Notas iniciais
Capítulo longo, porém essencial para explicar o que está acontecendo e para estabelecer melhor a relação entre Emmeline e Adaline. Não desanimem!

— Adaline? — tentei pronunciar, porém o máximo que consegui foi desenhar a palavra com os lábios. Senti que estava prestes a desmaiar.

Ela olhou para mim, com o rosto tão pálido quanto seus cabelos platinados e um sorriso amarelo.

— Oi, Emma. — Pude perceber que sua voz estava trêmula. Era tão sutil que alguém que não tivesse passado a vida com ela certamente não detectaria a falha em seu tom de voz. Ela parou de mexer agachada no baú em frente à sua cama e se levantou, voltando-se a mim. —Emmie. Emmelitte. Ah, que horror, isso parece nome de doença — brincou, aproximando-se de mim; instintivamente, recuei. — Não sabe que é errado perambular pelo castelo a essa hora da noite? É a hora em que as assombrações aparecem.

Meu coração desacelerou um pouco. Curvei-me e peguei Capinzinho do chão. Abracei-o como uma criança assustada.

— Adaline, o que está acontecendo?

Ela abraçou o próprio corpo.

— Ahn... Nada. — Mesmo no escuro, dava para ver seus olhos indo de um lado para o outro, como se tentasse acompanhar a bola numa partida de pingue-pongue. — Nadinha. Volte para o seu quarto e finja que eu não estive aqui. Não se esqueça de fechar a porta.

— Ada — falei com firmeza e fui para mais perto dela, ainda sem coragem de chegar perto demais —, o que está acontecendo?

— Céus, Emmeline, é difícil demais fechar a porta? — ela bufou. Vendo que eu permanecia parada, ela decidiu ir fechar por si mesma.

Voltou para seu baú acolchoado e sentou-se nele, dando tapinhas no espaço ao seu lado para indicar que eu devia fazer o mesmo; e eu o fiz, repousando Capinzinho ao meu lado.

— Por onde eu começo? — Ela apoiou o cotovelo na coxa e ergueu um dedo para coçar seu queixo. Tentava parecer leve e espontânea. Entretanto, era perceptível sua falta de jeito para a situação. Ela estava despreparada e mal estava em condições de formar uma frase. Na verdade, eu achava que simplesmente não havia justificativa, e ela estava buscando uma explicação que fizesse sentido.

— Pela sua ressurreição, talvez.

— Não, eu não ressuscitei — explicou, ajeitando a postura. — Só passei aqui para pegar minha pulseira. Você a viu? A corrente é de ouro branco e tem uns pingentes de safira em forma de bolinha. Foi o presente que o papai me deu no meu aniversário de onze anos, lembra?

— Como eu vou me lembrar de um presente que você ganhou há quase dez anos?! — Levantei-me num pulo, exasperada. Inclinei-me na direção dela, como se desse uma bronca em uma criança. — Ada, você vai me contar o que está acontecendo?

— Ei, relaxe. Vou explicar tudo.

Respirei fundo. Se não me controlasse, acabaria a estapeando por impulso. Sentei-me novamente, segurando minhas mãos com força na frente do abdômen – essa era minha melhor forma de afastar a raiva.

— Sério, ninguém suspeitou de nada quando eu escrevi que ia me matar na floresta? — Ela soltou uma risada. Eu não entendia como uma situação como aquela podia diverti-la tanto. — Quem é que vai à floresta para se suicidar? Enfim, você sabia que eu realmente montei uma forquinha lá e pendurei uma boneca hiper-realista com as minhas roupas para o caso de decidirem fazer uma mega expedição? Mas acho que foi em vão, minha lápide ficou vazia.

Ela parecia orgulhosa do que fizera. Controle-se, Emmeline, pensei. Sua irmã está viva, ótimo; tente não matá-la para não passar de novo por todo aquele drama.

Eu fiz instantaneamente uma lista de perguntas para fazer quando a vi em seu quarto, só que acabei percebendo que a lista aumentaria. Talvez fosse melhor esquecê-la e deixar Adaline fazer sua narração. Isso se ela colaborasse.

— Sabe, eu não queria assustar todo mundo — explicou ela, adotando um tom pensativo. — Muito menos causar um escândalo de escala nacional. É que essas coisas são inevitáveis às vezes. Todo mundo faz merda. A diferença é que todo mundo fica sabendo das minhas merdas.

Não, ela não iria colaborar. Se dependesse dela, ela passaria o resto de sua vida-além-do-falso-suicídio falando sobre como se sentia sobre qualquer coisa. Era melhor perguntar.

