Para Sempre...
4 Capítulo 4 - A Despedida
Notas iniciais
Acordei quando ouvi alguém bater na minha porta, estava com uma ressaca insuportável. Gritei para que entrasse. Meu pai abriu a porta, entrou e se sentou à beira da minha cama. Ele já estava arrumado e eu levei um susto.
– Estou atrasada, pai? — perguntei em tom de preocupação.
– Não, relaxa. — ele sorriu — Eu é que me levantei cedo para arrumar as minhas coisas. Dormiste bem?
– Dormi que nem uma pedra! Nem sei quando vim para o quarto. — disse enquanto massageava as têmporas com cara de sofrimento.
– Deves estar com uma ressaca daquelas... — sorriu.
– Estou mesmo, pai. Bebi assim tanto ontem?
– Hm...o suficiente para te deixar assim. Queres um analgésico?
– Sim, acho que a pus naquela gaveta. — apontei para a secretária — podes me dar a mala também?
Meu pai se levantou, me trouxe a caixa dos analgésicos e a mala, onde tirei uma garrafinha de água que tinha, e tomei.
– Tens a certeza que queres vir? Não que fiques a descansar, querida... — perguntou preocupado.
– Claro que não, isto já passa. E a mãe?
– Está lá em baixo a fazer o café. Ela também acordou como tu.
– Então abusamos mesmo no vinho, não foi? — sorrimos e meu pai se levantou.
– Vá levanta-te, toma um duche e vem tomar café que cura-te já isso. — disse enquanto saía do quarto.
– Ok. — respondi sorridente e ele saiu.
Peguei no telemóvel na mesa de cabeceira para ver as horas e nesse exato momento recebi uma sms do Hélder que dizia: "Olá boneca, como é acordar com 19 anos? :) Fui a uma reunião com o meu pai no Algarve e só volto ao final do dia. Ligo-te assim que chegar. Dá um abraço ao teu pai e deseja-lhe boa viagem. Adoro-te. Hélder" sorria enquanto a lia. Eu era uma sortuda, o Hélder é o tal rapaz que uma rapariga sonha encontrar um dia, ele fazia-me tão feliz. Respondi: "É o máximo, melhor ainda acordar com uma mensagem tua. Também te adoro." e saí da cama em direção ao banheiro do meu quarto.
Cheguei à cozinha, meu pai estava sentado a tomar o pequeno almoço e minha mãe de pé encostada à bancada com um copo nas mãos, estavam à conversa. Vi que minha mãe ainda de roupão e perguntei em tom de indignação:
– Ainda assim mãe??
– Eu não vou com vocês, desculpem...estou tão cansada e com...
– Ressaca! — completei.
– Exato...só me levantei para vos fazer o pequeno almoço e despedir-me do teu pai.
Sentei à mesa e ela me deu um copo. Fiz o meu café e peguei numa sandes.
– Quando é que vou conhecer a Jennifer, pai? — perguntei sorridente.
Jennifer, um nome bem britânico, era a minha irmã de 5 anos, filha do meu pai com a actual esposa, Evelyn. Só a conhecia através de fotos e pela web, tinha uns olhos enormes e bem azuis, era linda, querida e possuia um riso contagiante. Era um pouco parecida comigo quando tinha a mesma idade.
– Quando fores a Londres de férias...agora tens de ser tu a ir lá. — meu pai respondeu olhando e sorrindo para mim.
– E vão me deixar sozinha? — perguntou minha mãe.
– Oh mãe, arranja um namorado! — revirei os olhos.
– Também podes vir, és bem vinda. — diz meu pai.
– Achas mesmo que me vou dar ao trabalho de ir passear com a tua outra mulher em Londres? — ri-se irónica.
– Correção Suzana, "outra" não. Ela é a minha "única" mulher! Além disso não vejo qual é o mal.
– Deixa-me dizer-te uma coisa que ainda não te disse e que está presa aqui na garganta...
Quando ela disse isso previ que vinha praí discussão, se havia algo que minha mãe sabia fazer, era isso...discutir! E continuou:
– Tu foste para Londres, arranjaste uma família e esqueceste que nós existimos. Passados dez anos lembras-te que tens uma filha que também precisa de ti, que tipo de pai és tu?
– Mas tu não tens razões para dizer isso Suzana, sempre mantive contato com a Natasha, estive sempre presente, e ela sabe que pode contar comigo para tudo... Apesar de estar longe, sou um pai presente, talvez mais do que tu!
E pronto, eles lá continuaram com "blá blá blá" e eu ali a ouvir tudo.
– Vocês também são a minha família. Apesar de já não sermos casados tu continuas ser a mãe da minha filha! Não sei se te lembras mas eu disse que a minha vida profissional lá é muito agitada. Mal tenho tempo para tirar férias! Não teria mal nenhum vocês irem lá! — defendeu-se meu pai e eu concordei.
– Também acho mãe, deixa de ser croma!
Ela olhou para mim com olhar de desprezo..enfim, estou habituada.
– Mas eu não sou o tipo de mulher que gosta de brincar às famílias modernas. Não sou!!! — disse ela.
Meu pai se levantou limpando a boca na toalha da mesa.
– Olha...tu é que sabes. Vamos embora Natasha, ainda tenho de fazer o check-in.
Ele saiu da cozinha e foi buscar as malas. Levantei-me e levei o meu copo ao lavatório, minha mãe nem olhava para a minha cara.
– Porque és tão desagradável e estragas sempre tudo?
Ela olhou para mim com raiva e gritou:
– Ah eu é que sou desagradável???
