Para Além da Beleza
23 Epílogo
Notas iniciais
Os dedos finos passeavam pelo lado de rosto cicatrizado e desciam pelo pescoço, como um hábito comum e matinal, gostava de apreciar as imperfeições eternas só para ter a certeza de que as amaria para sempre. Mas o que era o sempre? Para Darcelle a definição mais correta era o tempo o qual passávamos junto das pessoas que nos querem bem, podia ser um dia, dez anos, cem. O sempre era a lembrança de um certo acontecimento eternizado nas nossas memórias.
— Queres ser minha mulher? — Os olhos azuis se abriram, revelando que o dono deles não estava a dormir, sentindo cada toque delicado nas marcas das quais não sentiria mais vergonha.
— Eu pensei que já era — respondeu como sempre num tom divertido, ignorando o cabelo emaranhado e bagunçado e ainda mais a sua aparência desleixada ao acordar. Dividir um relacionamento tinha dessas partes, não se importar com aquela cueca velha ou com uns pés feios, se conheciam de todas as formas e se amavam assim.
— Não pela conservatória — justificou mesmo sem precisar, ainda assim sentia a necessidade de expressar aquelas palavras em voz alta.
— Quanto tempo me poderás dar? — Perguntou num ronronado a imitar um gato, e não deixou de imitar o sorriso formado nos lábios masculinos.
— A faculdade de gastronomia? — retorquiu emburrado, e os olhos se estreitaram mas sem esconder a admiração pela persistência de Darci querer se formar e conseguir seu próprio valor antes de se tornar uma Beauchamp. — Parece muito tempo.
— Diz o homem que já noivou mais vezes que a idade permite! — Repetiu uma das respostas que Christian muito usava para provocar Damien, no entanto vindo da boca dela arrancou uma gargalhada divertida e meio ensonada do seu homem.
— É justo — concordou a engolir em seco, e levantou uma mão para acariciar o rosto simples e ao seu ver o mais bonito da face da terra. — Acho que aguento quatro anos.
— Namorar é bom, já diz a minha mãe. — Decidida como nunca, mesmo a contra gosto, de momento parecia o certo a fazer. — Quero poder usar o meu anel de diamantes por muito tempo.
A mão esquerda revelava um anel de ouro branco com uma pedra cintilante e valiosa. O pedido fora feito na instância turística onde tinham passado as férias, debaixo das águas cristalinas e entre os corais. O anel se escapara das mãos de Damien, e tiveram que nadar fundo para o encontrar. Parecia ter mais valor assim.
Agora de volta à mansão, os dois tentavam se adaptar numa nova vida conjunta, aprendiam a dividir espaço e a respeitar os momentos sociais de cada um. Não era difícil, mas de vez em quando surgiam algumas brigas banais. Amabel Johnson garantira que seria sempre assim, e que o segredo de uma relação duradoura seria sempre a paciência e o respeito.
— Vou preparar qualquer coisa para comermos — decidiu ao descer da cama e um bocejo escapou de seus lábios carnudos. Domingo era sempre o dia em que passavam mais tempo na cama sem pressa de encontrar o mundo lá fora.
— Pelo menos o teu patrão me salvou de comer apenas biscoitos! — Ele provocou, a voz rouca ainda exibia os resquícios da ressaca causada pela noite anterior. Tinham saído para se divertir, e voltado para casa pela madrugada.
Johnson tirou a língua de fora em resposta, vestindo o robe e deixou o quarto sorridente. Percorreu as escadas sentindo o silêncio do lugar enorme, se perguntando como é que Beauchamp tinha vivido isolado naquele lugar.
Abriu a porta da cozinha e um barulho chamou a sua atenção! Giovana deixara cair um vaso pelo susto, e as mãos apressadas correram para arranjar os cabelos e a blusa. Por sua vez, Étienne parecia envergonhado o suficiente, mas a mancha do batom em seus lábios, levou Darci a se perguntar quem mais usaria o cosmético aquela hora da manhã. Olhou para os dois visivelmente embaraçados.
— Darcelle! — A sogra tentou sorrir, e deu costas para apanhar o que restava do vaso partido. — Não pensei vê-la acordada tão cedo dada a hora a qual chegaram.
A voz tremia como nunca, e Étienne se pudesse cavaria um buraco para se meter dentro.
— Não é nada do que a senhorita pensa — adiantou o motorista, recebendo em troca um olhar fulminante da amante.
— Desculpem! — A jovem quis rir da situação, mas se sentia verdadeiramente mal por tê-los descoberto de tal forma, que correu a fechar a porta e subir às escadas a correr de volta ao quarto. O coração pulava dentro do peito, junto a ansiedade de relatar o ocorrido ao namorado. — Damien, você não vai...
— Shhh.
Com um ar fantasmagórico segurava o controlo remoto e apontava para a televisão. De início foi difícil perceber as imagens que corriam na tela, mas não demorou a sentir todo um tremor lhe passar pelo peito, ao ver as imagens chocantes de um carro a ser resgatado das águas. Se já era pequeno por ser de dois lugares, a imagem do mesmo amassado pelo choque contra a ponte de cimento, o tornava ainda mais assustador.
Uma repórter falava em direção à câmara enquanto por trás mostravam os resultados do acidente:
"As notícias são revoltantes: O carro de Christian Dash, de trinta e um anos acaba de ser retirado das águas, ainda sem nenhuma informação do corpo. As testemunhas oculares afirmam que o veículo terá perdido a direção, embatido contra o muro e caído nas águas. Até este momento se desconhecem o que terá causado tal acontecimento fatídico, mas ouviremos então o relato de um condutor que seguia atrás..."
— Oh não! — Darcelle não quis acreditar.
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