— Por que você achou que era uma boa ideia fazer isso?

Ela pareceu ficar atenta por um segundo, e depois seus olhos se perderam outra vez. Jogou o corpo ligeiramente para trás, transformando o ar em seu encosto.

— É complicado. — Suas palavras saíram como se vagassem pelo quarto.

Senti o sangue esquentar meu rosto e meus punhos se cerraram automaticamente. Eu não queria gritar e sabia que seria uma péssima ideia, mas as palavras estavam arranhando a minha garganta, torturando-me.

— Você já conseguiu fazer. — Minha voz saiu rasgada. Eu olhava fixamente para ela, numa tentativa ridícula e involuntária de ser intimidadora. — Falar é a parte fácil.

Sua visão recuperou o foco e ela me fitou.

— Tudo bem. Sra. Eu Tenho Frases de Efeito para Qualquer Situação por Mais Absurda que Seja. Eu vou contar, só deixe-me pensar em como fazer isso.

Ela começou a encarar suas próprias mãos, que se repousavam em seu colo, no vestido azul-escuro como seus olhos. Passou alguns instantes em silêncio. Eu nunca a via planejar nada, pensava que ela nem tinha essa capacidade. Contudo, reconhecia naquele momento que eu estava errada.

Adaline se jogou de vez para trás, de forma a se deitar parcialmente em sua cama.

— Eu estava achando a faculdade de direito um saco — começou ela, em tom de confissão. — Só que eu tinha a obrigação de continuar lá. Você não entende como é isso. O próximo semestre vai ser o seu último do ensino médio, e, por mais pressionada que você se sinta, você não faz ideia de como é a faculdade. Especialmente num curso que você não quer. — Naquele ponto, a voz dela começou a se carregar de rancor. — Porque você não é a primogênita que vai se tornar a grande mãe do país futuramente e não é obrigada a estudar direito.

Até o momento, aquilo não tinha passado pela minha cabeça.

— Agora que você morreu, eu vou — cuspi, cruzando os braços. Eu planejava estudar letras, mas aparentemente aquele seria um sonho fadado à ruína.

— Não fique assim, Emmeline — ironizou. — A cobrança sobre você nem vai ser tão rígida quanto foi comigo.

— Hã... Será pior. — Levantei-me e comecei a andar pelo quarto. E precisava fazer isso para me acalmar. — Você recebeu preparo durante toda sua vida. O ensino que eu tive foi muito menos intenso e eu terei de aprender tudo em poucos anos. — Eu estava falando de forma mais formal. Fazia isso sempre, como se me desse alguma vantagem nas discussões. Estava tão habituada a essa mudança de tom que isso se tornara involuntário. — Ada, o que você fez? — Eu andava em círculos, falava alto, gesticulava mais do que precisava, tudo para tentar me aliviar pelo menos um pouco. Percebi que estava hiperventilando. Parei perto de uma parede e encostei minha mão nela para me sustentar. — Você estragou todo o meu futuro por nada.

Algo estava fazendo minha garganta coçar. Então a coceira se converteu em riso. Um riso desesperado, um pedido de ajuda criptografado. Para meu alívio, a histeria me ajudou a controlar o caos que se instalava no meu corpo. Inspirei todo o ar que meus pulmões aguentavam, expirei e depois virei-me para Adaline, que começava a se levantar, provavelmente para verificar se eu estava bem. Escorreguei para o chão, com as costas encostadas na parede. Minha cabeça doía. Adaline se agachou na minha frente e colocou a mão no meu ombro.

— Acho bom você ter uma ótima justificativa para isso — falei em tom de ameaça.

— E eu tenho — disse, determinada. Ela olhou no fundo dos meus olhos. A escuridão do quarto a fazia parecer mais imponente. Em contrapartida, eu imaginava que a mesma escuridão fazia parecer que eu estava prestes a rasgar minha pele e libertar o monstro que crescia dentro de min. A voz dela se tornou mais cautelosa: — Você... Você deve saber que eu tive uma briga com a mamãe recentemente, não sabe?

Meus olhos se arregalaram apenas para se encherem de lágrimas. Recolhi minhas pernas para o meu tronco e as abracei. Puxei a barra do vestido preto e liso para baixo na tentativa de me ocupar com algo. Meus lábios estavam ficando trêmulos, e eu não sabia se tinha força o suficiente para dizer o que eu estava pensando.

