava rindo da situação.

– Vou dar uma volta – disse para ela.

Entrei na casa, minha avó estava dando risada com as amigas dela, falando baixinho, provavelmente falando mal de alguém.

– Julie! – Ela gritou pelo meu nome. Dei meia volta e fui na direção da rodinha das mocinhas.

– Oi, vó – e sorri.

– Essa é minha neta, Julie – me apresentou para as amigas. – E essas são Vilma, Marie, Antônia e Francisca.

Cumprimentei todas elas, tentando parecer muito educada. Eu estava muito feliz que ainda não tinha tropeçado em nada e feito alguma coisa que me fizesse passar vergonha. Eu era muito, muito boa nisso.

– Ah, olha meu neto ali – a velha Marie disse fez um movimento com as mãos, chamando o neto dela. Me virei de costas para ver. Engasguei com a minha própria saliva, quase tendo um ataque epilético.

– Você? – Disse baixinho, quando enfim me recompus.

Ele também não parecia acreditar no que estava vendo. Estava rindo, me olhando de maneira diferente.

– Esse é meu neto, Steve. É um bom menino...

Parei de ouvir qualquer coisa que elas falavam. Só conseguia olhar para ele e pensar por que diabos ele estava frequentando o mesmo lugar que eu. Nunca tinha visto ele aqui – se bem que eu só tinha vindo uma vez numa reunião dessa. O casamento da minha avó era recente.

Estava tão bonito, tão radiante.

–...não é mesmo, Julie?

– Ah, o que?- Voltei a realidade.

– Ficou encantada com o meu neto.

Velha bocuda.

– E-eu...- tossi. – Não. Eu só...

– Vó... – ele pareceu ficar sem graça. – Não envergonhe a menina.

Ele era bem mais alto que eu – aliás, qualquer pessoa poderia ser mais alta que eu. 1,58 de altura não era muita coisa.

– Está se formando em engenharia ambiental – Marie suspirou.

– Minha neta ainda está no ensino médio. É o último ano dela...

Ficara falando sobre nossas virtudes até que eu cansei de ouvir e ele também. Nos olhamos e demos de ombro.

– Quer dar uma volta?

– Por favor – ele deu o braço e eu grudei nele.

Eu ainda estava rindo de tudo isso. Só de pensar que hoje de manhã eu estava na casa dele.

– Coincidência – comentei.

– Discordo – ele me olhou. – Já disse que não te atropelei por acaso.

Eu já estava começando a acreditar nisso.

Saímos juntos de dentro da casa e fomos dar uma volta no jardim. Ele me explicou que a avó era mãe do pai dele e que estavam aqui para fazer negócio com o marido da minha avó. Então aquele cara que eu vi era familiar porque era pai de Steve.

– E a sua mãe é aquela moça loira?

– Não. É a namorada do meu pai.

A casa de Steve – pelo menos eu acho que aquela era casa dele. – Não era grande, não parecia ser de uma família rica, mas depois ele me contou que morava com a mãe depois de uma separação turbulenta entre os pais.

– E você está fazendo faculdade de engenharia ambiental? Muito interessante, Steve Cahill.

– Sabe o que pretende fazer?

– Pensei em geologia, mas não sou boa em física, ou em química. Ou em matemática. Odeio exatas, para sem bem sincera.

– Não é para qualquer um.

Olhei feio para ele.

– O que foi? – Ele deu risada.

– Ainda não acredito que eu estou aqui com você. Muito nada a ver. Acho que vou começar acreditar que o destino está fazendo isso.

– Eu te disse, Julie.

Ficamos andando pelo jardim, conversando sobre assuntos aleatórios. E...sim. Eu estava muito chocada com a presença dele. Talvez um pouco envergonhada pelo escândalo que fiz hoje de manhã. Estava começando a gostar da companhia e da tranquilidade que ele me trazia.

Não sentia mais medo ou receio de que ele quisesse me machucar. Não era mais um estranho, agora ele tinha um lugar na minha lista de conhecidos. Uma coisa que eu não entendia era por que eu queria tanto tocar nele. Deslizar meus dedos na pele branca que parece ser tão...macia.

O almoço fora normal, consegui me distrair o suficiente para não querer matar todas as pessoas ali presentes. Minha mãe realmente tinha gostado daquele cara, tanto que pegou o telefone dele. Estavam trocando sorrisos um para o outro – mas não que eu fizesse diferente.