– Óbvio mãe. O pai fez um esforço para vir nos meus anos e tu começas com cenas a dizer que ele nos esqueceu. Isso mais me pareceu um ataque de ciúmes.
– Ataque de ciúmes, eu? — perguntou — Oh rapariga não inventes!
Meu pai grita pelo meu nome para irmos embora.
– Agora, vê lá se ao menos te despedes do pai como deve ser. — saí da cozinha.
La fora enquanto eu arrumava a mala do meu pai no meu novo MINI, eles se despediam e reparei que meu pai disse algo à minha mãe, não consegui ouvir. Entrámos no carro e durante a viagem sorrimos, ouvimos as nossas músicas favoritas, cantamos juntos e conversamos. Quando via que aquele momento chegava ao fim, a tristeza da despedida tomou conta de mim.
Chegámos ao aeroporto e fizemos o check-in. Como ainda tínhamos algum tempo para o meu pai embarcar, fomos a um dos cafés e sentámos. Meu pai pediu uma garrafa de água e eu pedi um café, ainda estava com dores de cabeça da bebedeira de ontem.
– Estás triste? — meu pai perguntou pondo a sua mão sobre a minha.
Eu sorri dizendo que não.
– Reparei que quando chegamos ficaste triste...pouco falaste. — insistiu ele.
Com outra mão segurei a dele e disse:
– Estou bem, pai, só...não sei quando voltarei a estar contigo, assim ao teu lado, segurando a tua mão...
Vieram-me lágrimas aos olhos, ele olhou para mim, se aproximou e limpou a que escorreu na minha cara.
– Vá lá, não quero que fiques assim. Já combinamos que vais lá visitar-nos, conhecer a tua mana...a Evelyn...elas também querem muito conhecer-te.
– Eu sei...mas sinto a tua falta, de voltar a morar contigo... Eu e a mãe não nos damos nada bem, como viste. Estamos sempre a discutir, ela a implicar comigo por tudo e por nada, só pensa em si mesma...não me apoia, está sempre contra mim. Parece que tem ciúmes de mim e me vê como inimiga. — desabafei, sim era realmente assim a minha relação com a minha mãe.
– Isso nãe é verdade querida, pode não parecer mas ela gosta muito de ti... Vocês só têm maneiras diferentes de ver as coisas, tens de fazer um esforço para a compreenderes. Ela está sozinha há muito tempo, senti que tem medo de ficar sozinha para o resto da vida.
– Pois, ninguém a atura. — disse.
– Por isso ela precisa de ti, querida. Não a podes abandonar agora. — disse meu pai.
– Eu também preciso dela, só que apesar de ela estar lá é como se não estivesse... A propósito, eu vi que lhe disseste alguma coisa muito baixinho que não percebi. O que foi que lhe disseste? — perguntei curiosa.
– Disse-lhe para ter mais calma contigo. Não sei se te lembras do que se passou ontem...
– Porquê, que se passou ontem? — interrompi, meu pai suspirou — O que foi pai?
– Não te queria dizer isso mas...a tua mãe atirou-se constantemente ao teu namorado...
– Ao Hélder??? — perguntei furiosa.
– Sim, mas tem calma...devia ser do vinho.
– Como assim atirou-se ao Hélder, pai?
De repente, por altifalantes, ouvimos "Os passageiros com destino a Londres, por favor dirijam-se à porta D79. O voo parte em 30 minutos. Obrigada" e foi isso que interrompeu a nossa conversa.
– É o teu voo, pai. — disse levantando-me à pressa.
Meu pai se levantou e fomos até à tal porta onde já havia formada uma fila de passageiros e revistavam um por um. Eu e meu pai paramos antes da fila e abraçámo-nos, foi um abraço apertado e o mais gostoso que já alguma vez tinha recebido. Enquanto o abraçava lágrimas me escorriam dos olhos.
– Não chores querida, não é um "adeus", é um "até já"... — meu pai disse enquanto me abraçava e passava a mão no meu cabelo.
Eu confirmei com a cabeça e apenas continuei chorando, não o queria largar. Aquele abraço fez-me rever todos os momentos que passei com ele, e o mais estranho é que...algo me dizia para aproveitar aquele momento para sentir o seu cheiro, a sua respiração, os seus batimentos... para o sentir entre os meus braços, porque seria o último abraço que o daria. Então continuei ali, abraçada a ele.
– Natasha, tenho de entrar...
Quando o larguei vi que a fila já estava vazia e que ele tinha que ir, o abraço foi longo mas parecia que tinha apenas durado um segundo. Meu pai limpou-me as lágrimas e segurou as minhas mãos.
– Cuida de ti, filha...e da mãe. — sorrimos — Espero-te em Londres, sim?
– Está bem. Toma, dá isto à Jennifer! — Entreguei-lhe um anel que tirei do bolso das calças.
Meu pai viu e sorriu.
– É o anel que adoravas usar quando tinhas a idade dela... Ela vai adorar.
– Espero que sim, dá-lhes um grande beijinho.
Meu pai me beijou na testa e fomos largar as mãos lentamente. Dirijiu-se à entrada para ser revistado, eu virei de costas e segui sem olhar para trás. Eu odeava despedidas, é uma sensaçã horrível, dá demasiada incerteza em relação ao futuro...
Mas o que importa é que dez anos depois voltei a estar com o meu pai apesar de falar com ele quase todos os dias pela internet, é muito tempo, eu sei...mas percebo a falta de tempo que ele tem por causa do trabalho. Mas para a próxima vez vou eu a Londres.
Agora vou pedir satisfações à minha mãe, ela que me aguarde...
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