— Você forjou sua morte — minha voz saía fraca, a poucos instantes de morrer; eu teria que dizer rápido o que estava pensando — apenas para fazer a mamãe se arrepender? E você ignorou totalmente o que aconteceria com ela, com o reino e, principalmente, comigo depois disso? — Uma lágrima escapou dos meus olhos. Em nenhum momento, ela parara para pensar sobre como isso me afetava. Ela comprometera todo o resto da minha vida por uma infantilidade. — Você tem noção do que você fez? E você reconhece que isso é irreparável? — Eu falava depressa; queria acabar logo com aquilo. — Ada — e a minha voz finalmente tremulou, cumprindo sua ameaça do último minuto —, você estragou tudo.

Ela me olhou com piedade, e talvez com um pouco de culpa. Ela recolheu sua mão e se sentou sobre seus calcanhares.

— Eu acho compreensível que você pense que isso foi egoísmo meu, mas eu juro que teve uma motivação nobre — justificou-se.

Ergui as sobrancelhas, esperando por sua explicação.

— Eu estava estudando sobre os direitos mais voltados para a parte social, sabe? — Ela mudou a posição do corpo, colocando as pernas à sua frente e fazendo a sola dos seus pés (ou, no caso, dos seus sapatos) se encostarem. — E eu percebi que é tudo muito irregular. As pessoas socialmente desfavorecidas não têm tanto amparo do Estado quanto deveriam. E eu disse isso para a mamãe.

— E...?

Ela deu um suspiro longo.

— Ela disse que não podia fazer nada.

— Então — comecei —, você se revoltou e fingiu se matar. — A raiva começava a se tornar incômoda de verdade, de tão persistente. — Era mesmo necessário?

— Emma — ela voltou a colocar a mão no meu ombro, uma técnica fácil para chamar atenção —, ela vai se sentir culpada e vai interpretar minha reclamação como meu último desejo. — Os olhos dela brilhavam com a autoconfiança. — Aposto que quando toda essa polêmica da princesa suicida passar, ela vai pensar nisso e vai dar um jeito de...

— Você só se esqueceu de que a mamãe não se deixa levar por motivações sentimentais. Ela é uma rainha, precisa ser resistente.

Ela revirou os olhos e abriu um sorrisinho.

— E você se esqueceu de que é a filha dela que ela vai considerar. A favorita, aliás — emendou com falsa presunção.

Consegui soltar uma risadinha.

— O esboço da favorita, você quis dizer.

Isso até que fazia sentido. A única diferença entre Adaline e mim era que ela era mais descolorida: tinha cabelos loiro-platinados e olhos azul-escuros, enquanto eu tinha cabelos castanho-escuros e olhos verde-claros. Mas os traços eram iguais, o porte físico era o mesmo e até as vozes eram parecidas.

Ela riu.

— Vai ficar tudo bem, ok? Não tem por que se preocupar.

Desanimei novamente e ajeitei a postura, voltando a erguer meu tronco.

— Vai ficar tudo bem para você. Eu ainda vou ter que perder minha vida em uma faculdade de direito e, futuramente, perder os cabelos com o estresse de administrar o país.

— E você queria que só eu passasse por isso? — ironizou.

— Você foi preparada para isso durante a sua vida toda! — Eu voltei a gesticular em excesso. — Você tinha uma ideia de como tudo isso seria. Eu só fui jogada nisso.

Ela fechou a cara; não parecia zangada comigo, parecia se frustrar consigo mesma.

— É só uma questão de tempo até resolvermos isso. Confia em mim, não conta pra ninguém e eu dou uma passada aqui de vez em quando pra debatermos esses assuntos.

Deixei-me suavizar. Eu não acreditava que fosse tão simples, mas preferia a ilusão de que isso era um pequeno obstáculo à facada da realidade que era minha vida dali para frente.

— Falando nisso, como você fez para entrar aqui?

Ela abriu um sorriso de cumplicidade – cumplicidade essa que ela tinha apenas consigo mesma.

— Eu morei aqui por vinte anos. Conheço tudo, inclusive as passagens secretas. Porque, você sabe, todo castelo precisa de uma saída de emergência disfarçada para o caso de acontecer um ataque terrorista, por exemplo. — Uma das coisas que eu mais gostava em Adaline era que ela sempre optava por interpretar as coisas como se elas coubessem facilmente em situações absurdas ou improváveis. Talvez fosse meio ridículo para os outros, mas eu achava divertido. — Enquanto você dedicou sua infância a estudar música e poesia ambranda, eu fiz meus pés tocarem cada centímetro do chão desse lugar. Não há nada que eu não conheça.

— Certo — sorri —, mas e os guardas? Como você fez para não ser vista? Quer dizer, eu suponho que eles não fiquem perto das passagens secretas, só que eles devem ter uma vista dos arredores do castelo.