Steve estava numa outra mesa com o pai e a madrasta peituda e linda, enquanto eu comia com a minha mãe e mais um casal que nunca tinha visto na vida. A comida estava ótima, mas eu queria mesmo era comer a sobremesa.

Ficava olhando para ele toda hora, mesmo quando não olhava para mim.

Quando terminei de comer, sai para dar uma volta e procurar pela minha avó. Precisava saber se ela tinha algum álbum meu que tivesse fotos do meu pai. Minha mãe não tinha nada dele, então decidi procurar aqui.

Minha avó adorava guardar fotos, roupas antigas, tudo o que já foi usado e que desse para ela a boa sensação de lembrança. É impossível que meu pai não tenha saído em nenhuma das fotos. Eu sabia como ele era, mas as vezes eu esquecia.

Enquanto andava em direção a casa, uma criança infeliz passou correndo e me derrubou no chão. Maldita.

– Não me viu!? – gritei para ela, que ficou me olhando com cara de choro. Não tinha paciencia para essas coisas.

Uma outras quatro meninas e três meninos apareceram correndo também. Estão brincando, pensei. Não precisava brigar com eles.

Me levantei, limpei meu vestido que estava sujo de grama, arrumei meu cabelo, vendo se não tinha nenhum bicho ou coisa do tipo. Certo. Eu estava bem. Olhei para trás e vi que os convidados olhavam para mim – com vontade de rir, com cara de desgosto, várias expressões diferentes. Abri um sorriso amarelo e entrei na casa.

– Você tem que parar de cair – conseguia sentir o hálito de Steve no meu pescoço. De onde ele tinha vindo?

– A culpa não foi minha, dessa vez.

– Realmente. Te conheço há uma semana e te vi cair três vezes. Meio desastroso, não?

– Se continuar a me encontrar, vai me ver caindo muito mais.

– Então eu vou começar a trazer uma câmera comigo para registrar cada tombo. O que acha?

– Formidável.

Tinha até esquecido de falar com a minha avó. Deixei para lá esse assunto e me foquei totalmente no que estava na minha frente: Steve Cahill.

– Não queria dizer,porque você interpreta tudo errado, mas você está muito bonita.

– Eu sempre fui – brinquei. – Mas muito obrigada, Steve.

Eu estava vermelha, conseguia sentir. Queria dizer que ele também estava muito bonito, com uma blusa branca, uma jaqueta jeans que parecia ser muito pesada, uma calça preta e um tênis. Nada de anormal, nada de formal. Apenas uma simplicidade que nele caia muito bem. Muito bem, mesmo.

– Ainda bem que você não usa suspensório – comentei.

– É muito estiloso se souber usar.

Suspirei.

– Quero ir embora – falei.

– Então vamos.

Olhei para ele.

– Como assim?

– Também estou morrendo de vontade de sair daqui. Posso te levar para casa, Julie.

A ideia não me parecia nada mal.

– Certo – concordei. – Mas tenho que avisar minha mãe.

Levei Steve comigo porque minha mãe iria querer saber com quem eu estava saindo. A cara dela foi de “ você vai me deixar aqui?”

– Sim, mãe. Você está se divertindo com o seu novo amigo...

– Julie!

– Enfim, ele é o cara que me atropelou e com quem eu tenho saído nessa semana. Ele sabe onde eu moro, foi ele quem me deu carona para voltar para casa hoje.

– Então você também dormiu na casa da Jessy?

– Sim – ele sorriu. – Minha avó é amiga da avó da Julie, também. Caso a senhora queira saber.

– Da minha mãe, você quer dizer.

Ele balançou a cabeça.

– É bom que você me ligue quando chegar.

Me despedi da minha avó e de alguns convidados, depois fomos para onde o carro estava estacionado. Ele o abriu e eu entrei, um pouco nervosa.

– E o seu pai vai embora como?- Perguntei enquanto ele colocava o sinto.

– Viemos com carros diferentes. O dele está logo ali – e apontou para um carro muito bonito, mas eu não sabia a marca.

No caminho, ele ligou o rádio e eu coloquei a cabeça para fora. Adorava a sensação do vento batendo no meu rosto. Viemos conversando, cantando e rindo. Ele era muito fechado, sempre desconversando quando ELE era o assunto.

Lembrei que precisava falar com a Jessy e ver como ela se virou naquela bagunça toda. E também avisar que tinha um maluco na festa dela – que quase me atacou.

Não passamos na minha casa de primeira. Paramos na casa dele porque precisava fazer umas coisas. Desci do carro e ele me convidou para entrar, porque até parece que eu ia ficar lá dentro.

