Para Sempre
1 Prólogo - Um mundo complicado
Notas iniciais
Antes de atrevessar a rua, parei para analisar o meu alvo. A escola de Bredmorth era grande com paredes intercaladas de branco e amarelo com bandeiras dos Estados Unidos em todos os lados visíveis. Alunos entravam e saíam a todo instante fazendo com que eu me perguntasse cada vez com mais frequência como eu faria para diferenciá-los caso algo desse errado e a palavra não funcionasse. Mas em nome do santo protetor das histórias encatadas isso não aconteceria.
Atravessei a rua quando o número de carros diminuiu e logo me perdi por entre as centenas de alunos do ensino médio que falavam alto e faziam barulho por todos os lados. Era melhor aquela dor de cabeça toda valer a pena.
Encontrar os corredores não foi difícil, encontrar o meu armário também não. Tomei todo o cuidado para não perder o meu caderno de anotações com a lista de quantos filhos e qual o sexo deles eu deveria encontrar. Não eram poucos, mas eu esperava não ter que procurar mais do que isso. Ouvi duas batidas fortes no armário ao lado do meu, mas preferi não olhar, abri o caderno de anotações e analisei a lista de forma rápida antes de guardá-la num dos bolsos da minha mochila de lado. Finalmente ergui a sobrancelha para o garoto que espancava o armário poucos centímetros de mim.
– Seu grande merda, filho de uma...
As bochechas dele ruborizaram quando nossos olhos se encontraram, e o armário de repente pareceu não importar mais para ele.
– Está tudo bem? — perguntei querendo apenas ser educada, mas rezando para que ele respondesse que sim.
– Bem, sim, é só esse armário que está sempre me trazendo problemas. — ele disse frustrado desferindo mais um golpe no metal fraco que era propriedade da escola.
– Oh.
Fechei meu armário com delicadeza e sorri para ele antes de sair rumo ao fim do corredor. Seria bom dar uma volta na escola e analisar os alunos antes de arriscar me aproximar de algum deles. Eu tinha que dar tiros certeiros, e em hipótese alguma deixar que alguém desconfiasse de algo. Claro, em primeiro lugar a pessoa pensaria que era loucura, mas não dá para garantir que algum maluco não resolva investigar.
As salas de aula não eram como eu imaginava. Ao invés de um grande palanque havia várias mesas enfileiradas com cadeiras de um plástico cinza e um quadro negro enorme na parede inferior. Não havia janela, mas em compensação a porta era enorme, de forma que um Troll passaria perfeitamente ali.
Eram vários corredores e qualquer um poderia se perder facilmente por ali, exceto eu, meus sentidos apurados não permitiriam isso a não ser por uma magia muito forte. Dei uma volta pelos ginásios e analisei todos os adolescentes suados que jogavam basquete de uma forma nada normal. Eles riam muito e pareciam não levar o jogo mundano a sério, mas em particular nenhum deles me chamou atenção.
Encarei um dos garotos que mexeu de uma forma nem um pouco educada comigo e ajeitei meus óculos sem me dar por vencida. Ele me lançou um sorriso pervertido antes de voltar para o jogo e eu rolei os olhos. Talvez eu tivesse que me acostumar com esse mundo onde os garotos não tinham mais tanto respeito e nem classe. Não fazia ideia de quanto tempo iria demorar, mas sabia que não podia ser muito. Todos no meu mundo estavam em perigo e era hora de fazer alguma coisa, de agir. E eu era a única que poderia fazer isso.
Depois de mais umas rondas na escola sentei em dos bancos vazios do pátio onde várias garotas e garotos conversavam, faziam palhaçadas ou se beijavam sem discrição alguma. Credo, eu estava começando a ser tão careta quanto a fada madrinha. Cruzei as pernas em cima do banco e abri o caderninho de anotações por entre as minhas pernas. Se eu fosse seguir a genética não seria difícil achar uma garota branca como a neve com os cabelos escuros e os lábios vermelhos, mas a ciência não estava do nosso lado. Os filhos da história puxavam traços mínimos dos pais e poderiam variar muito em sua cor de pele, cabelo e olhos. Olhos, isso era a única coisa que os diferenciava... Ou não. E era exatamente por isso que eu tinha que rezar com todas as minhas forças para aquela palavra causar o efeito esperado.
Desviei os olhos para as pessoas que passavam sem parar em frente ao meu banco. Talvez valesse a pena arriscar.
– Encantatem. — sussurrei quando uma garota alta dos cabelos ondulados passou por mim — Encatatem. — repeti para o garoto moreno e musculoso que ia em direção a turma de jogadores rodeado por garotas animadas – Encantatem. — murmurei para a pequena garota com olhar intelectual que passara por mim.
Em nenhum dos três a palavra pareceu surtir efeito e agora eu já não tinha certeza se ela funcionava ou se eles apenas não eram quem eu procurava.
Me levantei e caminhei do pátio para dentro da escola na esperança de obter mais sorte. O refeitório não estava vazio nem cheio, mas não me parecia um bom lugar para começar. Apesar de tudo, eu ainda estava com sede e queria provar do famoso refrigerante do qual eu tanto ouvira falar pouco antes de chegar aqui. A máquina não era diferente do que eu imaginava, meu único problema era como usá-la. Aproveitei para observar de perto três garotos que riam e tiravam a bebida da máquina. O mais alto, moreno que dava um sorriso de canto enquanto estava com a coluna torta em direção ao buraco onde acabara de enfiar o dinheiro, começou a rir um pouco mais alto enquanto os outros dois faziam palhaçadas.
Observei atentamente o refrigerante cair e o garoto pegá-lo tentando guardar mentalmente como fazer aquilo.
– Ei cara, e na sua casa, já resolveu aquele problema? — o garoto do cabelo cor de bronze ao lado dele perguntou.
O outro riu.
– O bom de não ter família, é não ter problemas. E o bom de ter um tutor, é ele ter que resolver os problemas por você. — ele respondeu e ao contrário do que eu esperava os outros não riram.
– Não sei como você consegue. Nunca ter tido uma família, crescer em um orfanato e agora ter que se relacionar com um idiota qualquer responsável por você e ainda continuar...
– A gente precisa falar sobre isso? — ele interrompeu — Não tenho culpa se fui largado no meio de uma floresta por algum sem noção que...
Os olhares dos três se voltaram para mim antes mesmo que eu percebesse a burrada que fiz soando tão surpresa quando ele disse aquilo. Seria possível? Eu deveria arriscar num momento como esse?
– Algum problema? — o moreno me encarou, mas não consegui pensar em mais nada.
– Encantatem. — sussurrei prendendo a respiração.
O anel dos olhos do garoto antes castanho, por uma fração de segundo se tornou um amarelo reluzente e brilhou confiante antes de voltar a sua cor chocolate normal. Perdi o pouco de ar que ainda me restava.
– Está tudo bem? — ele insistiu franzindo uma sobrancelha.
Demorei alguns segundos antes de me recompor.
– Claro. — respondi – Não consegui usar essa coisa, ela parece me odiar. — apontei para a máquina.
– Se quiser é só me dar o dinheiro que eu pego pra você. — ele ofereceu ainda desconfiado e eu sorri.
– Sou Georgia. — acrescentei.
– Jason. — ele disse agora ocupado em pegar o refrigerante – Prazer em te conhecer Georgia.
– O prazer é todo meu. — sussurrei em resposta, mais para mim do que para ele.
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