— Qualquer coisa tem um calcanhar de Aquiles — explicou —, e isso inclui o palácio.

Assenti. Não esperava que ela me revelasse mais do que isso. Talvez algum dia eu descobrisse por mim mesma, visto que aquele lugar estava destinado a ser meu, infelizmente.

— E você passou pelos corredores até seu quarto sem ninguém ver você?

— Pelo amor de Deus, Emmeline! — Ela arregalou os olhos e fez u movimento brusco com os braços, mostrando sua indignação com as coisas aparentemente absurdas que eu dizia. — Usar os corredores? — Ela riu pelo nariz. — Aí que eu morreria mesmo!

Franzi o cenho.

— Então... como...?

— Um dia você vai entender — disse suavemente com um sorriso.

Adaline se levantou.

— Pode me ajudar a encontrar minha pulseira agora?

Levantei-me também, sem vontade.

— Eu não consigo acreditar que, se não fosse pela droga da sua pulseira, você me deixaria perder a vida com um reinado que me seguiria até a minha morte.

Ela abriu um sorriso irônico.

— Não é perpétuo. Você tem a opção de passá-lo para seus filhos quando eles completam trinta anos. Por isso a vovó não governa mais, mesmo tendo o título de rainha.

Eu nunca tinha parado para pensar no porquê de a minha mãe ser a rainha se a mãe dela ainda estava viva, porém eu não me importava com as leis de regência da Ambrândia.

Ela me cutucou.

— Não fica aí parada. Temos que encontrar logo a minha pulseira, não quero passar muito tempo aqui. Podem me encontrar.

Pensei em responder “e eu não quero ser rainha, mas as coisas aparentemente não vão acontecer como eu quero”. Contudo, percebi que era infantil e inútil. Eu já estava me afundando nas obrigações que eu ainda nem tinha, e reclamar delas seria não mudaria nada. Eu tinha que dar um jeito de reverter todos os problemas que Adaline estava causando, mas sabia que tinha que manipulá-la para isso; ela não faria de bom grado.

Acendemos a luz para procurar a pulseira (depois de eu insistir muito que ninguém perceberia a luz do quarto dela acesa). Encontramo-la cerca de meia hora depois, caída atrás de uma estante; Adaline provavelmente a jogou por lá, com sua eterna preguiça de guardar suas coisas adequadamente — o que eu não podia condenar, pois fazia o mesmo. Ela a limpou na barra do vestido e colocou em seu pulso.

— Por que você queria tanto essa pulseira?

Ela abriu um sorriso carinhoso. Olhou para a joia em seu pulso e depois olhou para mim.

— Você se lembra do que aconteceu quando o papai me deu essa pulseira? — perguntou.

Eu balancei a cabeça em negação.

— Naquela época você estava começando a ganhar consciência de como funcionavam os aniversários, e você ficou chateada por não ter nenhum presente para me dar.

— Ah — segurei o riso. Aquela era a história do dia que eu roubei a pulseira do quarto dela para dar de presente a ela novamente. Na minha mente de seis anos de idade, ela não perceberia que o presente que ela recebera antes tinha desaparecido e que eu estava dando um igual. Ela, ao abrir o meu embrulho malfeito, começou a perguntar se eu pegara aquilo em seu quarto, e eu, defensivamente, menti, dizendo que não. Até que depois de muitas perguntas, eu confessei meu crime e ela começou a rir. No dia, eu me sentira constrangida, porém agora aquela era uma das minhas histórias de infância favoritas.

— Duas das pessoas que eu mais amo nesse mundo me deram essa pulseira. — Sua voz tinha um quê de nostalgia. Ela girava o objeto em seu braço, apreciando-o. — Eu não podia abandoná-lo. Só que eu não consegui me lembrar de pegá-lo no calor do momento em que eu tomei a minha decisão de desaparecer. — Ela voltou a olhar para mim. — Eu preciso dele.

Sorri com ela. Passamos um instante em silêncio no clima fraternal, apenas observando uma à outra.

Subitamente, meus pensamentos fizeram toda a leveza do momento se desmanchar. Infelizmente, meu senso de certo e errado se sobrepunha aos momentos alegres da minha vida.

— Ada — falei lentamente —, me dê um motivo para eu não delatar você.

Ela jogou o peso do corpo sobre a perna direita, desconfortável.

— Estava esperando que você não me perguntasse isso. — Ela abraçou o próprio corpo e desviou o olhar. — Mas já que perguntou, pense no efeito disso a longo prazo. Vai acontecer uma coisa ótima para o país e...