– E sua mãe?

– Foi visitar o pai dela, meu avô. Desde que minha outra avó morreu ele anda muito sozinho.

– E ele mora longe?

– Em outra cidade, então ela passa o fim de semana lá, as vezes.

Ele subiu as escadas e eu fiquei no andar de baixo. O piso da casa era de pedra, os móveis bem simples mas era tudo muito arrumado. Não que minha casa fosse um luxo, porque também era bem comum.

Ele gritou lá de cima para que eu subisse. Obedeci, já que não queria ficar sozinha. Ele estava no quarto, pegando algumas coisas e enfiando no bolço da calça.

– Por que não mora com seu pai? Digo, ele deve ser bem rico.

– Não deixaria minha mãe morar sozinha. Ela sofre muito com a morte da filha e da mãe, entende? Não daria esse desgosto.

– Entendi.

– Fecha os olhos.

Fiquei confusa quanto ao pedido.

– Por que?

– Tenho uma surpresa.

Fechei os olhos, mas estava desconfiada de alguma coisa. Senti a presença dele na minha frente. Conseguia sentir o perfume dele exalando bem próximo a mim.

– Pode abrir.

Abri os olhos e ele estava segurando a minha bolça nas mãos. Nem tinha lembrado da bolça que levei para a casa da Jessy.

– Nossa- fiquei surpresa.

– Esqueceu aqui.

– Não estava fazendo falta.

– Muito legal a sua camisola – ele brincou.

– Andou mexendo nas minhas coisas? Isso é invasão de privacidade.

Ele apenas me encarou com os lindos olhos verdes. Aquilo me fez tremer.

Steve puxou a bolsa da minha mão e tirou a camisola lá de dentro, mostrando-a para mim e rindo.

– De gatinho...

– Coloca isso de volta na bolça, Steve! – Comecei a rir também.

– O que mais temos aqui? Olha só...não tem mais nada a não ser uma escova de dente. Você não leva calcinha para a casa da sua amiga?

Pulei em cima dele para que me devolvesse minhas coisas.

– Eu não pretendia tomar banho lá.

– Porca.

– Não sou porca, mas eu teria que vir cedo para casa, de qualquer modo.

Estávamos bem próximos um do outro, e ele continuava segurando minha bolça.

– Devolve minha bolça.

– Como que fala? – ele levou o braço mais para trás, para que eu não alcançasse.

– Ah, fala sério. Me devolve logo!

– Palavrinha mágica.

– Por favor – pedi.

O corpo dele relaxou e o braço longo veio para frente, me entregando o que era meu. Enfiei minha camisola lá dentro.

– Não tinha reparado que seu cabelo não é ruivo de verdade – ele pegou uma mexa do meu cabelo e começou a brincar.

– Decepcionado?

– Claro que não.

Soltou a minha mecha de cabelo e passou a mão pelo meu rosto. Não me incomodei, de certa forma eu queria toca-lo, mesmo que nessa situação tenha sido o contrário. Ele não sorria mais. Me olhava de maneira séria, selvagem. Meu coração batia muito forte conforme ele ia se aproximando cada vez mais de mim, até que eu consegui sentir seu corpo colado no meu. Não conseguia controlar a minha respiração. Estava completamente atordoada com aquela situação, mas não queria sair dali. Inclinei meu rosto para cima e devagar, sútil e graciosamente os lábios dele tocaram nos meus. Parecia que não tinhamos certeza daquilo, mas quando aconteceu, logo nossas bocas foram se abrindo numa sincronia perfeita. Coloquei minhas mãos em seu pescoço, impedindo que ele parasse.

Eu me sentia bem com isso.

Nossos narizes se tocavam delicadamente, assim como todo o beijo. Ele parou de me beijar, mas mantivemos os rostos colados, sentindo a respiração um do outro. Ambos ofegantes, ambos nervosos.

– Não sei se você queria fazer isso...

– Queria – completei.

– Então eu não preciso pedir desculpa.

– Seria idiota demais da sua parte.

Ele me beijou de novo, só que agora com mais ternura. Nossas linguas se tocando, se conhecendo. Ele agarrou minha cintura, me puxando ainda mais para junto dele. O calor...o calor dele estava mexendo demais comigo. Conforme ele passava a mão pelo meu pescoço, meus pelinhos arrepiavam. Só então percebi que eu queria demais aquilo. Tanto quanto ele.