— Você só tinha que esperar dez anos para se tornar rainha — interrompi, cruzando os braços.

— Algumas coisas não podem esperar — defendeu-se ela.

Eu tinha tanta coisa para dizer, mas tudo estava preso na minha garganta. Eram tantas broncas, tantas críticas, tantos berros que eu nunca poderia tirar daquele nó caótico que era minha argumentação naquele momento. Escolhi afrouxar o nó, tirando dele apenas uma frase:

— Se der errado e ela não quiser isso, você vai ter que esperar treze anos até o meu mandato para as coisas mudarem um pouco. Você acha que vale a pena?

Dessa vez, ela pareceu mais segura do que nunca.

— Eu preciso arriscar.

Não me lembrava de ouvi-la pronunciar essa frase antes. Todavia, parecia muito familiar. Esse era o conceito Adaline, subentendido por todos que a conheciam, que desta vez ela escancarava.

Relutei em aceitar. Na infância, eu era muito ingênua e frequentemente fazia coisas erradas por receber maus incentivos. No começo da adolescência, permaneci sendo altamente manipulável, e agora eu estava tentando filtrar mais minhas influências. Não queria voltar a ter a sensação de me deixar levar para o caminho errado, e eu sabia que Adaline não era uma pessoa-modelo que merecia ser seguida e obedecida; eu tinha que analisar bem tudo o que estava em jogo.

Ela permaneceu silenciosa. Eu finalmente dei minha resposta, no tom formal de altivez:

— Está bem. Eu me tornarei rainha. E, antes disso, farei tudo o que estiver ao meu alcance para fazer a mamãe se sentir culpada e fazer o que você quer. Darei o melhor de mim para encobrir o fato de você ainda estar viva. Mas eu não posso fazer isso sozinha.

Seu rosto mudou para a expressão determinada de quando ela negociava algo.

— O que você quer?

— Não é o que eu quero — respondi, descruzando os braços. — É o que eu preciso. Hoje é terça-feira. Toda terça, às sete da noite, você terá de passar aqui para debatermos a continuidade do plano.

— Ok — concordou, segura de si.

— Espero que você não esteja morando longe daqui, porque eu exigirei pontualidade para manter o acordo. — Eu tinha o hábito de fazer ameaças desnecessárias e, por vezes, infantis, para dar a sensação de estar falando sério.

— Relaxa. — Ela sorriu. — Talvez algum dia eu te leve lá. É só você sair dessa paranoia. Confrontar as regras às vezes não faz mal.

Suspirei. Não sabia se era pela insegurança ou pelo esgotamento.

— Pode ir agora.

Ela abriu bem os braços e me deu um abraço forte.

— Vou sentir saudades.

— Aposto que você não pensaria assim se eu não tivesse aparecido aqui no quarto — censurei, subitamente ressentida.

Ela me soltou e me encarou.

— Eu peguei a pulseira justamente para isso — lembrou-me. — Além disso, vocês são a família real, eu teria notícias de vocês o tempo todo. Mesmo que nós nunca mais fôssemos ter contato, não haveria motivo para eu me preocupar demais.

Abri a boca para responder, mas ela me cortou:

— E antes que você venha reclamar que eu ia deixar você governar sem nenhum amparo, era minha única escolha. Ou talvez eu desse um jeito de te mostrar futuramente que eu estava viva e dar um jeito de fazer você manter isso em segredo. Eu ainda não tinha decidido.

Apesar da indignação e do rancor pré-formado, meu coração se aqueceu.

— Você é louca.

— Eu sou tudo o que você queria ser — defendeu-se, brincando.

Abraçamo-nos mais uma vez. Fazia tão pouco tempo que eu não a via, mas me parecia uma eternidade. Guardei meus sentimentos negativos naquele momento, deixando apenas o carinho na superfície. Era um bom momento.

Afastamo-nos. Fui para a porta de entrada e ela foi para a sacada. Ao que tudo indicava, ela tinha escalado do pátio para seu quarto. Não importava, não naquele momento.

Ela se sentou no parapeito da balaustrada, de costas para seu quarto. Virou a cabeça para mim e disse:

— Vai dar tudo certo.

E então se jogou.

Observei por alguns instantes o vazio que ela tinha deixado. Quando decidi voltar a me mover, andei até o baú, peguei Capinzinho e me retirei do quarto. Ele seria meu lembrete para voltar ao quarto de Adaline dali a uma semana.

Notas finais
Todo elogio e crítica construtiva são válidos.
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.